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sábado, 14 de setembro de 2013

Não sobre o amor por Marcelo Ádams


 
Após a excelente análise formal do espetáculo, escrita pela Jacqueline Pinzon neste mesmo blog, não há necessidade de falar tão tecnicamente da montagem de Felipe Hirsch, que esteve no Theatro São Pedro nesta semana. Minha abordagem é muito mais emocional, embasada nas sensações provocadas pela belíssima encenação que tivemos a oportunidade de vivenciar. Ao contrário de vários espectadores que manifestaram suas opiniões nas redes sociais, não achei nem um pouco "entediante" ou "enfadonha" a hora e meia em que estive exposto a uma sucessão de imagens e palavras (e também imagens de palavras) que transformaram em uma experiência inesquecível uma troca de cartas entre um homem e uma mulher, nas primeiras décadas do século XX. O que mais me impressionou talvez tenha sido o rigor artístico da encenação, a exigência que a equipe do espetáculo traz para o espectador, em direção a uma concentração total no que vê e ouve sobre o palco. Não é possível fruir essa delicada iguaria cênica tossindo (o que ocorreu, enlouquecedoramente, durante toda a encenação, por parte de vários dos espectadores; entendo que tenha sido, essa reação física, uma somatização da recepção truncada: incomodados com a forma exigente proposta por Hirsch, muitos não aguentavam e manifestavam seu incômodo incomodando os outros não-incomodados, como eu).
Tampouco acho que o cenário (incrível, de Daniela Thomas) tenha sido mal aproveitado. Em um espetáculo epistolar, totalmente calcado na força das palavras, não se poderia esperar malabarismos e acrobacias a todo instante. Inclusive acho que Leonardo Medeiros sai-se muito bem nas escaladas que faz à cenografia, demonstrando uma precisão e um controle físico admiráveis. E se o corpo de Leonardo está presente e vivo, sua voz igualmente nos subjuga pela intensidade na emissão e na variedade de significações que oferece. Fiquei impressionado com o volume, a clareza, a teatralidade de sua voz. (Aqui, devo dizer que se instala um contraste não tão positivo com o trabalho vocal da parceira cênica de Leonardo, a atriz Julia Feldens; mas compreendo que seja impossível competir com o ator, que há anos habita o universo do espetáculo, em oposição aos poucos dias que a atriz teve para se preparar para essas apresentações no Porto Alegre em Cena. Luciano Alabarse comentava comigo que Julia teve cerca de uma semana apenas para dar conta da substituição que a trouxe ao Theatro São Pedro).
Sobre a perfeita concretização da ideia do espetáculo - a proibição de falar sobre o amor, imposta pela mulher (a escritora Elsa Triolet) ao homem (o escritor Victor Shklovsky), durante todo o período em que se corresponderam -, não consigo pensar em uma metáfora visual mais poderosa que o mundo virado, literalmente, de cabeça para baixo, quando nos apaixonamos. Sabe aquele chiste sacana que diz "me joga na parede, me chama de lagartixa", querendo dizer que estamos entregues, de corpo e alma ao Outro? Vejam só: o homem da história vira, quase, uma lagartixa mesmo, e dorme grudado na cama, na parede, varado pelo amor não correspondido. Além de homem apaixonado, Victor é escritor (pequena biografia: Shklovsky foi um dos formalistas russos, que na primeira metade do século XX revolucionaram a literatura através de suas teorias. Além disso, publicou um livro de cabeceira para artistas, Arte como técnica, em que escreveu algo que é, simplesmente, o conceito da encenação de Felipe Hirsch, o que fecha o circuito e nos mostra a riqueza que se esconde por baixo das camadas mais superficiais de uma obra de arte. Shklovsky escreveu: "O propósito da arte é promover a sensação das coisas como elas são percebidas e não como elas são conhecidas. O objetivo da técnica na arte é tornar os objetos não familiares, fazer as formas difíceis, aumentar a dificuldade e capacidade de percepção porque o processo de percepção na arte é um fim em si e deve ser prolongado. Arte é sempre um caminho da experiência artística de um objeto; o objeto não é importante").
Um escritor, sentado à máquina de datilografar, em uma posição impossível: pode ser mais significativa uma metáfora como essa, para alguém que vive de escrever palavras e dar significado a elas?
Enfim, Não sobre o amor é um espetáculo realmente superior, onde a "rusticidade" da palavra oralizada ganha corpo e sentidos, em cooperação com a tecnologia utilizada na encenação. Um dos grandes destaques desta edição do Porto Alegre em Cena, sem dúvida.
 
* Marcelo Ádams é ator e professor da graduação em Teatro- Licenciatura da Uergs

sábado, 7 de setembro de 2013

Carlos Cunha Filho- Talento em primeira pessoa

Neste domingo 8 de setembro, às 19h, no Centro Municipal de Cultura (Erico Verissimo, 307), será lançado (seguido de sessão de autógrafos) o livro que traça um perfil biográfico do grande ator porto-alegrense Carlos Cunha Filho. Escrito pelo jornalista Renato Mendonça, o volume vem recheado de fotos que ilustram os mais de 40 anos de carreira desse versátil ator, que já realizou inesquecíveis trabalhos em teatro, cinema e TV, com predominância do primeiro dos veículos.
De minha parte, por diversas vezes tive a felicidade de dividir o palco com o Cunha, generoso e talentoso colega, sempre disposto a contribuir com o trabalho de todos, seja através da delicadeza na contracenação, seja na observação atenta de detalhes e nuances da encenação. Minha estreia com o Cunha foi em 2001, na encenação de Ano novo, vida nova  dirigida por Decio Antunes, seguida de outros memoráveis trabalhos nos palcos como Os bacharéis (2005), de Élcio Rossini, e de cinco espetáculos dirigidos por Luciano Alabarse:  Hamlet (2006), Édipo (2008), Platão dois em um (2009), Ifigênia em Áulis + Agamenon (2011) e Marxismo, ideologia e rock'n'roll (2013, este, codirigido por Margarida Peixoto).
Que venham outras oportunidades de aprender com esse grande ator!
Marcelo Ádams

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Divergências por Marcelo Adams


Neste ano, o Porto Alegre em Cena não teve uma grande polêmica como a que se viu em outras edições (no ano passado, por exemplo, encontravam-se defensores e detratores aguerridos em relação à montagem de Pterodátilos). Identifiquei, no entanto, uma unanimidade e três demi polêmicas: a unanimidade foi a vinda do Berliner Ensemble com sua inesquecível Mãe Coragem e seu filhos. Não lembro de ter lido ou ouvido ninguém se pronunciar negativamente (de forma consistente), e que não tenha reconhecido as qualidades tanto da montagem tradicionalizante de Claus Peymann quanto da dramaturgia dialética de Bertolt Brecht. Um espetáculo como esse é mais do que apenas um evento, é uma aula de teatro ao vivo e na prática. Lê-se e escreve-se muito sobre o brechtianismo, mas quando temos oportunidade de ver à nossa frente suas ideias postas em práticas, o nível é outro, bem mais elevado.
 
