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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aos nossos filhos (SP)



Dias 4 e 5, às 20h
Teatro Renascença
 
As relações familiares contemporâneas formam o tema central do espetáculo Aos nossos filhos, que aborda, mais especificamente, o embate de mãe e filha. Com texto de Laura Castro e direção de João das Neves, a montagem leva pela primeira vez aos palcos brasileiros a atriz portuguesa Maria de Medeiros, conhecida mundialmente por sua atuação no filme Pulp fiction, de Quentin Tarantino. O espetáculo é uma das apostas da 20º do Porto Alegre em Cena. Em uma noite de inverno, a filha, Tânia, 35 anos, chega na casa da mãe para contar que sua companheira já há 15 anos está grávida do primeiro filho do casal, concebido por inseminação artificial e doador anônimo. A mãe, Vera, é uma mulher de 60 anos, atualmente solteira, que teve três casamentos, dois dos quais com filhos e ajuda até hoje a criar também os enteados - filhos do último marido. A notícia causa um choque inicial, pois apesar de ter sempre respeitado a relação da filha, não imaginava que fosse possível que concebessem filhos. De uma primeira surpresa, seguida de uma forçada comemoração e algumas taças de vinho, as dificuldades com a situação começam a emergir enquanto os transtornos de uma infância com muitas casas, lugares e padrastos também surgem na memória de Tânia. Uma noite de conflito e de encontros é a catarse necessária para duas mulheres quando uma efetivamente se dá conta que está se tornando mãe e a outra, avó.

 
Ficha técnica
Direção: João das Neves / Texto: Laura Castro / Elenco: Maria de Medeiros e Laura Castro / Piano: Filipe Bernardo / Iluminação: Paulo César Medeiros / Cenário e figurinos: Rodrigo Cohen / Programação visual: André de Castro / Produção executiva: Renata Peralva / Direção de produção: Marta Nóbrega - JLM Produções Artísticas / Recomendação etária: 14 anos / Duração: 90 minutos


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Peep classic Ésquilo (SP)


Dias 16, 17 e 18, às 20h
Teatro Renascença
 
Pela primeira vez na história uma companhia encena todas as peças do mais antigo autor de teatro: Ésquilo. Dentro de um cubo formado por linhas metálicas, sem qualquer trilha sonora, os atores dão vida de forma surpreendente aos textos criados na Grécia antiga. Peep classic Ésquilo é mais do que um espetáculo, é um evento criativo e desafiador que teve amplo sucesso de público e crítica, sendo eleita a melhor estreia nacional de 2012. São seis obras em três dias – As suplicantes e Os persas, no primeiro; Sete contra Tebas e Prometeu, no segundo; e Oresteia I e II, no último –, o que possibilita ao público uma experiência rara e de imenso alcance artístico e filosófico, através de uma estética imprevisível que dialoga com obras de arte atemporais e que desencadeia diversas reações nos espectadores.
 

Ficha técnica
Direção, tradução e adaptação: Roberto Alvim / Texto: Ésquilo / Elenco: Juliana Galdino, Paula Spinelli, Gabriela Ramos, Martina Gallarza, Bruno Ribeiro, Fernando Gimenes, Marcelo Rorato, Renato Forner e Ricardo Grasson / Figurino: Juliana Galdino / Iluminação: Roberto Alvim / Produção Executiva: Marcelo Rorato / Recomendação etária: 16 anos / Duração: 50 minutos (cada dia)

 

Eudóxia de Barros (SP)


Dia 13, às 20h
Teatro Renascença
 
Pertencente à Academia Brasileira de Música, a pianista se dedica desde a infância ao estudo de compositores brasileiros e tomou como missão pessoal influenciar o meio artístico para difundir a música nacional. Considerada hoje a maior pianista clássica brasileira, Eudóxia apresenta um recital didático no qual discorre sobre o compositor, a música, e toca um repertório variado com Mozart, Chopin, Liszt, Osvaldo Lacerda (seu falecido marido) e Lorenzo Fernandes. No roteiro da apresentação está ainda Ernesto Nazareth, cujo centenário a artista festejou com o lançamento do LP Ouro sobre azul, há 50 anos, quando introduziu um novo jeito de tocar suas composições.


Ficha técnica

Direção e atuação: Eudóxia de Barros / Recomendação etária: Livre / Duração: 80 minutos

Oh, os belos dias (SP)


Dias 20, 21 e 22, às 20h
Teatro Renascença
 
Atores como Sandra Dani e Luiz Paulo Vasconcellos, que acompanham e se fundem com a trajetória do Porto Alegre em Cena, não podiam faltar na programação desta edição comemorativa. Seu mais recente trabalho está na programação do Festival, numa direção de Rubens Rusche, grande pesquisador do teatro contemporâneo, com vasto conhecimento sobre a obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett.
“Todo o teatro de Beckett, sem exceção, é para mim um retorno ao teatro na sua pureza, ao teatro enquanto teatro, em que o ser humano se encontra integralmente presente em todos os seus dilemas”, observa Rusche. Oh, os belos dias – no original Happy days - é uma peça intrigante em dois atos, onde, num cenário desértico, banhado por uma luz clara e intensa, emerge o tronco de uma mulher, Winnie, enterrada até a cintura. Brutalmente despertada por um som estridente e metálico, Winnie se dedica a suas tarefas cotidianas, como se sua situação fosse absolutamente normal, e fala sem cessar com seu marido, Willie, que permanece oculto e calado na maior parte do tempo. A peça recebeu o prêmio do 17º Cultura Inglesa Festival.
 
 
Ficha técnica
Texto: Samuel Beckett / Direção e tradução: Rubens Rusche / Elenco: Sandra Dani e Luiz Paulo Vasconcellos / Cenografia: Ulisses Cohn / Iluminação: Wagner Freire / Figurinos e visagismo: Leopoldo Pacheco / Aderecista: Viviane Ramos / Cenotécnico: Fernando Brettas / Assistente de direção: Cláudia Maria de Vasconcellos / Produção executiva: Johanna Rusche / Fotografia: Jean-Charles Mandou / Vídeo: Samuel Rusche / Coordenação geral: Rubens Rusche. Recomendação etária: 14 anos. Duração: 110 minutos (intervalo de 10 minutos)

Não sobre o amor (SP/PR)


Dias 10, 11 e 12, às 21h
Theatro São Pedro
 
A montagem que marcou o retorno de Felipe Hirsch a um espetáculo de câmara teve sua estreia em 2008, com enorme sucesso de público e crítica no Brasil e na Espanha, recebendo o prêmio BRAVO! de melhor espetáculo do ano e o Prêmio Shell de cenário e iluminação. Baseada na troca de correspondências entre os escritores Victor Shklovsky (Leonardo Medeiros) e Elsa Triolet (Simone Spoladore), Não sobre o amor é a realização de uma metáfora. À primeira vista é uma história de amor que se transforma no decorrer de uma relação epistolar. A mulher que nega o seu amor é também a juventude e autoconfiança perdida, a impossibilidade de voltar para casa, é a distância do que somos autenticamente.
 

