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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Júlio Conte: A máquina de abraçar


Foto: Ivo Gonçalves / PMPA

A máquina de abraçar

A peça A máquina de abraçar oferece muitos atrativos aos mais diversos públicos. Aliás, esta é a questão que se que impõe no teatro contemporâneo: com quem o artista fala. Esta pergunta foi feita por mim para Eugenio Barba em recente palestra no SESC Porto Alegre e sua resposta foi que se faz teatro para si mesmo. Em conversa com Marcelo Restori, ele também sustentou este ponto de vista. Porém, esta perspectiva, talvez, valha para o artista, mas certamente não para sua obra. As peças têm vida própria e, como filhos, fazem seu caminho à revelia dos pais. Desta forma, penso que cada obra teatral sofre a dor e a delícia de suas opções e, deste modo, escolhe e é escolhida pelo seu próprio público. E, mais trágico, não depende da vontade consciente do artista. Quando um espectador não gosta de determinada peça, há que se perguntar se ele é o receptor efetivo de tal obra, se ele é o endereço, o alvo, a mira, a vitima, o felizardo, enfim, se ele é a ilha em que pousa aquela garrafa jogada ao mar que é o objeto do teatral.

O tema do autismo que constitui um fenômeno obscuro dentro do humano em primeiro lugar. Casos clínicos levados ao palco oferecem um banquete emocional e intelectual. Recentemente estive em cartaz com O rei da escória com uma bela receptividade, cujo texto encontra-se em processo de roterização para cinema. Wilfred Bion, psicanalista iconoclasta inglês, nascido na Índia, afirmou que havia mais vida nos personagens ficcionais de Shakespeare do que a vida real de pacientes apresentados em congressos de Psiquiatria e Psicanálise. Sustentava, assim, que uma vida só pode ser retratada pela linguagem poética e que a ciência era um reducionismo da complexidade que é o ser humano. A narrativa da peça A máquina de abraçar, ao optar por uma forma de Congresso com apresentação de um caso clínico como opção cênica, se arisca, mas tem seus méritos. Lembra, em sua forma de apresentação, o Manual prático da mulher moderna com a diferença de que, neste o humor, é a busca enquanto que, no primeiro, há uma proposta de criar um clima de estranhamento, desconcerto e certo mal estar no público – tratado, cenicamente, como participante do Congresso – deixando implícito que há crítica velada e feroz à condução do caso que será apresentado. A hostilidade em apresentações clínicas costuma efetivamente acontecer neste tipo de congresso. Por isso a combinação é interessante. A peça tem um movimento inicial difícil, em que se trata de situar a peça como apresentação de caso clínico, mas que ganha vida com a entrada em cena de Iris, o objeto de estudo do caso. Neste momento, o monólogo se transforma no diálogo sustentado por intervenções explicativas para o público “especializado”, que somos nós, espectadores. A partir da entrada de Iris, a paciente autista, a peça ganha força dramática, pois temos acesso a sua versão dos fatos. Vemos sua relação vital com a samambaia, o modo como lida com o tempo, o corpo e afetos, e suas dificuldades em lidar com aquilo que é humano, têm carne e tem vida.

O debate central, em minha opinião, se trava entre diferença entre ser e desejar. Iris tem acesso ao trabalho da psiquiatra e não concorda com a palavra desejo e, com razão, embora a forma dos argumentos me parecessem estar aquém da capacidade apresentada pela personagem, funciona, porém dramaticamente e destaca o ponto de clivagem entre analista e paciente. Aparece o desejo do analista de que o paciente tenha um desejo. Enquanto que o estado de “paisagem” de Iris, sempre a mesma, sem enquadre, amorfa, se choca com o conceito de desejo da analista na medida que remete não a algo mais que mantenha a vida, mas restritivamente ao viver. Desejo é uma espécie de janela psíquica pelo qual vemos o mundo. É resultado de uma falta e, com isso, ao limite e à castração simbólica, tudo isso mais além e aquém do mundo de Iris que transcorre numa paisagem estática, sem ritmos maternos e, por isso, a busca de movimentos repetitivos, estereotipados que poderiam ser pensados como tentativas pífias de encontrar o ritmo do coração materno. Busca de um afeto, da respiração e de um estado emocional de acolhimento. Este deserto emocional determina o mundo autista, voltado apenas ao ser. Daí a máquina de abraçar, geringonça da madeira, que aperta Isis e acalma, simulacro de abraço, que remanesce fora de cena, aludida, e referenciada.

