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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Extasis (Uruguai)

Dias 13, 14 e 15, às 22h
Teatro de Câmara Túlio Piva
 
A direção precisa de um dos maiores diretores uruguaios na atualidade e o texto contundente de Mike Leigh instigam as plateias por onde passa a montagem Extasis. O espetáculo retrata o convívio de quatro amigos trabalhadores que vivem aparentemente alegres na Londres de Margaret Thatcher, mascarando suas angústias e tristezas. Seu único ponto de contato com a realidade é o pub que frequentam após as dez horas diárias de trabalho, e é lá que, numa sexta-feira como qualquer outra, resolvem fazer uma pequena festa particular. Entre muito álcool, humor e afeto, evidenciam o conflito ante a iminência do desemprego que assola o país e a solidão inerente a todos e da qual não conseguem escapar. Extasis foi vencedor do Prêmio Florencio 2012, no Uruguai, em quatro categorias: melhor espetáculo, direção, ator (Gustavo Alonso) e trilha sonora.


Ficha técnica
Direção, tradução e adaptação: Jorge Denevi / Texto: Mike Leigh / Elenco: Marina Rodríguez, Félix Correa, Alicia Alfonso, Gustavo Alonso, Pablo Dive e Guadalupe Pimienta / Trilha sonora: Alfredo Leirós / Produção musical: La Tía Producciones / Figurino: Dante Alfonso / Iluminação: Leonardo Hualde / Cenografia: Rodolfo da Costa / Fotografia e direção de arte: Alejandro Persichetti / Produção e assistência de direção: Claudio Lachowicz / Assistência de tradução: Sandor Percovich / Recomendação etária: 15 anos / Duração: 80 minutos

 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

El rey se muere por Desirée Pessoa

Com o Rei, morre uma oportunidade
Num cenário com clima onírico se desenvolve a trama de El rey se muere, espetáculo uruguaio criado a partir do texto de Eugène Ionesco, no qual o personagem central (rei Berenguer) tem seu encontro com a morte marcado desde o início da peça.
Elementos cênicos cujos materiais são leves e claros nos remetem imediatamente a um tempo passado, no qual o contato com o onírico era entendido frequentemente como um acesso do homem a uma dimensão desconhecida e, mesmo, próxima do divino. Daí, creio, seja proveniente a escolha deste ambiente para a ocasião de tratar deste tão caro tema ao ser humano que é o da morte.
Com um elenco notavelmente experimentado, o espetáculo tem marcações precisas e soluções de cena bastante funcionais.
A velocidade sempre ágil da encenação é sustentada de forma competente pelos seis atores, desde a abertura da peça – constituída pela apresentação do rei Berenguer. A decisão por este ritmo que se constrói sob o olhar do espectador foi tomada, ao que pude observar, na busca pelo tempo da comédia de Ionesco. Esta, por sinal, é composta por uma estrutura muito particular. Considero o humor do autor romeno tão específico quanto difícil de ser alcançado e executado com primor. O absurdo de suas comédias precisa ser procurado nos detalhes. O texto sinaliza aos criadores, muitas vezes, por uma linguagem metafórica aquilo que poderá ser aproveitado em cena, e se faz necessário estarmos atentos às suas indicações.
Um dos principais traços da obra de Ionesco é a proposta de levar os personagens e cenas a extremos. E é aí que, em minha opinião, El rey se muere do grupo uruguaio deixa um pouco a desejar. As atuações são um misto dos estilos farsesco, naturalista e melodramático. Porém, falta brilho (na falta de palavra melhor) no desempenho – e nos olhos – dos atores. Talvez isto tenha ocorrido apenas na ocasião em que assisti, por se tratar de uma apresentação em uma noite extremamente chuvosa, com um público que não preenchia a lotação do teatro. Nunca saberei, pois eis a tão complexa fatalidade do teatro, com a qual todos nós, que a este ofício nos dedicamos, temos de lidar: ele existe de forma única a cada noite. O que passou não se resgatará jamais. Por isso não tenho como afirmar se o aparente desânimo em alguns momentos dos atores se deve às condições singulares da noite em que presenciei a obra uruguaia. O fato é que, durante a encenação, tive a sensação de que a escolha pelo exagero, condizente com o texto original, não chegou a se concretizar em alguns momentos. Existe uma proposta de busca pelos extremos a cada cena, mas por vezes não atinge seu grau máximo. As marcações são muito bem executadas pelos atores, mas nem sempre o jogo acontece. As cenas não apresentam grandes surpresas de uma para a outra, então não vi também evolução na encenação.
O conflito cênico se estabelece a partir da evidência da morte do rei: este já não tem direito ao seu poder e não consegue se conformar. Neste personagem aparecem questões humanas de grande valor, e nisto consiste um dos dois maiores méritos do espetáculo: a validade de seu tema. A ruína, a caminhada rumo ao fim e o desejo de deixar um legado são abordados de forma comovente em alguns momentos. Da rainha à empregada, todos acusam Berenguer de suas injustiças enquanto governou. Em instantes já o estão tratando com glórias demasiadas (muitas delas nem mesmo verdadeiras dentro da ficção estabelecida), devido à hipocrisia que socialmente prevalece frente à morte de alguém. Enquanto isso, o moribundo pergunta à sua corte (e em verdade não querendo enfrentar a crueldade da resposta): “Por quanto tempo vão lembrar-se de mim?”. Complexa e comovente abordagem.
O segundo (e fundamental) mérito do espetáculo é o momento em que, sob meu ponto de vista, o acontecimento teatral atinge seu ápice na encenação criada. O ponto alto do espetáculo é a reflexão sobre o fardo do poder, significativamente trabalhada pelas palavras “isto não és tu”, tão bem ditas por Carla Moscatelli a Roberto Bornes. É neste momento em que o discurso aborda questões como imagem e máscaras que se vê o teatro que a atriz sabe fazer com excelência: até sua respiração consegue nos comover.
Paradoxalmente, a cena mais forte é exatamente o ponto mais frágil da encenação, pois é aí que percebemos que talvez a decisão inicial possa ter sido equivocada. O teatro que a grande atriz sabe fazer de melhor é outro, que não o estilo de peça adotado pela trupe. Anne Bogart diz que a escolha é sempre um ato de violência, no teatro. Afirma, no entanto, que esse ato violento é uma condição necessária para todos os artistas. Fico pensando, após assistir El rey se muere, o quanto, por vezes, sem consciência, mergulhados em nossos processos, somos fragilizados por nossa própria sensibilidade artística. Naquele que considero o melhor momento desta peça, ela nos revela a oportunidade que perdemos de assistir uma montagem de excelência, não fosse a escolha feita.
Simbolicamente, o grande clímax do espetáculo é justamente neste estilo tão diverso daquele em que o todo se desenvolve: quando o rei se vê abandonado por todos, é a primeira esposa a única que o acompanha no fatídico momento. Com a mão estendida, é ela que o conduz à morte. É o momento mais intimista desta obra. O silêncio eleva a plateia e a suspende. Há apenas uma luz recortada. O restante do palco, todo o tempo muito iluminado, agora é invadido por uma escuridão sombria. Aprecio este momento, especialmente, e volto satisfeita para casa.
*Desirée Pessoa é diretora de teatro e atriz. Diretora do Grupo Neelic e mestre em Artes Cênicas pela UFRGS

