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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sobre o conceito da face no filho de Deus (Itália)


Dias 19, 20 e 21, às 21h
Theatro São Pedro
 
Um dos espetáculos mais emblemáticos e polêmicos desde 2010, Sobre o conceito da face no filho de Deus, já emocionou as plateias das mais diversas formas nas principais cidades da Europa e agora chega diretamente a Porto Alegre, única cidade onde se apresentará no Brasil nesse ano. Do instigante grupo italiano Socìetas Raffaello Sanzio, o espetáculo tem ainda a assinatura do mestre Romeo Castellucci na direção. O grupo italiano Socìetas Raffaello Sanzio e o diretor Romeo Castellucci levantam questões relacionadas à fé, à passagem do tempo e às relações humanas. O espetáculo mostra, em viés naturalista, a ligação entre um filho (interpretado por Sergio Scarlatella) e seu pai (Gianna Plazzi) em frente a um cenário que inclui uma imagem gigante da face de Jesus Cristo, criada pelo pintor italiano Antonello de Messina (c. 1430 - c. 1479). "Acredito que Castellucci esteja dizendo algo sobre a ânsia pela fé em uma era sem Deus, sobre a continuação do processo pelo qual os filhos se sacrificam pelos pais e sobre as ligações entre o espírito e a carne falível escreveu o crítico Michael Billington, do jornal inglês The Guardian. Será a terceira participação do grupo no Porto Alegre Em Cena. Em 1999, eles apresentaram Orestea (Una Commedia Organica), releitura da tragédia de Ésquilo com elenco formado por mulheres gordas e homens magros. Em 2006, foi a vez de Buchettino, em que o público ouvia a história do Pequeno Polegar deitado em camas. Chegou a vez do não menos inquietante Sobre o conceito da face no filho de Deus.

Ficha técnica
Concepção e direção: Romeo Castellucci / Trilha Sonora original: Scott Gibbons / Elenco: Gianni Plazzi e Sergio Scarlatella com participação de Dario Boldrini, Vito Matera e Silvano Voltolina / Assistência de direção: Giacomo Strada / Objetos: Istvan Zimmermann e Giovanna Amoroso / Operação de som: Matteo Braglia e Marco Canali / Iluminação: Fabio Berselli e Luciano Trebbi  / Suporte: Vito Matera  / Gestão: Gilda Biasini, Benedetta Briglia e Cosetta Nicolini / Administração: Michela Medri, Elisa Bruno e Simona Barducci / Consultoria de administração: Massimiliano Coli / Produção: Societas Raffaello Sanzio / Produção da turnê na América do Sul: Aldo Miguel Grompone d.i./ Gerente de turnê: Sandra Ghetti/ Recomendação etária: 10 anos / Duração: 60 minutos

sábado, 6 de agosto de 2011

A última gravação de Krapp

A última gravação de Krapp – Itália/Estados Unidos
Dias 23 e 24 às 21h e 25 às 18h – Theatro São Pedro

Um dos mais conhecidos textos de Samuel Beckett trará à cena de Porto Alegre, em passagem exclusiva pelo Brasil, aquele que é hoje considerado o maior encenador teatral da atualidade, Robert Wilson, se revezando como ator e diretor do excepcional monólogo. O texto de Samuel Beckett é um solo/diálogo onde um ator no palco mantém uma conversação com a sua própria voz gravada há muito anos. Um homem velho, no dia do seu aniversário, se prepara para fazer uma gravação sobre os anos de sua vida, como tem feito em todos os seus aniversários. Ao se preparar para fazer a nova gravação, ouve outra feita por ele há mais ou menos 30 anos, no final do último ano verdadeiramente feliz de sua vida. Azedo, engraçado, irônico, ele acha difícil se reconhecer na voz frágil, romântica, confiante da juventude. Robert Wilson, um dos mais importantes diretores cênicos da atualidade, não só dirige, mas também atua nessa montagem, oportunidade única para conferir seu talento de performer. Wilson tem sido frequentemente comparado a Beckett, ambos mestres da simplicidade absoluta e essencial do que pode ser realizado em um palco de teatro. A peça de um ato teve estreia mundial em outubro de 1958. Sobre o atual trabalho, diz Wilson: “Quando dirijo um trabalho, crio uma estrutura e quando todos os elementos visuais estão no lugar, tenho uma moldura para os “performers” preencherem. Se a estrutura é sólida, então os artistas podem se sentir livres dentro dele. Aqui, na maior parte, a estrutura é dada, e preciso achar a minha liberdade na estrutura de Beckett. Ele te diz como o cenário deve ser, quais os movimentos, etc.” Oportunidade imperdível para conferir, ao vivo, um dos maiores nomes do teatro contemporâneo.

Texto: Samuel Beckett / Criação, direção e atuação: Robert Wilson / Desenho de cenário e concepção de luz: Robert Wilson / Desenho de figurino e colaboração para desenho de cenário: Yashi Tabassomi / Desenho de luz: A.J. Weissbard / Desenho de som: Peter Cerone / Diretor associado e gerente de palco: Sue Jane Stoker / Diretor assistente: Charles Chemin / Diretor técnico: Reinhard Bichsel / Maquiagem: Mariarita Parisi / Gerente da companhia: Gaia Scaglione / Duração: 1h10min / Classificação: 14 anos

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Happy Days

Mais próximo do que pensamos: Beckett.

