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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Jorge Arias #2


 Martes, 21 de septiembre, 2010 - AÑO 11 - Nro.3753
http://www.larepublica.com.uy/cultura/424630-el-festival-internacional-de-teatro-de-porto-alegre-sigue-su-marcha

Rubros, Lonesome cowboy, A megera domada, Babau e Um navio no espaço

Continúa en diversos escenarios de la ciudad de Porto Alegre (Brasil), la décima séptima edición del ya tradicional Festival Internacional de Teatro que, año tras año, convoca a una multiplicidad de artistas provenientes de las más diversas partes del mundo y a multitudes de espectadores.

En esta segunda entrega reseñaremos varias obras, entre ellas Rubros: vestido - bandeira - batom (Minas Geraes) que es el complicado título de un encuentro entre dos amigas.

El arranque nos trajo una clara reminiscencia de El turista accidental de Anne Tyler, en el cine por Lawrence Kashdan (William Hurt y Geena Davis). Una de las amigas (Daniela Cabral) está profundamente deprimida porque ha perdido un niño, víctima accidental de un tiroteo en la puerta de la escuela a donde no acudió en hora. Corteja el suicidio, se siente culpable; su amiga (Ana Regis) trata de volverla al rojo vivo de la vida, de ayudarla a rearmar su casa y su no menos desvencijada existencia. La obra es una serie de conversaciones en el hogar que se derrumba; conversaciones que parece tener éxito terapéutico. La actriz Ana Regis obtuvo un premio por su interpretación.

Lonesome cowboy (Suiza) podría llamarse "Usted no ha visto todo en materia de ballet", porque a nada se parece. Cinco bailarines, con ropas convencionales, patinan, se deslizan, arrastran, saltan, se agreden, se revuelcan sobre un piso cubierto de una arena negra; o bien la obra contiene improvisación de altísimo nivel, lo que parece muy difícil, o bien simulan magistralmente los azares de luchas callejeras, lo que es más difícil todavía. Hay una brisa, un hálito fugaz que llega desde las Brokeback Mountains; y la destreza técnica de los bailarines se acerca a lo imposible y al fin nos sentimos admirados, sorprendidos y un poco exhaustos.

A megera domada (La fierecilla domada de Shakespeare) es un espectáculo callejero dado con la energía habitual en el activo e inteligente Jessé Oliveira -que el Uruguay premió por su Hamlet sincrético y del que comentamos recientemente O osso de Mor Lam- con máscaras, música y canciones, no ya con "Caixa preta" sino al frente de un grupo de Caxias do Sul. Como el día señalado llovía, Jessé hizo la obra dentro de la Usina do Gasómetro, con una limpieza de ejecución y un cuidado de los detalles como si siempre hubiera sido allí.

Babau fue una apoteosis de muñecos, esta vez en gran cantidad de personajes, en la tradición de los "mamelungueiros", manipulados aquí por un diestro equipo dirigido por Marcondes Gomes Lima. El "mameluco" es un mestizo de indio con blanco; invariablemente los bandidos son blancos, incluyendo el Diablo, el peligroso Babau, y los buenos son negros o indios; todos son un poco desvergonzados y otro poco ingenuos, siempre de una pieza y directos, siempre en la tradición de maridos engañados, mujeres lúbricas, soldados apocados, delincuentes simpáticos, golpes y porrazos.

Um navio no espaço o Ana Cristina César trata de la vida (1952- 1983), poesía de la poeta de Río de Janeiro Ana Cristina César. Con una afición especial por la literatura inglesa, César vivió años en Gran Bretaña, leyó y admiró a la poeta Sylvia Plath y, como ella, escribió un diario íntimo y se suicidó en plena juventud. Ana Cristina nos llega por Ana Kutner, que tiende a un tono exasperado y autoritario; la pieza es, más que otra cosa, un paseo un tanto impersonal por la literatura del mundo, con alusiones a Baudelaire, Mallarmé, Emily Dickinson, García Lorca y otros.