A interpretação das atrizes é convincente, a encenação simples, direta, crua. Um trabalho que demanda encontrar um público que o aprecie, pois enfrenta o desafio de conferir emoção num ambiente de cientificismo e, como Freud, em sua busca de conferir credibilidade cientifica para a psicanálise, constatou com certa decepção:

- Não importa por onde eu passe, um poeta passou antes.

E viva a poesia.


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Júlio Conte é médico psicanalista, diretor de teatro, ator e dramaturgo. Membro pleno do Centro de Estudos Psicanalítico de Porto Alegre, fundador do Instituto Wilfred Bion e professor no Instituto Contemporâneo. Escreveu várias peças, entre elas, se destacam: Bailei na curva, Se meu ponto G falasse, O rei da escória e Larissa não mora mais aqui.

Leandro Ribeiro: A máquina de abraçar

Foto: Ivo Gonçalves / PMPA

A máquina de abraçar
Vivemos a época do individualismo. A cada instante, nos fechamos mais e mais dentro de nosso casulo e nos tornamos seres ególatras, incapazes de perceber o outro. Incapazes de um gesto bondoso ou de uma manifestação simples de afeto. Incapazes de estabelecer relação com próximo. Esquecemos das regras básicas de convivência: do bom dia ao motorista de ônibus, do sorriso despretensioso para um amigo etc. Esquecemo-nos das trivialidades. Da simplicidade das relações do cotidiano. Todo e qualquer ato, seja de afeição ou de gentileza, parece estar diante de um obstáculo intransponível. Tamanha é a nossa falta de tato para lidar com as coisas simples. É sobre isso que trata A máquina de abraçar, texto do espanhol José Sanchis Sinisterra, em tradução de Eric Nepomuceno. A atriz Malu Galli, em sua estréia na direção, nos propicia um espetáculo dos mais sinceros e impertinentes desse 17º Poa Em Cena. Sincero por mostrar, na medida exata, uma história simples e que, de regra geral, foge ao que vem se fazendo aqui em Porto Alegre nos últimos tempos: é um espetáculo de texto. Verborrágico. Delicioso. Prova maior de que não é necessário dar piruetas no palco ou executar compassos de dança para se ter um belo espetáculo. Se o texto é bom e os atores melhores ainda, nada mais é necessário. Nenhuma partitura extravagante ou uma cadencia de imagens são necessárias. N’A máquina de abraçar, a complexidade está no texto e nas relações que se estabelecem entre ele e as personagens; Impertinente por parte do autor, por ter no autismo, doença incurável e de origem desconhecida, a mola propulsora da cena. A grande ferida que instiga cada espectador todo o tempo.

Tudo o que se refere ao concreto, nesse espetáculo, esbanja simplicidade: o cenário é composto por duas mesas e duas cadeiras, dispostas uma de cada lado do palco. Na parte superior, à direita, uma samambaia. Um telão (desnecessário) ao fundo. A iluminação também é simples. Quanto à sonoridade, pontuam-se por vezes sons desconfortáveis a um burburinho de vozes que por vezes pontua o espetáculo.

