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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Jorge Arias #4

 Sábado, 25 de septiembre, 2010 - AÑO 11 - Nro.3757
http://www.larepublica.com.uy/cultura/425270-multitudinaria-muestra-artistica

Dona Otilia e outras histórias, Torturas do coraçao, Dentrofora, Reglas, usos y costumbres en la sociedad moderna, Corte seco, El año del pensamiento mágico, Navaja en la carne

 Continuamos acercando hoy, de manera exclusiva, a los lectores de LA REPUBLICA, las reseñas de los espectáculos más destacados del Festival Porto Alegre em Cena que con la participación de elencos de distintos países, se desarrolla en la populosa ciudad riograndense.

Vaya hoy la cuarta entrega a nuestros lectores de lo que se ve en este festival. Comencemos con Dona Otilia e outras histórias que fue concebida por su director y actor Gilberto Gawronski (Rio de Janeiro) como un homenaje a su amiga la dramaturga riograndense Vera Karam (Pelotas, 20 de octubre de 1959 - Porto Alegre, 1º de enero de 2003) en ocasión de lo que hubiera sido su 50º aniversario. La pieza se integra con tres historias simples y eficaces: Dona Otilia lamenta muito, A florista e o visitante y Da licença por favor? más las reflexiones de una actriz en su camarín. La actuación (Guida Vianna, Leticia Isnard, Savio Moll y Gilberto Gawronski) y la dirección (Gawronski) son sobresalientes, configurando uno de los pocos espectáculos del festival aplaudido sin reservas por espectadores comunes y gente de teatro.

Torturas do coraçao (Pernambuco), es una obra juvenil de Ariano Suassuna (Joao Pessoa, 1927; hoy Director de Cultura de Pernambuco, a los 83 años) un autor del que el mundo entero conoce O auto da compadecida. La puesta en escena pertenece al múltiple Almir Telles, y narra una historia sencilla, en términos del teatro de títeres, con seres humanos que se comportan como muñecos.

Dentrofora (Porto Alegre) es una reescritura juvenil de Paul Auster sobre Días felices de Beckett: dos actores, solitarios en dos vitrinas separadas, conversan hasta donde pueden en la inevitable comparación, Beckett es mejor.

Reglas, usos y costumbres en la sociedad moderna, de Lagarce, en adaptación de Ernesto Calvo (España), con actuación de Gerardo Begérez, propone un enjuiciamiento del libro de usos y costumbres en que se basa la pieza y hasta de la obra del dramaturgo francés, que apunta a un juego de espejos "antes ahora" pero que omite el tema de la homosexualidad y, más aun, el tema, muy poco tratado, de cómo lo que se consideró primero un delito y después una enfermedad, tiene hoy aceptación social. No obstante, la adaptación se queda en alusiones dispersas y una socorrida mención final al derecho a ser "diferente".

Corte seco, de Christiane Jatahy (Rio de Janeiro), nos fue difícil de entender por nuestra ausencia de conocimientos del portugués, por la ausencia de micrófonos que recogieran algunas frases en voz baja y por la ausencia de obra que se pudiera entender. Algunos compatriotas declararon su admiración por la obra, lo que nos resulta imposible de creer, toda vez que nunca supieron explicarnos ni el título, ni de qué se trataba, ni para qué se pegaban cintas blancas al piso, ni por qué se veían en escena, prácticamente con el mismo cuadro, tres televisores, ni por qué se bajaban los actores a la platea. Una dificultad especial se suscitó entre los admiradores de Corte seco para explicarnos la función de un grupo de actores que se pasó toda la obra inmóvil, detrás de una mesa "ejecutiva" cubierta de cables y con una computadora portátil que no fue usada.

El año del pensamiento mágico, de Joan Didion (1934), dramaturgia y dirección de Caio de Andrade (Sao Paulo), monólogo por Imara Reis, narra con nobleza y precisión la muerte súbita del marido de la autora, la dolorosa enfermedad de su hija y el impacto de estos sucesos en el pensamiento, la forma de vivir, los planes las ideas. La adaptación teatral fue puesta en escena con extraordinario éxito en New York (2007) por Vanessa Redgrave.