sábado, 18 de setembro de 2010

Daggi Dornelles: Lonesome cowboy



Lonesome cowboy – da solidão ao todo

Normalmente, ao escrever sobre alguma expressão de arte, gosto de estudar a respeito: o histórico, o contexto, circunstâncias gerais de nascimento e trajeto. Esta localização é pano de fundo do retrato e, aqui, não cabe qualquer trato de imagem: o fundo é parte fundamental do todo e não há dignidade fora dele. A composição coreográfica de Saire e seus bailarinos mereceria este cuidado. Entretanto, falta-me o tempo desta dedicação; tentarei um comentário mais tosco, sem qualquer sentido pejorativo da palavra. Talvez, seja obra do tempo o fato de que as coisas menos e menos me arrebatam. E isto é bom! O arrebatamento pode, muitas vezes, saciar com igual perda do sabor. Então, com um demi-jejum, deixo o olho clínico ativo, sem que sua ação perturbe os outros olhos, do amante ao meditativo.

Ao sair do teatro, desejei escrever. Desejo nascido, essencialmente, do caráter que me arrebatou. Louca, declara o fim do arrebatamento e já o aclama! É que ocorre que não viajei apaixonada – ou plena de entusiasmo, pelo recinto onde desfilavam os cowboys. Estes mantiveram-me atenta; segui por suas trilhas, marcas e odores como um detetive atuando por puro gosto, sem contrato, ou recompensa. Nesta condição, o laudo não compete, não prova, apenas existe: avaliação amena de um instante vivido.

Começo por identificar os corpos como ação pós marcas clássicas. Então – e a despeito do tempo escasso, preciso pesquisar a trajetória dos bailarinos. Constato formação em dança contemporânea, de forma quase generalizada, e em conservatórios onde, seguramente, a dança clássica tinha seu espaço. Só isto já mereceria uma reflexão acerca de possíveis desconstruções pós experiência e vivência de técnicas diversas. Temos, ali – para além e aquém de nosso gosto ou escolha, corpos que ultrapassam as marcas das escolas, em prol de uma linguagem coreográfica. E repito, independente do nosso gosto.

Despidos destas marcas – e sem abanar qualquer outra bandeira de pesquisa de movimento, ou seja – desprendidos do possível estabelecido, movem-se, na condição admirável de corpos humanos a serviço da expressão de um conto cênico. Este, por sua vez, lançado pelo coreógrafo. E esta parece ser a mesma disponibilidade de toda a equipe: luz, cenário, figurinos, trilha, tudo é tosco – mesmo quando ensaia algum lampejo de entorno, de excesso. O tosco que aqui se manifesta é uma fartura de integridade, e mérito maior deste trabalho: um exercício de entrega, de confiabilidade, que jamais se estabeleceria sem um senso essencial de equipe e foco comum.

Sob esta ótica, e em linguagem absolutamente diversa – sem qualquer menção comparativa, pode-se também observar Tobari e tantas outras expressões cênicas que abordam o infinito simples\complexo – e já quase sem palavras – de nossa humanidade, em composições\constelações múltiplas, que parecem clamar EM e POR construções onde a solidão humana – no universo mais do que restrito de cada indivíduo – compactua, transcende e liberta a serviço de um todo que podemos já quase dizer: é expressão fraterna!

*

Daggi Dornelles teve suas primeiras experiências em teatro na infância. Passou a dedicar-se à dança em meados dos anos 70. Viveu toda a década de 80 em São Paulo, onde atuava nestas duas áreas. Mudou-se para a Alemanha em 1989, onde fixou residência por quase 15 anos, intensificando seus estudos de dança e participando de várias produções, em funções diversas. Em mais de 30 anos de carreira, e no paralelo das produções para o espaço teatral, tem uma constante busca de experiências em espaços urbanos e alternativos, tendo recebido o Prêmio FUNARTE Artes Cênicas na Rua 2009, na área de registro e memória. Entre outros incentivos, recebeu a Bolsa Virtuose – MinC e a Bolsa Vitae de Artes, ambos focalizando estudos do corpo como partícula relacionada ao meio.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Daniela Aquino: Lonesome cowboy e Oficina Composição em tempo real



Touché!