As demi polêmicas: Deus da carnificina é apenas um veículo para atores televisivos, em que a dramaturgia não chega a dizer nada, ou um espetáculo ácido e com questões que nos incomodam? Yasmina Reza é uma dramaturga que conhece muito bem o seu ofício, que sabe se fazer visível e relevante no mundo contemporâneo. Não merece ela nosso respeito, por investir em teatro como expressão artística, em um mundo cada vez mais fragmentado e onde a interpretação de tudo o que se vê sobre o palco é jogado sobre o colo do público, entregando a ele toda a responsabilidade de dar sentidos ao que vê?
 
Por falar em fragmentação, eis a outra "polêmicazinha": Fuerza bruta é mais do que um amontoado de sequências técnica e visualmente bem construídas? Pode-se ler, nas curtas "esquetes" visuais (como a do homem que corre sem sair do mesmo lugar, e é "atacado" por uma parede de caixas de papelão) algo que reflita sobre nosso lugar e função no mundo atual, ou tudo não passa de "enlatado", feito para agradar a uma plateia predominantemente jovem e pouco afeita ao teatro como linguagem artística?
 
Finalmente, Eclipse, do Grupo Galpão: cheguei a ler e ouvir pessoas dizendo que não é assim que se faz Tchekhov. Luiz Paulo Vasconcellos escreveu que viu apenas uma "série de tiradas de autoajuda pseudofilosóficas". Pessoalmente, discordo totalmente de Luiz Paulo, pois reduzir o espetáculo a isso é se colocar impermeável à forma corajosa pela qual os excelentes atores do Galpão trabalharam a tão conhecida dramaturgia e narrativa tchekhovianas. Me comovi em mais de uma ocasião ao ouvir as palavras de Tchekhov, e não me considero nem um pouco adepto de qualquer forma de autoajuda literária ou em forma de palestra. Outros, reclamaram sentir falta do barroquismo que marca certa produção do Galpão: pessoal, que bom que esse incrível grupo mineiro não se "deitou nas cordas" e passou a viver do sucesso pregresso. Acomodar-se em formas e opiniões é matar um pouco a arte, que é viva e se retorce a todo instante.
 
*Marcelo Adams é ator e professor da graduação em Teatro: Licenciatura da UERGS

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A peça do casamento por Marcelo Adams

Procurei no Google alguns comentários sobre esta A peça do casamento, e deparei com muitas menções elogiosas, inclusive da "decana" Bárbara Heliodora. De forma geral, elogia-se o texto de Edward Albee, autor de grande peças como Quem tem medo de Virginia Woolf?, Zoo Story e Um equilíbrio delicado. A peça do casamento, escrita por Albee em 1987, e que era inédita no Brasil até esta montagem dirigida por Pedro Brício, retoma alguns tópicos já trabalhados pelo autor em Virginia Woolf e Equilíbrio delicado: relações familiares e maritais. Mas, se nas duas peças citadas, o resultado era impactante, não consegui me entusiasmar por A peça do casamento. Refleti comigo mesmo do porque disto: lá estão as ironias, as crueldades, o humor muitas vezes calcado no mau humor das personagens, bem como as figuras que transitam entre a meia-idade e o início da velhice (leia-se: experientes na vida, mas seguidamente indecisas sobre como lidar com ela, apesar disso). Acho que encontrei a resposta: Quem tem medo de Virginia Woolf? dispõe de uma brilhante versão cinematográfica ao nosso alcance (de 1966, dirigida por Mike Nichols). Conheço essas peças também pela leitura, o que, como é sabido, coloca à imaginação do leitor o desafio de encenar em sua cabeça os diálogos e ações propostos pelo dramaturgo. Assim, ao ler Virginia Woolf e Equilíbrio delicado, eu construía as figuras que me pareciam mais atraentes para dar conta do ferino texto de Albee. No caso de A peça do casamento, cujo texto eu desconhecia, só tomando contato com ele através da encenação de Brício, ocorreu algo que me distanciou: justamente a concretização cênica. A verbalização do texto por Guida Vianna, de um artificialismo exasperante, só conseguia me colocar do lado de cá do palco. E ela é uma excelente comediante, o que foi mostrado no ano passado, quando esteve por aqui, no mesmo festival, com peças curtas da dramaturga gaúcha Vera Karam. Naquele caso, em que as construções margeavam o tom farsesco, Guida saiu-se muito bem. Aqui, no entanto, me parece que há um ruído entre a construção psicologizante das figuras e o distanciamento proposto pelo modo de atuação da atriz. Dudu Sandroni, o parceiro de Guida no espetáculo, também parece buscar, em alguns momentos, uma atuação "solta", escrachando nas referências sexuais e na figura-tipo do marido pateta.
Será que uma linha de atuação menos cômica não seria mais adequada?
Também fiquei encucado com a "limpeza da cena": móveis novinhos, objetos absolutamente perfeitos, tudo com cara de cenário. O figurino de Guida Vianna também: parecia saído da loja. Tudo apontando para uma foto de revista de decoração. Pode-se, por outro lado, argumentar: a "beleza" da cena tem justamente o objetivo de provocar atrito com a "lavagem de roupa suja" que se verá sobre o palco. Será que foi intencional? Como saber? Só perguntando para o diretor.
A trilha sonora, no entanto, parece me apontar o contrário: a intenção da encenação é fazer um espetáculo limpo, com cara de norte-americano. Se não, por que motivo se utilizaria na sonoplastia aquele jazz do tipo música de elevador, tentando ser sofisticado mas afundando no cafona?
E pensando bem, a própria dramaturgia de Albee está alicerçada nos manuais de playwriting, nos quais os norte-americanos são experts. Isso dá um certo ar de "produto" ao espetáculo, e não na melhor das acepções da palavra.
Talvez isso explique o porque do texto de Albee estar inédito no Brasil por 25 anos.
 