Navaja en la carne, de Plinio Marcos, puesta en escena de Pedro Granato, agrega adornos a una pieza que sólo puede valer en la simplicidad de un acto. No convence la transformación de uno de los personajes, Veludo, el mucamo homosexual de una pensión mísera, en un show aparte a cargo del actor y dramaturgo Gero Camilo. Es una diversión lateral, competentemente hecha, pero que se aparta del amargo réquiem que escribió Marcos.

domingo, 26 de setembro de 2010

Marcelo Adams #13: Navalha na carne


Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Navalha na carne


Navalha na carne
é, dividindo o pódio com Dois pedidos numa noite suja, a peça mais conhecida escrita pelo dramaturgo santista Plínio Marcos. Encenada pela primeira vez em 1967, no auge portanto da ditadura militar no Brasil (mas ainda antes do famigerado AI 5, de dezembro de 1968), a peça situa-se no cume da linguagem desenvolvida por Marcos em dezenas de outras obras. Por linguagem entendo a forma como as personagens que habitam o submundo e a periferia das grandes cidades se expressam nas peças escritas por ele. Palavras de baixo calão, gírias, discursos objetivos e ausência quase que absoluta de uma elaboração "poética" da fala, concentrando-se no que se chama de função emotiva ou expressiva da linguagem. Muitas interjeições, muito bate-boca, uma repetição estrutural de motivos que se acumulam. Navalha na carne é uma peça simples dramaticamente falando, porque não há uma evolução rica do conflito exposto. O conflito é, muito mais, uma forma de escancarar alguns tipos de personagens, neste caso, pessoas que vivem à margem da sociedade, envolvidas com prostituição.

Esse mundo foi explorado por Plínio Marcos em várias de suas peças. Era um universo que ele conhecia intimamente por convivência. Por isso, são tão verdadeiras as palavras pronunciadas por Vado, Neusa Sueli e Veludo. A peça é, nesse sentido, quase documental, porque não defende exatamente um ponto de vista, apenas mostra as coisas como são. A prostituta serve ao cafetão sem nenhum traço de auto-estima; o cafetão só quer viver bem através da exploração e da violência; o homossexual tem a sexualidade à flor da pele. Essas são as características dadas por Marcos às suas figuras. Sim, quando se lida com tipos tão específicos como esses, há o risco de redução comportamental e caricaturização (nem todos os homossexuais se comportam como Veludo; nem todas as prostitutas agem como Neusa Sueli). Mas, para efeito cênico, as coisas funcionam muito bem como escritas por Plínio Marcos: a intenção não era psicologizar.

Esse autor, morto em 1999, em grande dificuldade financeira, apresenta com Navalha na carne uma peça muito ruim de ser lida, mas que pode funcionar esplendidamente como encenação. O texto é praticamente nada (o que pode transformar a encenação em nada, igualmente). O mérito desta montagem dirigida por Pedro Granato é nos dar, surpreendentemente, uma visão nova sobre esse conhecidíssimo embate. Talvez o uso inteligente das pausas e, mais do que isso, o abandono, em muitos momentos, do grito, transformando uma intenção grandiloquente em algo sussurrado. Isso nos desautomatiza: em que esperamos o desaforo escancarado, recebemos a ironia e o deboche à meia voz.

Os atores são muito bons, e se entregam completamente à encenação, o que eleva muito o tom de verdade exigido. A ambientação simples, mas na medida, contribui para o engajamento do espectador, que sente quase "na carne" a violência. Sem dúvida, um dos melhores espetáculos deste festival.

*

Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo. Graduado em Teatro- Interpretação Teatral e em Direção Teatral, pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, sediada em Porto Alegre. Participou de dezenas de espetáculos como ator e diretor. Destacam-se Goela abaixo, O homem e a mancha (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2006), Burgueses pequenos, Édipo, O médico à força (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2008), Bodas de sangue e Mães & Sogras. Estreará no próximo dia 15 de outubro, no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo A lição, de Eugène Ionesco, nova produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. Autor do blog http://marceloadams.blogspot.com/

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Maria Madureira #1: Navalha na carne


Foto: Mariano Czarnobai /PMPA

Coração versus razão

A montagem do diretor Pedro Granato para Navalha na carne me provocou reflexões curiosas e sensações ambíguas. De um lado, saí do espetáculo com a certeza de ter vivenciado ali uma experiência teatral profunda, daquelas que nos atingem no corpo e nos absorvem por inteiro. De outro, pensando friamente, passado o calor da hora, ao sentar para escrever este texto, me peguei tentando organizar as partes do que tinha assistido e não consegui formar um todo.