Fui ao teatro assistir ao espetáculo Lonesome cowboy com a expectativa de quem teve a oportunidade de participar do workshop com um dos integrantes do grupo, o espanhol Pablo Esbert Lilienfeld. Havia em torno de 20 pessoas na oficina oferecida pelo Porto Alegre em Cena. Pablo não abriu o clássico espaço para que as pessoas ficassem falando, eu sou, eu faço, eu acredito... Apenas perguntou nossos nomes. A proposta era, como eu percebi, durante três dias experimentarmos essencialmente desenvolver uma escuta de grupo. E isso é algo muito complexo somando-se o fato de que se tratava de um grupo em que as pessoas não se conheciam. Ele começou por propor exercícios de percepção do corpo em relação a si mesmo, do corpo em relação ao espaço e do corpo em relação à diferentes níveis de atenção. Foram realizados também jogos que envolviam o grande grupo, como um coro, em que, por vezes, um integrante saia e fazia um pequeno “solo”. Pablo insistia que “bonito o feo, me da igual”. Imagino que e o que ele buscava de cada um de nós era que estivéssemos em estado permanente de improvisação, cientes de que tínhamos o poder de decisão de observar o grupo, estarmos em cena “sem nada fazermos” ou agirmos, mas de forma a percebermos o grupo como um todo, e trabalharmos poeticamente a ideia de unidade formada por indivíduos.

Escrevo sobre a oficina para chegar às minhas impressões sobre o espetáculo, já que reconheci em cena alguns aspectos desenvolvidos nos encontros. Começo pela ambientação cênica, eficaz, condizente com a temática, ora com a luz nos olhos nos espectadores, como um sinal de alerta, ora um “lusco fusco” que deixava transparecer siluetas marcadas de homens com grande vigor físico. É impossível escrever sobre a obra sem contaminar-me, também, com as impressões que ouvi sobre o espetáculo e elas foram as mais diversas... No ponto de encontro do festival, conversei com um rapaz que eu não conhecia. Ele se autointitulou leigo em dança, e começou a sua fala da seguinte forma “Dança contemporânea... bom... É sempre aquilo, né?” e continuou falando como o espetáculo o tinha incomodado, que a luz era péssima, que, nos dez primeiros minutos, ele se esforçou para gostar, mas que depois, nossa... “eles não tinham técnica nenhuma!” O comentário dele me fez pensar se é necessário ser conhecedor de certos procedimentos da arte, neste caso específico, da dança contemporânea para fruir a obra. Será que se trata da eterna procura da representação? Não sei ao certo.

O que pude constatar é que a improvisação é utilizada como técnica de criação e a percepção corporal e espacial é o foco do trabalho. Desde o início do espetáculo, foi possível perceber a sutileza do procedimento utilizado, a escuta, os movimentos lentos, bem desenhados no espaço. De repente, aquele momento solene de preparação é rapidamente cortado por movimentos vigorosos, por corpos que desenham o chão, varrem toda a borracha sintética, mas que para mim era brita. Quem sentou na plateia alta afirma que há mais sentidos na visão dos desenhos feitos por eles, em passos que simulam lutas corporais. O que posso dizer é que fiquei com a atenção firme em quase todos os momentos do espetáculo, a cada nova proposição de movimentos, a cada nova disputa. Esperava ver um pouco mais de “sujeira” como resultado de um jogo de improvisação em tempo real, ao contrário, vi uma “limpeza” muito grande na movimentação cênica. Até mesmo demasiadamente distanciada em alguns momentos. De qualquer forma, foram os abraços que mais me arrebataram e me fizeram ler que os cowboys poderiam aproximar-se dos integrantes de clãs patrilineares, ligados à linhagem masculina, em que a os laços, às vezes, eram de natureza meramente simbólica e não apenas familiar.

Assisti à dança do Clã, de Philippe Chosson: Pablo Esbert Lilienfeld, Matthieu Guénégou, Mickaël Henrotay Delaunay e Richard Kabora, em 12 de setembro, um dia após a data fatídica que marcou a terra dos cowboys americanos, e a todos de uma forma em geral. A impressão que tive dos cowboys suíços é que, em seus corpos, há uma busca de se reconhecer no outro. Nessa busca acredito que eles não estejam solitários. O jogo em cena propõe apoiar-se no outro, jogar com o outro, tocar o outro, nos mais diversos sentidos. E foi assim que saí do teatro, tocada.

