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domingo, 15 de setembro de 2013

Adriana Calcanhotto por Nayara Brito

Sobre os olhos de onda
 
“O frio na barriga é sempre maior aqui”, ela avisa logo ao final da primeira canção. Não que fosse necessário dizer. Não que tenha a ver com o frio que dá a estética desse lugar. Era uma noite até quente de início de primavera. Mas as minhas mãos, braços e ouvidos tão nervosos quanto os dela logo detectaram a voz trêmula e os acordes vacilantes da música de abertura. Semanas antes eu ouvira pela primeira vez a composição de Capiba na voz de outra intérprete que vem cintilando aqui e ali; e apaixonara-me, coisa comum. Por isso o susto quando reconheci os primeiros versos e saltei para a ponta da cadeira, como se aqueles centímetros a menos me aproximasse tanto mais do som e do tudo em volta dele. 
 
De São Paulo, de Luanda
Me trouxeram para cá
Êêê Calunga, Calunga
Me trouxeram para cá 
 
            Calunga soa como um belo lamento daquilo a que tantos compositores nordestinos cantaram: a partida dos homens de sua terra. E Lourenço Barbosa Capiba, pernambucano, autor desses versos, como ela dá os créditos, sendo um dos mais conhecidos compositores de frevo do país, famoso também pela canção Maria Bethânia (gravada por Nelson Gonçalves em 1945) não foge ao tema. Há sempre o retrato de quem fica e de quem parte, misturados no mesmo ‘Ai’: Minha mãe chorava, Calunga/ Ai ai, ai ai/ E eu cantava, Calunga/ Ai ai, ai ai/ Maracatu, maracatu...
            E o retrato de quem chega, na canção seguinte. Um Caetano que a acompanha há muitos anos, ela anuncia. E adivinho, já com as mãos na cabeça, O nome da cidade... Mas, qual cidade?, eu pergunto, alguém pergunta. Caetano se refere ao Rio, lugar todo feito contra a Macabéa clariceana, criatura por quem todos nós certamente guardamos algum carinho. É o mesmo Rio que recebe Adriana em início de carreira, alguém que, tornando-se bem sucedida – bem o sabemos hoje – não deixou de compartilhar do sentimento macabéeano diante das coisas, das ruas voando sobre ruas, das letras demais, das mulheres nuas. E se pergunta: Será que pra o meu próprio rio/Esse Rio é mais mar que o mar? E eu respondo: sim. Eu, vinda da beirada do mar, encontro o rio (Guaíba) margeando a cidade, a tua cidade, Adriana, que me atravessa.
            E percebo como ela, gaúcha, dialoga tão apropriadamente e tão particularmente com a música nossa, digo, a nordestina. Adriana Calcanhotto parte logo cedo de sua cidade natal, Porto Alegre, e vai encontrar paragens para desenvolver seu trabalho no centro do país, e de lá muito frequentemente para Lisboa. Ela não se insere, portanto, no conjunto de músicos que, identificados com a cultura platina, optam por criar a partir de e sobre esse universo tão único que reúne artistas do Rio Grande do Sul, do Uruguai e da Argentina – o que fazem com bastante originalidade e qualidade, diga-se de passagem.
            De volta ao show... É só lá pela metade que ela nos apresenta a canção que dá nome ao espetáculo, Olhos de onda. E mais uma vez me admira o que ela consegue fazer com tão poucos acordes. Três, neste caso, que longe de nos enfadar, nos prende. Assim como são três os acordes que formam Tua, música feita para um dos últimos discos de Maria Bethânia (2009) batizado com o nome da composição. A economia de acordes, em geral, é “compensada” pela carga poética com que elabora as letras das canções. Uns versos, que não esteve no repertório deste show, é um claro exemplo disso. Dois acordes e um eu lírico a falar em bardos, eunucos e arautos e a descrever-se em metáforas sem fim. Tua não fica atrás. Mas nela, é a própria figura da compositora que se apresenta, revelando, insegura:  
 
Arde o gás que faz esta canção
Será que você vai me ouvir?
 
