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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Jorge Arias #2


 Martes, 21 de septiembre, 2010 - AÑO 11 - Nro.3753
http://www.larepublica.com.uy/cultura/424630-el-festival-internacional-de-teatro-de-porto-alegre-sigue-su-marcha

Rubros, Lonesome cowboy, A megera domada, Babau e Um navio no espaço

Continúa en diversos escenarios de la ciudad de Porto Alegre (Brasil), la décima séptima edición del ya tradicional Festival Internacional de Teatro que, año tras año, convoca a una multiplicidad de artistas provenientes de las más diversas partes del mundo y a multitudes de espectadores.

En esta segunda entrega reseñaremos varias obras, entre ellas Rubros: vestido - bandeira - batom (Minas Geraes) que es el complicado título de un encuentro entre dos amigas.

El arranque nos trajo una clara reminiscencia de El turista accidental de Anne Tyler, en el cine por Lawrence Kashdan (William Hurt y Geena Davis). Una de las amigas (Daniela Cabral) está profundamente deprimida porque ha perdido un niño, víctima accidental de un tiroteo en la puerta de la escuela a donde no acudió en hora. Corteja el suicidio, se siente culpable; su amiga (Ana Regis) trata de volverla al rojo vivo de la vida, de ayudarla a rearmar su casa y su no menos desvencijada existencia. La obra es una serie de conversaciones en el hogar que se derrumba; conversaciones que parece tener éxito terapéutico. La actriz Ana Regis obtuvo un premio por su interpretación.

Lonesome cowboy (Suiza) podría llamarse "Usted no ha visto todo en materia de ballet", porque a nada se parece. Cinco bailarines, con ropas convencionales, patinan, se deslizan, arrastran, saltan, se agreden, se revuelcan sobre un piso cubierto de una arena negra; o bien la obra contiene improvisación de altísimo nivel, lo que parece muy difícil, o bien simulan magistralmente los azares de luchas callejeras, lo que es más difícil todavía. Hay una brisa, un hálito fugaz que llega desde las Brokeback Mountains; y la destreza técnica de los bailarines se acerca a lo imposible y al fin nos sentimos admirados, sorprendidos y un poco exhaustos.

A megera domada (La fierecilla domada de Shakespeare) es un espectáculo callejero dado con la energía habitual en el activo e inteligente Jessé Oliveira -que el Uruguay premió por su Hamlet sincrético y del que comentamos recientemente O osso de Mor Lam- con máscaras, música y canciones, no ya con "Caixa preta" sino al frente de un grupo de Caxias do Sul. Como el día señalado llovía, Jessé hizo la obra dentro de la Usina do Gasómetro, con una limpieza de ejecución y un cuidado de los detalles como si siempre hubiera sido allí.

Babau fue una apoteosis de muñecos, esta vez en gran cantidad de personajes, en la tradición de los "mamelungueiros", manipulados aquí por un diestro equipo dirigido por Marcondes Gomes Lima. El "mameluco" es un mestizo de indio con blanco; invariablemente los bandidos son blancos, incluyendo el Diablo, el peligroso Babau, y los buenos son negros o indios; todos son un poco desvergonzados y otro poco ingenuos, siempre de una pieza y directos, siempre en la tradición de maridos engañados, mujeres lúbricas, soldados apocados, delincuentes simpáticos, golpes y porrazos.

Um navio no espaço o Ana Cristina César trata de la vida (1952- 1983), poesía de la poeta de Río de Janeiro Ana Cristina César. Con una afición especial por la literatura inglesa, César vivió años en Gran Bretaña, leyó y admiró a la poeta Sylvia Plath y, como ella, escribió un diario íntimo y se suicidó en plena juventud. Ana Cristina nos llega por Ana Kutner, que tiende a un tono exasperado y autoritario; la pieza es, más que otra cosa, un paseo un tanto impersonal por la literatura del mundo, con alusiones a Baudelaire, Mallarmé, Emily Dickinson, García Lorca y otros.

domingo, 26 de setembro de 2010

Bob Bahlis #8: Fabrício Carpinejar, Cinthya Verri e Ivete Brandalise

Cena 7: Suicídio no Porto Alegre Em Cena

Suicídio no Porto Alegre em Cena. Tem assuntos delicados. Cuidado ao falar em suicídio. Piram com a mente dos desconectados, deprimidos, sei lá... Larguei a psicologia nos primeiros anos de curso. Suicídio é um assunto delicado na vida real e na ficcional.

Depois do espetáculo do Paulo José, conversei com algumas pessoas sobre o suicídio da Ana Cristina César, grande poeta. A peça Um navio no espaço ou Ana Cristina César mostra a angústia dos textos deixados por ela em diários e muito bem interpretados pela Ana Kutner. Os questionamentos dessa angústia são feitos pelo personagem do Paulo José. Há citações como: "Sabia que as mulheres lindas se matam muito mais que as feias?"

Chega de papo. Vamos lá:


Bob: O que achou do espetáculo?

Fabrício Carpinejar: A peça teatraliza mais a morte do que a vida da Ana Cristina César. É uma obra simbólica pelo reencontro do Paulo José, com o público gaúcho e por todas essas conexões entre Caio Fernando Abreu e Ana Cristina.



Bob: E, como poeta, te identificas com o trabalho da Ana Cristina César?