O texto de Plínio Marcos traz um conflito bastante simples: a prostituta Neusa Sueli (Paula Cohen) sustenta o cafetão Vado (Gustavo Machado) e, um dia, o dinheiro que ela deixa para ele é roubado pelo faxineiro, o homossexual Veludo. O que acontece na peça, no entanto, é bem mais que uma briga por reaver um dinheiro roubado. São as cruéis relações humanas entre os três personagens que estão em jogo. Nesse sentido, a montagem acerta em abrir mão de muitos elementos (nenhuma trilha sonora, iluminação descomplicadíssima, cenário mínimo, marcações simples) e centrar o foco na performance dos atores.

Paula Cohen (Neuza Sueli) convence muito como prostituta de quinta categoria. Seu corpo está ali para o que der e vier e Gustavo Machado (Vado) faz dele gato e sapato, jogando-a para lá e para cá. Ele promete inúmeras vezes bater muito nela e, realmente, puxa seus cabelos e esfrega seu rosto no colchão, mas, talvez, fique faltando um tapa na cara bem dado, que não acontece nunca. Há várias cenas de violência mais direta (socos, chutes) que poderiam ser melhor resolvidas, pois a disponibilidade física dos três atores é grande em todo decorrer da peça. De qualquer modo, é uma encenação que, explorando a fundo a violência física, acentua o naturalismo/realismo, levando-o às últimas consequências. Machado faz um Vado absolutamente machão, agressivo, que fala grosso e tem posturas rígidas. A imagem que fica dele é de um homem de ombros jogados para trás e quadril mais projetado para frente, as mãos na cintura. Em certos momentos, chega-se a temê-lo. Gero Camilo é um caso à parte. Talvez tenha havido um Vado semelhante ao de Machado ou uma Neusa que pareça com a de Cohen, mas dificilmente se tenha visto ou se verá um Veludo como o de Camilo. Ali vemos um personagem construído em cada detalhe, em cada trejeito. Sua expressão, seu olhar, sua maneira de baixar as alças da blusa, tudo contribui para uma ilusão perfeita: o Veludo de Camilo tem vida própria. De um modo geral, incomoda um pouco a maneira como todos os atores dão o texto com excessiva gritaria o tempo todo, em especial Cohen.

É interessante observar o modo como os personagens se movem no espaço cênico. Sendo a sala organizada como arena de três lados, uma cama redonda é o elemento central do cenário. Delimitando a fronteira entre palco e plateia, um dossel, um cubo feito de neon envolve e ilumina a arena. Vado e Neusa jamais saem de cena e, nesse espaço exíguo, passam todo o tempo girando em torno da cama. Como se um relógio eterno marcasse um tempo morto, um tempo em que nada de novo pode acontecer e só resta girar para sempre e retornar ao mesmo ponto, numa imagem potente para a falta de perspectivas daquelas duas pessoas em condições tão sórdidas.

Até aqui, assistir a esta montagem de Navalha na carne foi esquecer o mundo fora do teatro e estar durante uma hora e meia mergulhada em um outro mundo, sentindo absoluta empatia por aqueles personagens, exatamente como espera-se que aconteça com o teatro tradicional.

Porém, friamente:

Veludo deslizando de patins e walkman pelo saguão do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre e dizendo 'I am a man, I am a woman'... A montagem do diretor Pedro Granato para Navalha na carne já na entrada prometia novidades. Será que veríamos uma atualização radical de um texto dos anos sessenta? Quem teve essa expectativa se frustrou. No interior da Sala Álvaro Moreyra, o que encontramos foi um ambiente escurecido e pesado, uma mulher rebolando e gemendo e um homem batucando um ritmo seco. Então, uma outra novidade: Gero Camilo sai do personagem por um momento e pede ao público que desligue seus celulares. Será que Neusa Sueli vai ter um poster da Madonna colado na parede? Logo em seguida, Camilo começa um cântico em que explica que merda é como dizer axé e deseja Evoé para todos nós. Neusa continua a gemer e rebolar e, a partir daí, estamos envolvidos em uma energia rara e envolvente, como já disse, mas o que vemos é uma montagem respeitosa do texto de Plínio Marcos, sem qualquer indício de que estamos em 2010, sem qualquer proposta que fuja da concepção de teatro como representação da realidade. Enfim, a não ser por um tênis Nike Shox que surge a certa altura nos pés de Vado, estamos assistindo a uma montagem que poderia estar em cartaz em 1966.

Palavras do diretor: “pois, hoje em dia, Neusa quiçá seja uma universitária que faz programas, e Vado, um playboy de classe média dado à cafajestagem.”