Ficha técnica:
Peça de câmara de Felipe Hirsch e Murilo Hauser / Autor: Victor Shklovsky e Elsa Triolet / Direção geral: Felipe Hirsch / Elenco: Leonardo Medeiros e Simone Spoladore / Cenografia: Daniela Thomas / Cenotécnico responsável: Nietzsche / Iluminação: Beto Bruel / Assistente de iluminação: Sarah Salgado / Figurino: Verônica Julian / Trilha sonora original e edição: Rodrigo Barros Homem Del Rei e L. A. Ferreira / Trilha sonora pesquisada: Felipe Hirsch e Murilo Hauser / Tradução do material de pesquisa: Ursula de Almeida Rego Migon/ Produção executiva: Bruno Girello / Direção de produção: Luque Daltrozo  / Produção: Daltrozo Produções / Criação e realização: Sutil Companhia de Teatro / Recomendação etária: 12 anos/ Duração: 90 minutos

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

São Paulo Companhia de Dança por Cibele Sastre


Eu ainda não tinha assistido à SPCD. Foi minha primeira vez. A primeira impressão tem que ser boa para haver empatia. Nada melhor do que um Balanchine para quebrar o gelo! Depois dele, um ar nostálgico que irrompe com o trabalho de Nacho Duato, coreógrafo que assisti nos áureos tempos do Carlton Dance Festival. Parece que quanto mais o tempo passa maior é a 'novelinha que passa na cabeça' quando vemos trabalhos que um dia fizeram parte de nossos ideais artísticos. O tempo passa, artistas se consagram, repertórios tornam-se referências. Impressões e apreciações andam juntas não por serem duas simétricas e lineares companheiras, mas por serem convergentes na definição e atualização do olhar. Com menor referência sobre o terceiro trabalho apresentado na noite do dia 22 de setembro, Supernova inaugurou em mim a sensação de doce estranhamento da noite. O programa não podia ser mais expressivo da  variedade a que a Cia se dedica. Reforça o impressionante domínio do movimento de um grupo nem tão homogêneo assim. Nada mais emblemático do que o comentário da querida pessoa que sentou ao meu lado, por acaso, uma adulta que já fez aula de dança moderna comigo nos idos anos 90, dizendo-me responsável por desenvolver seu gosto pela apreciação da dança: “nem precisa entender nada. A gente sente tudo.” Sem saber a ordem do programa, depois de Balanchine não sabíamos o que vinha: “[…] nem precisa dizer qual é o espanhol e qual é o alemão”. Voltei feliz da vida aos anos 90.
A companhia me surpreende por sua performance, entendida aqui como desempenho. Não vamos falar de physique de role quando se fala de Balanchine, claro. A oportunidade que a SPCD nos dá ao incluir em seu repertório Tema e variações é um presente raro e que talvez poucos saibam apreciar. De que ballet se fala quando se tem à frente uma coreografia de Balanchine? O jogo coreográfico das variações de movimentos do ballet me convida a apreciá-lo como raramente consigo fazer. Que sutil operação nos apresenta este coreógrafo, com efeitos esplendorosos. A Companhia, comprometida com a presentificação de repertórios de coreógrafos consagrados nem sempre em circulação pelo Brasil, além de comprometer-se com o rigor de cada obra e coreógrafo, nos mostra a excelência de um grupo afinado e preciso. Feito no Brasil.
Natcho Duato rompe com a suspensão que a sinergia dos corpos havia produzido no público. Ele traz de volta para esta conversa corporal, que é o melhor modo de apreciar dança, um ritmo enraizado na coluna vertebral, e mesmo em nossa kundaline. Como nos diz Laurence Louppe, o tônus postural fala à consciência do espectador. Eu diria também que a soltura articular rearticula e amplia nosso senso de corpo. Nada mais evidente disso do que os espantos de tantos: “nossa, a gente não tem ideia do que um corpo pode”. Cada singularidade é instigante e fecunda. Saímos do teatro com a certeza de que nossos corpos podem muito mais do que o que deles dispomos. Saímos todos mais bailarinos, primitivos e especializados. A excelência de uma performance corporal como esta mora na disponibilidade dos corpos dos bailarinos ao treinamento saboreado, técnico e poético, desdobrado não só na produção coreográfica, mas também em projetos sociais que a cia proporciona, em seu exercício de articulação entre dança e sociedade. Com isso, cumpre um papel vital para a própria existência, afinal, a discussão sobre o investimento público nas artes está sempre na pauta de quem é atuante e nem sempre compactua com o valor dado às grandes companhias de dança.
Supernova parece compor o estranhamento com elementos ora racionais ora sensoriais. Visualizamos a energia que circula no palco através de corpos que se condensam e se expandem. O espaço se torna visível pelo tratamento dado ao movimento: a relação corpo-espaço do mestre Laban é aqui matéria visual e composicional. Condensar, neste caso, não é comprimir o corpo, mas potencializar a energia em circulação no espaço dentro e fora do corpo. Condensar potencializa a rápida explosão esférica, com acentos espaciais lineares pontuando nosso olhar para a tal relação corpo-espaço, desenhando o que Laban chamou de ritmos espaciais. A trilha sonora recheada de múltiplas informações não permite qualquer acomodação catártica. Razão e emoção operam juntas na composição dos diversos elementos desta dança. Fechar o programa com esta obra valoriza-a, valorizando também o aquiagora de cada um.
Conhecer Marko, Duato, Balanchine em corpos brasileiros alimenta nosso desejo estético de dança, nos mostra não só o que as maravilhosas coreografias podem nos mostrar, mas também, o quanto é possível vê-las em corpus brasilis. Eu sempre alimento um desejo de assistir obras com as cias. para as quais elas foram criadas e a SPCD flexibilizou esse desejo. A dança precisa de apreciadores. Ser meio de difusão de trabalhos consagrados é tornar viva a relação entre a dança e seu público. Compreender esta função pode/deve ajudar a fortalecer nosso trabalho como criadores e como educadores em dança em qualquer nível. Saio do espetáculo mobilizando a espinha, condensando gestos, explodindo-os mais tarde em formas que não se aproximam do que foi visto, disparam novam concepções. E há sempre um prazer, lá dentro do abdômen, quando alguém diz: é por tua causa que eu estou aqui no teatro!
 
*Cibele Sastre é bailarina e professora de dança

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Preferiria não? por Laura Backes


A que você preferiria dizer não?
 