Fabrício Carpinejar: Ela conseguiu iluminar toda a geração do mimeógrafo. Mesmo com aquele enfrentamento, com seus poemas corajosos, a Ana Cristina César tinha um lirismo introspectivo. Mas, como poeta, não me identifico tanto com essa loucura. A gente morre pela nossa normalidade e não pela imaginação A imaginação nos salva. Não é doentia!


Bob: E esse suicídio dela?

Fabrício Carpinejar: Ela viveu a vida que não podia. A gente deve viver a vida que pode, que suporta. Há uma glamorização no suicídio. Ela não pode ser valorizada por aquilo que ela deixou de fazer. Parece que ela é melhor porque morreu jovem, bonita e tinha um futuro pela frente. Ela não tinha futuro! Devemos festejar o nascimento da Ana Cristina César muito mais que a morte, que o suicídio.


Bob: Mas preciso de uma explicação!?

Fabrício Carpinejar: Sempre queremos uma explicação para esse tipo de atitude. É a desistência da explicação. Ficamos com medo da nossa própria ideia de morte.


Bob: E qual a tua agenda pra este Em Cena e o defina?

Fabrício: O Poa em Cena é dedo na tomada. Quero ver Hilda Hilst - O espírito da coisa


A médica Cinthya Verry, uma das pessoas mais interessantes e atraentes da cidade, namorada do Carpinejar, que participa do quadro Crônicas faladas, no programa Camarote Tv Com, e vem escrevendo na Zero Hora lindos textos, conversou comigo.


Bob:
O que achou da peça?

Cinthya:
Achei um espetáculo corajoso. Adorei a adaptação do texto. Fiquei tensa o tempo todo.


Bob: E este suicídio da Ana Cristina César?

Cinthya Verri: Na vida dela, não consegui ver uma luz no fundo do túnel e isso me deixou cada vez mais tensa. Não senti nada de feliz em nenhum momento do espetáculo. Essa incompreensão acontece quando olhamos para o suicídio. Não conseguimos compreender o desejo da morte. Mas esse desejo é compreensivo.


Vejo a atriz e jornalista Ivete Brandalise, grande amiga do ator Paulo José.

Bob: O que achou da peça?

Ivete Brandalise: Um espetáculo maravilhoso. Direção fantástica do Paulo José. Eu nunca tinha visto a filha do Paulo com a Dina Sfat no palco. A Ana Kutner é uma ótima atriz. É uma grande bailarina também.


Bob: E este suicídio da Ana Cristina César?

Ivete Brandalise: É uma questão pessoal. Ela mostra sua ansiedade, angústia e dificuldade em lidar com a vida, desde o começo da adolescência. Essa insatisfação era muito grande. Apesar da família tê-la amparado, colocando profissionais para ajudá-la 24h por dia, o problema existencial da Ana Cristina César era maior do que tudo.


Bob: E o Porto Alegre em Cena.

Ivete Brandalise:
Cada vez melhor!


*

*Bob Balis (40 anos) é diretor de teatro e dramaturgo. Dirigiu os espetáculos Stand Up Drama, Dez(quase)Amores , Filhote de cruz credo, Tem Quintana na Casa, Homens, entre outros. Em novembro, estreia a comédia adulta Morgue (texto e direção). Em 2011, pretende montar a peça O dia mais quente do ano (texto e direção). É professor de teatro da escola Cômica Cultural.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Bob Bahlis #7: A placa a Paulo José



Foto: Creative / PMPA

Cena 5: Teatro é feito com as mãos

Foi um dos momentos mais emocionantes e engraçados do Porto Alegre em Cena: a entrega de uma placa para Paulo José por Luciano Alabarse. Vamos aos fatos reais, ocorridos na noite chuvosa de um domingo.

Depois do espetáculo Um navio no espaço ou Ana Cristina César, o Paulo José chamou o Luciano Alabarse ao palco do Teatro CIEEE. Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César e tantos outros foram mencionados por Luciano, que fez o público chorar. O Luciano também chorou. Eu também! Ele tinha uma placa nas mãos, daquelas com frases para homenagear.

Produzo o que rolou: uma daquelas cenas que a gente nunca esquece.

Luciano: Hoje, às seis da tarde, perguntei: E a placa, a placa para homenagear o Paulo José na estreia do espetáculo? Alguém respondeu que estava na gaveta. Aí eu abri a placa e fiquei pasmo.

Silêncio.

Luciano: Tinha um erro de português! A primeira coisa que vi foi que faltava um “S” numa palavra.

Plateia ri.

Luciano: Na placa, o começo era assim: Paulo, você é um dos orgulho do teatro brasileiro.

Plateia ri muito.

Luciano: Saí correndo a procura de uma loja pra fazer uma nova placa, para homenagear o Paulo José. Nenhuma loja poderia fazer naquele momento. Fiquei desesperado.

Plateia ri muito.

Luciano: Aí, resolvi pegar um estilete e fiz um "S".

Plateia ri demais.

Luciano: Ficou horrível.

Plateia ri mais ainda.

Luciano:
Saí correndo pra comprar uma caneta dourada. Dar uma maquiada, pra combinar com as letras douradas. Ficou terrível.

Plateia ri muito. Paulo José e Ana Cristina se dobram de tanto rir.

Luciano:
Pensei em suspender a entrega da placa pra hoje.

Público inteiro berra: NÃO!!!!

