quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Play-Beckett: enquanto espero, jogo


Em que o começo está no fim e o fim está no começo

Play-Beckett tem como fio condutor Esperando Godot e os poemas Cascando, Que palavra será. O Calmante, que faria? e Sobressaltos, em que os clochards X e Y, como variáveis expressões matemáticas inacabadas, personagens patéticas e oníricas estão aí, como a representação do homem eternamente à espera de algo ou de alguém que satisfaça às suas aspirações, em meio ao absurdo da existência. Vagabundos inseridos no universo beckettiano, no reinado da espera manca, a degradação física, a falta de sentido lógico nas sucessões banais, a imprecisão histórica e espacial submetidos a crises paralelas do corpo e da máquina pensante, andarilhos forçados tropeçando nos percalços da existência, incapazes de comunicar-se como o restante da humanidade.

Play-Beckett parte da interação entre as duas formas de manifestação das artes cênicas – a dança e o teatro – compreendendo-as como formas de criação e produção artística inseparáveis, visto que no seu surgimento eram estudadas e encenadas de forma a se complementarem.Esta interação privilegia as características em comum da dança e do teatro, através do estudo de diferentes técnicas corporais, que não fazem uma separação dentro das artes performáticas, como os trabalhos propostos por Rudolf Von Laban e Vsevolod Meyerhold. As técnicas de preparação corporal de Laban, em que o corpo e suas especificidades, são os elementos fundamentais na exploração expressiva do artista cênico, e de Meyerhold, em que transforma-se o corpo deste intérprete em uma ferramenta a serviço da mente, são inseridas no universo de Samuel Beckett, aplicando os estudos corporais, dentro de uma linguagem ‘absurda’. A figura do homem é colocada frente a situações desconexas, em que o começo está no fim e o fim está no começo.

Esse espetáculo, produzido pelo Grupo Jogo, estará se apresentando no 17º Porto Alegre em Cena no Teatro do Sesc, às 20h do dia 17 de setembro.

*

Direção, Concepção e Roteiro: ALEXANDRE DILL E IGOR PRETTO Textos: SAMUEL BECKETT Coreografia: IGOR PRETTO Intérpretes: ALEXANDRE DILL E GUSTAVO SUSIN Trilha Sonora Pesquisada: IGOR PRETTO Cenário: BRUNO SALVATERRA Figurino: ALEXANDRE DILL Iluminação: IGOR PRETTO Maquiagem: ALEXANDRE DILL Operação de Luz: IGOR PRETTO Operação de Som: VICENTE VARGAS Criação Visual: ALEXANDRE DILL, BRUNO SALVATERRA E GUSTAVO SUSIN Apoio Técnico: CAROLINE LAZZAROTTO, THAINÀ GALLO E VALQUÌRIA CARDOSO Produção Executiva: GUSTAVO SUSIN E KARINE LEMOS Produção Geral: GRUPOJOGO de ExperimentAção Cênica

Bob Bahlis #1: Abertura


 Prólogo: O vulcão


 Este post é minha estreia no Blog do Porto Alegre em Cena, que está recheado de boas opções na programação. Minha ideia é circular pelos teatros, registrando momentos e impressões gerais. Quero ver muitos espetáculos. Escrever sobre alguns. Saberemos juntos se conseguirei.

Nesta semana, passei lá no Casarão da Travessa Paraíso, o QG da organização do festival, para conversar com algumas pessoas que fazem acontecer o "Em cena" . Na segunda-feira, dia 06 de setembro, o antigo e belo sobrado parecia um vulcão. O deus do fogo, Vulcano, com certeza, estava lá. Um vulcão que entrará em erupção com pura lava cultural. Porto Alegre ficará submersa por uma intensa chuva de peças teatrais.

Voltei à Travessa Paraíso na tarde do dia 07 de setembro e as coisas estavam mais tranquilas. Encontrei queridos amigos. Alguns antigos, outros novos.

Oficialmente, o Porto Alegre em Cena começa para o público com o espetáculo musical "ALKOHOL", da Sérvia, nesta quarta-feira, no Bourbon Country, às 21h.

Socorro! Onde fica mesmo a Sérvia?

A Sérvia situa-se nos Bálcãs (uma região histórica e geograficamente distinta do sudeste da Europa ) e na Panónia (uma região da Europa Central). Faz fronteira com a Albânia, com o Montenegro, com a Bósnia e Herzegovina, a Bulgária, a Croácia, a Hungria, a República da Macedónia e com a Roménia. A Sérvia não tem saída ao mar, se bem que o Rio Danúbio proporcione o acesso de barco até à Europa central e ao Mar Negro. Viva o Google!

Até o próximo post, Bob Bahlis.