*Marcelo Adams é ator e professor da graduação em Teatro: Licenciatura da UERGS

domingo, 9 de setembro de 2012

Sérgio Silva: o teatro no cinema por Marcelo Adams

Este 19º Porto Alegre em Cena tem uma característica que o distingue das anteriores edições, e que agradaria em muito ao inesquecível Sérgio Silva, morto no último dia 15 de agosto. Estão na grade do festival dois espetáculos baseados em grandes textos dramáticos (Mãe Coragem e seus filhos, de Bertolt Brecht e Júlia, baseado em Senhorita Júlia de August Strindberg). O que une esses dois espetáculos e o cineasta, ator e professor Sérgio Roberto Silva (1945-2012) é o fato de que Sérgio adaptou para o cinema essas obras: Anahy de las Misiones (1997), baseado em Brecht, e Noite de São João (2003), baseado em Strindberg.
Anahy de las Misiones é considerado, pela maioria dos críticos, como o melhor longa metragem gaúcho já feito. Sérgio, cujas histórias sobre suas tias "alemoas" nos faziam rir até às lágrimas durante suas aulas de dramaturgia no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, admirava e entendia o germanismo, e tinha Bertolt Brecht como um ídolo. (Aliás, é preciso dizer que Sérgio tinha um posicionamento político esquerdista, que o fez, em sua juventude, durante o regime militar brasileiro, sentir-se atraído pelo teatro brechtiano, de orientação marxista). Quando foi buscar inspiração para realizar seu primeiro longa, Sérgio amparou-se na pungente e atemporal história da mãe que, em meio à guerra, vale-se dos objetos retirados aos mortos nos campos de batalha para manter a família. Mas Sérgio Silva não localizou seu Anahy de las Misiones na Guerra dos 30 anos europeia: aproveitou a nossa Guerra dos Farrapos, na primeira metade do século XIX, como pano de fundo do drama de Anahy (a nossa Anna Fierling), que vê, um a um, seus filhos serem arrebatados pelo monstro da guerra.
Já em Noite de São João, é o texto de Strindberg adaptado para uma fazenda do interior gáucho, em 1905, tendo como trama principal a relação entre Júlia, a filha de um estancieiro, e o capataz João, por quem ela se interessa. Uma trama paralela mostrava um bando de contrabandistas e suas ações. Nas longas madrugadas de filmagem, durante todo o mês de janeiro de 2002 (detalhe: o filme passava-se um um inverno, e nossos figurinos eram todos de lã), fiz amizades e me aproximei da Margarida Leoni Peixoto, que também atuava no filme, e com quem me casei, naquele verão. Estamos juntos, eu e ela, até hoje, e costumo dizer que Sérgio foi nosso padrinho de casamento, porque nos colocou no mesmo set, e, dadas as características do processo de filmagem, que é longo e deixa os atores seguidamente à espera, possibilitou nossa aproximação durante os intervalos entre os "corta!" e os "ação!".
Tive a felicidade de participar como ator dos dois últimos filmes de Sérgio, Noite de São João (que levou os kikitos de melhor trilha sonora, melhor fotografia, melhor atriz coadjuvante (Dira Paes) e melhor ator (Marcelo Serrado), em Gramado), e o ainda inédito Quase um tango..., que também venceu em Gramado os kikitos de melhor atriz (Viviane Pasmanter) e melhor roteiro, para o próprio Sérgio Silva. Também tive o privilégio de ser aluno do Sérgio no DAD, e sem dúvida foi um dos melhores professores com quem travei contato. Um homem que amava profundamente o cinema e o teatro, e que admirava nos atores a capacidade de fazer parecer de verdade o que é uma grande mentira, seja pelo filtro de uma câmera, seja sobre as tábuas de um palco.
 