Luciano:
Pois é. Achei melhor entregar assim mesmo. No teatro, a gente vai acertando, errando e, com as próprias mãos, tentamos arrumar os erros. O teatro é artesanato, feito com as mãos. Então, Paulo José, te entrego aqui com as minhas mãos, a placa em tua homenagem.

PÚBLICO APLAUDE DE PÉ.

Paulo José:
Bom eu sempre me orgulho dessa amada terra, de ser gaucho.

*

Foto: Alexandre Bazzo

Cena 6: Mirna Spritzer


A atriz gaúcha Mirna Spritzer é meu sonho de consumo como diretor de teatro. “Todas as coisas que faço giram em torno do fato de ser atriz”, certa vez, disse Mirna. E concordo com ela: “Muitas vezes estamos mais próximos de Montevidéu e de Buenos Aires do que do Rio ou São Paulo.”

Bob: Mirna, qual a melhor peça que já assistiu na vida, que mais lhe marcou?
Mirna Spritzer: Noite de reis, de Shakespeare, pelo Theatre du Soleil, em 1984, Cartucherie, Paris, nevando, Ariane Mnouchkine, ajeitando as pessoas na plateia para que coubessem todos, distribuição de vinho para aquecer, atores se maquiando e se aquecendo... Era tudo que eu sonhava. O espetáculo se desdobrava e eu me sentia testemunha do maior acontecimento da terra. Os atores faziam Shakespeare inspirados pelo teatro Kabuki e eram universais.

Bob:
Constuma ir ao teatro com frequencia? De quanto em quanto tempo?
Mirna Spritzer: Varia. Tem épocas em que me reapaixono e vou bastante. Em outras, me recolho.

Bob: Quais as peças a que assistiu no Em Cena deste ano até agora?
Mirna Spritzer: Happy days, As troianas, Antígonas, Um navio no espaço, A máquina de abraçar. E Alkohol, que não é teatro, mas bem poderia ser.

Bob:
Em poucas palavras, o que achou delas.
Mirna Spritzer: Amei o espetáculo de Goran Bregovic com sua orquestra, Alkohol. Sem sombra de dúvida, a melhor coisa do festival. Me emocionei com Paulo José e seu navio no espaço. Gostei de Adriana Asti e do Bob Wilson fazendo Beckett com liberdade e ousadia. Fiquei perturbada com As troianas. Sensibilizada com Antígonas, sendo fã de Alberto Muñoz, é melhor ainda. Muito bom o texto de A máquina de abraçar. Importante dizer que os video portraits de Bob Wilson são espetaculares. Surpresa, beleza, estranhamento, perturbação, humor, emoção. E a gente vai dosando como desejar na medida em que percorre a exposição(?).

Bob: Quais são as peças que ainda pretende assistir e estão na tua agenda?
Mirna Spritzer: Por tu padre, Reglas, usos e costumbres en la sociedad, In On It, Kabul.

Bob: Um sonho...
Mirna Spritzer: O palco. Ainda.

Bob: Uma personagem...
Mirna Spritzer: Blimunda, de O memorial do convento, de Saramago.

Bob: Uma peça...
Mirna Spritzer: Mãe Coragem e seus filhos, de Brecht.

Gente boa, desculpe qualquer erro, sabe como é a dislexia, né? Um navio no espaço ou Ana Cristina César continua ancorado na minha memória.

A peça já passou... Quem viu sentiu.

Ainda vai render entrevistas com Fabrício Carpinejar, Cinthya Verri e Ivete Brandalise sobre o suicídio da Ana Cristina César.

Beijos, Bob Bahlis

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Zé Victor Castiel: Um navio no espaço ou Ana Cristina César

Foto: Creative

Uma porta escancarada em 2010

A primeira e terrível sensação que me deu ao ser provocado, pelo querido e competente Rodrigo Monteiro, para conceber um comentário sobre o espetáculo Um navio no espaço ou Ana Cristina César foi indescritível. Lógico que não sou capaz. Não sou crítico. Sou movido à emoção. Nunca pensei em avaliar questões técnicas como luz, direção, atuações, cenários, figurinos e tudo que deve ser analisado/criticado numa peça teatral. Teatro bom, prá mim, é aquele que me leva para dar um passeio no éter, diverte e/ou emociona. Pois, imbuído do melhor espírito de compenetração (quase em concentração pré-cênica), fui ao Teatro CIEE na noite de segunda feira, dia 13. E lhes digo com emoção: valeu muito à pena.

Já no saguão, encontrei diversos colegas e amigos. E me assaltou a primeira grande constatação: isso só é possível no Porto Alegre Em Cena. Que festival, senhoras e senhores! Que evento fantástico! Quando imaginamos que, um dia, teríamos, em nossa cidade, tamanha diversidade de espetáculos de altíssimo nível?
O Em Cena é a organização da cultura. A concretização do lúdico. A personificação do belo. O Em Cena é produzido e conduzido com tal esmero pela equipe para isto designada que chega a dar uma pontinha de orgulho. Acho necessário este introito por dois motivos: primeiro, porque já serve como escusas por algum erro avaliativo que possivelmente cometerei; e segundo, porque elogiar o Em Cena e as pessoas que abnegadamente o realizam é uma obrigação para quem, como eu, ousa trabalhar com arte em Porto Alegre.
Falemos do espetáculo: Um navio no espaço... começa de uma maneira leve. Luzes de plateia ligadas, retardatários ainda procurando suas poltronas e Paulo José, num canto do palco, sentado atrás de uma mesa dessas que temos na biblioteca de casa. Bagunça, livros espalhados, inclusive no chão e um papo calmo, descontraído, sem demonstrar que ali está sendo dada a introdução fundamental de uma história de vida criativa, breve e intensa. Ao explicar que, no canto dos cisnes da extinta TV Tupi, havia um programa, conduzido por Hilton Franco, em que eram ofertadas cadeiras de rodas, dentaduras, bengalas a uma plateia paupérrima, o ator já está informando, mesmo que de forma coloquial, que vem chumbo grosso. Artilharia pesada de emoção e verdade.

