sábado, 24 de setembro de 2011

Bethânia e as palavras por Vera Mello

Infinito delírio chamado desejo (de educar)*

Justo na semana em que um menino de 10 anos leva uma arma de fogo para escola e atira em sua professora e na sequência se mata com um tiro na cabeça, chega a Porto Alegre Maria Bethânia com sua linda voz e nos acalanta com uma homenagem. Lembrando aos professores de todo o planeta: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente aprende”.
Eu, de uma geração em que esta mulher era hyppie e com talento virou ídolo. Gostando ou não do estilo, letra e música, reconheço que ela passou a ser uma referência, um clássico. Numa época em que o sertanejo universitário é destaque nas paradas embora tenha ouvido alguém lançar uma piadinha que eu particularmente acho engraçada: “Espero o dia que o sertanejo universitário se forme e se mande!” Me perguntei, saindo de casa ontem, para assistir o espetáculo: o que terá de inovador e o que me leva a essa cantora célebre, que já fez sua história? Eu não digo que me surpreendi com a plateia lotada, mesmo que não tenha encontrado ninguém das minhas relações. Fiquei com a impressão que aquele momento não tinha sido por acaso. Maria Bethânia se rebatizou Maricotinha e com longos cabelos brancos citou o irmão Caetano Veloso, seu contemporâneo de escola e compartilhou conosco época em que estudante de escola pública recebia com entusiasmo suas primeiras lições e aprendia pra sempre o prazer de brincar com as palavras. Voltando à tragédia que tanto nos entristeceu essa semana e contrapõe-se ao sucesso da noite de ontem. Estivemos ali com uma mensageira, resgatando valores essenciais do homem, através de cânticos imortais. Um momento de enorme cumplicidade entre artista e plateia. Tantos aplausos que em alguns momentos perdemos o começo de poesias. Não me pareceu tietagem mas, um encontro de almas que se reconhecem, uma declamação sem limite de idade, apenas um discurso bem dito. Digna de ser reverenciada e assim o foi. Humilde e elegante, recebendo as honras, ela confessou: o que quero da vida é a realizar meus sonhos. Teatro lindo, recepção articulada. Parabéns aos organizadores do Porto Alegre em Cena. Obrigada por nos proporcionar esse espetáculo que nos devolve o eixo. Ficou claro o papel de um artista na sociedade. Maria Bethânia é um clássico, aquele que perdura o tempo de toda a história da humanidade e não envelhece nunca.
* Vera Mello é professora de francês e arte-educadora

3 comentários:

Minéia Zambiasi disse...

Por essas e outras a Vera Mello é a melhor professor de francês que existe! Precisa ter sensibilidade pra escrever assim.

Célia Mariense disse...

Uma entusiasta de tudo que se relaciona à cultura, Vera Mello com certeza não está nessa vida "pra ver a banda passar".

Marcos Ferreira disse...

Perdi essa!
Mas valeu a sensibilidade de Vera Mello, sempre à procura, como deve(ríamos) ser.