Antes de ir assistir Preferiria não? de Denise Stoklos perambulei pela internet para saber um pouco mais sobre o espetáculo. Baseado no conto Bartleby, o escrivão, do estadunidense Melville, o personagem título dá eco a um tema que há muito tem me atraído: a necessidade de agir no mundo de forma desapegada. Desapegada de convenções, desapegada do comércio de afetos, desapegada do consumo. Em um tempo que nos impõe diversos must have, must do, must see - que nos oferece uma avalanche de imagens, textos, ideias - criar espaços vazios para si, para o mundo, é imensamente necessário. A que preferiríamos dizer não? 
No conto - que Denise reproduz no palco mesclado a comentários pessoais sobre política e sobre as exigências impostas a artistas no mundo dos editais e patrocínios - Bartleby é um funcionário de um escritório que começa a dizer “Preferiria não [fazer]” às diversas tarefas que lhe são pedidas. Entre intrigado e encantado, alternando raiva e pena, seu patrão é incapaz de confrontá-lo.  
Há algum tempo tenho me dado conta que também eu tenho me encantado com personagens que apresentam essa recusa às convenções mundanas. Eles aparecem nos filmes que mais me marcaram ao longo da minha vida, apresentando esse desapego sob diversas facetas.
Há o sábio ermitão arquetípico Dersu Uzala (do Kurosawa), que vive em meio às florestas. Ou o jovem retratado por Sean Pean em Na natureza selvagem – baseado em uma história real - que recusa seu passado burguês e queima todo o seu passado em busca de um contato desapegado com o mundo e a natureza, mas cuja ingenuidade em dimensionar sua pouca experiência lhe reserva um fim fatal. 
Um outro personagem marcante é a mochileira vivida por Sandrine Bonnaire em Sem teto nem lei, de Agnès Varda, que em seu caminho recusa qualquer comércio afetivo, qualquer dever de civilidade: reage ao presente, somente isso. Há ainda aqueles o que recolhe para se dedicar à arte como o músico de Todas as manhãs do mundo, de Alain Corneau. 
Entretanto, a recusa de Bartleby é mais extrema. Ele não almeja nenhuma sabedoria, nenhuma transcendência, nenhuma aventura. Até chegar ao extremo de recusar comida, recusar à vida: morrer. Denise alerta na peça que psicanalistas o veem como esquizofrênico: nem desejo sequer ele tem. E filósofos como um ícone da desobediência civil, o exercício do livre arbítrio em sua totalidade: parar o sistema. Mas ele não quer ser ninguém e espelha nossa vontade de também abrir mão de tudo. De não querer ter uma utilidade, um fim. Sua loucura expõe nossas feridas. Desconfia daquele que se encaixa demasiadamente ao sistema doentio do mundo.
Ao começar o espetáculo não se tem dúvida nenhuma do domínio que Denise tem de seu corpo (ela desenha gestos no espaço absolutamente precisos) e voz (projetada, clara, cheia de nuances). Ela nos transporta para onde ela quer transportar. O palco é quase nu: estantes de partituras espalhadas, com livretos no qual se lê o nome de Bartleby; uma mesa. O domínio se estende ao tempo cômico. Vários aplausos em cena aberta. Como quando ela diz que cagar e andar é o suprassumo da maturidade.
Também eu ri. Mas aos poucos parei. O excesso de piadas passou a me incomodar. Parecia-me que os gestos eram excessivos, que eram demasiadas as piadas, que elas não estavam ali para ajudar a penetrar na beleza da recusa de Bartleby: a beleza de ser inútil, de NÃO SERVIR. A sensação que tenho é que Denise não conseguiu se despojar totalmente de suas muletas, não abriu mão do riso fácil do público.Que ainda não consegue dizer não a muitas coisas às quais ela gostaria. Não ousou se entregar totalmente à beleza selvagem da inutilidade.
Bartleby pede menos. Ele pede um despir-se de qualquer excesso. O essencial: um lugar pra dormir, um pequeno pedaço de queijo envolto no jornal. É justo na cena na qual o narrador/patrão examina os humildes pertences de Bartleby que o espetáculo revela sua alma. 
Ao final da peça, resisti um pouco, mas por fim levantei pra aplaudir. Mas não estava aplaudindo por estar revigorada com a peça. Aplaudi a imensa atriz que estava à minha frente. Agora que já se passaram alguns dias, sei que aplaudo também a escolha de Bartleby. Mas ainda não sei se só aplaudi de pé por que não tive coragem de dizer que preferiria não.
 
*Laura Backes é atriz

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

São Paulo Companhia de Dança (SP)

Dias 22 e 23, às 21h – Salão de Atos da UFRGS
A São Paulo Companhia de Dança, mantida pelo Governo do Estado de São Paulo e dirigida por Inês Bogéa, apresenta um repertório variado que vai do clássico ao contemporâneo. A SPCD busca uma conexão com a plateia pela paixão, curiosidade e percepção do mundo da dança em movimento. Nas apresentações do Em Cena, o grupo selecionou três coreografias especiais: Theme and variations (1947), de George Balanchine, onde o célebre coreógrafo evoca o florescimento da dança clássica; Gnawa (2005), criação de Nacho Duato, inspirada na natureza valenciana, cercada de mar e sol, e em aromas, cores e sabores mediterrâneos, e Supernova (2009), com coreografia e figurinos de Marco Goecke, inspirado pela música de Antony & The Johnsons e pelo fenômeno astronômico das supernovas. Um programa para contemplar todos os amantes da dança clássica e contemporânea, apresentado por uma das mais prestigiadas companhias brasileiras, cujo trabalho é cada vez mais reconhecido e apreciado.

Ficha técnica:
“Theme and Variations” (1947) – Coreografia: George Balanchine (1904-1983) / Música: Movimento final da Suíte nº3 para Orquestra em G Maior, Op. 55, de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893) / Remontagem: Bem Huys / Duração: 25min / 26 bailarinos / “Gnawa” (2005) – Coreografia: Nacho Duato / Música: Hassan Hakmoun, Adam Rudolph, Juan Alberto Arteche, Javier Paxariño, Rabih Abou-Khalil, Velez, Kusur and Sarkissian / Figurinos: Luis Devota e Modesto Lomba / Iluminação: Nicolas Fischtel / Remontagem: Hilde Koch e Tony Fabre / Organização e Produção cultural: Carlos Iturrioz Mediart / Producciones SL (Spain) / Duração: 21min / 14 bailarinos / “Supernova” (2009) -  Coreografia e figurinos: Marco Goecke / Música: Pierre Louis Garcia-Leccia, álbum “Ohimé” faixa “Aka”, Antony & The Johnsons, álbum “Another Word” faixa “Shake That Devil” / Remontagem: Giovanni di Palma / Iluminação original: Udo Haberland / Dramaturgia: Nadja Kadel / Duração: 22min / 7 bailarinos / Recomendação etária: Livre

Preferiria não? (SP)

Dia 14 e 15 às 21h e dia 16 às 18h – Theatro São Pedro
O espetáculo é baseado no texto de Herman Melville, Bartleby, o escriturário, de 1853. A estrutura dramatúrgica da montagem mescla o texto de Melville com a biografia da protagonista, a grande artista Denise Stoklos, gerando capa e contracapa para sua performance. Segundo Denise, não há nunca intenção de “interpretar” os papéis, mas de fazê-los desaparecer, já que historicamente estão em interação social e afetiva, sob a perspectiva do olhar de hoje sobre o ontem e sobre o amanhã. O espetáculo abre e fecha com a representação de um simples “movimento do mundo” que pulsa independente de tudo. O caráter “duplo contínuo” está permanentemente em cena: o performer e o personagem e o personagem e o performer, sempre a fazerem-se ecos ou sombras entre si. Um jogo intrincado que se replica e triplica ao longo da encenação. Denise Stoklos tem, desde o “Manifesto do Teatro Essencial”, a premissa básica de estar “à procura de um teatro onde eu não faça nada, não mexa nada, não fale nada e ainda seja teatro”.
Ficha técnica:
Direção, Dramaturgia, Interpretação solo e Trilha sonora: Denise Stoklos / Iluminação: Francisco Alves da Silva / Figurino: Uma / Supervisão e Assistência de direção: Dayse Stoklos Malucelli / Fotografia: Thais Stoklos / Cabelo: Blend por Eloy Araújo / Duração: 85min / Recomendação etária: 14 anos

