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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A última gravação de Krapp por Rodrigo Monteiro

A última gravação de Krapp*
O problema maior das produções dirigidas por Bob Wilson, diretor americano cuja fama alcança vários pontos diferentes do planeta ao longo dos últimos quarenta anos, é o fato de que ele aparece demais. Em outras palavras, suas marcas são tão fortes, tão vivas, tão exuberantes que torna possível pensar que todo o resto, e, nesse caso, o resto é Samuel Beckett, é apenas um motivo, uma desculpa, algo dispensável. O resultado é que cristaliza-se a certeza: viu uma peça de Bob Wilson, viu todas.
Krapp’s last tape ou A última gravação de Krapp, escrita em 1957, é considerada a peça mais autobiográfica do dramaturgo irlandês, autor de Happy days, espetáculo participante do 17º Porto Alegre em Cena, também dirigido por Bob Wilson. Nesse texto, como nos outros, o tom trágico também pode ser visto. O diferencial é que não se tratam de personagens presos ao próprio destino (Fim de partida), ao próprio tempo (Esperando Godot) ou presos à própria condição (Dias felizes). Aqui o personagem está preso ao próprio presente e sem a possibilidade de mudar nada no seu passado. A palavra last (última) no título tem dois sentidos: a última gravação pode informar que é a gravação mais recente, mas também pode afirmar que não haverá outras. Krapp, o personagem protagonista e o único que se vê em cena, talvez diante da morte, ou não, tem o costume de, no dia do seu aniversário, fazer uma gravação em que se narra os acontecimentos daquele ano. Na peça, está-se no aniversário de sessenta e nove anos de Krapp. E, mais uma vez, ele vai em busca de si próprio nas antigas recordações gravadas em velhos rolos (spools).
(Para os interessados no texto, é possível fazer relação entre esse personagem e o seu homônimo em Eleutéria, primeiro texto de Beckett, escrito nos anos 40).
Bob Wilson mantém o tom intimista do texto quando cria uma chuva muito forte a cair do lado de fora do escritório. O som é altíssimo e o jogo de luzes está excelentemente posto, de forma, que o clima realista, embora com significantes bastante distantes do real, está plenamente estabelecido. O cenário, no entanto, é bastante impessoal: deixa de ser uma única mesa em que o personagem se encontra com várias versões de si próprio, em especial aquela em que ele completa trinta e nove anos, e passa a ser uma espécie de repartição pública com várias mesas, uma grande prateleira, muitas luminárias. O tragicomicidade clownesca da máscara branca e do nariz roxo, rubrica do texto, dá lugar a um personagem estilizado e que parece ser a própria máscara, ou seja, a sua inexistência. Os movimentos elípticos tomam o lugar de várias passagens do texto que não aparecem na versão de Bob Wilson que, nessa montagem, também é o ator. Para quem não conhece o texto, fica difícil estabelecer relações entre as memórias gravadas na fita ouvida e aquele que a ouve. Considerando que a encenação dura pouco mais de setenta e cinco minutos, boa parte deles, empregados na exploração da iluminação e do recurso do som de chuva, o interessante encontro em Krapp de sessenta e nove anos com os antigos Krapp não acontece. Em substituição, está um homem ouvindo uma gravação de si mesmo há muitos anos e nada muito mais além.
Krapp’s last tape, espetáculo participante do 18º Porto Alegre em Cena, é uma maquiagem que deixa ver muito pouco do rosto ao invés de embelezá-lo, realçá-lo, abrilhantá-lo. Pela sua importância, Bob Wilson é bem vindo à capital gaúcha, mas vale dizer que Beckett também o seria.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

A última gravação de Krapp por Marcelo Adams

 Bob não é bobo*

Bob Wilson, este brilhante encenador norte-americano que, felizmente, continua em plena atividade, dirigindo espetáculos inesquecíveis e provocadores ao redor do mundo, sabe que nossos tempos encontram perfeita representação na obra teatral de Samuel Beckett. Afora as peças longas (mais conhecidas) de Beckett, como Dias felizes e A última gravação de Krapp, sonho em ver encenados por Wilson textos mais curtos e de ainda maior complexidade, como Words and music, Cascando, Not I, Footfalls (a lista se estenderia por vários outros títulos). Já que, por enquanto, isso é matéria de sonho, nos deleitemos com este A última gravação de Krapp, apresentado no 18º Porto Alegre em Cena.
É possível ser purista ainda em nossos dias, defendendo esta ou aquela maneira de encenar um texto? A resposta é tão óbvia que não merece réplica. O único compromisso que uma encenação deve ter é com sua coerência interna e, naturalmente, com sua efetiva comunicação. Quando escrevo comunicação (obviamente que nos casos em que ela é buscada), quero me referir à possibilidade que a encenação tem de apresentar um discurso relevante, impactante, esteticamente marcante. É o caso de A última gravação de Krapp. Esqueça aquela estética cinzenta, encardida, que se costuma associar a Beckett. Bob Wilson nos apresenta o aço, o plástico. Esqueça o catarro, Bob nos entrega a assepsia. Krapp faz 69 anos e ouve velhas fitas onde, 30 anos antes, gravara suas impressões sobre acontecimentos envolvendo uma mulher. 30 anos se passaram, Krapp não é mais o mesmo, todas as suas células se renovaram, ele é outro ser, inteiramente distinto daquele do passado. A única coisa que identifica esses dois Krapps, distantes tantas décadas no tempo, é um nome: Krapp (e note-se a ironia de Beckett, crap, em inglês, é merda).
Bob Wilson como ator vive uma figura desumanizada, quase um robô-velho que surpreende-se com sua rendição, no passado, ao amor. De antíteses a encenação se serve: o visual clean, contemporâneo, da cenografia, opõe-se à ultrapassada tecnologia do gravador de rolo. Imagens evocativas do afresco A criação de Adão, de Michelangelo, colocam Krapp como o primeiro (e último dos homens), em conflito com o Grande Criador. Deus expressa-se com trovões ensurdecedores, relâmpagos e chuva abundante. Só resta a memória, e é a ela que Krapp recorre para fazer passar o tempo. Em síntese, a dramaturgia de Beckett tem um tema recorrente, que é o da espera e, em sua obra tardia, a memória e a impossibilidade de preservá-la.
Visualmente, o espetáculo é arrebatador, perfeito no uso do manancial técnico. Não se enganem os desavisados: o perfeccionismo estético de Bob Wilson encobre uma profunda e genial reflexão sobre o Homem. Bob Wilson não é bobo.
* Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo, professor do curso de Teatro: Licenciatura da UERGS

