Foto: Ivo Gonçalves
Ficcionalização / Não-ficcionalização do acaso
Houve um tempo em que o teatro era movido por tentativas de recriação da realidade. Nesse contexto, a relação entre o espetáculo e o público formalizava-se pela lógica da verossimilhança, na qual, de uma parte, as ações e as cenas eram construídas dentro da maior proximidade possível com o real e, da outra, a recepção era configurada por uma disposição em acreditar na situação presenciada. Obviamente que essas perspectivas ainda fazem parte do teatro, mas com dosagens menos intensas de ambas as partes. O espetáculo, por exemplo, vai se utilizando, ao longo do tempo, cada vez mais dos artifícios que o fazem teatro e não realidade. Já o púbico, para quem se faz o teatro, também vai, concomitantemente, reconhecendo no espetáculo não só as representações da realidade, mas os próprios artifícios que as compõem, como a luz e a trilha sonora. A própria história da preparação do ator pós-Stanislavski (e, talvez, incluindo ele próprio ao tratar das ações físicas) vai seguindo um caminho que visa um ator fora do estado cotidiano, em busca de uma colocação cênica que, em sua natureza, retira o corpo do ator do real e o coloca em um estado de atenção que, ao mesmo tempo, chama a atenção do outro (presença/presente?).
Mas toda essa lógica (junto de outras) pela qual costumamos entender o teatro parece ser colocada em xeque no ótimo espetáculo Corte seco, dirigido por Cristiane Jathay. Desde que entramos no teatro, as fronteiras entre o que é e o que não é teatro estão contaminadas. Os atores passeiam pela plateia ao mesmo tempo em que o público entra, criando uma mistura entre os grupos (daqueles que fazem e daqueles que assistem) o que nos coloca, inicialmente em status semelhantes.
Christiane Jathay está em cena, ao lado da iluminadora e do sonoplasta. Ela é a regente da cena, assim como ambicionava Craig, ou como fez Kantor em seus espetáculos. E é sob seu comando (em cinco tempos) que a peça irá começar, embora já tivesse começado bem antes. A partir de então, segue-se o espetáculo por meio de um grupo de cenas que funcionam como peças de um jogo, o qual tem suas regras determinadas pela regente. O palco se transforma em um tabuleiro e todos que ali parecem estar jogando. Até mesmo as cadeiras de diversos tipos que constituem as cenas têm, cada uma delas, ordens para quem a utiliza: narrar, descrever, interiorizar, etc. Na mesa onde estão Jathay e os responsáveis pela luz e som há toda uma parafernália técnica necessária para a operação do três monitores que ficam em cena e nos dão dimensão de locais que não são o palco: camarim, saguão do teatro e a rua em frente ao teatro, que são utilizados em mais uma possibilidade de abertura entre o que acontece em cena e fora da cena.
Mas até aí, tudo certo. Estamos acostumados com o teatro que mostra o teatro e, como disse anteriormente, não somos inocentes diante dos artifícios que constituem as cenas. No entanto, tem uma questão dentro disso que possibilita ao espetáculo uma atmosfera muito peculiar. Trata-se da ficcionalização ou não-ficcionalização do acaso.
Em meio ao jogo que vai se conduzindo por entre as peças-fragmentos-cenas, nunca há distinção evidente entre ator e personagem. Não sabemos, ao certo, se todos são os mesmos personagens desde que o público adentra o teatro ou se temos apenas atores jogando com situações. Entre as situações de conflito que constituem os fragmentos-cenas e o fim delas também há uma diluição de fronteiras. Por vezes, a própria Jathay comanda o início e o fim. Em algumas outras, não sabemos se o que estamos vendo é efetivamente um improviso ou não.
Essa instabilidade de não poder denominar na cena o que é o real e o que é a representação dele é que gera toda a tensão que acompanha o espetáculo. E trata-se de uma grande tensão. Se ao longo das cenas, não mergulhamos a fundo nas situações que se desenvolvem entre os atores, pois mesmo diante das mais dramáticas nosso distanciamento é grande demais para levarmos a cabo, por outro lado, somos movidos por completo diante da atmosfera do que está efetivamente acontecendo (não a representação/enredo, mas o acontecimento/ação). As cenas-situações são interessantes, algumas engraçadas e outras muito delicadas, mas é, de fato, a insegurança diante do acaso que explode em sensações e nos conduz por quaisquer que sejam os percursos que o espetáculo tomar.
Christiane Jathay e toda a complexidade de seus sistemas dramatúrgicos delegam ao espectador uma situação de instabilidade, de falta de controle. Ao fim do espetáculo, não sabemos dizer o que, dentro daquela estrutura, era o real, o que era o ficcional e, ainda, o que era o real ficcionalizado. São essas situações intempestivas que afastam nossos olhos do comum e do previsível, que nos fazem pensar e questionar o teatro. Não o teatro como espaço da representação, mas o teatro enquanto espaço da relação entre o ator e o público, entre o ator e o ator, entre o diretor e ator, do teatro do entre...
Não há dúvidas: Mais um ponto alto do Em Cena. Corte seco efetiva-se, nos leva com ele e, depois de tudo, nos sugere re-pensar o teatro em nosso tempo.
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Direção e Dramaturgia: Christiane Jatahy / Colaboração de dramaturgia: José Sanchis Sinisterra / Orientação corporal: Dani Lima / Elenco: Cristina Amadeo, Daniela Fortes, Eduardo Moscovis, Marjorie Estiano, Felipe Abib, Paulo Dantas, Ricardo Santos, Stella Rabello, Branca Messina e Leonardo Netto / Cenário: Marcelo Lipiani / Iluminação: Paulo César Medeiros / Trilha sonora: Rodrigo Marçal / Duração: 1h30min / Classificação: 16 ano
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Paulo Salvetti é ator e professor. Graduado em Letras-Vernáculas, especialista em História e Teorias da Arte pela UEL-PR e mestre em História, Teoria e Crítica das Artes Visuais pela UFRGS. Graduando em Teatro, também pela UFRGS, faz parte do elenco do espetáculo Sobre saltos de Scarpin.