O personagem que, no início, é o próprio Paulo José conta que roteirizou um programa para a TV Globo e que teve um parecer demolidor de um tal departamento de análises de roteiros, ou coisa que o valha. As opiniões vinham assinadas por um A.C. César. Instado por auto-defesa ou por indignação profunda (o que não importa muito), o roteirista foi até a sala onde funcionava o tal departamento a procura de A. C. César (Seria Antônio Carlos?). Lá, na verdade, encontrou uma menina de trinta anos, cujo nome era Ana Cristina e que, em que pese a candura do olhar, era a autora das ferozes críticas.

Tempos depois, lendo o jornal, soube que a mesma menina estava lançando um livro de poesias e, não contendo a curiosidade, acorreu à livraria para, provavelmente, ir à forra em ferocidades críticas. Apaixonou-se pelo que leu de tal forma que não descansou enquanto não retornou a sala da TV Globo, agora para tentar estreitar laços com aquela menina que tão boa poeta era. Porta fechada, ficou sabendo que Ana Cristina havia tirado a própria vida.

O ano era 1983 e Ana Cristina César tinha somente 31 anos. Deixou, na verdade, muitos escritos entre poemas, prosas, cartas e um diário pessoal. O suficiente para se montar um lindíssimo espetáculo sobre a vida e a amargura de uma poeta inquieta. Uma poeta que se viu publicada aos tenros 6 anos de idade e que, mais tarde, foi considerada a rainha da poesia de mimeógrafo. A ninfeta da contra-cultura.
O espetáculo se estabelece no momento em que Ana Kutner encarna Ana Cristina. A partir daí, a garra da atriz dá vida e voz a um texto ferino e amargurado. Lúcido. Tresloucado. O cenário, muito inteligente, se utiliza de panos/telas, por onde desfilam ora imagens do personagem, ora poemas escritos, ora projeções disformes, que, ao fim e ao cabo, têm conexão completa com tudo o que está sendo dito.

Paulo José funciona como um narrador. Será um amigo? Será superego? Não importa. Está ali, dando pitacos. Manuseando os livros originais da poeta e a provocando com constatações de influências e estilos da obra sendo desnudada.

Ana Kutner é uma grande intérprete. Transporta o público ao universo de seu personagem. Demonstra de tal forma angústia, inquietude, revolta e, por vezes, resignação, que faz com que embarquemos juntos naquele navio para a Europa.

Na verdade, através da forma proposta pelo diretor (também Paulo José) o que se consubstancia é uma biografia completa de uma poeta a partir de seus próprios escritos. Ordem cronológica perfeita. A arte é uma coisa estranha. Jamais, tenho certeza, Ana Cristina César imaginou que estava, através de sua obra, escrevendo, na verdade, sua própria biografia. Aí entra o total mérito do texto de Maria Helena Kühner em combinação perfeita com a dramaturgia de Walter Daguerre, que, em momento algum, demonstram qualquer forçação de barra em busca de uma coerência cênica. Temos aí, então, um lindo espetáculo. Simples. E sempre é bom lembrar que os melhores são aqueles que atingem a simplicidade.

Ana Kutner é uma excelente atriz. Possui o carisma das atrizes de estirpe e a intensidade das atrizes de verdade. Paulo José é o mestre. Elogiar sua atuação é chover no inundado. Direção ousadamente na medida.
Figurinos da Kika são sempre perfeitos. Iluminação e trilha sonora passam desapercebidos. Não por serem medíocres, longe disso. Quando um Juiz de Futebol passa desapercebido, é porque fez uma arbitragem perfeita. É mais ou menos isto: de tão bem feitos e tão adequados, contribuem de uma maneira tal para a beleza, entendimento e andamento do espetáculo que parecem que nasceram ali, durante a encenação.
Por fim, cabe uma bela constatação sobre "Um navio no espaço ou Ana Cristina César": como é sublime ver um ator septuagenário como Paulo José, um dos maiores amantes da vida que conheço (e com quem privo para minha honra) contar, no teatro, a história de uma vida auto-abrevidada aos 31.

Transpareceu, no entanto, uma certa frustração do ator na constatação de que chegou tarde para conhecer melhor aquela menina-poeta. Fique tranqüilo, Paulo José, o que você fez, magicamente, foi entrar, em 2010, por aquela porta do departamento de análises de roteiros da TV Globo, embora ela parecesse trancada em 1983. Sua missão está cumprida com mestria. Emocionante. Teatro. Poesia.

*

Zé Victor Castiel é ator de teatro, cinema e televisão e não é crítico de teatro.

