terça-feira, 11 de setembro de 2012

Variaciones Meyerhold por Camilo de Lélis

O teatro ressuscita um morto
                                                                                          
Variaciones Meyerhold do dramaturgo argentino Pavlovsky, de quem tive a feliz oportunidade - e/ou a oportuna felicidade - de assistir algumas montagens, vem me dar, mais uma vez, uma muito bem-vinda porrada teatral no baixo ventre. Coincidentemente, há alguns dias, eu estava a ler Do teatro, de Meyerhold. Acabei por deixar a obra inacabada, esquecida dentro de uma pasta, no balcão do hall de entrada de um teatro, numa cidade vizinha. Porém, assistir a este espetáculo no teatro Renascença, dentro do programa do PoA em Cena, fez-me ver que as coincidências são, muitas vezes, significativas. 
     No livro de Meyerhold, único publicado em vida, lê-se o homem falando - ou ouve-se a voz do homem, através das letras impressas. Ele é humano, extremamente humano, em todas as suas críticas às formas enrijecidas de sua época, tanto ao velho teatrão, duro e declamado, quanto ao naturalismo do Teatro de Arte de Moscou. O que o estimulava e o fazia buscar uma técnica nova de atuar eram os balagans (tendas de atrações das feiras populares com seus palhaços e funâmbulos). Ele antevia (e queria) um ator vivo, que se movesse inteiramente, e não apenas cabeças falantes sobre corpos rígidos, como acontecia nos teatros russos da época. 
     Bueno, não vou ficar a teorizar a biomecânica - do que, aliás, nada sei -, nem vou catar na onisciência do Google referências sobre a dita cuja. Até porque, o que vi das tentativas de pô-la em prática, parecia-se mais com “marionetismo” e "papagaísmo", do que a utilização de uma arte vital e vitalizadora. Entonces, vou falar do que vi do grupo uruguaio que aqui se apresentou: a peça da Comédia Nacional daquele país.
    Achei-a genial na proposta. Poucos elementos cênicos, só os necessários para algumas metáforas. Um ator (Jorge Bolani) vivendo intensamente um personagem, numa mistura bem dosada de Stanislavski e Meyerhold - mostrando que as duas técnicas não são excludentes (como alguns pensam), mas se potencializam. Bolani costura a narração com o auxílio de Luis Martinez, que interpreta dois papéis e toca acordeão ao vivo, e da atriz Gimena Perez, que cria com corajosa delicadeza a companheira do protagonista.
      A peça narra a vida de Meyerhold a partir de sua prisão - de dentro dela -, rememorando sua trajetória  estética, que o levou a renovar o teatro russo. Desesperadamente, o homem de teatro, diante das torturas a ele impostas na prisão, tenta recorrer a amigos (antigos camaradas de revolução), para que o salvem de um fim absurdo (o fim de quem se negava a se ajustar a um sistema absurdo - o stalinismo) - e, ainda da prisão, troca cartas com Anton Tchekhov, considerando as cartas do grande escritor um bálsamo contra o insuportável sofrimento. 
     Morreu sua amada, esfaqueada no apartamento do casal, e morreu ele, fuzilado, em 1940. Seu nome foi apagado da história russa por quinze anos. Apagar nomes.  Apagar fotos. Assassinar. Nisso aquele regime foi exemplar. Nossas ditaduras, também. 
    Somente em 1955 - Stalin, já morto -, foram achados e sepultados os resto mortais de Meyerhold. Daí par diante, sua obra foi, cada vez mais, valorizada e reverenciada como um marco de transição para uma nova estética teatral. Ao se recusar a reproduzir o real-socialismo (que, segundo o personagem diz na peça, não era nem real, nem socialista), Meyerhold foi torturado e assassinado por uma questão estética - um martírio ímpar no mundo. O dramaturgo Pavlovsky e a Comédia Nacional do Uruguai, sob a direção de Lucio Hernández, ressuscitaram-no. Meyerhold se levantou sobre o tablado do teatro Renascença e sofreu de novo, cantou canções no idioma russo, sorriu e amou. Enfim - vivendo de novo - me fez crer que o teatro ainda tem o poder demiúrgico de ressuscitar os mortos.
 
* Camilo de Lélis é encenador

Um comentário:

Julio Conte disse...

Bela ressucitação!
Parabéns, Camilo, pelo comentário preciso, cuidadoso e fraterno, como a vida deveria ser.