sábado, 22 de setembro de 2012

Niño enterrado por Leonardo Della Pasqua



O que aconteceria se, após anos sem ter contato com sua família, você voltasse a encontrá-los e não fosse reconhecido por ninguém? Que consequências subjetivas teria isto? O que haveria causado tal esquecimento? Quais seriam as repercussões desse fato? Não conseguindo deixar meu ofício de lado ao entrar em contato com o texto do dramaturgo norte-americano Sam Shepard, essas perguntas iam surgindo conforme a peça Niño enterrado ia avançando. O texto, que ganhou o prêmio Pulitzer em 1979, envolve o espectador em perguntas, enquanto vai surpreendendo-o com suas revelações.  
A trama inicia-se em uma casa de campo. Neste ambiente, vivem pessoas com as vidas marcadas por um segredo, um segredo traumatizante, que não pode ser falado pela turbulência emocional que gera. Um cadáver, enterrado nos fundos da casa, atormenta esta família. Um trauma que afeta a percepção das coisas e impossibilita a vivência da alteridade. Ninguém “enxerga” o outro neste contexto.Todos são voltados para si, tentando diminuir o próprio suplício interno como podem. Fazem um pacto silencioso: não se nomeará o ocorrido; todos devem esquecer! Com isso, outras lembranças também são recalcadas. Um filho e neto também é esquecido. Cria-se um novo trauma e a situação de violência e loucura se repetem e se perpetuam. Os membros da família ficam capturados na própria história familiar. 
A peça criada por Sam Shepard é excepcional! Nos mostra como um ambiente psicótico pode produzir loucura em quem é são. Infelizmente as diferenças linguísticas entre o português e o espanhol uruguaio dificultaram a compreensão do que era dito. A dicção de alguns atores do espetáculo transformava a escuta do texto uma tarefa árdua. As sutilezas foram ficando pelo caminho, aumentando o desconforto que o texto já causava. 
Não sou nenhum crítico de teatro, portanto, não estou habilitado a fazer uma análise criteriosa da direção da peça. Porém, o que possodizer do trabalho de Sergio Pereira é que sua direção gira em torno das dissociações. Parte da trama se passa na coxia do teatro. Portanto, não temos contato visual com o que ocorre. Ouvimos as vozes dos protagonistas, mas não vemos o que acontece. Por outro lado, parte do cenário é dividido em ambientes que são transparentes, onde podemos ver o que acontece através das paredes. Os muros não privatizam a experiência da família! Situação semelhante pude assistir em alguns filmes do cineasta dinamarquês Lars von Trier. Em Dogville e Manderlay o diretor elimina os muros do cenário com o recurso cênico principal. 
Percebe-se a força do trabalho deste grupo de teatro, mas as barreiras linguísticas distanciaram a esperimentação plena do espetáculo. Muitos espectadores saíram do teatro com a sensação de desconforto. Um desconforto que fugia da esperiência da peça. Eram dificuldades linguísticas! Penso que esses aspectos devem ser melhor pensados por quem vem apresentar um espetáculo em língua estrangeira na nossa capital.
 
*Leonardo Della Pasqua é psicólogo e psicanalista

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mi querida por Israel de Castro


Tarde de chuva com distinta senhora
O teatro brasileiro ainda hesita entre contar bem uma história tendo a técnica como meio ou como mensagem. O Uruguai nunca esqueceu de aplicá-la a favor do ator e não da forma. O teatro que nos chega aqui, quase sempre via Em Cena, é maduro, seguro e, principalmente, simples, cativante. E assim é Mi querida, monólogo escrito pela argentina octagenária Griselda Gambaro, baseado em um conto de Tchekhov. No palco, Isabel Schipani, uma atriz que, desde o início, mesmo que o público não a conheça, dá a entender que é uma das damas do teatro do seu país. E eis que em um google, está lá: melhor atriz do ano passado, com o maior prêmio uruguaio e justamente por esse papel. 
 
No setembro diluviano de Porto Alegre, o espetáculo que começa abaixo de chuva (na história), sem querer, já pega o público pela coincidência factual. E a chuva é o condutor para que a audiência fique totalmente à vontade (e protegida) na sala de visitas daquela senhora (sim, é uma visita. E ela serve-nos chá, como convém a uma russa distinta). O tempo? É antigo, visto que a luz é fortemente sépia, como uma foto velha, e o figurino, um vestido comedido.
Como o conto é conciso nas palavras, Isabel, ou Olga, é exata nos gestos e no sentimento. Ver a emoção brotar de uma atriz de maneira espontânea, e não condicionada pelo texto, em um espaço mínimo como a sala Carlos Carvalho, é sempre um momento definitivo. Olga conta sua história e, de repente, a história já não interessa, o importante é ficar ali, ouvindo-a, como uma tia que nos acolhe em uma visita, numa tarde chuvosa, em viagem à fronteira. A mulher que teve três homens, foi infeliz, ficou sozinha, e se apegou, se apegou...porque era o que restava a muitas mulheres no início do século passado, apaixonar-se, espantar-se com a viuvez e a solidão. O importante era ser querida. O teatro uruguaio é sempre querido.