Helena Mello #3: Um navio no espaço ou Ana Cristina César

Foto: Creative / PMPA

Ana Cristina César: uma estrela do mar

Creio que fazia um ano que não ia ao Teatro CIEE. Parece mentira... Um espaço muito bom, ocupado pela maioria de pessoas com mais de 50 anos que foram ver Um navio no espaço ou Ana Cristina César. Creio que o nome de Paulo José faz isso. Trata-se de um ator que tem o reconhecimento de muita gente há muito tempo. No meu caso, acho que demorei um pouco mais a dar valor para seu estilo de atuação sem exageros, mas tão autêntico. Paulo José é prova de que não é preciso gritar, esbravejar, chorar compulsivamente para transmitir uma emoção dilacerante. Mas não era para isso que ele estava ali naquele palco.

Não li a sinopse da peça. Como já disse, não gosto de prévias. Também fui atraída pelo nome de Paulo José e não estava errada. Afinal, é sua direção que deixa o espetáculo tão interessante, tão dinâmico, tão sensível. Isso tudo a partir de textos que são ditos pela única atriz que “contracena” com ele: Ana Kutner. Outra coisa que me agradou bastante foi a forma de usar as projeções, ou a câmera no teto que transmite o rosto da atriz em alguns momentos. Recursos que eu já havia visto antes em outros espetáculos, mas ali não estavam à-toa, nem demais.

Além disso, fico satisfeita quando um espetáculo conta algo que a gente não sabia, faz a gente ter acesso às informações que desconhecia. Nunca havia ouvido falar de Ana Cristina César e sai não apenas sabendo de quem se tratava, mas apreciando seus versos, sua maneira verborrágica de colocar para fora suas angústias, seus pensamentos. E olha que não é fácil trabalhar cenicamente um texto poético. Poesias não são aristotélicas e, não raro, espetáculos que insistem em trazê-las aos palcos, nos levam ficar tão perdidos quanto Ana Cristina e, se não chegam a nos dar vontade de nos matarmos, provocam, pelo menos a vontade de sair porta a fora. Mas não ali. A pergunta inicial da peça sobre o porquê da morte da poetisa se não chega a ser respondida é, ao menos, destrinchada. Saber que ela se matou deixa em nós um sentimento de perda de um talento de alguém que não suportou viver em terra firme e preferiu um navio para o espaço onde ela poderia ficar mais perto das estrelas.

Obs: Na noite em que assisti, ao final, Luciano Alabarse foi chamado ao palco por Ana Kutner e Paulo José que comentou ser o dia do aniversário de Caio Fernando de Abreu. Isso me fez lembrar das vezes em que vi este poeta esperando, como eu, o ônibus na parada da Getúlio Vargas com a Visconde do Herval ali no Menino Deus. Já havia lido Morangos mofados e me encantado quando pensava em falar com ele. Mas ainda não fazia teatro e acabava sempre me retraindo... Bem, mas foi muito legal o Luciano contar a história da placa que ele pretendia entregar para o Paulo José e que ficou pronta só na última hora e veio com erro de português. Ele explicou todas as tentativas fracassadas de corrigir. Daí, pensou em entregar a errada e depois trocar. Até que se deu conta de que, já que o teatro é uma arte de acertos e erros, o melhor seria entregar exatamente como estava. Esta decisão tornou o gesto muito mais significativo e foi bem divertido ver o Paulo José lendo em voz alta o erro e brincando com isso.

*

Helena Mello
Jornalista e Mestre em Artes Cênicas pela UFRGS. Autora do blog www.palcosdavida.blogspot.com

Bob Bahlis #5: Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar

 Cena 4: Paulo José e Ana Kurtner

Domingo, chuva forte, 19h30min. O que fazer? De repente, você se separa, fica confuso e vulnerável e uma sensação de não ter lugar para ir. Já sei! Teatro CIEE ver o Paulo José e Ana Kutner (filha dele e de Dina Sfat)! E lá estava eu, na primeira fila, pra ver o espetáculo "Um navio no espaço ou Ana "Cristina César ".

Paulo José é um ator que trabalha na Rede Globo e amo ver ele no teatro. Tenho amigos que fazem novelas e também o bom teatro. Não tenho nada contra atores da Rede Globo e, se por acaso o "plim-plim" quiser me contratar, pra fazer o "cara da vendinha" (tipo físico - careca, gordo), estou na área procurando trabalho.

O Paulo José "pode" fazer teatro, cinema, tudo! E pode mesmo! (O Fiuk, por favor, não.) Paulo José está ótimo, é um dos melhores atores do Brasil. Durante o espetáculo, Paulo José parecia em casa, nada de tremores e de agitação, reflexos da doença. Está realmente maravilhoso. Quase um Deus! A surpresa maior foi ver em cena Ana Kutner. Depois da peça, desfrutei no camarim momentos com ela.

O Paulo José entrava e saía do camarim. Nos olhava, docemente, ria .

A peça é um drama que fala de suicídio. Angustiante. Tive um grande amigo que se matou aos 28 anos de idade. Um dia antes do suicídio, ele foi na minha casa e tivemos uma bela conversa. Estava aparentemente ótimo. Depois do suicídio, achei que aquela visita foi uma despedida. A história da peça mostra a vida de Ana Cristina Cruz Cesar, considerada um dos principais nomes da geração do mimeógrafo dos anos 70. Cometeu suicídio, atirando-se pela janela do ap dos pais, no décimo terceiro andar de um edifício.