*

Daniela Aquino é Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, artista-pesquisadora do Grupo Gaia Dança Contemporânea.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Wagner Ferraz: Lonesome cowboy

Foto: Mario Del Curto

Precisa ser muito macho

O palco estava todo escuro, o chão preto parecia asfalto, não havia cortinas no fundo, o palco está demarcado como se fosse uma grande caixa de madeira (preta) com mais ou menos 30 cm de altura. Isso levava a compreender que o espetáculo aconteceria dentro desta caixa, mas ao mesmo tempo sobrava um corredor em torno desta que me deixou curioso sobre o que poderia acontecer. Os intérpretes já estavam em cena, o figurino me lembrava algo “militar”, movimentavam-se lentamente e muito bem, havia controle, explicito, dos movimentos que eram extremamente conduzidos. Não havia transição entre diferentes dinâmicas de movimento, mas sim um grande cuidado ao colocar e retirar os pés, e mãos em alguns momentos, do chão.

A iluminação inicialmente me lembrava às luzes de um campo de futebol a noite, fortes e brancas em contrates com o chão preto que me deixou curioso para saber de que material aquilo era feito. Fiquei pensando na foto de divulgação deste espetáculo na revista do POA em Cena, pois nela podia ver um chão todo riscado, imaginei que em algum momento haveria um intervalo e seria colocado um linóleo com muitos riscos pintados.

Para minha surpresa, o linóleo que imaginei não existia, mas sim o chão preto que podia ser “riscado” com a movimentação dos bailarinos raspando no solo. Nossa, naquele momento me senti em êxtase, fiquei encantado com a capacidade de criar a cena através da relação dos corpos com o chão. Então, compreendi por qual motivo os movimentos inicias eram realizados com tanto controle e lentamente, assim evitava-se de “riscar” o chão antes do momento planejado. Muito inteligente!!! Admiro trabalhos que, como costumo dizer, consegue “enganar” o público para poder presentear com uma interessante surpresa.

Conforme os intérpretes corriam, caminhavam, rastejavam, rolavam, se arrastavam pelo chão, desenhos eram traçados no solo mostrando caminhos, linhas, círculos, cruzamentos que formavam um mapa onde estava sendo estrategicamente marcados os caminhos de ataque em uma guerra. Mas ao mesmo tempo, passei a perceber o que está descrito na sinopse do espetáculo, e li as marcas no solo como “machos marcando seu território”. Eram apenas 5 intérpretes em cena, todos homens.

Todos tiram suas camisas se dividem no palco como se fossem dois times, inicia-se um jogo que não consegui entender, mas podia ver clara a disputa, os vencedores, os perdedores, as noções de regras estabelecidas entre eles, as comemorações que resultavam sempre em muitos abraços que são comuns se ver entre vencedores de um time. Mas se abraçavam muitas vezes, e ficavam com os corpos colados...

A luz muda fica amarela, parece que todos se desentendem no jogo, se movimentam, se posicionam se dirigem uns aos outros como se fossem brigar, mas inicia-se uma seqüência de abraços, e o homem apresentado neste espetáculo começa a brincar. O chão vai sendo redesenhado muitas vezes, e o território sendo marcado...

Depois de saídas e entradas em cena onde trocam de roupas e apresentam outras noções de homem através do visual e de ações, percebo que muitos clichês de masculinidade foram apresentados. O óbvio estava presente, eram homens em determinadas situações se apresentando como um macho comumente se comporta, e o que pode levar a deixar dúvida de sua masculinidade. Percebi como clichês...

Falar de algo na cena da dança se utilizando de clichês é extremamente complexo, pois se cai no que já foi realizado muitas vezes por outros coreógrafos, ou se cria algo que conduz a visão do espectador para olhar para algo comum com outro olhar, nesse caso o olhar do criador.

Philippe Saire conseguiu em Lonesome cowboy lembrar e apresentar ações cotidianas ou não da cultura masculina de uma forma difícil de explicar, pois é um resultado dançado e não explicado oralmente. Mesmo assim, vou voltar ao meu tempo de bailarino e fazer o exercício que eu fazia, de tentar explicar em palavras o que eu dançava. Sairé, como eu estava dizendo, reproduzia atividades comuns em cena, porém não percebi simplesmente que algumas imagens foram jogadas na cena através dos corpos dos bailarinos, tudo foi muito bem estruturado e transformado em coreografia. Mas, ao mesmo tempo, essas imagens colocadas em cena não foram extremamente alteradas para se poder dizer que “um movimento cotidiano virou dança”. O coreógrafo se utilizou muito bem dos clichês.