*Marcelo Adams é ator e professor da graduação em Teatro: Licenciatura da UERGS

sábado, 8 de setembro de 2012

Mãe Coragem e seus filhos por Marcelo Adams

A montagem de Mãe Coragem e seus filhos, peça escrita por Bertolt Brecht e estreada em 1939, inicia, segundo rubrica do autor, em plena guerra dos 30 anos (1618-1648), que ocorreu principalmente na Alemanha, mas que chegou a envolver a maioria da Europa nos conflitos. A motivação principal dessa longa altercação foi a rivalidade entre católicos e protestantes, mas interesses territoriais e comerciais também contribuíram.
Os famosos efeitos-V (de Verfremdungseffekt, que pode ser traduzido como “efeito de estranhamento” ou “efeito de distanciamento”), criados por Brecht para serem aplicados em suas peças, incluíam tabuletas (à moda elizabetana) onde eram antecipadas, no início de cada cena, as ações que se dariam a seguir. Exemplo disso é a rubrica que pode ser lida no início da primeira cena:
“1- PRIMAVERA DE 1624. EM DELARNE, O GENERAL OXENSTJERNA RECRUTA TROPAS PARA A CAMPANHA DA POLÔNIA. A VIVANDEIRA ANNA FIERLING, CONHECIDA PELO APELEIDO DE MÃE CORAGEM, FICA SEM UM DE SEUS FILHOS”
Ao revelar que a Mãe Coragem ficará sem um de seus filhos, a intenção do autor é transferir a tensão do espectador do pólo do simples suspense (o que vai acontecer?) para o pólo da reflexão (como isso vai acontecer? Por que a Mãe Coragem perderá um de seus filhos?). E Brecht (1898-1956) sempre prezou a reflexão em seu teatro, não a colocando em oposição ao divertimento: uma peça pode provocar a atividade do espectador e diverti-lo. Está aí a Ópera dos três vinténs que não me deixa mentir. Mas a base do pensamento de Brecht é marxista, e coloca como questão fundamental a separação entre aqueles que detêm o capital (e consequentemente o poder) e aqueles não têm acesso a ele (e que sofrem com isso). Anna Fierling está entre os segundos, e apesar de atitudes egoístas (como quando regateia o valor que deveria pagar para ter seu filho libertado, regatear esse que causa a morte do filho), é alvo de nossa simpatia. Não há maniqueísmo total: Anna Fierling é uma comerciante de coração duro, às vezes, mas também é uma mãe que ama seus filhos. Ambígua e dividida como todos os seres humanos.
A encenação de Claus Peymann junto ao Berliner Ensemble – companhia fundada por Brecht e sua mulher, a atriz Helene Weigel, em 1949 –, apesar de não reproduzir a clássica exibição das tabuletas antecipatórias, introduz outros efeitos de estranhamento, na tradição brechtiana. Exemplo disso é o palco inclinado, que remete à tradição operística. Por ser em formato circular, a área de atuação dispõe o espectador a encontrar o significado dessa inusitada forma, e que para mim é uma metáfora do caráter cíclico das guerras, e, mais especificamente, da trajetória da Mãe Coragem, que passa a vida entrando e saindo de campos de batalha, onde encontra os objetos que venderá.
A iluminação escancaradamente visível, em altas torres de ferro que comportam os refletores, me recordaram a ambientação das arenas de boxe (um esporte admiradíssimo por Brecht, que escreveu alguns textos em que encontra similaridades entre o boxe e o teatro). Até mesmo os blecautes, que alguns consideraram excessivos, entre as trocas de cenário, me pareceram coerentes à estética do distanciamento. Explico: nos dias de hoje, é raro encontrar espetáculos que usem o blecaute dessa forma funcional, para trocar cenários: o que se faz, normalmente, é expor ao público essas contrarregragens e incorporá-las ao espetáculo, poetizando-as com alguns artifícios (mudança na iluminação, trilha sonora para encobrir os ruídos). O que Peymann fez vai na contramão disso: ao instituir o blecaute, onde a carroça é trocada de lugar e outros elementos são trazidos à cena, o encenador parece nos dizer: “agora precisamos fazer modificações no palco, não esqueçam que isso aqui é uma peça de teatro. Esperem um pouco que vamos apagar a luz e mudar as coisas. E não se preocupem, os barulhos que vocês ouvirem não são de nenhum dos contrarregras se machucando, mas apenas objetos sendo arrastados”. O efeito que a escuridão e os ruídos me provocaram são talvez aqueles previstos pelo efeito-V brechtiano: jamais esqueci de que estava em um teatro, e que aquele bando de homens de preto carregando e rearranjando a cena estava trabalhando para que o teatro se fizesse. Sem ilusionismo.
É preciso ainda mencionar o excelente trabalho dos atores, com destaque para a personificação da Mãe Coragem. Fiquei comovido ao ver um grupo como o Berliner Ensemble, berço das experiências de Brecht, executando à minha frente as belíssimas songs. Não é, ficou evidente, uma encenação repleta de ousadias formais e narrativas, como as que já vimos aqui mesmo em edições anteriores do Porto Alegre em Cena por grupos também alemães, como o fantástico Volksbühne. Mas vimos, sim, a história mesma do teatro em nossa cidade, em um dos maiores clássicos da dramaturgia encenado pela casa de Brecht. Isso é inesquecível e me alimenta como artista.
*Marcelo Adams é ator e professor da graduação em Teatro: Licenciatura da UERGS

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A última gravação de Krapp por Marcelo Adams

 Bob não é bobo*

Bob Wilson, este brilhante encenador norte-americano que, felizmente, continua em plena atividade, dirigindo espetáculos inesquecíveis e provocadores ao redor do mundo, sabe que nossos tempos encontram perfeita representação na obra teatral de Samuel Beckett. Afora as peças longas (mais conhecidas) de Beckett, como Dias felizes e A última gravação de Krapp, sonho em ver encenados por Wilson textos mais curtos e de ainda maior complexidade, como Words and music, Cascando, Not I, Footfalls (a lista se estenderia por vários outros títulos). Já que, por enquanto, isso é matéria de sonho, nos deleitemos com este A última gravação de Krapp, apresentado no 18º Porto Alegre em Cena.
É possível ser purista ainda em nossos dias, defendendo esta ou aquela maneira de encenar um texto? A resposta é tão óbvia que não merece réplica. O único compromisso que uma encenação deve ter é com sua coerência interna e, naturalmente, com sua efetiva comunicação. Quando escrevo comunicação (obviamente que nos casos em que ela é buscada), quero me referir à possibilidade que a encenação tem de apresentar um discurso relevante, impactante, esteticamente marcante. É o caso de A última gravação de Krapp. Esqueça aquela estética cinzenta, encardida, que se costuma associar a Beckett. Bob Wilson nos apresenta o aço, o plástico. Esqueça o catarro, Bob nos entrega a assepsia. Krapp faz 69 anos e ouve velhas fitas onde, 30 anos antes, gravara suas impressões sobre acontecimentos envolvendo uma mulher. 30 anos se passaram, Krapp não é mais o mesmo, todas as suas células se renovaram, ele é outro ser, inteiramente distinto daquele do passado. A única coisa que identifica esses dois Krapps, distantes tantas décadas no tempo, é um nome: Krapp (e note-se a ironia de Beckett, crap, em inglês, é merda).
Bob Wilson como ator vive uma figura desumanizada, quase um robô-velho que surpreende-se com sua rendição, no passado, ao amor. De antíteses a encenação se serve: o visual clean, contemporâneo, da cenografia, opõe-se à ultrapassada tecnologia do gravador de rolo. Imagens evocativas do afresco A criação de Adão, de Michelangelo, colocam Krapp como o primeiro (e último dos homens), em conflito com o Grande Criador. Deus expressa-se com trovões ensurdecedores, relâmpagos e chuva abundante. Só resta a memória, e é a ela que Krapp recorre para fazer passar o tempo. Em síntese, a dramaturgia de Beckett tem um tema recorrente, que é o da espera e, em sua obra tardia, a memória e a impossibilidade de preservá-la.
Visualmente, o espetáculo é arrebatador, perfeito no uso do manancial técnico. Não se enganem os desavisados: o perfeccionismo estético de Bob Wilson encobre uma profunda e genial reflexão sobre o Homem. Bob Wilson não é bobo.
* Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo, professor do curso de Teatro: Licenciatura da UERGS