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
João Paulo Sachetto e Paulo Salvetti: Anatomia Frozen
Foto: Tati Cardozo / PMPA
Teatro em teias cruzadas: Anatomia Frozen
Bryony Lavery escreveu em 1998 o texto Frozen, que foi encenado pela primeira vez no mesmo ano. Tratava-se de uma peça em dois atos com 3 personagens e que rendeu sucesso e polêmica em torno de sua temática. O enredo principal pauta-se na história do assassinato de uma garotinha de 10 anos por um pedófilo serial killer. Na peça, três personagens constroem a narrativa, sendo uma médica psiquiatra (Agnetha), o serial Killer (Ralph) e a mãe da garota morta (Nancy). Anatomia Frozen, apresentada no Porto Alegre em Cena, nos dias 16, 17 e 18, é a encenação de Marcio Aurelio do texto inglês que tem como proposta reinventá-lo em cruzamentos.
O teatro de nosso tempo, todos sabemos, não se basta na literal transposição de um texto para a cena. No processo de criação teatral a partir de um texto dramático, este passa a ser apenas uma das várias linhas que compõe a teia do espetáculo, tramando-se com as diversas outras linhas de criação. Parece ser dentro desse processo que se estabelecem as maiores virtudes da encenação de Anatomia Frozen. Ao invés de seguir a risca as propostas de Lavery, com os três personagens e dois atos, Marcio Aurélio e os excelentes atores Paulo Marcello e Joca Andreazza colocam-se a serviço de uma adaptação que se apropria totalmente do texto de Bryony Lavery interagindo com ele em busca de desdobrá-lo.
E trata-se de um desdobramento complexo. Os três personagens são interpretados pelos dois atores, que, ainda, alternam depoimentos pessoais dos personagens com pequenas narrações em estilo épico. Inicialmente, conhecemos a rotina da médica americana que, em função de suas pesquisas sobre as respostas do cérebro em relação ao comportamento de serial killers, viaja a Londres para estudar Ralph, o assassino de Nina que se encontra em prisão perpétua. Depois conhecemos o próprio Ralph, personagem que se encontra no centro da teia que envolve o espetáculo, uma vez que as peculiaridades congeladas de sua mente passam a afetar tanto os personagens quanto a estrutura da trama. Finalmente, conhecemos Nancy, mãe perturbada de Nina, que decide visitar Ralph, mesmo não tendo sido autorizada.
Não bastasse todos esses cruzamentos que compõem o texto, já que conhecemos a história por diversas versões diferentes, a encenação de Márcio Aurélio eleva a potência dessa rede de cruzamentos quando dilui os limites entre os atores e os personagens. É preciso de atenção do espectador para sermos atingidos e, quando o somos, passamos imediatamente a fazer parte da rede, o que constitui efetivamente o que chamamos de desdobramento complexo.
Durante todo o espetáculo, os assuntos abordados nos suspendem: pedofilia, assassinatos, violência... Mas o modo como a narrativa e a encenação se desenvolvem contribuem grandemente para um mal-estar. Todas as visões do mesmo fato (que é nada menos do que o assassinato de uma garota de 10 anos), às vezes emocionalmente afetadas, às vezes cientificamente embrutecidas, somadas a nossa própria visão enquanto espectadores é que determina esse mal-estar: a que visão se conectar?
Os elementos que constituem a cena podem ser resumidos em quatro palavras: atores, bancos, roupas e vazio. Cada um dos bancos acolhe um personagem diferente, mas como só há dois atores, um deles está sempre vazio, a espera. Os figurinos são patéticos e propõem simbologias assépticas: a médica, com um avental longo, ganha um tom de açougueira dos cérebros, Ralph, vestido de saco plástico, ganha status de lixo humano e Nancy, com uma grande mancha vermelha na boca, ganha ares de palhaça dramática. O resto é o vazio que dá espaço para que as redes de sentidos se multipliquem.
Certamente, um espetáculo que não deixa inerte: não só conta uma história como convida o espectador a compartilhar a estrutura caótica de uma mente acometida por patologias. Ao longo dos 75 minutos, o vazio que se estabelece no espaço vai aos poucos sendo preenchido pelos cruzamentos que vão possibilitando a construção de uma teia tão grande e complexa que, ao final, deixamos o teatro também envolvidos por ela e levamos para casa linhas desprendidas dos discursos de Ralph, Nancy e Agnetha, assim como as linhas das atuações de Paulo Marcello e Joca Andreazza e da encenação de Marcio Aurelio. Teatro em teias cruzadas que se desdobram.
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João Paulo Sacchetto é estudante de teatro do NEELIC. Mestre em Biotecnologia e doutorando em Ciências pela UFRGS. Graduando em História da Arte, pela UFRGS, tem feito luz para diversos espetáculos e faz parte do elenco do espetáculo Os fuzis da Senhora Carrar, em cartaz na sala 504 do Gasômetro.
Paulo Salvetti é ator e professor. Graduado em Letras-Vernáculas, especialista em História e Teorias da Arte pela UEL-PR e mestre em História, Teoria e Crítica das Artes Visuais pela UFRGS. Graduando em Teatro, também pela UFRGS, faz parte do elenco do espetáculo Sobre saltos de Scarpin.
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