Dramaturgicamente falando, tudo é muito bem fechado no texto. Palmas para o Dramaturgo Walter Daguerre. Os poemas, as cartas e os diários da escritora, projeções luxuosas, trilha sonora no ponto, um cenário "balança, mas não cai"... Quem cai é Ana Cristina, que tirou a própria vida aos 31. Vai aí o bate papo com a atriz Ana Kutner, que vive Ana Cristina.


Bob: O que te passa na cabeça sobre o suicídio da Ana Cristina?
Ana Kutner: Ana Cristina Cruz Cesar era muito genial, um vulcão de sentimentos, de potência, de muita inspiração. Ela vinha de uma família muito castradora, protestante. Deve ter sido muito difícil pra eles conviver com este vulcão dentro de casa. A família dela se mobilizou para tentar segurar ela, pra ela não cometer o suicídio. Tenho a sensação de que a Ana não tinha a energia da vítima. Ela não era vítima de si mesma e penso que não sentia pena de si. Cada vez mais que vivo no palco essa história, acredito muito que Ana Cristina se mata, por não ter aguentado esperar. Esperar o tempo passar, a maturidade. Claro que ela viveu todo o processo, a trajetória clássica dos suicidas. Não é que ela estava tranquila e, do nada, se matou. Ela viveu um declínio clínico. Tentou várias vezes o suicídio. Entrou em depressão, chegou a pesar 45 quilos. A família tentava ajudar de todas as formas segurar Ana neste mundo....

Bob: Te vi em cena e lembrei da Rita Lee, jovem. O teu pique e preparo físico é ....
Ana Kutner: Eu vou as lágrimas com tuas palavras. Sou muito fã da Rita Lee. Os Mutantes. Tutti Frutti... Ai, que delícia!

Bob: Gostaria que falasse um pouco da tua infância...
Ana Kutner: Foi ótima! Foi uma infância dentro de uma família de artistas. Lembro das coxias, dos bastidores. Cresci vendo os meus pais trabalhando até tarde. Tinha vezes que os trabalhos aconteciam durante à noite. Eles ficavam o dia inteiro em casa. O cotidiano era diferente mesmo, não se tem um horário fixo de trabalho. Estou hoje aqui neste teatro com meu filho. Vejo que é uma repetição mesmo. Mas tinha que cumprir minhas tarefas. Passar de ano. Fazer dever. Era uma casa com estrutura, com horários.

Bob: E a tua mãe, a Dina Sfat?
Ana Kutner: Ah, me vem muita coisa boa... Muita coisa que eu fui só entender agora, sendo mãe. E penso que foi bom o fato dos meus pais terem me segurado em alguns momentos e me soltado em outros, que isso deu a medida certa, e agora me sinto organizada pra passar pro João todas as coisas legais. As coisas que não foram boas não vou passar. Como toda a família, erramos e acertamos o tempo todo.

Bob: Como foi tua entrada no teatro?
Ana Kutner: Porto Alegre faz parte dessa história. Minha mãe veio fazer o espetáculo A irresistível aventura, aqui no Theatro São Pedro. Estava eu aqui com ela. Hoje, meu filho está aqui comigo. Voltando.... Eu tinha 13 anos e ela perguntou se eu não queria trabalhar, fazendo contraregragem. Eu topei. Enquanto estávamos aqui no sul, foi uma experiência muito forte. Ali foi a primeira vez que eu senti ter pisado em cena. Depois, com 18 anos, eu me profissionalizei, mas fiz muito teatro amador, Tablado, etc....

Bob: Teus movimento corporais em cena mostram que tiveste contato com dança. Estou certo?
Ana Kutner: Sim. A dança iniciou aos 03 anos de idade na minha vida e durante a adolescência inteira. Inclusive, quero voltar ao clássico. Minha formação vem do ballet clássico e do circo (trapézio), então, o corpo é um fio condutor muito forte, pra eu fazer esta personagem.

Bob:
Como é a tua família?
Ana Kutner: Sou separada do pai do João. Hoje sou casada com o Dramaturgo Walter Daguerre. Já são dois anos e meio de casamento. Há vida depois da separação.

Bob: E o Porto Alegre em Cena?
Ana Kutner: Amo o Poa em Cena. É minha segunda participação no festival. A estrutura e qualidade do Porto Alegre em Cena coloca a cidade como referência do teatro brasileiro.

Gente boa, desculpe qualquer erro, sabe como é a dislexia, né? Ainda vai render vários posts sobre a peça de ontem. Entrevistas com Carpinejar, Cinthya Verry, Ivete Brandalise e relatos sobre um dos momentos mais emocionantes, a entrega de uma placa para Paulo José, por Luciano Alabarse, que venceu sua timidez e me levou as lágrimas com suas palavras.

Beijos, Bob Bahlis

*Bob Balis (40 anos) é diretor de teatro e dramaturgo. Dirigiu os espetáculos "Stand Up Drama", "Dez(quase)Amores" , "Filhote de cruz credo", "Tem Quintana na Casa", "Homens", entre outros. Em novembro, estreia a comédia adulta Morgue (texto e direção). Em 2011, pretende montar a peça "O dia mais quente do ano" (texto e direção). É professor de teatro da escola Cômica Cultural.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Rodrigo Monteiro #8: Um navio no espaço ou Ana Cristina César

Foto: Creative / PMPA

Paulo José e Ana C.