Confesso que fiquei confuso, mas também posso dizer que foi uma encantadora confusão, algo muito difícil de coreografar, pois os movimentos que suponho que foram resultantes da pesquisa de movimento estavam na cena, a coreografia foi desenvolvida através desses movimentos. Ok! Tudo bem, porém mais uma vez o coreógrafo conseguiu “me pegar”, me deixando várias dúvidas que me permitiam fazer minhas leituras sobre a obra. Para mim isso é coreografar!!! Plantar dúvidas que ao mesmo tempo são certezas, mas não são explicitas e nos permitem fazer diferentes leituras.

Onde estava a coreografia? Onde estavam os movimentos pesquisados? Não conseguia separar um do outro, e isso permite perceber que a obra não foi produzida em 2 ou 3 dias, mas durante um “longo” processo de pesquisa e experimentação.

Os homens/intérpretes se beijam, ficam sem camisa, usam saia (kilt), bebem cerveja, se enfrentam, brigam, e o território vai sendo demarcado no solo com seus movimentos. Até o momento em que todo aquele material que cobre o chão é espalhado novamente deixando o solo liso e negro. Mas ao final todo o material preto que recobre o chão e permite que as marcas sejam feitas é retirado pelos intérpretes ficando apenas o linóleo que estava escondido abaixo.

Dois homens brigam até a exaustão com uma linda movimentação! Caem no chão e pode-se ver a corpos pulsando com a respiração ofegante. Quem já dançou pode imaginar que este espetáculo exigiu muito deles, exigiu força, como dizem “precisa ser muito macho” apesar de não gostar muito dessa frase.

Então, ao final do espetáculo entre as dúvidas que me restaram, pois muitas me foram respondidas durante a apresentação, ficou: Será que o coreógrafo exigiu tanto dos intérpretes quanto a sociedade exigem dos homens para corresponderem aos modelos representacionais de masculinidade?

Seja lá o que for que tenha movido todos os envolvidos nessa criação, o que se pode perceber na cena é um trabalho de qualidade, com muitas informações, dedicação e uma dança que me faz querer continuar acreditando na arte!

*

Wagner Ferraz: Especialista em Gestão Cultural e Graduado em Dança; Editor da Informe C3 Revista Digital; Coordenador do Processo C3 Grupo de Pesquisa (www.processoc3.com); Coordenador de Projetos e Pesquisa da Terpsí Teatro de Dança.

Patrícia Fagundes: Lonesome cowboy

Foto: Mario Del Curto


Cowboys


Poses de homem, clichês revisitados, porrada, suor. Para mim, não se trata de um universo restritamente "masculino", mas de fluxos de testosterona. Lembro de Beatriz Preciado em Texto Yonqui: "na realidade, nada permite afirmar que os efeitos produzidos pela testosterona são masculinos. O único que podemos dizer é que até agora tem sido na sua maioria propriedade exclusiva dos bio-homens. A masculinidade é tão só um dos possíveis subprodutos políticos (não biológicos) da administração da testosterona". Nesse livro brilhante e provocador sobre o lugar que ocupam o corpo, o sexo e a sexualidade na sociedade contemporânea, apresentado como ficção auto-política ou auto-teoria, a autora relata sua experiência com aplicações de testosterona em gel durante duzentos e trinta e seis dias, com o objetivo de descobrir e analisar os efeitos da droga no seu próprio corpo. Preciado é uma autora importante na linha dos estudos de gênero e da teoria queer, que bebem da filosofia pos-estruturalista, questionando conceitos assumidos como naturais sobre o que é ser "homem" ou "mulher", "masculino" ou "feminino". É difícil pensar hoje sobre tais conceitos sem considerar essa linha de estudos e pensamento, pelo menos eu não consigo. Então, quando vejo Lonesome cowboy, não penso que transita por um território privado dos bio-homens, como diria Preciado, mas sim por zonas "testoterógenas", que não obedecem divisões estritas de gênero (divisões, aliás, consideradas como culturais e políticas, que não teriam nada de "natural" ou inevitável).
O espetáculo é aparentemente simples.