 
Sabemos também onde ela está:
 
Dentro da noite voraz
[...] da noite feroz
[...] da noite fugaz
 
e estes versos, que iniciam cada estrofe, fazem eco a outra canção sua, já bem conhecida, Vambora, em que se refere a dois livros de Ferreira Gullar, sendo um deles, precisamente, Dentro da noite veloz.
            Sim, a relação de Adriana com a literatura e os poetas brasileiros é antiga. Além de Gullar, de quem já musicou alguns poemas (como a série dos gatinhos, presente em seu trabalho para crianças como Adriana Partimpim), Waly Salomão é outro grande parceiro, em vida e mesmo em morte. No show ela conta, sempre bem-humorada, um pouco do modo como os dois criavam, e canta algo que fez sobre o começo de um de seus poemas, Motivos reais banais.
Uma das primeiras aparições de Waly em seu trabalho acontece no terceiro disco, que leva o nome de uma poesia deste autor, A fábrica do poema (1994). Nele, Adriana mostra a sagacidade e a sensibilidade que possui para musicar letras/poemas que, a princípio, não pareceriam muito adequados, pela extensão, pela falta de rima (precisa?) – mas nunca de ritmo! Ela o faz, não sem deixar que a música transpareça essa “dificuldade” ou esse estranhamento.
 
tornei-me perito em extrair
faíscas das britas e leite das pedras
acordo!
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo
acordo! 
 
            Outro momento chave da apresentação é quando ela canta Me dê motivo, conhecida por nós na voz de Tim Maia. E aqui Adriana surpreende com uma interpretação bem a la Calcanhotto, com a delicadeza e a fineza que lhe são parte.
            E é com essa delicadeza que ela guia todo o show. Talvez por estar em sua cidade natal, o que admite já de início causar um certo nervosismo, um ouvinte mais atento poderia notar que o andamento e o volume das canções estavam um pouco mais lento e mais baixo que o usual. Mas isso são coisas que o artista de palco bem conhece: um dia se está assim, noutro dia não se está mais.
O ouvinte atento também repararia no como Adriana está apostando mais nos graves de seu registro vocal. Em vinte anos de carreira é natural que o cantor experimente em sua voz – que, é claro, muda com o tempo – alcances que antes não atingia. E é maravilhoso quando ele (ela, no caso) descobre novas possibilidades. Além da voz, o violão de Adriana Calcanhotto também vem se sofisticando. A atenção dedicada ao instrumento lhe rendeu um machucado no pulso há uns anos, o que lhe deixou longe do parceiro por um tempo. Agora ela volta com gosto.
            E como estamos em um festival da cena, um último comentário sobre os aspectos visuais do espetáculo faz-se necessário. A iluminação, lindíssima, eu diria, completava o palco com cores e texturas, enquanto a cantora ficava no centro com o seu violão. Vestida com um figurino também admirável, tal qual uma túnica esvoaçante (como ela gosta de usar em seus espetáculos) que lhe confere um ar de diva ou de deusa, Adriana nos encanta do princípio ao fim.
 
* Nayara Brito é jornalista e mestranda em Artes Cênicas na UFRGS 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Adriana Calcanhotto- Olhos de onda (RJ)


Dias 12 e 13, às 21h
Teatro do Bourbon Country
 
Já é tradição no Em Cena a presença da cantora e compositora Adriana Calcanhotto palco alguma e seus shows ricos em poesia e musicalidade. Este ano ela está presente no formato voz e violão, levando ao palco algumas canções inéditas e outras inesquecíveis de seu farto repertório, construído ao longo de seus quase 30 anos de carreira. No discreto e emocionante show solo Olhos de onda, a canção homônima norteia o espetáculo intimista. A concepção do espetáculo é resultado de um convite para apresentar-se em Lisboa, na mesma casa onde cantou na cidade pela primeira vez. A partir deste convite, que foi aceito sem titubear, Adriana delineou seu novo show, retomando o violão, instrumento que lhe traz muitas lembranças, desde a infância. No roteiro estão as canções que fazem seu coração vibrar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Partimpim Dois