Uma produção que só tem méritos: incrível!

1) Proposta: Trazer a poesia de Ana Cristina César é uma ideia excelente. Menos de trinta anos depois de sua morte, muito pouco se sabe sobre ela. No currículo tradicional das aulas de literatura, com que eu mesmo lidei quando atuava como professor, não se chega a ela nunca. Consegue-se a façanha se o currículo for organizado por gêneros e não por escolas literárias, mas qual escola faz isso? Quantos anos de colégio um professor precisa ter para propor esse avanço? Além do mais, à guisa da enxurrada de blogs pessoais, a poesia tem sido pouco valorizada. Há tempos que livros não são editados e os “novos poetas” já são velhos... A poesia de Ana C. se caracteriza pelo jogo de sentidos mais do que pelo jogo de palavras. A sua potência não está no som, mas na imagem, na hierarquia de semas e de sememas que a autora faz despertar quando encadeia versos sempre curtos. Totalmente desprendida de formas, e bastante próxima dos sentidos, seus textos são atuais enquanto houver homem e solidão. Um espetáculo como esse faz as novas gerações, e também as velhas, descobrir essa poetisa brasileira que merece novos leitores e, também, pesquisadores.

2) Produção: Espetáculos biográficos são perigosos, porque convivem com o imanente risco da chatice narrativa, ou seja, a história terminará quando a protagonista morrer. De fato, esse é o caso de Um navio no espaço ou Ana Cristina César, mas não de todo. O fio que dá liga à trama não é a cronologia dos textos, felizmente, e dos acontecimentos da vida da poetisa, mas a perseguição à pergunta: quem é você Ana C.? O roteiro não responde e fica, assim, solto no espaço como já diz o título. A história voa como voou a protagonista, suas palavras, seus sentidos. A beleza da narrativa desse espetáculo não está nos seus gaps, mas na forma como os fatos pulam sobre eles e avançam. Os vídeos são inseridos na trama de forma muito inteligente como raramente acontece. Para um espetáculo sobre uma escritora, contemplar a palavra escrita é fundamental. E vê-la em foco fechado também. As duas ansiedades são satisfeitas e o resultado é maravilhoso. Além disso, o espaço cênico é preenchido como o é a folha com as palavras de Ana Cristina. Há bagunça, há horizontalidade, há lugares livres. A realidade de Paulo José, que interpreta a si mesmo, convive com a ficção de Ana Kutner, que interpreta Ana C. No entanto, em vários momentos, nos pegamos a pensar em quem está sendo verdadeiro e quem não está, quem está sendo ficcional e quem não está. O duelo, o conflito não é cronológico, mas espaço-temporal. A diegese nasce na relação entre os sentidos e a difícil tarefa de se adequarem às palavras de um idioma e de uma gramática e não pela evolução aristotélica de um personagem a caminho do seu próprio fim. A dramaturgia de Walter Daguerre atualiza para o teatro a poesia de forma a engrandecer as duas artes.

3) Paulo José: Seu carisma, seu reconhecido talento, sua história, sua relação com o Rio Grande do Sul e com o teatro gaúcho faz desse senhor um personagem muito querido. Qualquer coisa que ele diga, qualquer gesto que tenha sempre chamará a atenção e a receberá com devoção. É emocionante vê-lo, ouvi-lo, estar com ele sob o mesmo teto. E seu envolvimento com a cena reage a isso de forma exemplar. Ele sabe que suas piscadas são acompanhadas pelo público, então, é absolutamente discreto apontando a cena para Ana Kutner, sua filha, cujo talento também é herdado da mãe, Dina Sfat. Ana está excelente em cena: o português correto, como não poderia deixar de ser, cai em sua boca de forma natural e viva. Seus sons são realistas, seus movimentos são ágeis e pulsantes, suas intenções são manifestas cheias de juncos sobre os quais entramos e saímos, pulamos e avançamos em profundidade. Não há superficialidade, nem morbidez, o que faz dessa interpretação e da dupla com seu pai, uma das melhores visitas no 17º Porto Alegre em Cena.

Os itens poderiam continuar. A lista de valores dessa produção é grande. Aqui busquei apenas dar a minha contribuição na eleição de alguns. Por fim, o convite para ler Ana Cristina César e assistir ao espetáculo ainda hoje em cartaz.

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Ficha Técnica:

Texto: Maria Helena Kühner
Dramaturgista: Walter Daguerre
Direção: Paulo José

Elenco: Paulo José e Ana Kutner

Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha sonora: Alexandre Elias
Videografismo e animação: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Produção Executiva: Lucia Regina Souza
Direção de Produção: Maria Helena Alvarez
Produção: Carava Produções, Malagueta Produções eAna Kutner
Realização: SESC-SP

Duração: 1h20min
Classificação: 14 anos


*Rodrigo Monteiro: Licenciado em Letras - Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.Bacharel em Comunicação Social - Habilitação Realização Audiovisual pela mesma universidade. E mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jurado do Troféu Açorianos de Teatro 2010 e, também, do Troféu Braskem 2010, é autor do blog www.teatropoa.blogspot.com de Crítica Teatral de Porto Alegre