Palavras de Gero Camilo: 'não imagino o Veludo um veadinho ignorante do final da década de 60. Não, ele já é da era "GLSBTUVXZ", faz curso de inglês. É outra história, outro lugar a se mergulhar.'

Há algo que não se encaixa aí e, do jeito que resulta, frustra quem gostaria de ver novidades e confunde aqueles que acreditam na fidelidade ao texto e seu contexto. A experiência do espetáculo, como disse, não sai prejudicada, mas o juízo crítico sim.

*

Maria Madureira é dramaturga e tradutora. Faz parte do GRUPO VAI!. É seu (em colaboração com o grupo) o texto do espetáculo Agora eu era. Assina também a concepção do espetáculo Parasitas e está trabalhando no próximo projeto da companhia, Sincronário. HTTP://agoraeunaoera.wordpress.com/

Plínio Marcos Rodrigues: Navalha na carne


Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

NAVALHA afiada NA CARNE crua!

Por que uma peça com texto pontiagudo, seco, poucos objetos cênicos, luz simples e três atores em cena é tão boa? Acho que afinação é a resposta mais simples para essa pergunta e a simplicidade, talvez, resuma a grande virtude do espetáculo Navalha na carne. Atores afinados entre si, afinados com o cenário, afinadíssimos com a direção e com o público. A crueza do texto, das interpretações e dos figurinos só contribui para o êxito da montagem que é uma grande celebração: à vida, ao teatro e ao grande dramaturgo Plínio Marcos.

Os atores recebem os espectadores na entrada, os aguardam, espreitam, abrem as portas do quarto e de suas almas, para que, voyeurs, possamos, quase sadicamente participar das desgraças que fundamentam a vida dos três personagens. E esperam-nos com graça, cantando, tocando, bebendo catuaba: o teatro já esta acontecendo, no palco e fora dele. Os atores encarnam mais do que interpretam, são corajosos, viscerais veículos de contação de uma história triste, mais do que trágica, cotidianos sem esperança, vidas sem sentido, pessoas pouco humanas.

A Neusa Suely de Paula Cohen é uma puta pobre, com senso de humor ácido, personagem cansada de uma atriz incansável, voz rouca de cigarro, fome de sanduíche enrolado em papel alumínio, libido de mulher mal amada.

Vado, encarnado por Gustavo Machado (que está a cara do autor quando jovem), é forte, viril, testosterona pura, puxa ferro e fumo, é nojento, asqueroso, mas bonito, e, não pior que os outros dois, causa tanta raiva quanto pena.

E Veludo, ai, Veludo... Assumido por Gero Camilo, aparece como uma bichinha, desliza sobre patins como quem tenta escorregar da vida que leva, jura que está estudando línguas, tenta ser simpático e cativa o público logo na chegada, para, em seguida, mostrar a outra face: suja, ladra, sedutora, forte, maquiavélica, manipuladora. São tantas as facetas de personalidade que Gero empresta e/ou toma emprestado à Veludo, que seriam inumeráveis.

Então, acontece: os três se mostram, se apresentam, se encantam, se roubam, se agarram, se lambem, se amam, se batem, se devoram, se estraçalham, se embriagam, se acabam, no final se abraçam, se agradecem: e nós, ali, alheios?

*

Plínio Marcos Rodrigues
Ator, integrante do elenco de O Avarento, apresentado nesta edição do Em Cena. Recebeu como herança de seu pai o nome de Plínio Marcos e como presente do Festival o convite para escrever sobre a montagem de um dos textos mais conhecidos do autor em cuja homenagem recebeu seu nome.

Rodrigo Monteiro #17: Navalha na carne



Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Ecossistema


Embora saibamos todos que tudo pode ser transformado em objeto artístico e que a expressão não tem limites, nem quanto a forma, nem quanto a conteúdo, não é difícil acordar que há um jeito de fazer determinadas coisas que contribuem mais para o projeto do que outro. Assim, Plínio Marcos tem muitas formas de ser montado, mas garanto que há uma em que os sentidos investidos pelo autor ganham plenitude suficiente para se estabelecer nas suas relações. Tratamos aqui do Realismo Naturalista.