Há quem diga que as peças desse dramaturgo irlandês são chatas, monótonas, entediantes. Lembram de “Esperando Godot”, aquele personagem que nunca vem. Lembram de diálogos intermináveis de “Fim de Partida” ou “Fim de Jogo”. Lembram de histórias que parecem não ter história e de aplausos intelectuais que dão vergonha aos bocejos da massa comum... O 17º Porto Alegre em Cena não quer que alguém se sinta envergonhado de já ter dormido em alguma apresentação de Beckett (e esse ano haverá duas montagens!). Dormir também é uma reação e, no teatro, todas as reações são válidas sem que haja hegemonia de expressões, desde que nenhum ronco, ou choro, ou gargalhada atrapalhe a concentração da pessoa ao lado ou da fila além. Teatro é, antes de tudo, social. E dormir socialmente é tão válido quanto aplaudir em conjunto.

Mas a questão é: por que esse dramaturgo é tão elogiado através dos tempos, tantas vezes montado e por nomes tão consagrados como Bob Wilson, cujo currículo de espetáculos (incluindo “Quartett”, grande participante do 16º Porto Alegre em Cena), de turnês e de prêmios faz dele um dos maiores encenadores do planeta nessa transição de séculos. O espetáculo em questão nesse texto é protagonizado, por exemplo, pela atriz Adriana Asti, estrela de cinema em filmes como "Rocco e seus irmãos” (Visconti, 1960), “Accatone” (Pasolini, 1961), “Antes da revolução” (Bertolucci, 1962), “Amargo despertar” (Vittorio de Sica, 1973), “O fantasma da liberdade” (Luis Buñuel, 1974) e vários outros, sem falar na sua importante participação em produções teatrais como “Cinza às cinzas”, de Harold Pinter. Por que, então, tanto incenso sobre um chato? Será que ele é realmente chato?

Winnie, a protagonista de “Happy Days”, está presa, caída numa armadilha, enterrada até a cintura, sem possibilidade de sair. Sua vida desconhece o passado e ela também não faz planos para o futuro. Tudo está como está. Winnie não é a heroína de uma história com princípio, meio e fim. Ela é a própria história e somente dentro dela se encontram o princípio, o meio e o fim e também o princípio novamente. Se olharmos para ela sem nos perguntarmos de onde ela veio e para onde ela vai, e escutarmos a sua pergunta sobre o que fazer da vida, talvez, perceberemos que há mais de Winnie em nós do que de qualquer história de guerra, de qualquer amor fatal, de qualquer grande espetáculo com helicópteros entrando cena. Porque o nosso dia a dia também não é feito de longas viagens e grandes decisões, mas do desafio de viver as vinte e quatro horas sem pular uma única delas, nem mesmo quando dormimos. Ao espectador é livre o direito de ver o buraco como uma rotina. Ou um trabalho. Ou um relacionamento do qual não se consegue sair. Winnie pode ser eu, pode ser você, pode ser o marido daquela amiga, a chefe do seu pai. O dia pode ser um ano, um mês, um festival, o tempo que não passa antes do ônibus vir, a ligação telefônica que não se completa, o email que ainda não chegou.

Winnie sorri. Winnie canta. E a frieza beckettiana se torna trágica ao tratar do destino como algo que é superior aos mortais. A chuva que destrói casas sobre morros, o câncer que consome um parente, o candidato não preferido que ganha a eleição. Winnie sorri. Winnie canta. E, assim, ela win. Vence adversidade do boleto que chega, do olhar não retribuído, do taxi perdido no dia de chuva. E vence sem cair na alienação, tampouco na submissão. A brasilidade de Winnie, quem sabe, está na coragem de sorrir e de cantar. E de encarar com gabardia qualquer desafio.

As cores de Bob Wilson estão aprisionadas nos matizes originais. Azul é azul, preto é preto, laranja é laranja. A variação está em nós. O princípio, o meio, o fim e o princípio novamente estão em nós. O artista propõe o mundo. Os mortais o desafiam. Nem sempre vencem. Mas sempre é possível sorrir.

Mesmo dormindo.



*


110 minutos (15min de intervalo)

Ficha Técnica:

Texto: Samuel Beckett
Direção, cenário e concepção de luz: Robert Wilson
Assistente: Daniel Schulze
Assistente de Direção: Christoph Schletz
Dramaturgia: Ellen Hammer

Elenco:
Adriana Asti (Winnie)
Yann de Graval (Willie)

Diretor Técnico: Amerigo Varesi
Desenho de Luz: A.J. Weissbard
Supervisão: Marcello Lumac
Figurinos e Maquiagem: Jacques Reynaud

Desenho de Som: Emre Sevindi
Técnico de Som: Paolo Cillerai
Eletricista: Fabio Bozzetta
Diretora de Palco: Sue Jane Stoker/Sara Thaiz Bozano
Técnico de Palco: Antonio Verde
Cabelo e Maquiagem: Jacques Reynaud/Mariarita Parisi
Administração da Companhia: Gaia Scaglione
Direção de Produção: Kristine Grazioli
 Produção: Change Performing Arts e CRT (Milão/Itália) Elisabetta di Mambro e Franco Laera
Fotos: Luciano Romano