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Cordel do amor sem fim por Marcelo Adams

Cordel do amor sem fim*
O espetáculo Cordel do amor sem fim tem várias daquelas qualidades que costumamos associar ao trabalho de grupo (neste caso O Poste: Soluções Luminosas): o engajamento da equipe, visível especialmente no trabalho dos atores, o que chamamos por aqui de “garra”; e o cuidado, detalhamento até, da cenografia, minuciosa. É um espetáculo sincero em suas intenções, isso é inegável. Percebe-se isso assistindo à peça e até mesmo em entrevista com o grupo (que assisti na TV).
O resultado das qualidades acima enumeradas é, por outro lado, um pouco irregular. Conheço a peça onde o espetáculo se baseou (foi publicada no volume que reúne as peças premiadas no Concurso de Dramaturgia da Funarte 2003, onde recebeu o 3º lugar da Região Nordeste), e a leitura permite avaliar com clareza qual é a história a ser contada. Neste caso, as três irmãs, Teresa, Carminha e Madalena, vivem sozinhas em uma casa, sendo que a primeira delas tem como pretendente José. A complicação acontece quando Teresa se apaixona por Antônio (que nunca aparece, é apenas mencionado) e decide romper o compromisso com José, esperando pelo retorno daquele pelo qual se encantou à primeira vista. A maior parte da peça acompanha a espera por Antônio, até a trágica resolução final, quando José, em um encontro promovido pelo acaso, mata o amor de Teresa com uma faca, ele que voltara finalmente, após anos de espera, para levar a prometida.
O que em minha opinião não funciona no espetáculo é o caráter caricatural que a encenação dá a essa história. O exagero das interpretações, estilizadas e gritadas sem motivo aparente, me afastou. Há uma busca pelo humor nas interpretações, não sempre, é verdade, mas em intensidade suficiente para provocar incômodo. Da mesma forma, o ralentar desnecessário das cenas, esticando ao máximo os tendões dramáticos, não contribui para o encantamento. Pausas deslocadas, buscando o lirismo que talvez brotasse muito mais da simplicidade do que do “barroquismo” fazem o pensamento dispersar. Da mesma forma, a frequente e excessiva sonorização do espetáculo (com intervenções musicais e de ruídos pontuando movimentos e falas, executadas por um músico, visível aos espectadores, mas também pelos atores, quando não estão em cena) saturou um pouco. Silêncio, quase não havia – e a fala não é aquilo que explode entre dois silêncios? Quando tudo explode, nada explode – mas implode a cena.
* Marcelo Adams é ator e diretor teatral, fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado. Dramaturgo e professor do curso de Teatro: Licenciatura da UERGS

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Labirinto por Marcelo Adams

Labirinto*
O dramaturgo Qorpo Santo teve em Porto Alegre, em 2005, uma montagem inesquecível, pelo Depósito de teatro: Dr. QS- Quriozas Qomédias. Naquela ocasião eu não conhecia muito do autor (afora algumas montagens esparsas de peças curtas, como Mateus e Mateusa). Mas após a encenação dirigida por Roberto Oliveira, que integrava à ação a própria vida do dramaturgo, fundindo e transitando entre a ficção e a realidade, creio que ficou mais claro, para mim, o turbilhão emocional e criativo no qual o triunfense habitava.
Este Labirinto carioca, dirigido pelo consagrado Moacir Chaves, se coloca alguns degraus abaixo na ousadia, em comparação com a montagem do Depósito de teatro. Não se trata de competição: quem é mais criativo? Mas de exprimir, cenicamente, o caótico mundo de Qorpo Santo. Nesse sentido, a encenação de Chaves inicia muito bem, com uma espécie de coral estático recitando trechos dos diálogos, sem nenhuma coerência de personagem, ou seja, as falas foram distribuídas entre os atores, numa veloz sucessão de emissões. A mim lembrou a esquizofrenia do dramaturgo, com sua cabeça povoada por dezenas de vozes e figuras, que cuspiam suas palavras ciclicamente. Lindo mesmo.
O problema é que esse início auspicioso é substituído, depois, por uma mais convencional proposição dialógica, que fica aquém do início polissêmico. E os atores, muitas vezes aos berros, não dão conta do desenfreado teatralismo de Qorpo Santo. Moacir Chaves chega a investir na homossexualidade como tentativa de fazer graça, coisa que os humorísticos televisivos fazem à exaustão, há décadas. Se em Hoje sou um, amanhã outro, o casal de criados homossexuais demonstra a surpreendentemente avançada temática gay nos anos 1860, na peça seguinte, As relações naturais, o mesmo ator que fizera um dos criados gays na peça anterior retorna, com outra personagem gay. Novamente a encenação dá espaço para trejeitos afeminados, que nada parecem ter a ver com a peça, e sim com a facilidade que o ator que interpreta essas duas figuras tem de atuar “flutuantemente”. Ficou engraçado? Então coloca aí, o público vai adorar.
Se ao invés de três peças a encenação apresentasse apenas duas, talvez não percebêssemos tanto as deficiências. A sensação que tive é que esgotou-se a “boa ideia” do diretor, que começa bem, numa reta, mas vai engasgando ao subir a ladeira dos minutos. Lá pelo meio da encenação dava quase para ver a peça com a língua de fora, esbaforida, já tendo dado tudo que tinha para dar.
* Marcelo Adams é ator e diretor teatral, fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado. Dramaturgo e professor do curso de Teatro: Licenciatura da UERGS