Sobre ele, trata-se de um congresso psicanalítico. Na cena, uma terapeuta e sua paciente autista. Ao iniciar, ouve-se um grande burburinho de vozes. Tanto podem ser as vozes da platéia do congresso, como também as vozes das plantas que ecoam na mente da autista. Enfim. Temos um grande solilóquio da terapeuta (Marina Vianna) durante mais de 20 minutos. Tentando explicar aos presentes o motivo de estar ali e falando de seu desconforto por não estar diante da platéia esperada, já que suas teorias sobre o autismo não empolgam seus pares. Como consolo, resta a ela falar para o público presente, mesmo que este não entenda muito sobre o assunto a ser tratado. É, nesse início, que o ritmo cai bastante. Marina não consegue prender a atenção do espectador. Mas talvez essa seja a proposta, visto que vivemos num tempo em que cada vez mais as pessoas são egoístas, incapazes de dar sua atenção ao outro. A palestra é sobre a superação de sua paciente autista (Mariana Lima) e de como esta conseguiu estabelecer relações com esse mundo estranho que a cerca. A peça cresce em ritmo e empolgação a partir da entrada de Mariana, com certeza uma das melhores atrizes que passaram por este Em Cena. Totalmente à vontade, sua personagem – Íris – vem falar ao público de sua capacidade de comunicar-se com as plantas. De como se estabeleceu um processo de entendimento entre classes tão distintas. E, a partir do instante em que Íris fala, todo o palco passa a ser dela. Pois é impossível sequer desviar o olhar. Desviar a atenção. A complexidade da composição de Íris possibilita para o espectador estar realmente diante de um autista. Estão lá quase todos os sintomas comportamentais, explorados de uma maneira minimalista. A forma com que ela dá o texto irradia uma veracidade e autenticidade impressionantes. As pausas, as quebras de ritmo, tudo isso se observa no impressionante trabalho de Mariana Lima. Fora isso, o lirismo com que concebeu a personagem e a simplicidade do olhar e até a simplicidade dos gestos desconexos são momentos de perfeita harmonia em todo o espetáculo. Marina Vianna, mesmo com o início entediante, absorve sua personagem de maneira dinâmica e pontualística. Há harmonia na relação de cada uma dessas mulheres, mesmo que observem o mundo por pontos de vista tão incongruentes.

Íris ganhou do tio uma máquina de abraçar. Há nela três tipos de abraços bem distintos. De intensidades diferentes. Por aonde vai, sua máquina a acompanha. É dela o barulho de britadeira que, por vezes, inunda o palco. Mas a complexidade de estabelecer relações com o outro – característica do autismo – é, na verdade, a dificuldade ou impossibilidade que temos – nós, criaturas ditas normais - de estabelecer relações com o outro. Como já dito no início desta resenha, Íris desenvolveu sua maneira particular. Ela compreende as plantas, mão não compreende o homem. Pois o homem não é para se compreender. Num momento antológico, Íris vai até a plateia e se dirige a alguém, a um espectador qualquer. Pede sua mão. Do espectador, percebe-se certa resistência. Mas, enfim, cede. Íris pega-a. Absorve a mão do outro para si. Tenta de alguma forma compreender o humano. Mas falta a liga, a essência necessária para se estabelecer esse contato. É o individualismo de que falei outrora. A incapacidade que temos de estender a mão. De ver e compreender o outro. A palestra é interrompida pelos organizadores que pedem para que todos deixem o local. A terapeuta pede que todos aguardem mais um pouco. A máquina de abraçar de Íris quebra. Incapaz de ter seu abraço automático, ela se entristece. É aí que a liga começa a deixar tudo mais homogêneo. A terapeuta quebra suas próprias barreiras. Pede para dar-lhe um abraço. Abraçam-se. Será o início de uma nova maneira de ver o outro? Saio do teatro reflexivo. Encontro Luciana Olendski (atriz e diretora) no corredor. Nos abraçamos, e, assim, ficamos por algum tempo. Segundos, é verdade. Mas necessários para começar a mudar as coisas.

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Texto: José Sanchis Sinisterra / Tradução: Eric Nepomuceno / Direção: Malu Galli / Assistente de direção: Arthur Braganti / Direção de Arte: Raul Mourão / Direção de imagem: Caetano Gotardo / Direção de movimento: Denise Stutz / Direção de cena: Márcia Machado / Elenco: Marina Vianna e Mariana Lima / Figurino: Simone Mina / Direção musical: Rodrigo Marçal Estúdio Arpx / Iluminação: Maneco Quinderé / Produção executiva: Roberta Koyama / Direção de produção: Henrique Mariano / Realização: Machenka Produções / Duração: 1h20min / Classificação: 16 anos

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Leandro Ribeiro tem 32 anos e é diretor de teatro, graduando do curso de Teatro-Habilitação em Direção Teatral da UFRGS. Criador da Cia. de Teatro Gato&Sapato, estabelecida em Porto Alegre desde 2008. Entre seus espetáculos, estão Dois perdidos numa noite suja (2008), A aurora da minha vida (2009), Docemente pornográficos (2010) e O abajúr lilás (2010). Atualmente prepara a estréia de Pigmalião, a nova temporada de A aurora da minha vida e o show Cale-se: as músicas censuradas na Ditadura Militar.