Os personagens são vistos como conseqüência do meio em que vivem. O meio é o protagonista, aquele que é responsável por todos os acontecimentos, a única causa e o único fim. Não há heróis, nem bandidos, nem mocinhas e nem vilões. Tudo e todos são considerados a partir do lugar onde estão, ou seja, não há nem certo, nem errado, mas o sufocamento, a prisão, a fervura. Plínio Marcos escreve todos os seus textos utilizando esse universo estético, esse ambiente natural, animalesco, selvagem, em que o instinto determina as ações muito mais do que a consciência. O realismo naturalista é o contrário do realismo psicológico: o primeiro olha de dentro pra fora, enquanto o segundo vê de fora para dentro.

Dirigida por Pedro Granato, a montagem de Navalha na carne que participa do 17º Porto Alegre em Cena acerta o alvo quando coloca o público próximo e ao redor do espaço cênico. Não há para onde fugir: o espectador é obrigado a olhar e a ouvir o que está acontecendo sem a possibilidade de sair antes. É tudo muito “na cara” e desviar o olhar é um gesto que causa constrangimento, nesse ambiente do qual quem vê também participa. Em frente, está a carne aberta, sangrenta, dilacerada. A alma humana está ao ponto de não ser humana. ”Somos gente?”- pergunta, aliás, Plínio Marcos através de Neusa Sueli. O sexo, a higiene e a alimentação são feitas sem cuidados racionais. A racionalidade ficou do lado de fora: dentro, há o instinto, as coisas feitas sem pensar.

Neusa Sueli é uma prostituta que entrega todo o seu dinheiro para Vado, seu macho. Veludo é um homossexual que rouba o dinheiro para dar a um outro menino, seu macho. Vado rouba, bate, come e dorme sem pensar no amanhã, como também não o fazem os outros dois.

Plínio Marcos não é imoral, ele é amoral.A mesma Neusa Sueli que beija Vado, minutos depois, irá bater nele. A inconstância é o parâmetro, porque todas as ações são tomadas sem reflexão. E são excelentes os três atores nessas construções. Gero Camilo anda de patins e mistura inglês com espanhol sem muito saber quando e o porquê. O som das palavras lhe chama a atenção e ele as repete. Gustavo Machado e Paula Cohen são fortes e não ficam abaixo da agilidade de Camilo. No entanto, neles se encontra um aspecto em que a direção deixa a desejar.

Por vezes, o espectador sente pena de Neusa Sueli diante das ações de Vado. Há uma forte tendência do espetáculo em situar ela como protagonista, correndo o risco de se tornar um melodrama. É difícil de reconhecer a maldade de Neusa quando ela acusa Veludo de roubo. Ou a sensibilidade de Vado quando ele oferece a Veludo algumas tragadas no cigarro. Já em Veludo, que não é coadjuvante, é possível ver o equilíbrio entre as ações: vê-se o roubo de um lado e, de outro, a desculpa dele. Afinal, sem dinheiro, ele jamais teria tido uma noite de prazer com seu homem. Nesse personagem, acertadamente, o bem e o mal se neutralizam.

No realismo naturalista, o contexto situacional é visto como um ecossistema em que os organismos agem pela sua sobrevivência. Em Navalha na carne, um come o outro, porque assim é a lei. Dessa forma, já era nos anos sessenta quando foi lançado. Assim continua sendo. Cabe aos leitores desse texto tão magnífico e aos expectadores desse ótimo espetáculo gerenciarem os diversos níveis e fruírem a experiência em suas próprias vidas.



*Rodrigo Monteiro: Licenciado em Letras - Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.Bacharel em Comunicação Social - Habilitação Realização Audiovisual pela mesma universidade. E mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jurado do Troféu Açorianos de Teatro 2010 e, também, do Troféu Braskem 2010, é autor do blog www.teatropoa.blogspot.com de Crítica Teatral de Porto Alegre

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Modesto Fortuna: Navalha na carne


Afiadíssima navalha

Antes e depois da estreia do espetáculo da Maison de France, já tive oportunidade de manifestar a minha admiração diante desta consagradora confirmação do talento de Plínio Marcos. Não voltarei a insistir, portanto, sobre os aspectos mais obviamente impressionantes dessa excelente peça: a impiedosa autenticidade psicológica dos personagens a clareza da análise dos problemas da sua integração no sub-humano do mundo em que vivem, a extrema densidade do clima, o virtuosismo do diálogo. Poucos dias depois da estreia, toda a cidade já sabia que “Navalha na carne” é uma peça à qual se assiste com a respiração presa, e cujo fascínio não escapa nem o público mais conservador “a priori” menos disposto a enfrentar cara a cara a crueldade e a violência dessa “tranche de vie” passada num hotel suspeito de terceira categoria. 
Crítica de YAN MICHALSKI - Jornal do Brasil 19/10/1967