*Israel de Castro é jornalista, editor-chefe do Band Cidade

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Madres al límite por Ana Cláudia Munari



Existe um longo caminho vazio entre o texto e o espetáculo. Mais ainda quando entre ambos está a diferença de objetivos, quando um deseja reportar e o outro, dramatizar. Mujeres al límite, o livro, nasceu a partir do olhar de uma jornalista, Mónica Bottero, sobre cinco histórias reais e revela, portanto, a intenção de tornar público aquilo que facilmente chamamos de “dramas”, em vez de simplesmente casos, fatos, notícias.
Mas cinco dramas nem sempre cabem em um palco, principalmente quando são intensos como as cinco narrativas que Omar Varela transformou em espetáculo. Agora já não são mulheres, são madres. E, mãe, que palavra é essa, carregada de um só sentido em vários: o limite do feminino – seu início, seu meio e seu fim? O drama de uma mãe é sempre o de um povo inteiro. No entanto, em meio ao silêncio da plateia, não pude deixar de sentir que aquelas vozes femininas falavam muito mais diretamente a mim – mãe de Ingrid e de Pedro – e a todas aquelas outras, mães e avós, que por vezes levaram as mãos aos olhos, buscaram as de seus companheiros, do que ao espectador masculino. Juntas, suspiramos em uníssono a cada vez que aquelas cinco mães voltavam a sentar-se diante de nós. Ao final do espetáculo, pude comprovar, observando e ouvindo, esta minha sensação. Catarse é isso.
Busquei um fio condutor entre elas, que não a maternidade e o conflito com os filhos, e só encontrei um: todas elas lutam sozinhas. Mesmo Rosa e Alexandra, as únicas cujas histórias trazem a presença de um companheiro, são mães solitárias que, a despeito dos pais, assumem para si o fardo. Em ambas, essa carga é um filho incapacitado para a vida, Mercedes, a filha com paralisia cerebral de Alexandra, e Leandro, o filho psicótico de Rosa. Se em Alexandra a paz foi alcançada com o esforço para fazer Mercedes vencer a vida, em Rosa o drama é trágico: ela só alcança a paz – estado de espírito que ela própria confirma – levando-o à morte. “Eu sou um ser humano”, declara ela, como se ser mãe fosse justamente deixar de ser humana. Seres humanos têm direito de errar, mães, não. “Assessina” é uma palavra forte, e ela cobre a boca ao dizê-la.
No palco, as lacunas mudam de configuração: transformam-se em espaço vazio, em que apenas cinco cadeiras em semicírculo representam as sobras de vidas esgotadas pelo sofrimento. Para cada uma delas a cadeira é uma porta, o lugar de onde se erguem para a chamada ao público. Falar, contar, narrar-se, é tudo que lhes resta, ultrapassados todos os limites da maternidade. Para Rocío, a cadeira é la plaza, lugar onde ela protagoniza sua luta contra as drogas – a pasta base – para salvar o filho, trajetória que se transforma em bandeira social, em voz que se levanta contra o descaso do governo diante do sistema de tráfico. Contraditória é que, a partir daí, ela não serve mais ao teatro: sua face deixa de ser personagem para se transformar em figura pública, real demais para papéis fictícios.
Também se fazem contra instituições os dramas de María e Valentina, ambas lutando pela guarda dos filhos. Suas cadeiras estão em tribunais, diante de juízes, advogados e fiscais de fronteira corruptos. A história de Valentina é aquela em que o bater de martelo é mais justo, embora provisório  – a eterna vigília que é papel de toda mãe. Enganada pelo marido, que dela se divorcia sem a necessidade de sua assinatura, no Panamá, ela tem de partir em fuga com os filhos, para fazer justiça no Uruguai. Valentina parece repetir a sina da mãe, também abandonada pelo marido – confuso por “una rúbia de 20 anõs”. Mães que ainda são mulheres.
A história de María nos parece tão absurda que nos comove por sua ingenuidade e sua simplicidade, e é só quando ela se indigna, erguendo a voz para reclamar da injustiça diante de sua condição humilde, é que também sentimos raiva. Raiva, e principalmente das figuras masculinas: do marido que a agride, molesta e abandona, do advogado que a engana, do “hombre”, que toma sua filha e a registra como sua – e de uma “madre desconocida”. Como pode? – ela questiona. Não sabemos, e suspiramos, cinco vezes suspiramos.
O espetáculo de Omar Varela é textual, discurso que se faz entre a realidade e sua proclamação por narradores que sequer alcançam o status de personagens. Entre as cadeiras delas e as nossas, o público, o cenário é o mesmo, o vazio – que se transforma em angústia, pela repetição, pelo constante sentar e erguer-se da cadeira, como se as histórias não tivessem fim. Entre reportar e dramatizar, resta que se transformam em algo único: anunciar dramas. As falas, que começam serenas, vão-se tornando dramáticas conforme elas se reportam ao passado e vivenciam, novamente, suas histórias. São vozes distintas: a serenidade da consciência tranquila de Alexandra, a indignação do orgulho ferido de Valentina, a voz política de Rocío, a Madre de La Plaza, a humildade dolorida de María, a angústia sufocada e chocante de Rosa – vozes que Nídia Telles, Jenny Galván, Gabriela Iribarren, Marisa Bentancur e Estela Medina souberam distinguir.
A pronúncia entrecortada de Estela Medina, que no início quase me incomodou, transformou-se em representação trágica – como se ela fosse ali o mito sobre o qual todas as outras gravitassem. Para mim, ela tomou o palco, suas palavras, como se ora cuspidas ora soluçadas, rasgando o peito para sair – o dela e o meu. Estela era Rosa inteira, o tempo todo tentando afastar as lembranças que era obrigada a revelar, quase que eu dizia “chega, chega”, enquanto ela balançava a cabeça, engolindo a cena do filho morto diante de seus olhos – os nossos, ali no palco, no chão. Entre culpa e dever, o trágico – que não precisa de cenário, nem figurino, nem música mais. Desnecessária também a música no início, melhor seria o vazio inteiro, para que as histórias – reportagens – pudessem ser construídas como o foram. Talvez o espetáculo projetasse começar como um programa de auditório, aqueles aonde as pessoas vão para contar seus dramas, aqueles que as novelas têm mostrado ao fim de cada capítulo, para amarrar a ficção ao real – tornar públicas as tragédias particulares. Isso realmente aconteceu para mim, principalmente em relação a María e Rosa: tomei para mim suas dores. Teatro também é isso.
*Ana Cláudia Munari é doutora em Letras

