Um local. Sem tempo e espaço
definido. Um local que poderia ser um quarto de motel, uma pensão, um abismo.
Sanidade e insanidade. Personagens estranhos e semelhantes ao mesmo tempo. Uma
narrativa frenética e ao mesmo tempo truncada, descrevendo a impossibilidade de
comunicação nos dias de hoje. Caos e trevas.
El lugar, de autoria do
dramaturgo Carlos Gorostiza, situa-se em um espaço claustrofóbico onde
sete personagens chegam discretamente com suas malas. Não há referência nenhuma
de onde essas pessoas vieram e nem maiores informação do porque estão ali. Os
diálogos iniciam-se como em qualquer ocasião quando seres humanos estranhos se
conhecem: frivolidades, estranhamento e curiosidade. Aos pouco, à medida em que a
intimidade vai aumentando, surgem indícios de que algo não vai bem: um
comportamento sociopata de um deles denota todas as fragilidades do restante,
tecendo todas as feridas que o animal humano costuma esconder sob situações de
controle. Ritmo ágil, interpretações eficientes, piadas engraçadas (ou
mórbidas).
O espetáculo, representante do
Uruguai, propõe reflexões atuais sobre a bestialidade do homem moderno,
metódico e que, ao mesmo tempo, não aceita a contrariedade de opiniões. Texto
ácido com referências explícitas ao teatro do absurdo. Porém a narrativa
apresenta alguns pontos que deixam bastante a desejar: a obviedade de algumas
situações (os momentos onde o rapaz “alternativo” procura apaziguar a
insanidade instalada através de canções soa deveras como clichê e piegas) e
a sucessão de mortes inexplicáveis (ok, a narrativa é non-sense, mas
mesmo assim é necessário alguns indícios para tal fim, senão são apenas
situações soltas e sem razão ou justificativa), comprometem o argumento
proposto por Goroztiza.
As atuações, como referidas
acima, são eficientes. Mas o destaque é sem sombra de dúvida a atuação dúbia e
complexa de Fernando Amaral, que desdobra-se ali entre o frívolo e atencioso
“mestre-de-cerimônias” e o sociopata que o habita, brotando gradualmente até
atingir o ápice verborrágico e primata.
*Gustavo Saul é ator,
produtor teatral, jornalista e colunista de teatro do site O Café
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