Poemúsica – Adriana Calcanhotto, Augusto de Campos e Cid Campos (RJ/SP)

Dias 17 e 18 de setembro, às 21h - Theatro São Pedro
Ver e ouvir Augusto de Campos, ao lado de seu filho Cid Campos e da gaúcha Adriana Calcanhotto, é um presente à plateia do Em Cena. Na apresentação intermidiática meio inclassificável (seria uma fala-show, show-fala ou showversa, entreouvista?, como anuncia o release original), o grande poeta brasileiro rememora passos de sua trajetória poética ligada à música, utilizando-se de vídeos, fotos e manuscritos inéditos entremeados de canções e recordações. Os inícios da poesia concreta, música para ser “ouvista”. A presença de Adriana Calcanhotto, que tem interpretado o trabalho de ambos em seus discos e performances, magnetiza a cena com brilho e inteligência. Poemúsica propõe interpretações musicais e oralizações ao vivo, com os três artistas abrindo espaço para um encontro poético-musical com Caetano (de Viva Vaia a Pulsar), as performances de Poesia é risco (já apresentadas no festival) e a presença de Provença no trabalho de Adriana. Para deleitar olhos e ouvidos e celebrar a reunião de três grandes artistas brasileiros.
Ficha técnica:
Direção, produção musical, voz, violão Synth e laptop: Cid Campos / Voz, guitarra e cello: Adriana Calcanhotto / Voz: Augusto de Campos / Iluminação: César Ramires / Duração: 80min / Recomendação etária: Livre

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A cobra vai fumar- Uma história da FEB (SP)

Dia 20 às 18h – Casa do Artista Riograndense
Dia 21 às 16h – Parque Farroupilha
DESCENTRALIZAÇÃO- ENTRADA FRANCA
O Teatro Popular União e Olho Vivo completou 45 anos de resistência artística. Seu objetivo principal é a troca permanente de experiências sociais e  culturais com as comunidades carentes de São Paulo e de todo o Brasil. Nessas quatro décadas desenvolveu um fértil trabalho, reconhecido nacional e internacionalmente. Suas encenações têm sempre como estrutura a arte popular brasileira, participando dos principais festivais internacionais da América Latina, Europa e África. No atual espetáculo, o objetivo é colocar ao alcance de todos a trajetória da F.E.B. – Força Expedicionária Brasileira, durante a campanha da Itália na Segunda Guerra Mundial, entre 1944/1945. A ida de soldados brasileiros para lutar na Europa, as implicações políticas e sociais que nortearam essa viagem, retratando o brado de revolta contra todas as injustiças e contra todas as guerras. Cabe destacar que dois dos personagens do espetáculo, Getúlio Vargas e o cabo Oto Muller, são gaúchos. Como em todos os seus espetáculos, o homem do povo será sujeito da ação e não mero objeto. Um espetáculo histórico, musical e brasileiro, trazendo mais uma vez o grupo a Porto Alegre.
Ficha técnica:
Direção e dramaturgia: César Vieira (Idibal Pivetta) / Assistente de direção: Oswaldo Ribeiro / Cenário, Figurino, Fotos e Vídeo: Graciela Rodriguez / Composição musical: José Maria Giroldo / Coordenação de percussão: Lucas César( Cesinha Pivetta)  / Preparação corporal: Clovis Lima e Douglas Cabral / Iluminação: Gil Teixeira / Produção musical: José Maria Giroldo e Ana Lucia Silva / Elenco: Ana Lucia Silva, Cátia Fantin, Cirena Calixto, Cícero Almeida, Clóvis Lima, Douglas Cabral, Ishac Calixto, ZéMaria Giroldo, Lucas César, Margarida Leme, Monique Flôr, Neriney Moreira, Oswaldo Ribeiro, Priscila Requena,Rafael Werblowsky , Thiago Nogueira e Will Martinez / Duração: 70min / Recomendação etária: 14 anos

sábado, 24 de setembro de 2011

Os credores por Rodrigo Monteiro

Os credores*

Em um determinado momento, na fileira atrás de mim, observei dois espectadores dormindo. Na minha fila, mais dois. Na plateia da frente (a encenação se organiza em galeria, isto é, a audiência se organiza em dois lados com a cena acontecendo no meio. O espectador vê a cena, mas também vê, além dela, a outra plateia), três pessoas de olhos fechados deitadas sobre os próprios ombros ou sobre o corpo da pessoa ao lado. O espetáculo Os credores, cujo texto foi escrito pelo dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) em 1888, participante do 18º Porto Alegre em Cena, deixa a seguinte dúvida: por que as pessoas dormiram ou ficaram sonolentas na apresentação a que eu assisti? A hipótese de que Strindberg não diz nada para o público de hoje é refutável por qualquer um que entenda um pouco de arte. Logo, o tédio do espetáculo só tem um responsável: o Grupo TAPA, dirigido por Eduardo Tolentino. De que forma é possível atribuir-lhe a culpa, promovendo uma análise do objeto estético teatral em questão? Indo às fontes. Aqui algumas hipóteses.
Strindberg é considerado o pai do teatro expressionista, sendo algumas de suas obras lidas a partir do gênero realista naturalista e outras mais tardias via simbolismo. Os credores está bem no meio dessa encruzilhada. Seu cenário é realista, seus personagens são naturalistas, mas a situação, disposta na forma tragicômica, é expressionista. Algumas marcas importantes: três personagens se encontram no hotel: o ex, o atual marido e a esposa. O que pode parecer um simples vaudeville se torna retrato das relações humanas que, talvez, só o bom teatro realista pode fornecer. Na abertura, o atual marido, Adolf, não sabe que Gustav é o ex de Tekla, sua esposa. Na sequência, Tekla não sabe que Gustav está no quarto ao lado ouvindo a conversa entre ela e o marido. No final, Tekla não sabe que Adolf está no quarto ao lado ouvindo a conversa entre ela e o ex-marido. Nos dois últimos pequenos atos, há uma peça dentro da peça e o mais importante desse jogo é que a parte principal, Tekla, desconhece isso. Esse, na verdade, é um recado da obra aos futuros realizadores: no teatro realista, a quarta parede precisa ser mantida. O expressionismo está na situação e não na realização.
Eduardo Tolentino, quando adapta Os credores para uma situação de galeria e organiza os atores para que eles, em vários momentos, busquem no público um certo contato visual, inibe qualquer chance de catarse, diminui as forças do texto, deixa a situação por demais previsível e, assim, muito entediante. O português extremamente correto dos personagens não foi adaptado para a nova situação. O figurino permanece bastante realista também. A situação de prisão vivida pelos personagens é marca naturalista mantida igualmente. O problema está no jogo entre os personagens e na relação com o público, esses sinais de que estamos diante de um novo ponto de vista sobre a obra.
Sergio Mastropasqua interpreta Gustavo, o ex-marido. Dos três atores, é quem sustenta a construção menos interessante justamente porque é quem mais joga (ou tenta jogar) com o público. Suas falas são ditas de forma irônica em várias ocasiões, a retórica se apresenta com pouca variação de tom, os gestos são enrijecidos, marcados, negativamente “teatrais”, nada naturais e, por tudo isso, bastante inverossímeis. O ator se movimenta no palco de forma muito precisa deixando ainda mais falsa sua performance. José Roberto Jardim (Adolf, o atual marido) e Sandra Corveloni (Tekla, a esposa), aparentemente mais concentrados no interior das quatro paredes, têm melhores resultados, embora sustentem marcas rígidas e pausas pouco críveis, sinais de que todos esses elementos concretizam uma concepção da direção. Bastante rica é a participação de Conrado Sardinha. Sem nenhuma fala e com atos a princípio bastante inexpressivos, o ator eleva a qualidade da peça nas poucas oportunidades que tem: seus olhares manifestam um personagem real, seu movimento tende ao natural e o modo como ele olha as cenas não traz nenhum registro de que estamos ali a observar-lhe.
Novos pontos de vista sobre obras são bem vindos sempre que estruturados em todos ou em vários aspectos necessários a sua viabilização. O contrário disso é desequilíbrio e insucesso. Nesse caso, monotonia.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O fantástico reparador de feridas por Rodrigo Monteiro