Nada del amor me produce envidia por Marcelo Adams

Nada del amor me produce envidia*
O espetáculo argentino, dirigido pelo cineasta Diego Lermon, estreante como encenador, foi construído a partir do texto do também cineasta Santiago Loza. Em cena uma atriz, Maria Merlino, que vive uma costureira nos anos 1930, encarregada de fazer um vestido para a atriz e cantora Libertad Lamarque. A primeira dama argentina, Eva Perón, em visita à casa da costureira, descobre o vestido e exige que este lhe seja vendido. A costureira fica dividida entre ceder o vestido a Evita ou entregá-lo à legítima dona, Libertad.
Em poucas linhas, este é o “conflito” proposto pela peça, pretexto para, isso sim, o belíssimo trabalho de atuação de Maria Merlino. A expressão “minimalismo” já está um pouco saturada, mas é difícil não empregá-la para Nada del amor me produce envidia. O trabalho da atriz, detalhadíssimo, conjuga-se muito bem à encenação, que pouco propõe em termos de movimentações e ações, deixando que elas se fixem na estética naturalista (própria do cinema, é bom lembrar). Há em cena apenas uma máquina de costura (que, por sinal, jamais é usada em sua principal ocupação, ou seja, costurar), um manequim e um banquinho de madeira. O resto do encantamento provocado é fruto da delicadeza na emissão do texto, por parte da atriz, que, quando canta, mostra-se absolutamente afinada, várias vezes inclusive cantando à capela.
Já estive algumas vezes em países de língua espanhola, já assisti outras vezes a espetáculos da Argentina, mas jamais compreendi as palavras do texto tão bem quanto desta vez. A pronúncia e a dicção da atriz são tão perfeitas, que foi quase como se ela falasse em português. Outra coisa: a magneticidade de sua atuação não me permitia dispersar, durante os 60 minutos da peça. Um olhar úmido, constantemente, não apenas de choro, mas de entrega ao papel. Um gestual preciso e limpo, mesmo que sem nenhuma ousadia formal, tinha a habilidade de estabelecer uma comunicação poderosa com a plateia.
Ainda a destacar a escolha (esta sim, do encenador) de conduzir o espetáculo não no registro do melodrama, que faria todo o sentido, pela história que nos é contada. Mesmo nos momentos de emoção transbordante, a contenção é a melhor opção (naquele contexto, fique claro). O cinema, afinal de contas, foi um bom parâmetro para o diretor, que segurou a onda da atriz, tornando-a, até, mais convincente em sua melancolia. É claro que a atuação de Maria Merlino é fundamental para atingir-se esse soberbo resultado: percebe-se que é uma atriz de recursos inumeráveis, daquelas que dá muito prazer de ver. Lembrou-me da Cássia Kis Magro.
* Marcelo Adams é ator e diretor teatral, fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado. Dramaturgo e professor do curso de Teatro: Licenciatura da UERGS

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Marcelo Adams #16: Elefantilt e Cabarecht

Fotos: Mariano Czarnobai / PMPA

Cida Moreira, Elefantilt, Cabarecht


Cida Moreira é escorpiana como eu. Nunca antes tivera oportunidade de me aproximar dessa grande cantora, atriz (bissexta) e professora. Por isso, a última semana foi tão legal. Participei da oficina da Cida, Técnica vocal para atores e cantores, dentro do Porto Alegre Em Cena. Durante quatro manhãs, nos encontramos no foyer do Theatro São Pedro para fazer exercícios vocais, cantar e ouvir coisas inteligentes, só possíveis pela boca de alguém que é uma verdadeira artista: generosa, objetiva, justa, lúcida, além de ter uma voz fenomenal. Ainda nessa semana, assisti a Cida em dois espetáculos, ambos dirigidos pelo Humberto Vieira: Elefantilt, versão do texto O filhote do elefante, de Bertolt Brecht, que, por sua vez, é um apêndice da peça Um homem é um homem (uma das minhas preferidas desse grande teatrólogo alemão). Nessa bem humorada e curta peça, Cida está ao teclado, acompanhando o elenco que canta coisas tão díspares quanto Another brick in the wall e O passo do elefantinho, com deboche e num clima de cabaré muito divertido.

Por falar em Elefantilt, tenho que destacar a encenação de Humberto Vieira, que é simples, mas muito impactante visualmente. Como um dos atores avisa logo no início que a peça "não é para entender" (ou algo parecido, desculpem a citação imprecisa). Segue-se, naturalmente, uma estrutura mais ou menos definida (não vou dizer aristotélica, porque foi contra isso, justamente que Brecht criou o seu "teatro épico"): o julgamento de um filhote de elefante, acusado de matar a própria mãe. As personagens da peça do elefante são interpretadas por personagens extraídos de Um homem é um homem (Galy Gay, a viúva Begbick, entre outros). Ou seja, vemos uma peça dentro de uma peça, numa estrutura épica que possibilita imensamente as quebras, os distanciamentos preconizados por Brecht: não é possível envolver-se afetivamente com a encenação, porque, a todo momento, somos lembrados de que se trata de uma encenação. Dentro da proposta brechtiana de estranhamento, Elefantilt é exemplar. Mas, é preciso dizer, se existe alguma reflexão a ser feita pelo espectador que assiste à montagem em questão, confesso que isso me escapou. Ao contrário de peças mais densas como Mãe coragem e seus filhos e O círculo de giz caucasiano, ou mesmo sátiras operísticas como A ópera dos três vinténs e Mahagonny, que deixam clara a questão a ser criticada, Elefantilt é quase que puramente divertimento. E não há nada de errado nisso, já que o próprio Brecht defendia o divertimento no teatro (mas não o divertimento pelo divertimento, que isso fique claro). A opção da encenação é proporcionar um espetáculo rico visualmente e musicalmente, e isso é muito mais do que, muitas vezes, se vê pelos palcos brasileiros. A crítica social existe em Elefantilt, mas, talvez, ela não tenha fica suficientemente clara e, assim, está ótimo, muito obrigado. Por se tratar de um apêndice de Um homem é um homem, conforme já escrevi, é, na peça maior, que se percebe claramente as intenções críticas do dramaturgo, restando a esse petit divertissement o papel que os entremezes tinham no teatro espanhol do século XVII por exemplo. O elenco está "brechtiano" e isso é muito bom: debochados, despudorados, cantam e constroem, ao som de Cida Moreira (que está caracterizada soberbamente, parece um "cachorrão"), imagens vivas e interessantes. Os figurinos e a cenografia são especialmente belos (como é característico do Humberto) e isso não tem nada a ver apenas com beleza simétrica, pois a beleza pode ser feia, e a fealdade, bela; mas, acima de tudo, tem que ser adequada para o que se mostra sobre o palco. Quero ver Humberto montando uma peça longa de Brecht!