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

El lugar por Gustavo Saul


Um local. Sem tempo e espaço definido. Um local que poderia ser um quarto de motel, uma pensão, um abismo. Sanidade e insanidade. Personagens estranhos e semelhantes ao mesmo tempo. Uma narrativa frenética e ao mesmo tempo truncada, descrevendo a impossibilidade de comunicação nos dias de hoje. Caos e trevas.
El lugar, de autoria do dramaturgo Carlos Gorostiza, situa-se em um espaço claustrofóbico onde sete personagens chegam discretamente com suas malas. Não há referência nenhuma de onde essas pessoas vieram e nem maiores informação do porque estão ali. Os diálogos iniciam-se como em qualquer ocasião quando seres humanos estranhos se conhecem: frivolidades, estranhamento e curiosidade. Aos pouco, à medida em que a intimidade vai aumentando, surgem indícios de que algo não vai bem: um comportamento sociopata de um deles denota todas as fragilidades do restante, tecendo todas as feridas que o animal humano costuma esconder sob situações de controle. Ritmo ágil, interpretações eficientes, piadas engraçadas (ou mórbidas). 
O espetáculo, representante do Uruguai, propõe reflexões atuais sobre a bestialidade do homem moderno, metódico e que, ao mesmo tempo, não aceita a contrariedade de opiniões. Texto ácido com referências explícitas ao teatro do absurdo. Porém a narrativa apresenta alguns pontos que deixam bastante a desejar: a obviedade de algumas situações (os momentos onde o rapaz “alternativo” procura apaziguar a insanidade instalada através de canções soa deveras como clichê e piegas) e a sucessão de mortes inexplicáveis (ok, a narrativa é non-sense, mas mesmo assim é necessário alguns indícios para tal fim, senão são apenas situações soltas e sem razão ou justificativa), comprometem o argumento proposto por Goroztiza.
As atuações, como referidas acima, são eficientes. Mas o destaque é sem sombra de dúvida a atuação dúbia e complexa de Fernando Amaral, que desdobra-se ali entre o frívolo e atencioso “mestre-de-cerimônias” e o sociopata que o habita, brotando gradualmente até atingir o ápice verborrágico e primata. 

*Gustavo Saul é ator, produtor teatral, jornalista e colunista de teatro do site O Café

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Variaciones Meyerhold por Camilo de Lélis

O teatro ressuscita um morto
                                                                                          
Variaciones Meyerhold do dramaturgo argentino Pavlovsky, de quem tive a feliz oportunidade - e/ou a oportuna felicidade - de assistir algumas montagens, vem me dar, mais uma vez, uma muito bem-vinda porrada teatral no baixo ventre. Coincidentemente, há alguns dias, eu estava a ler Do teatro, de Meyerhold. Acabei por deixar a obra inacabada, esquecida dentro de uma pasta, no balcão do hall de entrada de um teatro, numa cidade vizinha. Porém, assistir a este espetáculo no teatro Renascença, dentro do programa do PoA em Cena, fez-me ver que as coincidências são, muitas vezes, significativas. 
     No livro de Meyerhold, único publicado em vida, lê-se o homem falando - ou ouve-se a voz do homem, através das letras impressas. Ele é humano, extremamente humano, em todas as suas críticas às formas enrijecidas de sua época, tanto ao velho teatrão, duro e declamado, quanto ao naturalismo do Teatro de Arte de Moscou. O que o estimulava e o fazia buscar uma técnica nova de atuar eram os balagans (tendas de atrações das feiras populares com seus palhaços e funâmbulos). Ele antevia (e queria) um ator vivo, que se movesse inteiramente, e não apenas cabeças falantes sobre corpos rígidos, como acontecia nos teatros russos da época. 
     Bueno, não vou ficar a teorizar a biomecânica - do que, aliás, nada sei -, nem vou catar na onisciência do Google referências sobre a dita cuja. Até porque, o que vi das tentativas de pô-la em prática, parecia-se mais com “marionetismo” e "papagaísmo", do que a utilização de uma arte vital e vitalizadora. Entonces, vou falar do que vi do grupo uruguaio que aqui se apresentou: a peça da Comédia Nacional daquele país.
    Achei-a genial na proposta. Poucos elementos cênicos, só os necessários para algumas metáforas. Um ator (Jorge Bolani) vivendo intensamente um personagem, numa mistura bem dosada de Stanislavski e Meyerhold - mostrando que as duas técnicas não são excludentes (como alguns pensam), mas se potencializam. Bolani costura a narração com o auxílio de Luis Martinez, que interpreta dois papéis e toca acordeão ao vivo, e da atriz Gimena Perez, que cria com corajosa delicadeza a companheira do protagonista.
      A peça narra a vida de Meyerhold a partir de sua prisão - de dentro dela -, rememorando sua trajetória  estética, que o levou a renovar o teatro russo. Desesperadamente, o homem de teatro, diante das torturas a ele impostas na prisão, tenta recorrer a amigos (antigos camaradas de revolução), para que o salvem de um fim absurdo (o fim de quem se negava a se ajustar a um sistema absurdo - o stalinismo) - e, ainda da prisão, troca cartas com Anton Tchekhov, considerando as cartas do grande escritor um bálsamo contra o insuportável sofrimento. 
     Morreu sua amada, esfaqueada no apartamento do casal, e morreu ele, fuzilado, em 1940. Seu nome foi apagado da história russa por quinze anos. Apagar nomes.  Apagar fotos. Assassinar. Nisso aquele regime foi exemplar. Nossas ditaduras, também. 
    Somente em 1955 - Stalin, já morto -, foram achados e sepultados os resto mortais de Meyerhold. Daí par diante, sua obra foi, cada vez mais, valorizada e reverenciada como um marco de transição para uma nova estética teatral. Ao se recusar a reproduzir o real-socialismo (que, segundo o personagem diz na peça, não era nem real, nem socialista), Meyerhold foi torturado e assassinado por uma questão estética - um martírio ímpar no mundo. O dramaturgo Pavlovsky e a Comédia Nacional do Uruguai, sob a direção de Lucio Hernández, ressuscitaram-no. Meyerhold se levantou sobre o tablado do teatro Renascença e sofreu de novo, cantou canções no idioma russo, sorriu e amou. Enfim - vivendo de novo - me fez crer que o teatro ainda tem o poder demiúrgico de ressuscitar os mortos.
 