*Bob Balis (40 anos) é diretor de teatro e dramaturgo. Dirigiu os espetáculos "Stand Up Drama", "Dez(quase)Amores" , "Filhote de cruz credo", "Tem Quintana na Casa", "Homens", entre outros. Em novembro, estreia a comédia adulta Morgue (texto e direção). Em 2011, pretende montar a peça "O dia mais quente do ano" (texto e direção). É professor de teatro da escola Cômica Cultural.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Beth Néspoli #4: Rubros, In on it, Por tu padre e A inquietude



Beth Néspoli: um festival para muitos espetáculos

Alguns dos espetáculos desta 17ª edição do Porto Alegre em Cena eu já vi, mas gostaria de rever. A montagem mineira Rubros: vestido-bandeira-batom é uma delas. Vi há muito tempo e guardo apenas algumas imagens na memória. Lembro que gostei muito, escrevi sobre ela no jornal elogiando autora, cujo nome, Adélia Nicolete, na época não me dizia nada em especial, eu não tinha a menor ideia de quem ela era. Mais tarde a conheci, só então me dei conta de que ela é mulher do Luiz Alberto de Abreu, mas alguém com brilho próprio, muita sensibilidade, um grande ser humano. A peça tem como mote a relação entre duas amigas e aborda aquilo que se costuma rotular questões femininas – separação, filhos, envelhecimento. Adélia mostra não ter medo desse território “clichê”, porque sabe atravessá-lo para buscar além dele os fios que ligam essas duas mulheres ao seu tempo histórico. Assim, costura sua trama, no emaranhado entre bandeiras (de lutas políticas) e batom, emaranhado mesmo, pois a peça nada tem do tom doutrinador de quem aponta um caminho reto e seguro. Por meio de uma conversa aparentemente cotidiana – que provoca identificação imediata, risos e lágrimas – traça um retrato tragicômico de uma geração de mulheres que vivenciou profundas transformações comportamentais e ainda está aí, nos dias de hoje, maduras, tão cheias de dúvidas quanto de desejo de seguir em frente. Eu vi, num outro festival, essa montagem dirigida pela mineira Rita Clemente, cujo trabalho eu já conhecia e foi o que me atraiu ao teatro. E sua direção realmente contribui para ampliar as qualidades dessa dramaturgia, assim como as interpretações.

Sobre In on it, muito já foi dito. O espetáculo já tem longa estrada, sempre com recepção entusiasmada e é daquelas que conseguem agradar a diversos públicos teatrais – sim, também há espetáculos assim. Vale ser visto por muitos aspectos, da direção passando pelo texto ao jogo da dupla de atores, Emilio de Mello e Fernando Eiras.

Por tu padre, a montagem argentina do texto de Dib Carneiro Neto, atual editor do Caderno 2, que, no Brasil, foi encenado com o título Adivinhe Quem Vem para Rezar e tinha Paulo Autran como protagonista. Trata-se de um drama que enfoca relação pai e filho e tudo se passa numa Igreja, na missa de sétimo dia da morte do pai. É uma peça de quatro personagens para dois atores e Autran fazia três desses personagens com transformações externas mínimas. Trocava uma bengala por um lenço. Era uma atuação minimalista, interiorizada, inesquecível. A montagem argentina promete trazer como protagonista um ator dessa mesma linha realista de interpretação, Federico Luppi, acostumado às nuances expressivas da arte cinematográfica, igualmente talentoso e experiente, e estou bem curiosa de ver como ele expressará esse drama, que tem seus momentos de humor, bom que se diga. Apreciar a arte desses grandes atores de outra geração e seu talento para “dar vida” a palavras em cena é um dos prazeres que o teatro pode nos dar.

Também vou aproveitar para ver A inquietude, solo Ana Kfouri, de autoria do francês Valère Novarina, um dos que sinto ter perdido na temporada. É um desses textos contemporâneos, em que não se conta uma história, porém as palavras se encadeiam num jogo ou até num choque de sentidos e sonoridades de forma a deixar ao espectador possibilidades abertas de construção de sentido. Até onde sei, o autor aborda a própria linguagem como se examinasse essa ferramenta em sua potência e sua fragilidade. Se a proposta tem certamente a sua dificuldade (o que não é demérito), o interesse pode se ampliar pela presença da Ana Kfouri, uma atriz que conhece a fundo a dramaturgia desse autor e sabe o que quer ao trazê-la para a cena brasileira. Pelo menos, essa é minha expectativa.

Fica agora a expectativa de que comece o Festival. Os próximos posts já serão sobre os espetáculos a que assistirei. Ingresso na mão, Word aberto. O 17º já começou!