Cabarecht, que foi apresentado na noite de premiação do Troféu Braskem, novamente retoma o universo brechtiano, com composições Brecht-Weill e textos do dramaturgo. O elenco tem Cida Moreira (tocando um lindo piano de cauda), Antônio Carlos Brunet, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa, e claro que o resultado é excelente. Humberto Vieira, que também dirigiu e roteirizou esse recital cênico-musical, aposta no humor, na maior parte do tempo, para nos fazer passear pela obra musical desses grandes compositores que foram Bert e Kurt. Para cantar Brecht, não é necessário ser cantor lírico, já que as songs eram escritas para ser executadas por atores, mas, sim, saber interpretar as letras. A afinação, obviamente, é importante, mas isso os "cabarechticos" tiraram de letra, e ainda nos deram belas interpretações.

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Elefantilt
Roteiro e Direção: Humberto Vieira / Assistência de direção: Shirley Rosário / Direção musical: Cida Moreira / Elenco: Daniela Guerrieri, Alexandre Cardoso, Juliana Dal Ben, Maiquel Klein, Richard Biglia, Tatiana Vinhais, Vivian Salva, Yheuriet Kalil / Figurino e Cenário: Fabrízio Rodrigues / Iluminação: Cláudia De Bem / Produção: Yheuriet Kalil e Shirley Rosário / Realização: Companhia Babel de Teatro / Duração: 50min / Classificação: livre

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Cabarecht
Direção e roteiro: Humberto Vieira / Direção musical: Cida Moreira / Elenco: Cida Moreira, Sandra Dani, Antônio Carlos Brunet, Zé Adão Barbosa / Iluminação: Claudia De Bem / Programação visual: Humberto Vieira / Duração: 1h10min / Classificação: livre

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Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo. Graduado em Teatro- Interpretação Teatral e em Direção Teatral, pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, sediada em Porto Alegre. Participou de dezenas de espetáculos como ator e diretor. Destacam-se Goela abaixo, O homem e a mancha (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2006), Burgueses pequenos, Édipo, O médico à força (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2008), Bodas de sangue e Mães & Sogras. Estreará no próximo dia 15 de outubro, no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo A lição, de Eugène Ionesco, nova produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. Autor do blog http://marceloadams.blogspot.com/

domingo, 26 de setembro de 2010

Marcelo Adams #15: Final de Partida


Final de Partida

Sou um apaixonado pelos autores que se costuma enquadrar sob a denominação "guardachuvática" (neologismo meu, me perdoem) de Teatro do Absurdo. Este termo foi criado por Martin Esslin em seu livro de 1961, que tem por título a mesma expressão, e passou a ser aplicado a dramaturgos como Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Harold Pinter, Vaclav Havel, Fernando Arrabal, Arthur Adamov e outros. Não é a toa que, no próximo dia 15 de outubro, meu grupo, a Cia. de Teatro ao Quadrado, estreia o espetáculo A lição, de Eugéne Ionesco, no ano em que se comemoram os 60 anos do Teatro do Absurdo (cujo primeiro movimento é considerado a encenação de A cantora careca, de Ionesco, em 1950).

Beckett escreveu Fim de partida em 1957, este que é um dos textos mais celebrados desse genial autor irlandês, e em que repete temas encontráveis em Esperando Godot, sua obra mais conhecida. A desesperança do beco sem saída em que habitam as personagem Hamm, Clov, Nagg e Nell, aliada ao humor amargo e nigérrimo, fazem esta peça um exemplo da filosofia beckettiana: o niilismo convive com o burlesco.

O que me agradou na montagem venezuelana foi a disponibilidade física dos atores, especialmente o domínio corporal do intérprete de Clov. Não me lembro de ter visto uma montagem dessa obra tão exigente em termos físicos. Por outro lado, é justamente isso que também me desagrada nessa versão: tudo é acelerado, gritado mesmo, sem tempo para as famosas e bem-vindas pausas do texto, que estão lá não por um capricho do autor, mas porque contribuem com a atmosfera buscada. Como em Esperando Godot, em que Gogo e Didi esperam Godot, que nunca vem, e, enquanto isso, criam jogos e brincadeiras para passar o tempo, em Fim de partida, Hamm e Clov também esperam por algo, que nem eles próprios sabem o que é. Pode-se dizer que eles esperam o tempo passar, como quem carrega sobre os ombros o peso de estar vivo sem objetivos muito definidos. Nesse sentido, Endgame é ainda mais cruel que Waiting for Godot, já que nesta havia a esperança e o sonho de que Godot pudesse resolver seus problemas e acolhê-los em um lugar quentinho. Na peça de 1957, não há esperança, o mundo está desolado, tudo é cinza, cinza, cinza, e parece não haver ninguém mais no mundo para dividir as desgraças.

Ao optar pelo ritmo acelerado, a montagem dirigida por Héctor Manrique investe mais no estranhamento cômico proporcionado pelas ações das personagens do que na reflexão, que deveria se instalar, venenosa, de que viver é esperar pela morte. Não concordo com essa tentativa de tornar mais palatáveis as coisas. Ao final da peça, inclusive, há um lampejo melodramático nos discursos finais das personagens, que também considero equivocada. Não se chora por essas figuras, elas mesmas não têm pena de si. Pode haver esboços de desespero, mas que são logo encobertos. Não adiantam de nada. Em uma das falas mais brilhantes da peça, Hamm diz "Acho que estamos começando a significar alguma coisa", sem ter muita certeza do que seria esse significado. Para mim, isso é Beckett.