* Camilo de Lélis é encenador

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Queremos uma ciclovia/Queremos un carril bici por Marcelo Delacroix


Mais um fruto dessa intensa integração cultural entre o RS e os países do Prata resulta no belo espetáculo infantil que poderia se chamar Queremos uma ciclovia & Outras historias divertidas pois não se restringe a abordar apenas esse assunto, que é da hora. As apresentações durante o Porto Alegre em Cena foram a estreia do show,lançamento do CD infantil contendo 14 músicas e um rico material gráfico que inclui cartões com desenhos, jogos e origamis que ajudam a transportar o ouvinte para o universo das canções.
Queyi (pronuncia-se quei-i, ou como dizem os uruguaios: que-ji) é pianista e cantautora espanhola radicada em Montevideo, e preserva um lado criativo, imaginativo e inquieto de criança, encontrando em Ana Prada a parceria de uma "moleca" que cresceu no interior do Uruguai, subindo em árvores, andando a cavalo e jogando futebol com os meninos. Evocando suas crianças interiores, as duas criaram (com a colaboração de outras duas amigas) essas canções divertidas para clamar por uma ciclovia, mas também para falar sobre muitos outros assuntos. E as duas encontraram no gaúcho Marcelo Corsetti a parceria necessária para tornar o projeto uma realidade.
Os temas das letras são os mais diversos: medo de dormir sozinho, não gostar de comer verduras, não querer tomar banho ou, ainda, o incrível caso de amor envolvendo um golfinho, uma flor, um cactus, um gato tricolor e um pardal – e de como todos eles foram parar dentro de uma banheira. E dessa canção se pode tirar a síntese do espetáculo na frase "...que nunca ninguém te diga a melhor maneira de amar". Algo assim entre lúdico, divertido e ecológico, com pitadas de nonsense. São canções de harmonias simples, melodias gostosas e fáceis de aprender, com arranjos divertidos e extremamente bem executados pelos excelentes músicos Luke Faro (Bateria), Gustavo Ferreira (baixo), e Giovani Barbieri (teclado), mais a participação de Angelo Primon (sitar), todos capitaneados pelo Marcelo Corsetti, que além da guitarra tocou também o Ukelele e se saiu muito bem atuando e dando textos – o que, suponho, tenha grande mérito na direção cênica de Lucia Bendati.
Na linha de frente, completando o time e cantando ao lado de Ana e Queyi, a porto-alegrense Vanessa Longoni esbanja simpatia, fazendo a ponte de comunicação com o público. E as três muito afinadas, cantando juntas em espanhol e português, de forma muito natural e tranquila, acostumando o ouvido dos pequenos a esse idioma híbrido falado por aqui.
Os figurinos multicoloridos criados pelo Cláudio Benevenga ajudam a manter a cena atraente e divertida, juntamente com o cenário de rodas de bicicletas suspensas, que vez ou outra giram refletindo sombras ao fundo, compondo a cena com os desenhos de Queyi projetados no telão.
Ao término do espetáculo, para me cercar de opiniões avalizadas, consultei dois outros críticos especializados e implacáveis. Layla (6), que acompanhou as músicas batendo palmas no ritmo, quando perguntada sobre o que ela mais gostou, não vacilou na resposta: - TUDO! Comprou o cd na saída e levou mais dois para dar de presente para os amigos. Já o Henrique (9), mostrou-se um pouco frustrado por não ter conseguido entender direito as letras das músicas. Realmente as vozes estavam um pouco “enterradas” entre os instrumentos, e mesmo em português a compreensão esteve um pouco difícil. Detalhes de estreia, que certamente devem ter sido resolvidos já no segundo dia.
Ao final, a sensação de prazer pelo trabalho sensível, estimulante, divertido e bem cuidado nos detalhes. Um convite à imaginação e à consciência de que a vida pode e deve ser prazerosa e divertida, e "...que nunca, nunca, ninguém te diga a melhor maneira de amar". 

* Marcelo Delacroix é músico

Vuelo a Capistrano por Gustavo Susin

Todo o ano, no dia 19 de março, San Juan de Capistrano, uma cidade pequena do estado da Califórnia, Estados Unidos, comemora o St. Joseph's Day. Nesse dia, uma grande missa é celebrada na praça central da cidade dando boas vindas às andorinhas migratórias vindas da América do Sul. Essas andorinhas partem dos países do Mercosul e chegam a percorrer 12 mil quilômetros em uma velocidade média de 60km/h atrás de calor e alimentos. Um grande e incrível voo representando a busca pela sobrevivência.
É esse voo que Pablo (Walter Reyno) quer dar, mas já não consegue. Vuelo a Capistrano é um espetáculo uruguaio dirigido pela sempre bem vinda diretora e atriz Patricia Yani, sendo uma obra essenciamente naturalista em sua concepção e estilo interpretativo. O texto é um melodrama do argentino Carlos Gorostiza, e se passa todo no intervalo de uma tarde, em um único ambiente. Um pintor de idade avançada não consegue, há alguns meses, dar prosseguimento à sua obra ao saber que possui uma doença terminal. Em um diálogo profundo sobre o existencialismo humano, a resistência ao envelhecimento e a espera pela morte, o pintor tenta encontrar meios de prosseguir sua vida sem que essa informação influencie o mínimo seu cotidiano e o das pessoas que o cercam.
(Detalhe: Carlo Gorostiza tem 92 anos e devido à idade avançada e suas condições de saúde, ainda não pôde ver sua obra encenada, que muitos dizem ser autobiográfica).
Se for possível traçar um paralelo a respeito da dramaturgia, a obra do escritor argentino lembra os livros do português José Saramago, em especial Intermitências da morte, onde o tema da finitude é extremamente explorado. Como lidar com a notícia de que a morte está por vir e já não há mais nada a fazer? Como prosseguir a vida, dia após dia, sem transformar o tempo em um longo martírio?
Pablo (Walter Reyno) já não tem mais forças para prosseguir. Agoniza. E o gorjeio das pombas que rodeiam sua casa representam o grito desesperado de sua sensação de mediocridade. Sua agonia é interrompida por sua mulher atual, Emilia (María Filippi), que se esforça em valorizar o trabalho do artista e mantê-lo resistente e forte ao enfrentar seu destino, e sua ex-mulher (Maribel García), com qual teve uma filha, a qual já não vê o pai há mais de seis meses. A trama parece ter um único final trágico quando então surge uma andorinha, machucada, ainda com vida, que reacende a chama criativa do pintor e que o faz retomar sua essência vital: a arte.
A equipe do espetáculo é velha conhecida do Em cena. A encenação é objetiva e eficiente, sem rodeios, justamente como a personalidade da diretora Patricia Yani. Cenário, iluminação, figurino, todos os elementos cênicos estão a serviço de uma estética que visa reforçar a sensação de realidade absoluta. Quanto às atuações, impecáveis: Walter Reyno explora ao máximo o texto e seus desdobramentos, com um contundente trabalho vocal. María Filippi e Maribel Garcia completam o elenco com firmeza e elegância, como as atrizes uruguaias cansam de desfilar nos palcos.
Vuelo a Capistrano é uma bonita homenagem a todos os artistas que mantêm vivo o sonho de expressar suas angústias e percepções através de suas vocações e talentos, custe o que custar, sobrepassando por tudo e todos, mesmo que a vida possa estar a um fio, à beira do seu fim. É um trabalho dedicado para quem é, definitivamente, movido pela arte.