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar

Corria o ano de 1982. Paulo José havia sido incumbido pela Rede Globo de criar um programa que concorresse com o líder de audiência da época na “Hora da Ave-Maria” – o popularesco "O Povo na TV", exibido pelo SBT. Nascia assim o "Caso Verdade", que dramatizava e exibia, em minisséries de uma semana de duração, histórias verídicas enviadas pelos telespectadores. Recém chegada de Essex, Inglaterra, onde recebera com distinção o título de Master of Arts (M. A.) em Teoria e Prática de Tradução Literária, Ana Cristina César, que os gaúchos conhecem pela sua troca de cartas com Caio Fernando Abreu, integrava o Departamento de Análise de Textos da Globo. Ela costumava ser implacável com os roteiros do programa: “folhetinesco, superficial, simplório, inverossímil” eram alguns dos adjetivos que povoavam seus relatórios. E assim, em pouco tempo, diretor e analista de roteiros tornaram-se, na definição do próprio Paulo José, “inimigos quase íntimos”.

No mesmo ano, fora já dos quadros da TV Globo, Ana Cristina Cesar lançava "A Teus Pés", seu segundo e último livro de poesia. A sofisticação, a visceralidade e a excelência da poesia produzida pela ex-colega deixaram Paulo José, um amantíssimo do gênero, simplesmente pasmado. Em 29 de outubro de 1983, Ana Cristina punha fim à própria vida, atirando-se do 8º andar pela janela do apartamento de seus pais em Copacabana. Aos poucos, a produção inédita da escritora foi sendo editada, revelando novos conteúdos de sua fina escrita. Além de mais prosa e poesia, ensaios, estudos, reflexões sobre o fazer literário, críticas, traduções[1], correspondências. E quanto mais penetrava no amplo universo da produção literária de Ana Cristina Cesar tanto mais Paulo José lastimava o fato de ter passado “um ano a um metro de distância dela” sem desfrutar do privilégio de conhecê-la melhor.

O espetáculo “Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar”, que participa do 17º Porto Alegre em Cena, se apropria desse sentimento e dessa experiência para criar seu arco dramático. Ao rememorar a história que viveu (ou deixou de viver) com Ana Cristina, Paulo José, o personagem que é interpretado pelo próprio ator e diretor, evoca a figura da poeta para tentar entender a mulher por trás do mito. Refaz com ela sua trajetória literária e existencial – dos seis anos de idade, quando tem seus primeiros poemas publicados, aos 31, quando se despede da vida.

Com cerca de 90% do texto extraído de poemas, prosas, cartas e diários da autora, o espetáculo presentifica na cena o vigor, o teor e a dicção singular da palavra poética de Ana Cristina Cesar (l952-l983). Através dela, traz à tona sua busca, suas angústias, suas inquietações. Expõe os seus enigmas. E lança sobre o tabuleiro as incontáveis peças da personalidade cindida e múltipla que a fez descrever uma trajetória de heroína trágica – curta, intensa, incomum, radical. Mas deixa para o público a tarefa improvável de montar o quebra-cabeça.

Com direção de Paulo José, e Ana Kutner no papel-título, Um Navio no Espaço... foi construído a partir de uma peça escrita em 1996 por Maria Helena Kühner. Em parceria com a Caravana Produções, pai e filha acumulam ainda a função de co-produtores do espetáculo.

O palco se projeta como extensão diagonal do tampo de uma mesa – uma espécie de estação de trabalho de Paulo José. Abarrotada de objetos de pesquisa (pilhas de livros, mídias dos anos 70, laptop, caderno de anotações), ela desloca do espaço cênico tradicional o ator-personagem, situando-o no nível da platéia, e reforçando o traçado geométrico e perspectivado da cenografia. O trabalho de videografismo e animação de Rico e Renato Vilarouca simula de forma estilizada a produção em tempo real de desenhos, manuscritos e originais a máquina de escrever de Ana Cristina Cesar, tradutora de, entre outros poetas, T. S. Eliot, Ezra Pound, Emily Dickinson, Mallarmé e Walt Whitman, trazendo para a cena a ‘presença viva’ da palavra escrita e a natureza febril do processo de criação da poeta.

Oito espelhos suspensos de 90 cm X 1m, multiplicam e distorcem as imagens projetadas, sugerindo a ideia de puzzle. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros opera uma interação estreita com o videografismo: se apropria das imagens e faz com que a luz dos refletores seja projetada sobre o vídeo, ajudando a criar sensações visuais para a fúria e a delicadeza das palavras de Ana C. Na busca do fino equilíbrio entre não produzir interferências nas projeções, no desenho de luz ou na estética clean do cenário, e, ao mesmo tempo, estabelecer um diálogo rico com eles, Kika Lopes lança mão de diferentes tipos de trama, tons extremos de claro e escuro (como o cru e o marinho) e economia de cores e adereços. E imprime aos figurinos atemporalidade própria da palavra.

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Ficha Técnica:

Texto: Maria Helena Kühner
Dramaturgista: Walter Daguerre
Direção: Paulo José

Elenco: Paulo José e Ana Kutner

Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha sonora: Alexandre Elias
Videografismo e animação: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Produção Executiva: Lucia Regina Souza
Direção de Produção: Maria Helena Alvarez
Produção: Carava Produções, Malagueta Produções eAna Kutner
Realização: SESC-SP

Duração: 1h20min
Classificação: 14 anos