Uma arena, que é ringue e palco, espaço vazio e parque de diversões. No chão, em cima do tradicional linóleo, algo que parece brita negra (não é brita, são fragmentos de pneu, mas parece, quebrando a limpeza do linóleo branco). Luzes de ribalta, contras e uma vara lateral em uma altura de uns dois metros, dezenas de pares a pino. Cinco homens na arena. Jogam, dançam, brigam, suam, varrem, trocam de roupa, se abraçam, compondo uma estrutura que continuamente remete a uma dinâmica de esportes. Tomam cerveja. Gestos e ações cotidianas misturados com movimentos de dança, uma dança que se insinua humana, lúdica e terrena - ouvimos ruídos no chão, percebemos o esforço, o peso. Em muitos momentos, movimentos de caos, touchê! (código de um jogo que se desenvolve em cena) e correrias - é tão difícil compor o caos, simetria e perfeição são bem mais manipuláveis e controláveis no exercício da composição cênica. Lonesome cowboys trabalha com um tipo de linguagem que parece preferir a imperfeição, o desequilíbrio e a multiplicidade ao controle detalhista de todos os elementos. Diz Anne Bogart que "não se pode criar a partir de um estado de equilíbrio.[...] Estar em desequilíbrio oferece um convite a desorientação e a dificuldade. Estás subitamente fora do teu elemento e fora de controle. E é aqui que a aventura começa". As coisas nessa arena são várias vezes um pouco tortas, vigorosas, explodindo vitalidade. No entanto, é claro que os atores/bailarinos evidenciam uma qualidade técnica apurada, a produção é eficiente, a direção/coreografia é sofisticada; sem precisar afirmar nada disso.

Retomando, penso que o espetáculo não é apenas aparentemente simples; ele é simples. Mas a simplicidade é possivelmente o mais difícil em arte. Inclusive Lonesome poderia ser mais simples - algumas músicas poderiam ser dispensadas, por exemplo, por excesso e por "breguice". A arena sugere proximidade, imagino que seria interessante se ao invés de estarmos no teatro do shopping estivéssemos em um espaço amplo, sentados em arquibancadas dispostas em uma arena de três lados. Imaginações induzidas pela atmosfera lúdica e corpórea que o espetáculo sugere, com performers que atuam em uma linha que chamaria humanista, expondo sua persona sem muitos artifícios, evitando a sobre-atuação sem chegar ao minimalismo na ação, estabelecendo contato visual direto com o público. (Ou melhor, tentando estabelecer, porque a estrutura do teatro do Bourbon não é adequada para esse tipo de relação). Nunca tinha assistido à Cia. Philippe Saire, que me remete a um grupo admiro e que há tempos acompanho, o inglês Forced Enternaiment (que é mais teatro que dança, mas acho que essas separações perdem cada vez mais o sentido na cena atual, híbrida e impura). Pelo humor, pelo jeito despretensioso, pelo jogo com a própria estrutura espetacular, pela forma de discutir o mundo na cena. (Olho o site da cia e confirmo a relação - máscaras de coelho, figurinos brilhantes de show, até mesmo dinamites atadas ao corpo - provavelmente, conhecem o Forced. Ou será coincidência? Na real, não importa. Vivemos na época das redes, apropriações, infiltrações e contaminações múltiplas). Sempre gostei de cowboys.

Mas depois de escrever esse comentário encontrei a Cibele Sastre, pessoa inteligente, elegante e sincera, e ela não gostou dos cowboys. Conversamos mais ou menos assim:


Cibele: Hum... Achei antiquado, cafona.
Patrícia: Ah, eu gostei. Concordo que não tem nada de novo, mas não acho que as coisas tem que pretender novidade.
Cibele: É, pode ser... Mas sei lá, to cansada desse tipo de dança.
Patrícia: Entendo, mas sei lá, gosto da coisa meio tosca que tem. Do humor, do jogo. Cibele: não é bem tosco, são virtuosos. Gosto de tosco, seria interessante se fosse mais tosco.
Patrícia: Eu gosto do estilo de atuação, isso de ações cotidianas, olhar para o público, etc.
Cibele: Eles olhavam para o público? Não percebi. Eu vi bem de cima, longe. Era interessante os desenhos criados com a "brita" no chão.
Patrícia: Isso eu não vi, eu estava na terceira fila. E achei que poderia ser mais próximo ainda, imaginei o público dispostos em uma arena de 3 lados, pertinho, tomando cerveja também, em um modelo mais de esportes que teatro de sala fechada.
Cibele: Talvez aí eu gostasse mais!