* Gustavo Susin é ator e jornalista

sábado, 8 de setembro de 2012

Snorkel por Marcos Chaves

Saudações à "Mostra de teatro contemporâneo uruguaio” do Porto Alegre Em Cena. Na sala Álvaro Moreyra: Snorkel. O texto informado sobre o espetáculo antecipa que a montagem “se debruça sobre os ‘deserdados da terra’ e suas misérias”. Ainda que “na peça, esse universo de drogas baratas, prostituição, corrupção e violência pede a todos que coloquem um ‘snorkel’ (o aparelho de mergulho que dá visibilidade em águas profundas, permitindo respiração em meio adverso) para garantir sua sobrevivência”. A sinopse faz um bom panorama, Snorkel, texto de Frederico Guerra, propõe mergulho no submundo.
Abordado de diversas maneiras nas últimas décadas no teatro e no cinema, o tema já fora visto ou retratado aos espectadores de uma forma ou outra (nem que seja em visão pedagógica). Fato que não é positivo nem negativo, talvez um desafio a mais a todos os grupos que investem na questão. A montagem uruguaia traz diversos pontos, todos circulam os espectadores dividindo aproximação e distanciamento. A direção de Bernardo Trias opta por um ambiente escuro, iluminação baixa e um longo blackout durante a peça, intercalado por um programa de televisão que discorre a temática mostrando traços irônicos e de humor através da sátira.
Os pontos da peça, histórias cruzadas, dialogam entre si. O desenvolvimento do espetáculo próximo do realismo fica em segundo plano frente a cenas simbólicas ou que evidenciam o fazer teatral. A cena que retrata a morte através da personagem Raquel (com impecável atuação) é um bom exemplo, uma mistura poética onde todos os atores deliciam a plateia com um belo uníssono cantado.

*Marcos Chaves é ator e criador de trilhas sonoras

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Humores que matan- Central Park West por Tainah Dadda

O 19º Porto Alegre Em Cena começou para mim exatamente com a peça sobre a qual fui convidada a escrever: Humores que matan, montagem de Central Park West, de Woody Allen, dirigida por Mario Morgan, que integra a Mostra de Teatro Contemporâneo Uruguaio promovida por esta edição do festival.
Uma locução no início do espetáculo informa que o texto foi escrito logo após sua polêmica separação da atriz Mia Farrow no início dos anos 90 - um trunfo da divulgação, que sugere que a trama permeada por traições, hipocrisias e abandono foi alimentada por fatos biográficos do ilustre nova iorquino. Lançada a isca, o texto em off se encerra com uma citação de Allen que, em síntese, aponta a mentira como válvula de escape para as agruras da vida.
No palco, porém, a cenografia exposta desde a entrada do público pouco parece indicar que haverá espaço para o descompromisso com a realidade e a verdade que norteia as relações e desejos dos personagens. Pelo contrário. Em cores quentes, das quais o vermelho é predominante, a muito mobiliada sala de estar em que se situa a ação, com seu sofá de três lugares ocupando o centro da cena, num primeiro momento  remete a uma comédia de costumes enlatada, impressão que acaba reforçada pelo jazz standard que marca o início da encenação.
Evidentemente, a escolha da trilha sonora é uma referência à Woody Allen, cujo estilo se mostra logo nas primeiras linhas de diálogo entre Phyllis (Laura Sanchez) e Carol (Gabriela Iribarren). E que estilo! Estabelecida a situação, deflagrado o conflito, o desenrolar da ação traz à cena o melhor do autor: o humor arguto e ácido, a narrativa repleta de revezes e imprevistos, um rol de personagens “neuróticos e nervosos”, que inclui um depressivo alter ego seu, todos obcecados pela busca do prazer sexual e/ou a devastadora certeza da morte, além de Freud, a psicanálise e a filosofia existencialista disfarçadas em piadas.
Diante disso, o cenário literal e ilustrativo como os figurinos, a luz quase inteiramente realista e a trilha sonora escassa parecem revelar a opção por privilegiar a palavra falada. Talvez por estarmos diante de um teatro tradicionalmente de texto, talvez por reverência a seu renomado autor, ou simplesmente por sua construção ser aguda, dinâmica, e elaborada de tal forma que suscita o riso, a imaginação e a reflexão no espectador já por ouvi-lo. E aqui vale destacar a pontual adaptação/atualização feitas por Fernando Masllorens e Federico González del Pino.
Mas, sem dúvida, se a obra de Allen é valorizada na encenação de Morgan é por meio e mérito do elenco, composto por Franklin Rodriguez, Leonardo Lorenzo e Ana Laura Romano, além das duas atrizes mencionadas anteriormente.
Coesos e equilibrados em suas atuações, os cinco atores acompanham com fluidez o ritmo intenso e crescente que o diretor confere à peça. Suas figuras em cena são construídas e reveladas ora em rompantes, ora com sutilezas, evidenciando contrastes interessantes e conduzindo ao cômico desmascaramento social e psicológico que ocorrem aos cinco personagens.
O resultado são bem humorados 90 minutos que, independente de conhecimento  prévio sobre os pormenores da biografia de Woody Allen ou seu estilo literário, lança um olhar crítico e terrivelmente lúcido sobre temas universais que passam pela infidelidade nas relações e o jogo de aparências, mas vão além.
Humores que matan abre espaço para o descompromisso com a verdade, sim, e reflete sobre aquelas engenhosas construções ilusórias em torno das quais, de uma forma ou de outra, todos baseamos projetos, afetos ou a própria identidade.

*Tainah Dadda é diretora teatral        

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vuelo a Capistrano (Uruguai)

Dias 07, 08 e 09, às 18h – Teatro Carlos Carvalho
Comédia dramática de tom intimista, o texto do argentino Carlos Gorostiza é construído com diálogos que transitam entre a ironia, o humor e a reflexão, entrelaçando as relações familiares e pessoais dos protagonistas - um homem obcecado com a vida dos pássaros; sua atual mulher, professora ligada ao Sindicato; e a ex-esposa, com quem teve sua única filha em um momento especial de suas vidas -, em uma encenação de linguagem essencialmente realista. Num mundo onde a frivolidade, a desesperança e a luta pelo poder estão mais presentes, a história de Vuelo a Capistrano propõe, com sutileza, uma metáfora de questionamento profundo entrelaçando a liberdade, a vida e a morte, com perguntas simples e grandiosas: Quais são os temas que mais preocupam o ser humano: sua razão, sua ética, sua liberdade, seu destino? Como reagimos diante da passagem do tempo? Questionamos a nós mesmos sobre o sentido da vida? Vuelo a Capistrano recebeu o Prêmio ACE (Associação de Críticos do Espetáculo) como a melhor obra dramática de 2011.