O Google tem 300.000 resultados para a busca “Plínio Marcos”. Quem quiser saber mais sobre este escritor e dramaturgo, carimbado pela crítica como autor maldito entre os malditos, nosso Baudelaire verde-amarelo, pode procurar no seu sitio oficial: www.pliniomarcos.com. Navalha na carne é sua terceira peça, foi escrita em 1966, imediatamente proibida, apresentada em sessões fechadas e leituras dramáticas às escondidas. Foi liberada em 1967 e, logo depois, censurada novamente, sendo permitida outra vez somente no final do regime militar já nos anos 1980.

A encenação é um acerto. Anda em pleno compasso com a proposta do autor. Temos em cena a violência, a desumanização, e outros conceitos caros ao autor, veiculados por um realismo absurdamente despudorado, que contrasta com a proximidade exagerada do público que é colocado “dentro da cena”, ou seja, dentro do quarto de Neusa Sueli. Compartilha com ela a humilhação e o terror imposto, tanto pela situação claustrofóbica, quanto pela dominação exercida pelo cafetão Vado. A plateia é convocada pelos olhares, gestos e palavras dos três impecáveis atores (Paula Cohen, Gero Camilo e Gustavo Machado), a responder a pergunta que não quer calar:

Nuesa Sueli - Será que somos gente? Será que eu e você somos gente?

Será que Veludo é gente? Será que tanta gente por aí pode ser chamada de gente? Até que ponto nós espectadores somos gente? E outras variações sobre o tema.

O venerando teatrólogo e crítico Sábato Magaldi anotou em sua crítica no jornal O Estado de São Paulo, de 12 de setembro de 1967, por ocasião da primeira montagem do texto: “Freqüentemente, o público ria de alguns palavrões ou de réplicas de sabor equívoco. Essa relação chegou a irritar-nos, como se nascesse de uma falta de inteligência do texto. Depois pareceu-nos que essa era uma válvula de escape para os espectadores não mergulharem num terrível mal-estar: um pouco mais de insistência na verdade e seria insuportável o clima dramático.”

Pois, a encenação proposta pelo diretor Pedro Granato provoca uma reação similar na plateia. O riso acontece diversas vezes. É solicitado pelos atores, pela encenação. O corte da navalha é fino e profundo. Antes do sangue jorrar é apenas um risco, um desenho cor-de-rosa na pele. E a gente ri pra não doer. Ou só nos resta dizer, como naquela piada: “Só dói quando eu rio”.

De novo Sábato Magaldi em sua crítica: “A grande ovação, no final do espetáculo de ontem, no Teatro Maria Della Costa, prova que as autoridades andaram certas, ao liberar Navalha na Carne, depois de tanta incompreensão da Censura. Os aplausos em cena aberta, repetidas vezes, vieram, como uma descarga emocional para equilibrar o incômodo provocado por numerosos diálogos de violenta dramaticidade. A literatura teatral brasileira nunca produziu uma peça de verdade tão funda, de calor tão autêntico, de desnudamento tão cru da miséria humana como essa de Plínio Marcos.”

Pois, malandramente, faço minhas as palavras do mestre, pois tudo isso pode ser dito da montagem de Pedro Granato, inclusive no que se refere a ovação no final da apresentação. Corra que ainda dá tempo. Nestes tempos de teatro pós-dramático, dá gosto assistir a um bom drama.




*

"Meu nome é Modesto Fortuna * e poucas coisas ainda não fiz ou fui na vida: ator, diretor de teatro, diretor de eventos, vendedor de enciclopédia, contato de agência de emprego, frentista de posto de gasolina, ajudante de pedreiro, terapeuta rechiano, pintor de paredes, crítico de artes em geral, pé de chinelo, pizaiollo, auxiliar de escritório, auxiliar de cozinha, auxiliar de mecânico, contato de agência de publicidade, poeta menor, sparring de boxe, animador de festas infantis, produtor de festas infantis, cabo eleitoral, enfant-terrible, padeiro, pasteleiro, vendedor ambulante de pão de queijo na praia do rosa/sc, trambiqueiro em geral, ladrão de ocasião, traficante de drogas, segurança, artesão e otras cositas mas." Modesto Fortuna


  * heteronômio de Roberto Oliveira, diretor do Grupo Depósito de Teatro.