*Beth Néspoli é jornalista e crítica teatral. Atuou durante 15 anos, entre 1995 e 2010, como repórter especializada em teatro e crítica no Caderno 2, o suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo. Desligou-se da imprensa diária no início do ano para uma temporada de estudos. Atualmente é mestranda no curso de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Beth Néspoli #3: O grande inquisidor

Beth Néspoli: um festival para Dostoievski


Outro espetáculo que, em minha opinião, vale ser visto na mostra é O grande inquisidor, outro texto de Dostoievski. Eu já vi três encenações desse mesmo texto, duas delas no Festival de Porto Alegre, uma dirigida pelo Peter Brook, outra dirigida e interpretada por Patrice Chéreau e vi uma no Rio, interpretada por Domingos de Oliveira. Gostei muito da do Chéreau e, pode ser uma heresia o que vou escrever agora, mas gosto muito, muito mais dessa do Frateschi dirigida por Rubens Rusche do que da montagem do Peter Brook. E tenho um motivo para isso: eu consegui ver claramente uma abordagem, um ângulo, uma “leitura” do texto. Pelo mesmo motivo gostei da abordagem do Chéreau. Nesse caso, ele não “assumia” inteiramente o personagem, daí chamar de leitura, tinha o texto na mão, mas claramente o sabia de cor, estabelecia uma espécie de diálogo entre o artista dos dias de hoje e aquele capítulo do romance Os irmãos Karamazov que fala dos homens e sua fragilidade, tanto para se submeter ao poder e ao autoritarismo, quando para dele usufruir. Chéreau, com seu distanciamento na medida certa, exprimia a um só tempo a compreensão e a compaixão pelo ser humano que somos todos nós, e também o horror pelo que somos capazes.

É bem diferente essa montagem do Frateschi. Como se sabe, nesse capítulo do livro, um personagem conta uma história “fictícia” que teria se passado na Espanha do Século 16, no auge da Inquisição. Jesus teria voltado à Terra, feito alguns milagres, teria sido reconhecido e seguido pelo povo e novamente preso pela Inquisição. Fora torturado, mas nada dissera. Na cela, recebe a visita da autoridade maior da Inquisição. Esse homem de 90 anos se depara, então, com Jesus e com ele tem uma conversa, “explica” os rumos tomados pela Igreja, que ele próprio reconhece serem totalmente opostos aos pregados por Jesus, e justifica tal opção pela fraqueza dos homens que “desejam” se submeter ao poder, que não suportam o livre arbítrio. E condena Jesus por ter primeiro criado homens fracos e depois ter lhes dado uma liberdade que eles não conseguem suportar. Como (bem) disse Rubens Rusche para mim em entrevista ao jornal Estado (eu ainda estava lá quando a peça estreou) esse é o discurso fascista por excelência, o discurso de todas as ditaduras, os homens não sabem decidir por eles mesmos, são crianças que tem de ser guiadas, obviamente por quem faz tal discurso. E, como acontece na Inquisição, aqueles que por acaso são fortes e se rebelam, lutam pela liberdade, a Inquisição, joga na fogueira. Esse “entendimento” do diretor funda sua encenação. E o fato desse Inquisidor, aos 90 anos, portanto perto da morte, se ver diante de Jesus e ter de dar conta de suas atitudes funda, por sua vez, a interpretação de Frateschi.

Diferentemente da opção do Chéreau, Frateschi assume inteiramente a personagem, há uma quarta parede separando o público do palco, é como se ele estivesse realmente na cela diante de Jesus, que também está presente, não é uma cadeira como no caso do Chéreau, mas um ator, Mauro Schames, que embora silencioso, tem participação fundamental, está intenso e atuante com seu olhar. Gosto muito de ambas as opções, do Chéreau e do Frateschi, para mim uma prova de que não há fórmulas em teatro. O texto original de Dostoievski é exatamente o mesmo, mas o espectador sai com compreensões diferentes de cada um dos espetáculos. Eu, pelo menos, saí.

Com alguns gestos de grande força simbólica (que não vou contar para não tirar o prazer do espectador), Frateschi deixa clara a contradição entre o que o Inquisidor diz e o que faz. Faz ver que esse homem fez uma opção, ele também jejuou no deserto um dia, também acreditou nos ideais cristãos de igualdade, mas foi “fraco” e cedeu ao apelo do poder. A contradição de seu discurso vem à tona. É maravilhoso ver “como” isso acontece, como Rusche e Frateschi conseguem “passar” essa leitura nesse trabalho. Eu, que já lera e ouvira várias vezes esse texto, saí do teatro pensando nele de uma forma renovada para mim.

Quatro outros espetáculos serão tratados no próximo post. Até lá!

*Beth Néspoli é jornalista e crítica teatral. Atuou durante 15 anos, entre 1995 e 2010, como repórter especializada em teatro e crítica no Caderno 2, o suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo. Desligou-se da imprensa diária no início do ano para uma temporada de estudos. Atualmente é mestranda no curso de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Beth Néspoli #2: Eimuntas Nekrosius