O fantástico reparador de feridas*
Fleumático. Dirigido por Domingos Nunez, o espetáculo O fantástico reparador de feridas apresentou-se no 18º Porto Alegre em Cena como uma peça de teatro bastante cansativa. Talvez, uma metáfora adequada para iniciar sua análise seja a imagem de uma fotografia em 16MB, aquelas que, quando chegam na caixa de correio eletrônico, trancam o computador. Quando você abre o anexo, descobre a mesma imagem poderia ter 200Kb, o que lhe permitiria, inclusive, repassá-la para outras pessoas. O que faz uma imagem ser tão pesada? A quantidade de pixels. A nova produção da Companhia Ludens, no que diz respeito à interpretação dos atores, é assim: cheia de detalhes.
O texto foi escrito por Brian Friel (Irlanda, 1929). São três monólogos justapostos. Três personagens compartilharam juntos décadas de um trabalho e de uma vida em comum. Nas cenas, os personagens dão a sua versão dos fatos ocorrido ao longo desses anos. Os três atores, Walter Breda (Francis Hardy), Mariana Muniz (Grace Hardy) e Fernando Paz (Teddy), deixam evidente o seu domínio de cena, manifesto pela forma como preenchem o palco, modulam as pausas, dizem o texto. A excelência da técnica empregada é inegavelmente grande. A falha, porém, é da direção, essa responsável pela visão geral da encenação: união das partes num objeto único. Não há uma só fala que não seja acompanhada de um movimento de sobrancelhas, meneio de cabeça, giro com as mãos. Os pés estão sempre bem apoiados no chão, os braços presos em algo ou exibindo uma tensão nos ombros. As expressões são duras, friamente calculadas e não corporalizadas. A interpretação carece de naturalidade, tom que convém mais ao drama do que o exagero das máscaras, mais próprio do melodrama. O português é correto demais, as pausas são falsas, os movimentos parecem buscar um sentido ao invés de expressá-lo. O excesso de afirmações torna o espetáculo de cem minutos pesado, o que é uma pena.
Felizmente, o peso dos elementos que, lado a lado, estruturam as interpretações dos personagens em particular, não se repete nas outras esferas da produção. O fantástico reparador de feridas é um espetáculo de produção modesta: uma faixa ao fundo, uma mesa e três cadeiras: cenário esse responsável pela bela e significativa cena final. A iluminação é adequada, a trilha sonora é potente, o figurino (com exceção do visível velcro na calça de Francis Hardy) é bem posto.
O texto de Friel traz propostas interessantes. Três lados de uma mesma história pode ser considerado, hoje, nada radical, mas sua importância não deixa de ser evidenciável. O único senão é o personagem Teddy. Uma vez que Francis e Grace sustentaram ao longo de décadas um romance, o que há de se dizer sobre Teddy? Seria o personagem assexuado? Qual é o seu conflito? Considerando que ele tem o mesmo tempo de exposição da sua visão acerca dos fatos, falta ao espectador mais motivos para ouvi-lo com atenção. Apesar disso, a companhia, que investe há algum tempo na produção de textos que estabeleçam a troca cultural entre Brasil e Irlanda, tem seu mérito garantido pela seriedade com que realiza o projeto. Embora não seja um grande espetáculo, sua presença não deixa de ser bem-vinda ao festival.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

Os credores por Renato Mendonça

Os credores ficou devendo*
Impossível não sentar na plateia da Álvaro Moreyra sem levar em conta o que eu já sabia sobre Eduardo Tolentino e o TAPA: um grupo coeso e coerente, cujos trabalhos se caracterizam pela excelente direção de atores e pelo cuidado ao remontagem de autores clássicos, como Vianninha, Tchekov, Plinio Marcos, Oscar Wilde, Nelson Rodrigues e Molière. O gênio da vez era Auguste Strindberg (1849-1912), e o texto, Os credores. As perspectivas eram as melhores, mas Os credores ficou devendo.
A trama escrita em 1888 segue o figurino impiedoso de Strindberg, especialista em expor as mazelas de instituições como a Família e o Casamento. Uma amostra da, digamos, reserva que o dramaturgo sueco dedicava às instituições pode ser medida por uma de suas frases mais famosas: “Família, tu és a morada de todos os vícios da sociedade; tu és a casa de repouso das mulheres que amam as suas asas, a prisão do pai de família e o inferno das crianças”.
Em Os credores, a “família” é composta pela exuberante Tekla (Sandra Corveloni), seu marido, o pintor e escultor Adolf (José Roberto Jardim), e seu ex-marido, Gustav (Sergio Mastropasqua). O descornado Gustav encontra Adolf por acaso em um hotel de praia, e envenena seu sucessor contra a independência de Tekla. O manipulador Gustav é tão inteligente como despeitado: garante a Adolf que vai seduzir Tekla, e o convida a que observe a conquista. Dito e feito. O resultado destroi por igual os três: Adolf perde de uma tacada só sua mulher, sua inspiração e seu orgulho de macho. A autoconfiante Tekla precisará conviver com a humilhação de ser prisoneira de seus instintos. O vencedor Gustav sai do jogo sem o “prêmio” maior: sua ex-mulher.
Esse triângulo desamoroso é contado com falas diretas e com humor ácido, animado por um elenco afiado, ambientado em cenário adequadamente despojado e sob luz rigorosa. Além disso, assistir a um texto de Strindberg é compromisso de qualquer um que queira conhecer os gigantes da dramaturgia ocidental. O que deu errado, então, em Os credores? Em minha opinião, a montagem se submete quase que absolutamente ao texto de Strindberg, abrindo mão de recursos de teatralidade que poderiam potencializar a guerra dos sexos travada em cena.
O palco pode ser descrito basicamente como um grande corredor dividido em três partes. Em uma das pontas, fica a sauna onde Gustav catequiza Adolf. No terço central, o espaço onde se dão os encontros e a sedução. A outra ponta é dominada por uma escultura em gelo, que derrete ao longo dos 80 minutos de peça. A escultura em gelo, por exemplo: chama a atenção, mas remete a quê? Ao relacionamento que se desgasta progressivamente? Ao objeto de desejo que se molda às necessidades de cada um? Nada que se imponha. O personagem de Adolf, como se para enfatizar a sua incapacidade de andar pelas próprias pernas e amar pelos próprios sentimentos, usa muletas e as abandona por alguns momentos ao final, quando vai (tentar) intimar Tekla. Previsível.
Fiquei com a incômoda sensação que não perceberia uma diferença considerável entre assistir à peça ou ler o texto em um livro, e isso é fatal quando se quer garantir o comprometimento e a parceria criativa do espectador. Os credores fica, assim, recomendado para quem é fã de carteirinha de teatro de texto, e se disponha a superar momentos de monotonia pela inquebrantável fé na literatura dramática. Quem busca uma linguagem contemporânea ou uma atualização formal da obra de Strindberg vai ficar no prejuízo.
Os credores está em cartaz ainda quinta e sexta-feira, às 23h, na Sala Álvaro Moreyra.
* Renato Mendonça é jornalista (relatomendonca.tumblr.com)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O fantástico reparador de feridas por Alexandre Vargas

