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domingo, 23 de setembro de 2012

Jussara Silveira- Ame ou se mande por Simone Rasslan


Quem poderá em vão calar meu coração?
A plateia canta. Termina o show e estou com os olhos cheios e o coração não se cala!
Foi assim que saí do teatro Renascença nesse domingo.  
Ame ou se mande é o nome desse show. Enchem o palco a voz de Jussara Silveira, o piano de Sacha Amback e a percussão de Marcelo Costa. Os três trouxeram um trabalho muito limpo, onde o foco estava na música e com pouco fizeram muito. A voz, o piano e a percussão deram conta de tudo. O piano também funcionou como percussão. Sacha Amback usa um sintetizador pra, de vez em quando, trazer algumas texturas ou melodia que divide sempre com o piano acompanhando. Uma mão para cada lado e o cérebro dividido em dois! O percussionista/baterista Marcelo Costa é responsável por um momento lindo do show em que o tempo se abre para os orixás na música Doce esperança (Roberto Mendes/J. Velloso), fora seu bom gosto musical ele partilha momentos de cumplicidade cênica com Jussara.
Jussara tem um timbre muito pessoal. Sua voz é um instrumento brilhante com vibrato característico e com um repertório finíssimo passa carinho acolhendo aos poucos a plateia. Terminamos nas suas mãos. Embalados. Cantando em coro no bis a Felicidade do Lupi.
Não há como calar o coração e a voz da plateia que é impelida a fazer essa escolha. Como se não pudéssemos nos conter.
Mais uma vez o Em Cena está de parabéns por trazer música Brasileira e partilhar essa missão de divulgar o Brasil para o Brasil.
Pra quem ficou querendo saber um pouco mais, procure por:
http://www.jussarasilveira.com.br/ vale a pena!
*Simone Rasslan é cantora

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sargento Getúlio por Camilo de Lélis

O Carisma do Mal em Sargento Getúlio

      Este texto não é uma crítica teatral. Trata-se da intercessão de um tema (o personagem Getúlio) como ativador de diálogo e reflexão sobre a Arte e o Mal. O pequeno ensaio tem duas plataformas que, se o leitor tiver paciência, tentarei examinar:
      A primeira diz respeito à arte do teatro. O que se vê se presencia; o que se ouve se traduz. Viagem múltipla numa rede com vértices de retransmissão para dentro do oco das cabeças dos espectadores. Cabeças ocas? Se não forem ocas, serão maciças como a cabeça do personagem Getúlio - um obcecado. Cabeça oca não é referência pejorativa, pois sendo vazia de ideias fixas e preconceituosas, é aberta à crítica, numa constante renovação de conteúdos. Se o espectador tiver cabeça assim, percebe que se trata de um disparate ter empatia por um assassino (que mata covardemente uma mulher em adiantada gravidez, por uma suposta traição). Ou, da mesma forma, vê que é uma contradição sentir empatia pelo homem que revive, prazerosamente, o ato de esmagar, com uma pedra, a cabeça de um oponente (que cumpria ordens, como ele) e, depois, decapitá-lo, pelo fato principal desse sujeito tê-lo chamado de corno. Entretanto, esse disparate acontece. Sente-se compaixão pelo personagem. Admiramos sua coragem (macheza). Torcemos para que saia vencedor nas emboscadas que a tropa do governo lhe faz, e para que tenha muitos filhos todos machos, como seria de seu agrado, para povoar o nordeste de ferrabrases. A estética vai torcendo a ética, pois, afinal, tudo não passa de ficção e de uma aula de antropologia ao vivo. No Nordeste mítico – um autêntico cabra da peste. E nós, gaúchos, não ficamos para trás em valentia, não é mesmo? Estamos em plena semana farroupilha, em que se vê o culto de uma história inventada para nos dar identidade.  “Se me pisar no pala, meu revólver fala...”, alardeia a nossa tradição. Assim, nos apaixonamos pelo bandido, mas ressalvando nosso senso crítico de que é um bandido criado pela arte de Carlos Betão, um ator magistral, merecidamente vencedor do prêmio Braskem 2011. Entregamo-nos ao prazer de ver um esqueleto de Rural Willis, numa paisagem de fog, servindo de cenário, e acreditamos estar numa estrada de pó na caatinga. Esse ator, esse cenário e essa luz denotam uma excelente direção - Gil Vicente Tavares - e uma equipe baiana de heróis do teatro, vencendo mais uma batalha na guerra contra a insensibilidade e a barbárie. O nome da equipe - Teatro Nu - está muito coerente nesta encenação, pois expõe a alma humana em sua busca pela entidade - o personagem Getúlio se define numa frase: “Querem que eu desapareça? Mas, quem desaparece são os outros, eu estou sempre aqui”.  Sargento Getúlio - Prêmio Braskem de melhor espetáculo 2011. Parabéns ao estado da Bahia, terra de poetas, músicos e, como vimos com Sargento Getúlio, de bom teatro.
      A segunda plataforma diz respeito mais à sociologia. Quem é Getúlio? Um sociopata com a característica onipotência deste quadro? Um maníaco? Um esquizofrênico - com seu típico mundo interior polifônico? Pelo entrecho, o personagem é capanga de um político numa disputa partidária, e seu destino é ser assassinado, assim que se tornar inconveniente para seus mandantes. O enredo do romance de Ubaldo Ribeiro, e da fiel versão teatral, é um monólogo relatando vivamente a resistência que esse personagem impõe a seu destino. Não quer ser descartado. Não quer ser um nada, um ninguém. É a luta do ego para se impor contra a paisagem hostil. Há um momento, antes de seu fim, que Getúlio recita em alta voz, como numa oração apotropaica, todas as artes de matança em que ele se afirma o melhor, numa clara tentativa de camuflar seu medo. Pistoleiros, como sargento Getúlio, foram usados por partidos políticos de norte a sul do Brasil. Aqui, na serra gaúcha tivemos o caso do bandido Paco Sanchez, que servia aos republicanos, obrigando cidadãos a votarem nos asseclas de Borges de Medeiros, até que foi tocaiado e metralhado por gente deste mesmo poderoso chefão. Apesar do vocabulário emprestado pela poesia de seu criador - João Ubaldo -, percebe-se que Getúlio é sujeito tosco, obnubilado, insensível aos querer que não seja o seu. Assim acontece com os cangaceiros e outros bandidos que, no imaginário de gênios como Graciliano, Guimarães, Érico Veríssimo e outros, tornam-se bons falantes de um vernáculo melodioso e até filosófico. É a arte colorindo a crueza da realidade. Os Getúlios e outros malvados têm também sua dose de bondade, e talvez nem tenham culpa de seus crimes, já que, devido às injustiças sociais, não se adaptaram ao sistema vigente. Porém o problema do Mal não é tão simples, assim, que possa ser explicado apenas pelo social. Há que se ouvir as vítimas, ou, ao menos, imaginar seus olhos arregalados na hora em que a peixeira do machão assovia.