Beth Néspoli: um festival para Eimuntas Nekrosius

Escolher, eis aí sempre um (bom) problema diante da vasta programação do 17º Porto Alegre em Cena. Raros acompanham a programação na íntegra. Em se tratando de artes cênicas, ou de qualquer outra arte, há públicos (com s, no plural). Parece óbvio, mas nem sempre se leva em conta, que um espetáculo absolutamente mobilizador para uns pode deixar outros indiferentes. E isso não necessariamente está ligado ao que se pode chamar de “qualidade” da produção ou ao “conhecimento teatral” (ou falta dele, acusação comum) do espectador. A experiência de vida, o ambiente cultural (Cultura aqui entendida no sentido mais amplo), o modo de viver, as referências acumuladas ao longo da vida, tudo isso amalgamado contribui para o espectador estabelecer uma relação x ou y com determinado espetáculo. São diferentes os parâmetros que movem as escolhas e que provocam sentimentos, terminada a peça, como satisfação, surpresa, decepção, frustração. Sem contar, às vezes, que a gente sai do teatro intrigado, sem saber direito que relação foi essa, precisando pensar melhor. Eu pessoalmente até gosto quando isso acontece. Mas também adoro quando saio com a plena certeza de ter vivido alguns momentos de puro prazer, seja por uma imagem tocante, seja por uma reflexão interessante, que ainda não tinha me passado pela cabeça, seja por ter rido ou me comovido.

Saí assim, fascinada, por exemplo, da montagem de Otelo que vi no Theatro São Pedro dirigida por esse lituano, o Nekrosius. Confesso que pela primeira vez entendi porque esse texto do Shakespeare se intitula Otelo e não Iago, sempre considerado o grande personagem. Nessa encenação, o general mouro ganhou dimensão de homem público e sua dor não se limitava ao campo pessoal, ainda que também viesse do sentimento de traição estritamente amorosa. Pesava sobre ele a responsabilidade para com os homens que comandava, sua grandeza estava no vínculo com seu mundo e seu tempo. Em contraponto, Iago não era o ardiloso seguro de si, mas um covarde desses que costuram uma intriguinha individualista, ora avançando, ora recuando de medo, buscando brechas para sua vingança e seu ressentimento (pessoal e privado) por não ter ganho uma posição de poder. Além de um sentido muito claro (uma das leituras possíveis, evidentemente, mas muito bem traduzida cenicamente), a montagem tinha imagens inesquecíveis, tudo se passava na beira do cais e a gente quase podia ver o mar revolto batendo no palco do Theatro São Pedro. E havia tal qualidade de interpretação, de presença viva dos atores que eu, num determinado momento, cheguei a duvidar de Otelo conseguiria matar Desdêmona, porque estava claramente tomado por sentimentos contraditórios diante daquela mulher adormecida, diante daquele ato que estava decidido a cometer e contradizia toda a sua “dignidade e virilidade”, seu papel de general a um só tempo guerreiro e guardião.

Bem, depois de tal experiência, a minha primeira com um espetáculo do Nekrosius (antes o festival já trouxera uma montagem de Hamlet dele que eu não vira) passei a escolher os dias de minha estada no festival – uma vez que não posso acompanhá-lo na íntegra – de modo a não perder a montagem lituana.

Vi o Fausto do Nekrosius no ano seguinte e estarei na plateia de O idiota. Curiosamente, acaba de cumprir temporada aqui em São Paulo uma montagem desse mesmo romance de Dostoievski, dirigida por Cibele Forjaz, dividida em três espetáculos de cerca de três horas cada. Diante disso, as cinco horas do Nekrosius ficaram até curtas. Gosto muito da encenação paulistana. A meu ver, sua principal qualidade está em sublinhar o embate entre duas linhas de força: de um lado, temos vários personagens movidos por desejos pessoais de posse – seja de bens materiais, seja da mulher cobiçada, seja de um cargo de poder ou um lugar de prestígio. Na contramão total disso vem o protagonista, o Príncipe Míchkin, totalmente indiferente a esses valores, cuja ética se baseia em relações de afeto, respeito, solidariedade e dignidade humana. Sua simples atitude, pelo contraste, faz vir à tona múltiplas facetas das relações entre os personagens, remove o lodo, provoca transformações. Há muitos estudos sobre a polifonia de Dostoievski, certamente estou simplificando ao tratar assim esse contraponto, mas, na plateia da montagem paulistana, esse aspecto saltava aos meus olhos e eu pensava: como tudo isso tem a ver com a sociedade contemporânea! Aí estão duas éticas – dinheiro x relações fraternas – que fundam comportamentos, dois eixos éticos que parecem se chocar o tempo todo nos dias de hoje, o que nos obriga muitas vezes a fazer escolhas muito difíceis, como a do personagem Gânia, que deixa literalmente queimar uma fortuna na lareira para se sentir digno. Não o faz sem contradição, arrependimentos, mas num dado momento, nessa cena da lareira, fortíssima, ele opta pela dignidade. E Dostoiesvski claramente acredita, pelo que se vê no romance, tratar-se de uma experiência sem volta na vida de um ser humano. É grande minha expectativa sobre qual será o recorte, o ponto de vista da encenação de Nekrosius para essa obra do escritor russo.

No próximo post, o assunto será outro texto de Dostoievski: O grande inquisidor.