No limite entre fé e fraude*

A peça O fantástico reparador de feridas, inspirado no texto Faith healer, do irlandês Brian Friel, é dirigida por Domingos Nunez, estrelada por Walter Breda, Mariana Muniz e Fernando Paz. A produção é da Cia. Ludens, fundada em 2002, que surgiu com a proposta de pesquisar e montar textos teatrais irlandeses no Brasil e estabelecer um diálogo entre as duas culturas. O espetáculo obteve duas indicações ao Prêmio Shell de Teatro 2009, pelas atuações de Walter Breda e de Mariana Muniz.
Três personagens e quatro monólogos contam a história de uma trupe que viaja por cidadezinhas da Escócia e do País de Gales, apresentando um número que se situa entre uma representação teatral e um culto religioso de cunho sobrenatural. Juntos, tentam sobreviver cobrando ingressos de inválidos em apresentações das quais podem sair curados. Esse é o ponto de partida para as situações narradas na peça. Os três personagens são Frank, Grace e Teddy. Frank (Walter Breda) é um homem que vive atormentado por possuir um dom sobre o qual não tem nenhum controle e tenta aplacar seus questionamentos com doses colossais de uísque. Sua mulher, Grace (Mariana Muniz), advogada e filha de um juiz aristocrata, acusa, defende, busca evidências e comprovações para justificar seu estado mental. Teddy (Fernando Paz), empresário de artistas exóticos e decadentes, transita entre a frieza profissional, a admiração por Frank e uma possível paixão por Grace. A peça está estruturada em depoimentos dos três personagens sobre o mesmo acontecimento. Cada uma das personagens narra diretamente para a plateia, de acordo com suas próprias conveniências, alguns fatos que vivenciaram juntas. Ao contar suas experiências, as personagens têm o intuito de convencer os espectadores e a si próprias de que aquele ponto de vista é o que mais se aproxima do que realmente aconteceu. Aos poucos, tece-se uma cadeia de informações que se complementam e se opõem e que levarão os espectadores a tirar suas próprias conclusões. Em última análise, tudo depende do ponto de vista do observador que, de um modo ou de outro, relativiza os discursos a que está exposto e os reorganiza de acordo com suas próprias necessidades, sentimentos e limitações. No entanto isso se dá por uma “literatura dramática” e não pela encenação do espetáculo apresentado no festival.
O texto é considerado como o mais radical de Brian Friel, mas a encenação não alcança a potencialidade do texto. Pois os espectadores, os que estão acordados, tentam encontrar na chave da oralidade, da narrativa, as inquietações que a encenação não nos possibilita. Friel em seus textos está interessado em investigar a percepção da realidade a partir da manipulação da linguagem, dos discursos e do desejo pessoal que forja uma realidade. Então ele coloca a questão da manipulação da linguagem como um dos pilares para uma possível representação do mundo contemporâneo. Ora, se o que está em jogo é o poder de persuasão, então é possível fazermos uma relação com a própria arte teatral que a Cia. Ludens nos apresenta. Para a construção de uma encenação não basta o conceito, a sinopse e o discurso de estar encenando um dos maiores nomes da dramaturgia da Irlanda.
* Alexandre Vargas é ator, diretor e coordenador do C.P.T.A. - Centro de Pesquisa Teatral do Ator

O fantástico reparador de feridas por Camilo de Lélis

O curandeiro*

Não dá pra segurar, rasga coração! Queria ficar só com o sentimento, não escrever nada. Afinal, é uma peça que o público, na noite em que assisti, estava meio indiferente. Algumas pessoas saíram no meio do espetáculo...Sério, é verdade. Influenciado pela peça, vou escrever, assim, sob efeito da memória emocional.
A começar pelos intérpretes. Walter Breda é um ator que participa de muitas novelas de sucesso na televisão. Trabalha também como dublador. O seu estilo de usar a voz é muito peculiar e dá um sabor especial ao seu personagem, que é um misto de charlatão e milagreiro. Essa mistura é, precisamente, o drama do personagem, pois não podendo usar seu dom paranormal, segundo a sua vontade, fica à mercê do acaso, e do uísque, para realizar suas apresentações. Ele é o protagonista. Mariana Muniz, atriz, coreógrafa e bailarina, com muitos prêmios em sua carreira, representa a esposa do curandeiro. Alguém que abandona a família rica para segui-lo. Mariana é tão dedicada em sua entrega ao papel, que quase não percebemos que estamos diante de uma maravilha. Ela é uma diva. Fernando Paz, ator que trabalhou na Companhia do Latão e Grupo Tapa. É, também, clown na equipe dos Doutores da Alegria. Nesta peça, ele faz o papel do empresário do show de curas místicas.
A autoria da peça é do irlandês Brian Friel, considerado um expoente da dramaturgia irlandesa atual. Uma mesma história (equipe mambembe viaja por cidadezinhas da Escócia, País de Gales e Irlanda, realizando sessões de cura), é contada sob o ponto de vista de cada um dos integrantes do trio: Frank - o bruxo; Grace - sua esposa; Teddy – empresário de artistas decadentes. Eles nunca se encontram em cena. São monólogos.
Não há cenário, só uma faixa com o nome do show, que é o mesmo nome da peça: O Fantástico Reparador de Feridas. Há três cadeiras e uma mesa com uma vitrola e outros pequenos elementos. Que eu me lembre, mais nada. A luz é branca. Um foco pontua um episódio, que se repete, exatamente igual, nas três narrativas: o episódio trágico, que dará fim às peripécias da trupe. Três histórias diferentes e, entretanto, uma mesma história. Não se trata de que cada um dos personagens recria, inventa o passado. O que acontece é uma coisa mais interessante, pois ninguém mente, e as narrativas se complementam entre si, na verificação de uma única verdade inexorável: o dom especial - que um homem traz de berço (a cura), mas que depende de algo fora de seu controle (a fé) - imantará o destino de três criaturas, numa mesma direção.
Eu teria muitas outras coisas para escrever, eu que não queria escrever nada. A peça me tocou, porque o dramaturgo criou uma história muito boa (nem pós-dramática, nem transumana, apenas uma história), e ela foi interpretada por três ótimos atores, sob regência de uma direção sutil, precisa e erudita de Domingos Nunez.
No entanto, teve gente saindo no meio do espetáculo...Talvez, por estar com o cérebro superexcitado por montagens com muito “glamour” e muita “purpurina”, não tiveram paciência para um trabalho que exige algum esforço de quem assiste: escutar uma história, juntar seus pedaços, acompanhar...Não é garantido, mas a cura de nossas feridas pode se realizar, também, através do teatro.
* Camilo de Lélis é encenador