Então, reconsideramos o espetáculo a partir do espaço e concordamos na arena. Obviamente, essa consideração não é de nossa alçada, mas o interessante é o exercício do diálogo entre diferentes pontos de vista. Inclusive concretamente, nossos pontos de vistas eram distintos - eu vi mais de perto, ela de longe - o que inevitavelmente afeta a construção de nossas subjetividades e opiniões. A diferença, no entanto, não precisa ser motivo de briga, e, sim, de intercâmbio. Eu diria inclusive, de intercâmbios festivos. Eu estarei certa e claro que a Cibele está certa. O espetáculo é meio cafona, sim. Mas, como eu disse, eu gosto de cowboys, de cafonices, da Cibele, de divergências e polifonias tortas.


*

Patrícia Fagundes: diretora e produtora teatral, professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, fundadora da Cia Rústica de Teatro. Doutora em Ciências do Espetáculo (2010) pela Universidad Carlos III de Madrid (bolsa CAPES), Mestre em Direção Teatral (2003) pela Middlesex University de Londres.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Rodrigo Monteiro #7: Lonesome cowboy

Foto: Mario Del Curto

Até no futebol

Lonesome cowboy não me oferece muita coisa para analisar além do seu todo. Eu simplesmente, por isso, não consigo escrever sobre ele, bem como sobre nenhum espetáculo de dança contemporânea, sem escrever sobre mim. Não tenho recursos para fincar pontos de discussão, gêneros, categorizar propostas, dissertar: a difícil tarefa de dissecar um objeto morto, sabendo que, vivo, ele é milhões de vezes melhor. Quando eu, na dura intenção de descrever, mato o espetáculo, no caso da dança, vejo a mim mesmo sob a luz branca.

Cinco homens que não mostram nada de cowboys solitários em cena num palco totalmente limpo de cortinas. Os homens não são mesmo solitários. Não é folclore: os homens são muito amigos dos homens do que as mulheres das mulheres. As brigas entre homens acabam quando acabam, sem picuinhas, sem complicaçõezinhas, sem quequequé. Os homens não brigam com amigos por causa de mulheres ou de outros homens. Vão até onde podem e se afastam, porque a amizade vem antes de tudo. Acima do jogo, acima do trabalho, acima do amor. Em Lonesome cowboy, os abraços são constantes, as trocas de afeto e o trabalho em equipe. Composta inicialmente para sete bailarinos, os cinco restantes sentem a morte de um deles e a saída de outro. Dirigidos pelo mestre Philippe Saire, brancos, negros, cabelos raspados e cabeludos convivem sem gritos histéricos e troca-troca de energia. O homem é constante, o sol é o seu regente, graças a deus.

O chão em que marcas são feitas, expondo o fundo branco abaixo da superfície negra, me remeteu às rugas, às manchas, à velhice que sempre deixa os homens mais charmosos. Ao envelhecer, nós, homens, o fazemos com o prazer de longas amizades, de memórias interessantes, do orgulho de termos feito que foi possível.

Há pouco de partituras rígidas e coreografias precisas em Lonesome cowboy. Cada homem desenha o seu caminho pelo destino que quer alcançar. A ordem é seguida respeitando as idiossincrasias, e os cinco bailarinos utilizam, para dissertar sobre esse tema, seus movimentos quase próximos de gestos cotidianos: simplicidade e, ao mesmo tempo, galhardia.

Lonesome cowboy é um comentário sobre a masculinidade, sobre os homens, sobre a energia masculina. Na língua portuguesa, as desinências de gênero feminino se fazem necessárias, enquanto a do gênero masculino é o zero. Por isso, se escreve professorA e professor, ao invés de prefessorO. Talvez venha disso o cansaço que sentimos durante os sessenta minutos de espetáculo. Não há conflitos quando o assunto é homem. Porque, mesmo quando o tema é futebol, a amizade prevalece.


*
Rodrigo Monteiro: Licenciado em Letras - Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.Bacharel em Comunicação Social - Habilitação Realização Audiovisual pela mesma universidade. E mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jurado do Troféu Açorianos de Teatro 2010 e, também, do Troféu Braskem 2010, é autor do blog www.teatropoa.blogspot.com de Crítica Teatral de Porto Alegre