*Beth Néspoli é jornalista e crítica teatral. Atuou durante 15 anos, entre 1995 e 2010, como repórter especializada em teatro e crítica no Caderno 2, o suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo. Desligou-se da imprensa diária no início do ano para uma temporada de estudos. Atualmente é mestranda no curso de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Beth Néspoli #1: Corte seco e Anatomia Frozen

Beth Néspoli: um festival para muitos públicos

Mais uma vez irei ao Porto Alegre em Cena. Já acompanhei muitas edições desse festival como repórter do jornal O Estado de S. Paulo, veículo do qual me desliguei no início do ano para uma temporada de estudos. Assim, pela primeira vez, estarei na mostra movida única e exclusivamente pelo desejo de ver alguns espetáculos que despertam em mim grande interesse e expectativa, mas que de outra forma não veria, como a montagem de O Idiota, de Dostoiesvki, dirigida pelo lituano Eimuntas Nekrosius. Esse diretor já alcançou renome mundial, suas encenações são citadas em textos de diferentes teóricos da cena teatral, no entanto no Brasil, até agora, só foram vistas no festival de Porto Alegre.

Mas o que atrai na programação não se restringe a esse aspecto de exclusividade. Há espetáculos nacionais e internacionais de longa trajetória igualmente atraentes e, o mais interessante, de diferentes linguagens, basta uma batida de olhos pela grade. Eu com certeza veria de novo e com prazer a montagem mineira Rubros: vestido-bandeira-batom; O grande inquisidor, com o Celso Frateschi e In on it, montagem carioca dirigida por Enrique Diaz – só para citar quatro que gosto muito e que não poderiam ser mais diferentes umas das outras. E adoraria aproveitar a oportunidade para ver espetáculos dos quais ouvi falar muito bem, mas infelizmente perdi, como Hamelin. Hoje, vou falar sobre Corte seco e Christiane Jatahy; e Anatomia Frozen.

Corte seco, dirigido por Christiane Jatahy, tem um numeroso e ótimo elenco em cena, que pode ser visto várias vezes, uma vez que um dia jamais será igual ao outro. No palco, além dos atores, estão a diretora e toda a equipe técnica. Os atores improvisam a partir de roteiros de cenas, que têm personagens bem construídos, alguns conflitos pré-estabelecidos, mas, ainda assim, não um texto fechado. A diretora sorteia na hora, diante do público, uma cena para iniciar o espetáculo. E corta num determinado ponto, aleatório, que ela decide na noite, no momento que achar melhor. O ator tem então de interromper a cena e imediatamente assumir outro personagem, se envolver em outra cena por vezes bem diferente. Daí o título, Corte seco. É o que se pode chamar de “teatro experimental”, sem medo de rótulos, uma vez que a cada noite se “experimenta” novas possibilidades. Os atores se valem de projeção em vídeo e até uma câmera on line que propicia ao público acompanhar cenas na rua, para onde eles saem, em alguns momentos. Claro, o formato permite variações e oscilações, uma noite pode ser muito melhor do que outra, e dentro de uma mesma apresentação pode haver momentos de intensidade e também tempos mortos. Esse é o jogo. Em conversa comigo, Christiane comentou que às vezes a cena não está funcionando, mas ela prefere não cortar porque subitamente algo de bacana pode acontecer. E também ela corta às vezes no meio de uma boa cena, porque a ideia é também não cair na tentação do “bom resultado”. O jogo aberto ao acaso é o cerne dessa criação.

Anatomia Frozen, dirigido por Márcio Aurélio, tem dois talentosos e corajosos atores no elenco: Paulo Marcello e Joca Andreazza. Trata-se de uma experiência radical de des-dramatização da cena. Nada nas interpretações é carregado de “emoção” ou “intenção”. Por outro lado, a cena é plena de signos visuais que “atuam” sobre o espectador e estão em total conexão com o texto de Bryony Lavery, que é uma espécie de dissecação científica da mente de um serial killer. É um daqueles espetáculos estranhos, mas que prendem a respiração e fazem com que a gente fique ligado no palco (pelo menos comigo foi assim) o tempo todo, mesmo que a compreensão não venha de forma imediata. Mas quando ela vem... Quando a gente se dá conta do que aconteceu ali... O título tem a ver com a tese de que um determinado grau de patologia num ser humano é algo sobre a qual não se pode agir, como se a “mente doentia” estivesse congelada. Não posso e não devo antecipar o que se passa na trama. Mas é daqueles espetáculos que a gente carrega por muitas horas, dias até, pensando sobre o que experimentamos ali, sobre o que ele nos leva a pensar sobre “pré-conceitos”, Justiça com J maiúsculo e vingança, potência e fragilidade, sobre o poder do conhecimento e a força ferina de uma palavra bem colocada. Enfim, mais um dos espetáculos que fazem valer a existência de um festival, sem dúvida a única forma de propiciar a circulação de criações como esta, sem qualquer apelo comercial.

No próximo post, o assunto será Eimuntas Nekrosius. Que venha o 17º Porto Alegre em Cena!