domingo, 18 de setembro de 2011

Pálido colosso por Rodrigo Ruiz

Pálido colosso*

Com esse trocadilho, situando-nos entre a letra do Hino Nacional e o programa infantil TV Colosso, a Cia. do Feijão (SP) já no título da peça prepara o espectador para os três eixos que estruturam a concepção do espetáculo. O primeiro, e o mais importante, a política brasileira, em especial seus últimos quarenta anos; o segundo, a influência da mídia nesse processo; e o terceiro o tom de deboche, que torna tudo quase fabular. Da mistura desses elementos surge um espetáculo autoral, marcado pelo posicionamento ideológico de seus criadores diante da história recente do nosso país.
O tom farsesco de algumas passagens mistura-se a narradores de cunho épico. A cenografia colabora para causar uma impressão de metateatro ao reconstituir no palco outra caixa cênica, com cortinas e cores que evocam o Teatro de Revista. Ainda que o conteúdo ideológico perpasse todas as escolhas, o modo como ele é suscitado se mostra um exercício fascinante aos espectadores. Tal qual a imprecisão de lembranças, que misturam os fatos fazendo aparecer conexões improváveis, a peça avança seguindo as décadas dos 1960 até ao início do que hoje chamamos a Era Lula.
A encenação se vale de diversas referencias, parodia-se canções, comerciais de tevê e, é claro, episódios de vida política brasileira. Por meio da paródia os absurdos, as incongruências da nossa sociedade ganham relevo e são postos em análise. Embora tudo seja contado com humor e em tom de ironia, suas implicações são trágicas para aqueles que viveram os acontecimentos relembrados. Nós, eleitores, somos tal qual a fada carente do espetáculo, sempre em busca do príncipe encantado, ou melhor, do "salvador da pátria". E como revela o espetáculo é nosso sentimento de impotência que alimenta a histórica manipulação da vontade popular.
Ainda que essa mistura de diversos gêneros unidos pelo humor e a acidez não ofereça respostas, pois esta é uma história que continua sendo contada, a encenação desperta em nós questionamentos, permitindo - como eles próprios nomeiam - antever "possibilidades" de mudanças.
Pálido colosso é a primeira parte de uma pesquisa sobre a utopia empreendida pelo grupo desde 2006. Surgido no ano seguinte, essa pesquisa gerou ainda os espetáculos Veleidades tropicais (2008) e Enxurro (2011).
* Rodrigo Ruiz é ator, diretor e produtor teatral.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O ruído branco da palavra noite por Mirna Spritzer

O ruído branco da palavra noite*

O espetáculo baseia-se na correspondência trocada entre as principais figuras do Teatro de Arte de Moscou, tais como Tchekhov, Górki, Stanislavski, Dantchenko e Meyerhold, a partir do livro O cotidiano de uma lenda – cartas do Teatro de Arte de Moscou, de Cristiane Layher Takeda.
Aí está o principal mérito da montagem, buscar dar voz a homens e mulheres que compuseram um dos mais belos e profícuos momentos da história do teatro. Os ensaios, as buscas, as formas de interpretar e escrever, os anseios e inquietações que moveram estes artistas ousados e profundos.
Para tanto, as cartas são ditas pelos atores em cenas de ensaio, leituras e conversas. Entremeadas a elas, fragmentos das obras de Anton Tchekhov, A gaivota, Tio Vania, As três irmãsO jardim das cerejeiras.
A paixão que mobilizou estes homens e mulheres e que, provavelmente, move também a Companhia Auto-Retrato, de SP, na busca do germe da criação e sua relação com as circunstâncias do mundo, está, porém, ausente do espetáculo.
Cartas trocadas refletem as sensações do momento, apresentam outra forma de narrativa, trazem a possibilidade de traduzir-se para o outro através de uma reflexão íntima posta em palavras escritas. Ao revelá-las em cena, os atores o fazem de forma quase sempre igual, propondo uma secura que não convida, não afeta o espectador. Há momentos, no entanto, em que é permitido sair deste aprisionamento e é aí, nestas brechas, que escapa a paixão daquela e desta gente de teatro.
É o caso em que uma atriz vem à plateia e, através da fala de Meyerhold, expõe a necessidade do teatro de rever-se e o faz com energia corporal vibrante. Outro bom momento é aquele em que um ator através de carta de Dantchenko, expõe a profunda relação deste com Stanislavski, ambos parceiros na criação do Teatro de Arte de Moscou. Aqui, percebe-se uma entrega ao instante, ao agora da cena. O ator deixa-se emocionar, traz isto a sua voz e atrai-nos.
Ao entremear cenas das peças com cenas de vivência das cartas, a companhia compõe uma narrativa interessante para a cena. É necessário, entretanto, avivá-la, inserir rupturas, assumir as quebras, dando ao espectador a possibilidade de, através das fissuras, entrever a intensa inquietação daqueles momentos de criação.
O que se desenrola a nossa frente passa a ser um desfile de cenas, quase sempre no mesmo tom. Personagens tchekhovianas e criadores russos se sucedem na mesma energia e pulsação. Desta forma o espetáculo padece de um andamento linear e cansativo.
Os corpos em cena pedem intensidade, necessitam de vozes que flutuem que sejam certeiras como flechas, que tragam nuances para a atuação. Ansiamos por ver em cena a pulsação daqueles tempos, a inquietação vivida no cerne da criação. A iluminação poderia favorecer mais os atores e a cena, tornando-se menos escura, variando mais, inserindo mais focos. Quando isto acontece, atuação e encenação brilham.
Da mesma forma, os figurinos deixariam de lado a isenção, a pretensa neutralidade ou certo tom de cotidiano indefinido, para assumir mais as diferenças propostas. Às vezes, um único elemento pode trazer a ênfase desejada.
Tudo está posto, todos os elementos inseridos, a companhia precisa então, deixar-se apaixonar e viver o aqui-agora do teatro. Como certamente fizeram aqueles bravos homens e mulheres de teatro, na Rússia da virada dos séculos XIX e XX.
* Mirna Spritzer é atriz e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Carlos Careqa- Alma boa de lugar nenhum por Oly Jr.