A última gravação de Krapp por Clóvis Massa

A última banda sonora*

Em sua biografia sobre Samuel Beckett, com quem conviveu por mais de vinte anos, o escritor James Knowlson identifica nos acontecimentos pessoais do dramaturgo, ocorridos no início de 1958, a gênese criadora de A última gravação. De todos, o principal teria sido a doença de Ethna MacCarthy, o amor de juventude de Beckett, diagnosticada com câncer de garganta, a quem ele passa a escrever longas cartas, cheias de sentimento, para demonstrar o afeto profundo que nunca deixara de sentir. As lembranças de Ethna, a quem amou jovem e cheia de vida, se justapõem, como afirma Knowlson, à certeza terrível dela estar doente e condenada à morte.
Ainda que não se procure compreender qualquer criação artística pela vida do autor, e, no teatro, que seja necessário partir do texto dramático para examinar o espetáculo, a maneira como se alternam o claro e o escuro, o desejo e a perda, a nostalgia ou as lembranças, a ambição e o fracasso fazem da montagem de Krapp´s last tape, de Robert Wilson, uma espécie de exumação. O velhaco Krapp, aos 69 anos, ouve a gravação que fizera há trinta anos e traz à tona um tempo em que “tudo estava lá”, tal qual o olhar da mulher que o fascinava na época. O estranhamento do vocabulário que havia empregado no passado, o escárnio em relação a quem ele foi, tudo faz com que se desvende um Krapp de 39 anos, que, por sua vez, acabara de ouvir uma gravação de quando tinha 27 anos, criando não a exumação de um cadáver, efetivamente, mas das situações de sua vida sintetizadas em momentos, em instantes durados, vistos através da moldura das bandas sonoras.
A última gravação, em sua origem, era uma peça radiofônica sobre o passado, mas a intensidade da montagem teatral de Bob Wilson capta os sentidos do espectador, direcionando-os para o aqui-e-agora da representação. Houve quem espiasse em direção ao urdimento do teatro, para ver de onde vinha tanta água. Se choveu e alternadamente se fez silêncio no palco do Theatro São Pedro, é porque cada elemento da rigorosa composição cênica do diretor estava fundado na plenitude da retratação daquela situação. O que mais admiro nos seus trabalhos é um tratamento de estilo, a maneira como ele desnaturaliza os gestos mais cotidianos, excluindo a forma mais costumeira da retratação psicológica sem, no entanto, romper com os princípios comportamentais da realidade. É claro que assistimos à exumação do passado de Krapp, mas o mais importante parece ser a forma como ele articula como linguagem o que representa para o velhaco o retorno ao passado: como se fosse sempre a última respiração de um velho pulmão, prestes a não mais funcionar, o som metálico da banda sonora era como o afiar da foice antecipando a chegada da morte. Seria esse o verdadeiro realismo?
* Clóvis Massa é ator e professor do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SESSÃO DE HOJE, DIA 23, DE "A ÚLTIMA GRAVAÇÃO DE KRAPP" FOI TRANSFERIDA

COMUNICADO PORTO ALEGRE EM CENA

Por questões alfandegárias na liberação da carga cenográfica, e o consequente atraso de sua chegada em Porto Alegre, em comum acordo, a direção do "Porto Alegre em Cena" e a equipe do espetáculo Krapp’s last tape, dirigido por Robert Wilson, com o sentido de preservar a qualidade artística da apresentação, a pedido do célebre diretor , transfere a primeira sessão do espetáculo, que ocorreria sexta-feira, dia 23, para uma sessão extra:

domingo dia 25, às 20h30min, no Theatro São Pedro

As outras duas funções:
Dia 24, sábado às 21h
Dia 25, domingo às 18h, permanecem inalteradas.

O público que adquiriu ingresso para a sessão transferida tem acesso exclusivamente à sessão extra do domingo, sem nenhuma necessidade de remarcação de ingresso. Não será possível remarcar para as outras sessões, porque as mesmas têm suas lotações esgotadas. Em caso de impossibilidade, o valor do ingresso será restituído aos que assim o desejarem.
Agradecemos a compreensão e desejamos a todos um ótimo espetáculo.
PORTO ALEGRE EM CENA