*Beth Néspoli é jornalista e crítica teatral. Atuou durante 15 anos, entre 1995 e 2010, como repórter especializada em teatro e crítica no Caderno 2, o suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo. Desligou-se da imprensa diária no início do ano para uma temporada de estudos. Atualmente é mestranda no curso de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

17º Porto Alegre em Cena vai ao Cabaret!

O teatro e as festas 


Dizem as más e as boas línguas que o teatro nasceu num momento de festa. Uma festa em que você pode se reinventar, pode se redizer, pode dizer coisas nunca disse e fazer coisas com você mesmo que nunca fez. É quando, e lá vem Nietzsche, as cortinas da liberdade se abrem como espaço entre estruturas, onde as regras existem como ponto de partida para a sua própria quebra. Você não vai a uma festa para reproduzir, não vai a uma festa para segurar-se, não vai a uma festa para manter. A origem da festa, ou do teatro, é a brincadeira, a alegria, o intervalo que começa e termina, mas existe do tamanho que for. E existe porque é humano, é, talvez, a única parte do ser que é viva realmente e que tem a capacidade de o levar para frente. Se Apolo enrijece, Dionísio dá o material. Daí que é em Dionísio que nasce o teatro, porque a festa nunca termina, intervalo após intervalo.

O Cabaret! é, talvez, um dos poucos lugares em Porto Alegre que se pauta pela quebra. Sem um calendário em mãos, você não consegue dizer se sábado é dia de festa boa ou não. Nem mesmo é possível dizer se a festa é boa, porque o que pode ser bom para você pode não o ser para mim. Anos 90, indierock, Lady Gaga, Eletrorock e a quantidade de estilos que se abrigam é crescente. Cada dia é um dia e sempre é possível quebrar o que foi, por um momento, estabelecido. Não é um lugar de rótulos, muito menos, de convenções. E essas só são bem vindas se estiverem dispostas a morrer na pista. Talvez por isso, por esse apreço à complexidade das relações, que não desperdiça Apolo ao louvar Dionísio, é que o 17º Porto Alegre em Cena se encontra nesse espaço, bem próximo do nosso badalado Ponto de Encontro. Ou, melhor, nessas festas, em que quem tem credencial (e identidade) entra free!

SubPop - 09/09 (quinta)
“A SubPop é uma festa mensal que acontece em Porto Alegre, apostando naquilo que é comum a todos nós, e que anda tão esquecido e empoeirado: a paixão pelos HITS do bom e velho rock. Os residentes Caiaffo, Jamer e Rubim – acompanhados de convidados escolhidos ‘a dedo’ para cada edição da festa – comandam a discotecagem equilibrando boas doses de rock, indie, britpop, glam, new wave, pop e punk, pra ninguém ficar parado. A SubPop é uma festa de rock 90’s e suas vertentes, mas também abre espaço para 80’s e o rock atual, o novo e o velho, a influência e o influenciado, pra quem gosta de música boa, pra dançar e cantar na pista, como se fosse o seu quarto ou o seu banheiro, como se fosse o último dia de festa de nossas vidas.”

Nessa edição, as convidadas são a aniversariante Fê Evangelista, a Fergs, que é ex-vocalista da banda gaúcha A Red So Deep; e a Gabi, diretamente de Salvador, todas, juntos com os residentes, a oferecer um rock and roll como no berço.

VooDoo - 12/09 (domingo)
“A VooDoo é uma celebração às mais diversas manifestações da música negra, quente e safada, procurando sempre os precursores destas inúmeras revoluções: VooDoo é funk old school pelo transe na pista. Sua receita é infalível: Pouco a pouco você vai sentindo o calor dos grooves em doses crescentes de batidas fortes, baixos gordos, guitarras choronas, teclados imensos, roucas vozes e coros que chamam a cantar no que há de melhor nos lados B da música funk. Quando o suor começar a brotar, então, é hora de fazer o bicho pegar com os grandes e universais sucessos desta história absolutamente contagiante, sem parar, até atingir nada menos do que o transe total. Quem comparecer ao nosso ritual VooDoo será tomado. Quem viver, voltará!”

Nessa edição, o convidado é o Professor Mause, da Confraria do Charme, uma reunião de grandes DJs, os melhores vinileiros, resgatando suas origens, desde a soul, funk e a disco music. A promessa de setembro é derreter os toca-discos com Shalamar, Con Funk Shun, Bar Kays, Midnight Star, Lakeside e outros.

SERVIÇO:

Subpop #18:
Quando: quinta-feira – 09/09
Residentes: Rafa Rubim, Caiaffo e Jamer
Convidados: Fê Evangelista, Fergs e Gabi A.
Horário: 23h
Quanto: R$12; R$8 com nome na lista até a 1h. http://www.cabaretpoa.com.br/subpop.htm
Dose dupla de Combo e Polar até 1h.

VooDoo #07
Quando: domingo – 12/09
Residentes: Rafa Rubim, J.Oster e Dr. Caiaffo
Convidado: Dj Mause
Horário: 21h
Quanto: R$10; R$8 com nome na lista até 23h. http://www.cabaretpoa.com.br/voodoo.htm
Dose dupla de Polar até 23h.