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Texto: Samuel Beckett / Direção: Héctor Manrique / Elenco: Juvel Vielma, Daniel Rodríguez, Juan Vicente Pérez, Melissa Wolf / Iluminação: José Jiménez / Duração: 1h45min / Classificação: 14 anos

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Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo. Graduado em Teatro- Interpretação Teatral e em Direção Teatral, pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, sediada em Porto Alegre. Participou de dezenas de espetáculos como ator e diretor. Destacam-se Goela abaixo, O homem e a mancha (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2006), Burgueses pequenos, Édipo, O médico à força (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2008), Bodas de sangue e Mães & Sogras. Estreará no próximo dia 15 de outubro, no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo A lição, de Eugène Ionesco, nova produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. Autor do blog http://marceloadams.blogspot.com/

Marcelo Adams #14: Electra


Foto: Guilherme Santos / PMPA
Electra

O mito de Electra serviu de material para os três grandes tragediógrafos exercitarem seus estilos durante o século V a.C., em Atenas. Ésquilo, em Coéforas (escrita em 458 a.C.), Sófocles com Electra (escrita entre 420 e 410 a.C.) e Eurípides também com Electra (escrita após 413 a.C.) trataram, de formas levemente distintas, o mito da filha que deseja vingar o pai Agamemnon, através da morte da mãe, Clitemnestra, e do tio, Egisto. Para isso, aguarda o retorno de seu irmão Orestes, para que pratique a ação sangrenta. É uma história terrível, porque envolve matricídio, talvez o mais abominável dos crimes consanguíneos, e traz embutida uma força arquetípica avassaladora.

Com um material dessa qualidade, faz-se indispensável uma encenação igualmente rica. Não digo financeiramente, porque dinheiro não compra criatividade (apesar de facilitar um pouco às vezes): falo de riqueza teatral, de transcendência. E isso não se viu na montagem uruguaia dirigida por Marisa Bentancur, tendo a consagrada atriz Gabriela Iribarren no papel-título.

Não tenho absolutamente nada contra os clássicos, pelo contrário: tenho participado, como ator, da encenação de alguns dos grandes textos da dramaturgia universal: Hamlet, Édipo, Bodas de sangue, O médico à força, e outros. Também nada contra encenações "clássicas" desses textos (o que é mesmo clássico? Será algo que se opõe a experimental?). Discussões à parte, mesmo em encenações clássicas há momentos do que chamo de transcendência, de inventividade, quando o encenador coloca sua visão a respeito da obra a serviço de uma ideia. Isso é necessário.

A montagem uruguaia tentou esse recurso em alguns momentos, mas infelizmente de maneira equivocada. Uma trilha sonora estranha, algo como lounge music, durante a cena de reconhecimento entre Electra e Orestes é inexplicável. Também não se entende aquelas partituras de dança contemporânea executadas pelo coro, em alguns momentos. Quase risíveis, não fosse a garra do elenco inteiro. Os figurinos são feios, especialmente o vestido de Clitemnestra, de um amarelo deslocado, assim como o tecido e o modelo "madrinha de casamento". Aliás, a maquiagem lembrava uma madrinha. Egisto entra com um calçado que parece uma Melissinha, e por aí vai.

A cenografia é claramente inspirada nos esboços de Edward Gordon Craig, e isso é uma virtude. Mas os níveis diferentes são usados sem a devida propriedade, porque as personagens permanecem estáticas durante longas falas, o que torna bastante maçante a encenação. Para que encenar Electra desse jeito? Melhor fazer uma leitura dramática ou comprar o texto e ler em casa.

Uma das coisas mais estranhas do espetáculo foi a morte de Clitemnestra e de Egisto. Todos sabem que, na tragédia antiga, as mortes nunca eram exibidas em cena, porque os atenienses não suportavam esse tipo de violência diante de seus olhos. Por esse motivo, há inúmeros exemplos, nas tragédias gregas, de cenas de narradores que vêm contar em detalhes mortes e atrocidades ocorridas fora do palco. Nessa Electra de Sófocles, no texto original, a morte ocorre fora de cena, ouvindo-se apenas os gritos da mulher e do amante assassinados. Na montagem uruguaia, Clitemnestra é trazida para o palco, agarrada pelos pulsos de forma desajeitada por Pílades, amigo de Orestes, e apunhalada com um objeto invisível pelo filho. Sim, Orestes estica a mão vazia e encosta no ventre da mulher, que morre. Por que? Só se justificaria trazer essa ação para as vistas do público se ela fosse executada com violência e verossimilhança. Desta forma, como encenada pelos uruguaios, nem uma coisa nem outra: não agrada a gregos nem troianos, e torna-se ridícula. O mesmo se repete no assassinato de Egisto. Incompreensível a escolha.

Gabriela Iribarren é a melhor do elenco; felizmente, porque é quem mais fala. No entanto, mesmo com uma bela dicção, mantém um tom choroso e monocórdico durante muito tempo, o que é cansativo e distancia. De resto, a velocidade das falas muitas vezes torna dificílimo compreender o que dizem os atores falando em espanhol.

A iluminação é simples, mas bonita. Não há muito mais o que dizer sobre a peça, porque ela não atinge um nível de destaque, apresentando vários problemas de encenação. E, por essa razão, Marisa Bentancur é a principal responsável pelo não êxito da empreitada.


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De: Sófocles / Direção: Marisa Bentancur / Elenco: Gabriela Iribarren, Lucas Barreiro, Rosa Simonelli, Gustavo Bianchi, Virginia Rodriguez, Gabriela Palomera, Victoria Novick, Rosina Carpentieri, María Inés Dutour, Paola Ferreira, Daniela Mosca, Danna Liberman, Gustavo Suarez e Liliana Curto / Figurino: Verónica Lagomarsino / Cenário: Diego Caceres / Iluminação: Martín Blanchet / Trilha sonora: Sylvia Meyer / Produção: Marisa Bentancur / Duração: 1h / Classificação: 12 anos


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Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo. Graduado em Teatro- Interpretação Teatral e em Direção Teatral, pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, sediada em Porto Alegre. Participou de dezenas de espetáculos como ator e diretor. Destacam-se Goela abaixo, O homem e a mancha (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2006), Burgueses pequenos, Édipo, O médico à força (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2008), Bodas de sangue e Mães & Sogras. Estreará no próximo dia 15 de outubro, no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo A lição, de Eugène Ionesco, nova produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. Autor do blog http://marceloadams.blogspot.com/