Partimpim é o heteronômio de Adriana Calcanhotto. É sua personagem infantil, utilizando o apelido de infância da cantora porto-alegrense, brasileira, conhecida já em vários lugares do mundo ao longo desses vinte anos desde a gravação de Enguiço em 1990. Partimpim está no segundo disco, o décimo primeiro de Calcanhotto . O primeiro foi lançado em 2004 e ganhou Disco de Ouro pelas cem mil cópias vendidas. Repetimos: cem mil cópias vendidas para crianças, ou para os heterônomos infantis dos adultos por aí que compram discos e são, por isso, minoria entre os que baixam ou copiam as gravações autorizadas. Imaginemos quantas seriam as vendas se não houvesse essa alternativa?

O show tem direção musical da própria criança Partimpim. Ela imaginou tudo e pediu para a banda viabilizar através de seus talentos únicos e da incrível fluência e sintonia musical. Destaca-se o fato de que os cinco integrantes da banda são compositores, ou seja, suas visões sobre as canções são diferenciadas daquela que os instrumentistas que não compõem podem ter. De um modo geral, os músicos não fazem muita cerimônia em relação `as composições, se apropriando com muita liberdade. Como no primeiro show, alguns brinquedos serão tocados, ruídos eletrônicos serão colhidos de brinquedos e brincadeiras musicais que a própria Partimpim produz. “Uma bagunceira!”.

Hélio Eichbauer volta a assinar o cenário, trabalhando com as ideias que Partimpim trouxe sobre proporção. Móveis e objetos enormes para deixam Partimpim pequena no palco. Os figurinos, no mesmo sentido, atualizam o universo do desenho, do rabisco, das tintas, dos papéis.

O repertório mescla as canções do primeiro CD, do DOIS e do DVD seguindo um critério muito subjetivo de fluência do show. “Foi bem natural, algumas canções pediram pra entrar no roteiro e outras preferiram ficar descansando um pouco.” Segue o repertório que estreou no Festival de Curitiba e que será apresentado no nosso 17º Porto Alegre em Cena:

O Repertório

Baile Partimcundum
Menina, Menino
Saiba
Alface
Ciranda da bailarina
Canção da falsa tartaruga
O Trenzinho do caipira
Borboleta / As Borboletas
O Homem deu nome a todos animais
Alexandre
Um leão está solto nas ruas
Gatinha manhosa
Ringtone de amor
Fico assim sem você
Gato pensa?
Oito anos
Bim Bom
Lig-Lig-Lig-Lé
Lição de baião
Na massa
Baile Partimcundum


*

Ficha Técnica:
Criação: Adriana Partimpim
Direção: Adriana Partimpim e Leonardo Netto
Direção Musical: Adriana Partimpim
Diretor de palco: Jorge Ribeiro

Músicos:
Davi Moraes: guitarras e coro
Moreno Veloso: guitarras, baixo, pandeiro, surdo e coro
Alberto Continentino: baixo, baixo synth e coro
Domenico Lancellotti: MPCs , percussões, escaleta e coro
Rafael Rocha: bateria , percussões acústicas e eletrônicas e coro

Cenário: Hélio Eichbauer
Figurinos: Marcelo Pies e Danielle Jensen
Iluminação: César de Ramires

Noite estrelada: Mana Bernardes
Engenheiro P.A: Fabiano Estevão
Engenheiro monitor: Nelson Nuccini
Adereços: José Maçaira e Luiz Amadi
Correias de guitarra Partimpim: bOia Clara Zuñiga
Roadie: Alex Olimpio
Consultoria Técnica Circense: Vanda Jac e Carlos Eduardo Nascimento
Cenotécnico: Alex Corrêa
Produção de Cenografia: Tereza Durante
Confecção dos móveis de cena: Camuflagem Cenografia
Construtor de Maquetes Ferroviárias: Fernando Navarro
Assessoria de imprensa: Factoria Comunicação /Vanessa Cardoso
Arte: Luiz Henrique Sá
Produção executiva: Suely Aguiar
Produção: Hiromi Konishi
Administração: Claudia Moog

Duração: 1h30min

Classificação: Livre