Onde:
Cabaret! – Seu inferninho preferido.
Av. Independência, 590
Centro – Porto Alegre
www.cabaretpoa.com.br

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

PROMOÇÃO - twitter.com/festpoaemcena


Histórias da FILA DO PORTO ALEGRE EM CENA

Muita gente em Porto Alegre sabe onde passou o seu dia 11 de setembro de 2001: na fila do 8º PORTO ALEGRE EM CENA.

Se você tem histórias interessantes para contar sobre esse momento marcante nas 17 edições do Festival, escreva para gente! Email: blogemcena@gmail.com

Regras:
1 página A4 /Margem 3-3-2-2 / Fonte Times New Roman / Tamanho 12 / Espaço 1,5

Prêmio:
As duas melhores histórias garantirão dois convites para o espetáculo RUBROS: vestido-bandeira-batom para o dia 10/09.

Rubros: Vestido – Bandeira – Batom – MG
Dias 10, às 22h – Teatro de Câmara Túlio Piva

Vencedor do prêmio USIMINAS-SINPARC 2008 de melhor atriz coadjuvante e de melhor texto, o espetáculo trata de um encontro que sempre se repete entre duas amigas. Duas mulheres cheias de aparentes contradições, dois espelhos num dia como outro qualquer. Entre quatro paredes, o desvendar de uma amizade entre Helô e Tereza, iniciada nos anos 80, que atravessou as décadas. A peça aborda, num momento limite, o universo feminino de forma bem humorada e ao mesmo tempo comovente,  causando identificação imediata na platéia, sem distinção de sexo ou idade.

Texto: Adélia Nicolete / Direção: Rita Clemente / Assistente de direção: Eloysa Martins / Direção de arte: Chico Magalhães / Elenco: Ana Regis e Daniela Cabral / Figurino: Silma Dornas / Iluminação: Alexandre Galvão e Wladmir Medeiros / Trilha sonora: Barral Lima / Duração: 1h05min / Classificação: 14 anos
  

Livro: Sandra Dani - memórias de uma grande atriz

Histórias de Sandra Dani

Sou formado em Letras como professor de literatura. Sempre que alguém me fala de um livro do Saramago que não li, fico muito envergonhado. Ou então de Kafka, porque não li A metamorfose. Na literatura nacional, passei batido por Macunaíma, confesso. Que horror!... A coisa piora quando, formado também em cinema, estou numa roda em que citam algum filme do David Lynch. Tenho vontade de me esconder quando ouço: “Como assim, você não viu Veludo azul? Rasga teu diploma!” Ou então, “Você estava brincando aquela hora que confessou não ter visto Matrix, né?” A sensação de inferioridade é um pouco menor quando citam Iberê Camargo ou Portinari. Não que saiba tudo desses pintores, que conheça todos os quadros deles pelo nome e ano. Não, não! Mas é que é mais difícil encontrar alguém que entenda mais de pintura do que de literatura ou de cinema, portanto, na mesma medida, é mais fácil fugir delas. O fato é que cheguei à conclusão de que realmente não me sinto nem um pouco menor por não ter visto as peças gaúchas Boneca Teresa (1975) ou Como um sol no fundo do poço (1998). Mas já que estou me abrindo aqui nesse papo, digo, de início, que sou muito grato pela oportunidade de ter visto Heldenplatz (2005) e Medeia (2007). Meu nome é Rodrigo e tenho 30 anos. Em 1975, eu não era ainda nascido. E, em 1998, morava no interior de Gravataí e, embora fizesse teatro amador lá, havia de ter um motivo muito especial para pedir dinheiro a meus pais para viajar a Porto Alegre e assistir a teatro. Infelizmente, Como um sol no fundo do poço se foi. E, como ela, muitas outras peças. Não voltarão mais do jeito que estrearam, nunca mais ninguém as verá com o figurino original, com aquele tom de voz, o peso daqueles movimentos. Ficou apenas a lembrança de quem as fez e de quem as assistiu.

Um ser humano lembra que é ser humano quando encontra outro ser humano. Somos, afinal de contas, a parte de nós que não é o outro. Então, qual parte é “o outro”? “Conta aí que parte você tem!” Eis que Sandra Dani, a atriz de Boneca Teresa e de Medeia, conta para Helio Barcellos Jr., o terno jornalista teatral, sobre suas impressões acerca de sua primeira peça, Quem roubou meu Anabela? (1972), sobre sua infância em Osório, sua primeira graduação em Psicologia. Como o DAD, na pessoa do seu coordenador e de seus professores e alunos, invadiu um prédio a porrete a fim de garantir o espaço que até hoje tem. Como era tratar com a censura federal nos tempos da ditadura, como foi fazer mestrado em artes cênicas nos Estados Unidos. Essa é a parte dela que não é minha, nem do Helio, talvez. Mas ele, que nasceu um pouquinho antes de mim, (acho que ele tem 31 anos, não?) viu bem mais peças que eu.