Ficha técnica:
Direção: Patrícia Yosi / Texto: Carlos Gorostiza / Cenografia: Osvaldo Reyno / Elenco: Walter Reyno, Maria Filippi e Maribel Garcia / Trilha sonora: Fernando Condon / Iluminação: Ruben Vieira / Duração: 70min / Recomendação etária: 12 anos

Variaciones Meyerhold (Uruguai)

Dias 11, 12 e 13, às 20h – Teatro Renascença
 
O texto do dramaturgo e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky toma como centro da encenação a figura de Meyerhold, célebre ator, diretor e teórico russo, cujo discurso inovador e revolucionário o transformou em personalidade de relevância no panorama teatral do início do século XX. Grande questionador das formas acadêmicas da criação teatral, a postura de Meyerhold confronta as ideias de seu contemporâneo Stanislavsky, com quem manteve uma relação ao mesmo tempo estreita e distante. A obra reúne aspectos do discurso artístico do pensador russo e os relaciona com momentos dramáticos de sua trajetória pessoal, sujeito ao cárcere, tortura e humilhações com as autoridades da Rússia stalinista. A montagem da Comédia Nacional, a mais importante e sólida agremiação teatral do Uruguai, aborda o texto utilizando as ideias do personagem central na própria concepção do espetáculo. Personificando o grande artista, Jorge Bolani oferece ao público uma elogiada interpretação.

Ficha técnica:
Direção: Lucio Hernández / Texto: Eduardo Pavlovsky / Elenco: Jorge Bolani, Gimena Perez e Luis Martinez / Trilha sonora: Baranek – disco Tata Kazika, de Stanislaw Staszewski / Figurino e Iluminação: Gerardo Egea / Duração: 60min / Recomendação etária: Livre

Snorkel (Uruguai)

Dias 05, 06 e 07, às 23h – Sala Álvaro Moreyra
A peça se debruça sobre os “deserdados da terra” e suas misérias, apresentando um leque de personagens muito variados, cujas histórias se sucedem uma após a outra em ritmo vertiginoso. Todos estão procurando algo em meio a um submundo de desesperança que os impulsionará a procurar saídas variadas. Na peça, esse universo de drogas baratas, prostituição, corrupção e violência pede a todos que coloquem um “snorkel” (o aparelho de mergulho que dá visibilidade em águas profundas, permitindo respiração em meio adverso) para garantir sua sobrevivência. As múltiplas tramas se encontram unificadas através de um programa de televisão, espécie de talk-show, que funciona como um espelho cruel de nossa sociedade. Uma montagem impressionante, que demonstra o vigor da nova cena uruguaia, borrando a fronteira entre a ficção e a realidade.

Ficha técnica:
Direção: Bernardo Trias / Texto: Federico Guerra / Elenco: Victoria González, Federico Guerra, Sarit Ben Zeev, Bernardo Trias, Ignacio Duarte, Fernardo Amaral, Daniel Cabrera, Daniel Acevedo e Soledad Frugone / Iluminação: Adrián Romero / Figurinos: Diego Aguirregaray / Duração: 80min / Recomendação etária: 16 anos

Niño enterrado (Uruguai)

Dias 19, 20 e 21, às 19h30 – Teatro Bruno Kiefer
Uma casa de  campo é  o  espaço que  serve de cenário para esta obra do consagrado dramaturgo norte-americano Sam Sheppard. Um pai ancião e alcoólico, uma mãe com passado duvidoso, um filho amargurado que cortou a própria perna com uma serra e outro obcecado com histórias de sua infância; um neto e sua noiva, praticamente estranhos ao ambiente familiar, e um padre viciado em sexo são os personagens desse texto que, entre risos e lágrimas, nos fala de segredos familiares e misérias humanas. Numa tarde chuvosa de inverno, depois de muitos anos de ausência, todos os membros da família se reúnem na velha casa em um legítimo acerto de contas com o passado, em um texto perturbador que o cineasta Theo Angelopoulos chamou de “comédia trágica”. Recebida com entusiasmo pela crítica uruguaia, a encenação é dirigida por Sérgio Pereira, um dos nomes mais respeitados do teatro montevideano, em produção impecável do Teatro El Galpón. 
Ficha técnica:
Direção: Sérgio Pereira / Texto: Sam Sheppard / Elenco:
Dardo Delgado, Maruja Fernández, Massimo Tenuta, Pablo Pípolo, Federico Guerra, Sarit Ben-Zeev e Marcos Flack / Cenografia e Figurino: Verónica Lagomarsino e Verónica Carriquiry / Trilha sonora: Carlos García / Iluminação: Álvaro Pozzolo / Produção: Ángeles Vázquez

Mi querida (Uruguai)

Dias 18, 19 e 20, às 18h – Teatro Carlos Carvalho
Mi querida é baseada em um conto de Anton Tchekhov. Uma mulher de idade madura recebe os espectadores em sua casa, oportunidade que aproveita para contar aspectos de sua vida, seus amores e desamores. Entre solidão e ternura, o personagem transita permanentemente entre o humor e a desolação, passando por todos os estados de ânimo, representante exemplar dos personagens que o célebre autor construiu ao longo de sua dramaturgia e que a autora Griselda Gambaro retoma com uma dose adicional de perplexidade e lirismo. Com essa montagem, Isabel Schipani, uma das atrizes mais reconhecidas do teatro uruguaio, recebeu em 2011 seu terceiro prêmio de Melhor Atriz. Alfredo Goldstein era um dos mais respeitados críticos teatrais do Uruguai, profissão que exerceu durante vinte e cinco anos, até decidir que a atividade de diretor de teatro – função que exerce desde 1983 - era prioritária. Como crítico, foi contemplado com Prêmio Florêncio da Crítica Uruguaia. Uma das mais festejadas obras uruguaias desta edição do Porto Alegre em Cena, a mostrar a excelência de uma atriz em pleno domínio de sua arte e talento.
 