*Camilo de Lélis é encenador

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sargento Getúlio (BA)

Dias 13, 14 e 15, às 19h – Teatro do SESC
Diz o autor da obra, João Ubaldo Ribeiro, que Sargento Getúlio está ligado, no personagem-título, ao conceito grego de “Arete”, ou seja, cumprir seu destino, realizar sua incumbência, o sentimento de que era melhor viver uma vida curta e honrada do que uma longa vida medíocre. O sargento Getúlio tem a missão de levar um prisioneiro político de Paulo Afonso, na Bahia, até Aracaju. No meio do caminho a ordem é desfeita, mas o sargento se recusa a cumprir tal determinação, querendo cumprir sua missão até o fim. A obra fala sobre honra, a palavra dada, o destino humano sempre mudando. A opção pelo monólogo veio logo após a primeira leitura, pois ao grupo baiano interessou imaginar esse homem, sozinho, contra a História, contra a plateia, defendendo sua honra e sua missão. Um dos mais famosos textos de João Ubaldo Ribeiro, o espetáculo recebeu elogios unânimes em sua temporada em Salvador. Oportunidade de conhecer mais do tão pouco conhecido teatro baiano, Sargento Getúlio promete magnetizar a plateia gaúcha. Espetáculo vencedor do Prêmio Braskem de Teatro 2011 nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Ator.

Ficha técnica:
Direção e Adaptação: Gil Vicente Tavares / Texto: João Ubaldo Ribeiro / Produção: Fernanda Bezerra / Elenco: Carlos Betão / Iluminação: Eduardo Tudella / Trilha sonora e Produção musical: Ivan Bastos / Figurinos: Rodrigo Frota / Assistência de produção: Julia Salgado / Operação de luz: Bruno Freitas / Operação de som: Lucas Rebouças / Contra Regra: Anderson Alan / Duração: 60min / Recomendação etária: 14 anos

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Jussara Silveira- Ame ou se mande (BA)

Dias 22 e 23, às 20h – Teatro Renascença
Jussara Silveira estreou como cantora em 1989, no Teatro Castro Alves, em Salvador, e desde então seu trabalho ganhou fôlego para ser mostrado em todos os grandes teatros do Brasil. De lá para cá, tem amealhado uma legião fiel de fãs que esperam seus shows com entusiasmo crescente. No festival, acompanhada pelos grandes músicos Marcelo Costa e Sacha Amback, Jussara vem apresentar uma seleção de seus dois novos discos, Ame ou se mande e Flor bailarina, este último com repertório baseado em canções angolanas. Uma grande oportunidade para o público local entrar em contato com a voz dessa grande cantora brasileira, seu bom gosto e sua impactante força cênica. O trabalho de Jussara Silveira é como bálsamo contemporâneo e chega com a força da música popular brasileira. 
Ficha técnica:
Direção: Jussara Silveira / Elenco e produção musical: Jussara Silveira, Marcelo Costa e Sacha Amback / Produção executiva: Guto Ruocco / Iluminação: Claudia de Bem / Técnico de som: Carlos Martau / Roadie: França / Duração: 80min / Recomendação etária: Livre