Ao contar sua história, Sandra Dani, a grande atriz, e que todos conhecem pelos seus muitos Açorianos, pelos seus colecionáveis grandes momentos no teatro gaúcho, nos diz sobre como ela saía pela Cidade Baixa colando cartazes de suas peças no Teatro do Dad, hoje Sala Alziro Azevedo. Sobre como bordou o próprio figurino de sua personagem em Antígona, ou como era viajar numa kombi e se apresentar em ginásios e galpões pelos bairros afastados da cidade. É bom ouvir isso e chorar por quem termina um primeiro curso ou faz um único espetáculo e já quer ter um camarim só para si ou que nunca olha os sites das leis de incentivo, porque, afinal, é ator e não produtor. Sandra Dani dá lições, "dá nos dedos", mas não morde. Se bem que Irene Brietzke, outra grande atriz e mais ainda diretora, conta que, uma vez, Dani quase lhe rasgara o olho em cena aberta. Talvez seja bom ter cuidado!

Quem hoje vê a grande atriz nos espetáculos apolíneos de Luciano Alabarse, em que, se há três atores de um lado, certamente, haverá três do outro, ou em que, se alguém está no fundo à direita, outro alguém, sem chance de errar, estará na frente à esquerda, talvez não saiba que ela já fez trabalhos totalmente experimentais como A galinha idiota (1991) ou que estreou em Hamlet (1972) na louca montagem dirigida por aquele que viria a ser seu mestre, companheiro e marido, o Prof. Luiz Paulo Vasconcellos. E também não imagine que ela quase implora por estrelar um Beckett novamente, e logo. Alguém imagina Sandra Dani quieta em cena? Depois de ler o livro, eu acho bom não duvidar.

Sim, o livro. As conversas entre a atriz e o jornalista viraram um livro que o Luciano Alabarse e eu editamos. Meio complicado colocar a linguagem ‘batepapal’ nas estruturas da verbal, mas acho que conseguimos. Se naquela houve os cafezinhos com bolachas servidos pelo Prof. Luiz Paulo, aqui houve a minha terrível conjuntivite e a exaustão do Coordenador do Festival que torna nossa cidade a capital mundial do teatro em setembro há quase duas décadas. Valeu esse primeiro esforço, que será seguido de muitos outros livros dentro da coleção que agora estreia: Gaúchos Em Cena. Tudo isso para contar dos tempos em que nossa Grande Atriz se balançava em um ônibus Tramandaí – Porto Alegre até hoje, quando em Bodas de sangue é a Mãe (2010), sem se tornar menos inesquecível.

Tudo isso para que eu continue envergonhado por não ter lido o que está na biblioteca ou não ter assistido o que está na locadora, mas mais ainda para que não morra de vermelhidão por não ter lido esse presente que o 17º Porto Alegre em Cena dá a todos os gaúchos, aqueles do lado de lá do palco e aqueles do lado de cá.

Isso porque, desculpem, mas eu já li.

Rodrigo Monteiro

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Lançamento: 09/09 - 19h, no Foyer do Theatro São Pedro

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Pedro Abrunhosa


“Essa música é dedicada a todos os que amam, porque quem ama tem medo de perder.”


Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
 Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
 Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".
E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.
E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Pedro Abrunhosa (1960) tem voz grossa e suave e canta como se se partisse em várias partes em cada nota. Tem uma sólida carreira em Portugal, onde construiu seu sucesso com muito estudo e muito trabalho como professor e compositor, além de cantor. Suas composições foram regravadas por muitos compositores brasileiros, entre eles, Caetano Veloso e Zélia Duncan. O disco LONGE, que ele lança no 17º Porto Alegre em Cena, é seu décimo álbum. Já contando com dois Globo de Ouro, seu primeiro disco foi gravado em 1994 e atingiu a marca de 140 mil cópias vendidas.  Sobre LONGE, encontramos no site do cantor o seguinte trecho:

“Pedro Abrunhosa considera que a música não é neutra. É uma ideologia de fraternidade: não se é músico sem o sentido de pertencer a uma família e sem se estar comprometido com o mundo. Para ele, a música é uma viagem que não se faz sozinho, apesar de o ter levado aos limites da originalidade e a lugares que lhe são exclusivos. Mas, com estes princípios e com estes valores, torna-se mais fácil perceber que é um daqueles criadores para quem o “Longe” não é uma distância – é sempre uma meta, uma missão, um objetivo. Não estará só, certamente. Basta para isso que continuemos a ouvi-lo.

Quem só assiste aos vídeos no Youtube de seus shows já sente a ligação que se estabelece nas pessoas da platéia. Ao vivo, esperamos sentir o mesmo nessa edição do festival.

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Voz e Piano: Pedro Abrunhosa / Teclado: Cláudio Souto / Guitarra: Marco Nunes e Paulo Praça / Baixo: Miguel Barros / Bateria: Pedro Martins / Duração: 1h30min / Classificação: livre