Carlos Careqa- Alma boa de lugar nenhum*
Fui ver o espetáculo “Alma boa de lugar nenhum” de Carlos Careqa e saí do Instituto Goethe com a certeza de que música e interpretação são irmãs gêmeas bivitelinas. Dependendo do conteúdo artístico, da loucura, do devaneio, a música por si só, não representa por inteiro uma ideia. Precisa-se de mais. Aí vem o complemento da interpretação do artista. Carlos Careqa é da estirpe de artistas que a música e o elemento cênico fazem parte do seu ser. É bastante influenciado pela turma da "Vanguarda Paulista" que mudou os rumos e formou uma espécie de contra-cultura paulistana, como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Língua de Trapo e etc. Muito talentoso, é capaz de prender o público facilmente pelo bom posicionamento vocal e ótimas composições. O espetáculo em questão traz na sua essência uma espécie de crônica filosófica do mundo atual. Com doses de deboche e poesia, acompanhado do pianista Paulo Braga do início ao fim no palco e Letícia Sabatella, com intervenções cênicas e musicais, que aliás, pra mim, é uma revelação como cantora e compositora. E ainda teve a participação de Hique Gomez no violino, que já tinha participado com o seu Tangos & tragédias do primeiro disco de Careqa, aumentando ainda mais a dose de talento e a atmosfera cômica no palco. Cantaram e interpretaram algumas canções do disco que dá nome ao espetáculo e outros números musicais que enriqueceram muito a exibição. A apresentação ainda teve Letícia Sabatella interpretando muito bem a canção Geni e o zepelim de Chico Buarque e Nanna’s Lied de Kurt Weill e Bertolt Brecht; teve Careqa cantando dentro da caixa ressonadora do piano, fazendo bons duetos com Paulo Braga, dançando e interagindo com o público. Além da canção que dá nome ao disco e espetáculo, destaco Estou cheio de arte, que diz: “estou cheio de arte, arte até o pescoço, tô guardando pro almoço, o que não comi no jantar”. Duplo sentido, metáforas e muita reflexão fazem da arte de Carlos Careqa umas das mais firmes e criativas manifestações de um artista brasileiro. Ao final o público ainda pediu bis e foi presenteado com Guaraná Jesus, baita releitura pra canção Chocolate Jesus de Tom Waits, que está num excelente disco chamado À espera de Tom de 2008, que reúne versões e reversões de Waits.
Um belo espetáculo do Porto Alegre Em Cena e um presente para o público. Com certeza amplia-se o horizonte no quesito montagem de espetáculos musicais com intervenções cênicas que são tão raros na cidade.
* Oly Jr. é músico

Zé & Celso- Canções do Oficina por Plínio Marcos Rodrigues

Teatro como “Arte-Irmã”*

“Separai as canções do resto!
Um emblema da música, uma mudança de luz,
Um título, projeções, mostrarão
Que agora é a arte irmã
Que entra em cena. Os atores
Se transformam em cantores. Com outra atitude
Se dirigem ao público, sempre
Personagens das peças, mas agora abertamente
Partilham o conhecimento do autor”.
Bertolt Brecht

O Dramaturgo alemão cunhou a expressão “Arte-Irmã” ao se referir à música como parceira ideal do Teatro.
Os espetáculos do Teatro Oficina sob a batuta de José Celso Martinêz Correa sempre foram marcados pela musicalidade explícita, com a presença de grandes coros que muitas vezes cantam trechos inteiros das peças montadas pelo grupo. Zé Miguel Wisnik compôs e realizou direção musical em diversos espetáculos do Oficina. Celso Sim cantou em muitas dessas montagens.
Isto posto o que não esperar de um show onde Zé Miguel e Celso Sim homenageiam o Teatro Oficina na passagem pelos seus 50 anos de profissionalismo? (senão seriam 58 de existência plena).
Logo na primeira música, sozinho ao piano, Zé Miguel mostra indícios do que veio fazer no Porto Alegre Em Cena, não é uma peça de teatro, não é um show ególatra onde ele mostrará todo seu talento como músico, nem é só mais uma apresentação dele na nossa cidade, o que vimos em um Theatro São Pedro lotado, e que ovacionava cada silêncio proposto pelo artista, foi pura celebração! Quando Celso Sim entrou em cena, na segunda música, exalando emoção, suingue, paixão mesmo por aquilo que estava fazendo, tive a certeza que seria uma tarde/noite inesquecível, inebriante, celebrada! Celebraram Oswald e Mário de Andrade entre outros modernistas, referenciando e reverenciando a montagem de O rei da vela e Mistérios gozosos, Gregório de Mattos, Vinicius de Moraes, Antônio Cícero, mais Artaud, Eurípides, Rimbaud, Verlaine e tantos poetas, dramáticos ou não foram aparecendo durante a apresentação sempre bem ilustrada pelo “professor” Wisnik; aliás, poucas pessoas sabem tanto sobre um assunto (literatura) e falam com tanta desenvoltura, sem afetação e com tamanha humildade. E não era uma aula, nem um sarau poético, era show puro, eles foram naquela ocasião exatamente o que nos cantaram no inicio da apresentação: Menestréis! Acompanhados por uma banda jovem, talentosa ao extremo e com a formação atípica de duas baterias, mais pandeiro (Sergio Reze e Guilerme Kastrup) e dois responsáveis pelas cordas (Marcio Arantes e Swami Jr.), incluindo ai contrabaixos acústicos e amplificados, guitarra e violão de sete cordas além do delicioso piano do Zé e da voz firme e expressiva do Celso! Ao cantarem as quatro músicas feitas para as quatro estações do ano em que o Teatro Oficina foi reaberto celebraram junto com o Uzyna Uzona a força transformadora do tempo, o poder de permanência de um teatro quando se tem o direito a terra, água, fogo e ar.
Zé & Celso vieram pra desmitificar e derrubar o muro entre a canção feita para teatro e a canção feita pra show e de arrasto levaram nessa avalanche preconceitos, maneirismos e formas ditas corretas, cantaram samba, tango, música erudita e rap tudo harmonizado; agradeceram a anjos e demônios do Em Cena e de quebra fizeram todo um São Pedro, toda uma Porto Alegre entoar em tom de mantra/pedido que nos dessem “...Senhor a Poesia de Cada Dia...”
E assim como chegaram se foram, com aquela permanente efemeridade, que acaba só na esfera palpável real, mas que como toda obra de arte, como todo espetáculo do Oficina, seguirá soando nos privilegiados ouvidos que puderam junto com eles, junto comigo, junto com o festival e junto com uma cidade CELEBRAR!
Evoé Porto Alegre Em Cena!
lÓ Zé & Celso!
Imortalidade ao Teatro Oficina Uzyna Uzona!
O B R I G A D O!
* Plínio Marcos Rodrigues, Ator e Fã.