Ficha técnica:
Direção: Alfredo Goldstein / Texto: Griselda Gambarro / Elenco: Isabel Schipani / Trilha sonora: Fernando Ulivi / Cenário e Figurino: Hugo Millán / Iluminação: Andrés Gonzáles / Duração: 55min / Recomendação etária: Livre

Madres al límite (Uruguai)

Dias 18 e 19, às 21h – Teatro CIEE

Para a montagem teatral de Madres al límite criada a partir de reportagens publicadas por Mónica Bottero em seu livro Mujeres al límite, o diretor uruguaio Omar Varela buscou a cena essencial: cinco atrizes, cinco cadeiras e um cenário vazio. Atrizes excepcionais, das mais relevantes da história do teatro uruguaio foram selecionadas para esta montagem. Solitárias, preenchem o palco com carisma e emoção incomuns ao emprestarem seu talento aos depoimentos sobre distintas experiências da maternidade. Em relatos intensos e comoventes, as histórias se sucedem em interpretações surpreendentes, o que pode ser atestado pelo título do comentário de Jorge Arias (crítico teatral e padrinho da 18ª edição do festival) sobre o espetáculo: “Quando brota sangue do teatro”. As histórias verídicas dessas mulheres brindam o público com uma experiência teatral repleta de humanidade. Oportunidade única para o público gaúcho reencontrar algumas das atrizes que, durante esses anos todos do “Em Cena”, têm brindado o festival com momentos inesquecíveis, Madres al límite se impõe como escolha teatral obrigatória.

Ficha técnica:
Texto: Mônica Bottero / Adaptação e Direção: Omar Varela / Assistência de direção: Gustavo Casco / Elenco: Nidia Telles, Gabriela Iribarren, Jenny Galván, Marisa Bentancur e Estela Medina / Figurino: Nelson Mancebo / Iluminação: Carlos Torres / Trilha sonora: Alberto Magnone / Duração: 100min / Recomendação etária: 15 anos

Humores que matan- Central Park West (Uruguai)

Dias 05, 06 e 07, às 21h – Teatro CIEE
A ação do texto de Woody Allen, escrito logo após sua ruidosa separação da atriz Mia Farrow, transcorre no coração de Manhattan em um apartamento do Central Park na cidade de Nova Iorque, onde uma bem-sucedida - mas insuportável - psiquiatra acaba de ser abandonada pelo marido devido à sua atração por outra mulher. Preservando o conhecido estilo do autor, prometendo reflexão e gargalhadas, a comédia entrelaça uma série de situações limite que revelam os mais obscuros segredos dos personagens, seres humanos imersos em aparências, mentiras, amores e traições. O texto mostra Allen num cenário dramatúrgico onde é mestre e onde prevalece sua tese de que, para serem felizes, casais e indivíduos precisam viver com ilusões e mentiras. A arte para Woody Allen é simplesmente uma mentira que nos permite descobrir a verdade – para podermos suportar sua carga e suas consequências. Com um elenco que reúne alguns dos atores mais famosos e premiados de Montevidéu, a montagem é dirigida por Mario Morgan, que sistematicamente apresenta suas criações no Em Cena.

Ficha técnica:
Direção: Mario Morgan / Texto: Central Park West, de Woody Allen / Adaptação: Fernando Masllorens e Federico González del Pino / Elenco: Laura Sanchez, Gabriela Iribarren, Franklin Rodriguez, Leonardo Lorenzo e Ana Laura Romano / Cenografia: Ivon Delprato / Assistência de direção: Juan Carlos Doldan /
Duração: 90min / Recomendação etária: 12 anos

El rey se muere (Uruguai)

Dias 17, 18 e 19, às 19h – Teatro do SESC
Texto assinado pelo célebre dramaturgo Eugène Ionesco, a obra converte a morte em tema absurdo e surpreendente. Humor e delírio estão entrelaçados nessa que é considerada a comédia mais prolixa do autor. O rei Berenguer, um cidadão comum e casado pela segunda vez, deve encarar os excessos que cometeu ao longo de sua vida como monarca e que, atualmente, se recusa a morrer. Nesse enfrentamento conhecerá o medo, a negação e a angústia comum a todos os mortais. O texto alcança camadas profundas ligadas à sociedade do século XXI e, por isso mesmo, tem sido aclamado como um clássico contemporâneo. O espetáculo, rara oportunidade de ver encenado um texto de Ionesco, é um grande desafio teatral, onde o foco está colocado na interpretação, repleta de ritmo e de humor. Do mesmo grupo da montagem Los padres terribles, de Jean Cocteau.

Ficha técnica:
Direção: Alberto Zimberg / Iluminação: Martín Blanchet / Texto: Eugène Ionesco / Tradução: Carla Mosctatelli, Leonor Svarcas e Alberto Zimberg / Adaptação: Carla Mosctatelli, Leonor Svarcas e Alberto Zimberg / Elenco: Roberto Bornes, Noelia Campo, Carla Moscatelli, Sergio Muñoz, Sebastián Serantes e Leonor Svarcas / Trilha sonora: Ojos del cielo / Produção musical: Marcelo Fernández, Gustavo Antuña e Ignacio Gutiérrez / Figurinos: Paula Villalba / Cenografia: Claudia Schiaffino e Beatriz Martinez / Produção executiva: Diego Acosta / Duração: 70min /  Recomendação etária: Livre

El lugar (Uruguai)

Dias 11, 12 e 13, às 19h30 – Teatro Bruno Kiefer
Mulheres e homens. Velhos e jovens. Casados, solteiros, divorciados, viúvos. Artistas, universitários, trabalhadores. Juntos e sozinhos. Uma mostra exemplar do absurdo que caracteriza a vida humana. O lugar, espaço em que cada um chega com sua “mala” pessoal, fronteira que simboliza ao mesmo tempo limite, trânsito e instabilidade. Muitos personagens para um espaço pequeno onde o conflito não tarda a se instalar. Não há lugar para todos nesse mundo/cidade/lugar. E o homem é o lobo do homem. O texto do argentino Carlos Gorostiza é representante da melhor dramaturgia contemporânea argentina. A obra apresenta uma metáfora feroz sobre a solidão e o vazio do homem contemporâneo, suas dificuldades cotidianas de comunicação e convivência pacífica, com influências do melhor teatro absurdo de Ionesco e Pinter, aliando com maestria ferocidade e humor. A encenação se propõe a apresentar a situação insólita proposta pelo autor através de uma montagem dinâmica e desestruturada, com ritmo alucinante e que reúne prestigiados atores uruguaios de muitas gerações.

Ficha técnica:
Direção: Fernando Diego Alonso Amaro / Texto: Carlos Gorostiza / Elenco: Fernando Amaral, Susana Sánchez, Sebastián Cardozo, Roberto Güida, Javier Tió, Fabiana Charlo e Marcelo Laprevote / Trilha sonora: Pa’bailar, de Julieta Venegas y Bajofondo / Figurino: Verónica Lagomarsino / Iluminação: Álvaro Santiago Domínguez Insúa / Produção: María José Larre Borges / Duração: 90min / Recomendação etária: 12 anos