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sábado, 29 de setembro de 2012

Fuerza bruta por Jeferson Cabral


A poesia megalomaníaca
Antes de assistir o espetáculo Fuerza bruta, ouvi diversos comentários sobre sua execução e a cada nova percepção me instigava mais para assistir, porque as opiniões eram divergentes. Algumas pessoas acharam o show incrível e outras comparam as grandes produções que não possuem sentido algum além da arte pela arte. Então, no espaço do Pepsi On Stage me decidi a entrar na onda extasiante que o espetáculo propunha, deixando assim os diversos depoimentos que ouvira para mergulhar no universo bruto da força humana.
O grupo argentino dirigido por Diqui James tem como poética teatral a investigação da performance show e está em cartaz com Fuerza bruta desde o ano 2005, em Buenos Aires. Uma de suas inspirações para essa hibridização artística é o grupo catalão Fura del Baus, que também pesquisa a arte como um evento e utiliza grandes maquinários para suas encenações.
Signifiquei três universos apresentados em Fuerza bruta, os vejo como números artísticos porque para criarmos um elo entre eles é uma tarefa difícil. A primeira atmosfera me remeteu à individualidade do ser humano em uma sociedade que está à frente de nosso tempo, em que as horas passam de uma maneira exacerbadamente veloz, em que nos fechamos em nossa cinesfera e assim vivemos os nossos problemas dialogando somente com nosso ser através da ventania do passar dos dias. O segundo universo contempla a atmosfera onírica que alimentamos ao deixarmos nossa mente transcender a materialidade da existência e revelar a poesia como poética da vida. Nesse aspecto vemos as ninfas contemporâneas soltas no universo acrobático e no oceano que reflete o céu violeta com corpos dançantes. Esse mundo poético me remeteu à infância, a liberdade que temos com a natureza e a necessidade de não arquitetar o amanhã. O último baseia-se no encontro entre as almas que comungam a diversão e celebram a vida, nesse momento somos transportados à tradição do povo argentino, mais especificamente de Buenos Aires. Na noite de Ano Novo, as pessoas usam a data para praticar o desapego. Elas jogam fora por suas janelas tudo aquilo que não será mais usado para dar boas vindas ao novo ano e celebram as novas possibilidades, e é lindo ver essa tradição em cena juntamente com a dança popular de nome Murga, que embalava os corpos do elenco flutuante.
Esse show nos preenche de energia com sua música, que atinge diretamente nosso ritmo interno e é quase indescritível a sensação de estar vivo. Os performers desse trabalho são instrumentos de exaltação da energia e por algumas vezes tornam-se parte da grande massa que vivencia esse momento ímpar.
Em alguns momentos pensei sobre a evolução da história nos corpos de quem a assistia. A interpretação de nosso corpo no espaço nesse acontecimento é algo para se pensar, pois diversas vezes me senti induzido a acompanhar a multidão que se apertava sem estar disposto a isso, como algo imposto. Talvez, essa sensação tenha feito com que muitas pessoas se sentissem incomodadas com o show.
Fuerza bruta significou uma viagem na própria existência humana entre a materialidade de nossa rotina e nossos momentos transcendentes e lúdicos, que significam o alcance de nossa mente em outro plano astral. Como no fim do show, devemos como seres humanos pularmos no abismo da existência e sentirmos a força da dádiva de viver com todas suas complexidades e belezas.
*Jeferson Cabral é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Nossa vida não vale um Chevrolet por Jeferson Cabral


Dar voz às sombras
     Desde a entrada no espaço em que se realizará a encenação, presenciamos a relação estabelecida entre esses seres humanos, que resistem à vida da maneira que podem. Indivíduos que ao nosso primeiro olhar exalam certa marginalidade, mas quando a história desse bando de seres começa a ser contada vemos que a alma humana é complexa em qualquer classe social.
     Mário Bortolotto, renomado dramaturgo paranaense e que também atua nos campos da direção e atuação teatral, nos apresenta na peça Nossa vida não vale um Chevrolet o desenrolar torpe de vidas repletas de incertezas e tragédias. Sentimos ressoar ao longe as vozes desses personagens que são excluídos da sociabilidade padrão de nosso meio social e levam suas vidas nos emaranhados caminhos do submundo.
     A ambientação deste universo de relações humanas voltadas para o crime foi construído no Centro Cenotécnico, que por sua energia e arquitetura nos transportam a um ambiente sufocante condizente com a proposta da encenação. O cenário nos remete ao interior de uma oficina mecânica constituindo um espaço único de encenação com diversos focos de atuação, pequenos universos que em determinados momentos dialogam. Os elementos espalhados pelo espaço são uma reinvenção de artefatos metálicos, que se transformam em objetos de cena. Esses elementos juntamente com os figurinos formam uma estilização urbana de um ambiente soturno, que esconde as aspirações secretas de cada personagem.
      A história narra a trajetória de irmãos após a morte de seu pai. Esse é o mote que revela a desestrutura familiar em que se encontram, pois sua mãe também vive uma vida longe dos filhos. A maneira que essa família encontrou para sobreviver foi a criação de uma quadrilha de roubo de carros, atividade que o irmão mais novo Slide (Duda Cardoso) não consegue exercer com o mesmo empenho e acaba preso. Uma trama paralela ocorre com os irmãos, eles conhecem e se relacionam com a mesma mulher. Essa ramificação da trama confere uma atmosfera poética à peça, porque os desencontros e a busca por preencher o vazio da existência é o ideal de vida de Silvia (Morgana Kretzmann), personagem que vive com suas perdas e novas possibilidades de ser feliz e acaba sua trajetória no mesmo estado em que iniciou; e os irmãos são peças desse quebra-cabeça da solidão. Existe outro núcleo na história composto pelos personagens Suruba (Guilherme Zanella), Love (Plínio Marcos) e Guto (Carlos Azevedo), esses personagens exercem sua função dentro do meio social em que vivem, como o agenciador de lutas, o gogo boy e o viciado em cocaína e perpassam o caminho trilhado pelos irmãos no decorrer da história.
     A direção de Adriane Mottola é repleta de inventividade. A encenação obteve um ritmo que me prendera a atenção até seu final eletrizante, em que vemos a família se desestruturando em um embate de laços de sangue, que é o único elo desses irmãos que acabam destroçados por estarem sempre sendo alimentados pelo sentimento de falta. A montagem nos preenche de energia e reflexão sobre o olhar que damos a esta realidade, pois basta olharmos para algumas esquinas e as presenciaremos.
     Em Nossa vida vão vale um Chevrolet, vemos a força do teatro gaúcho em uma produção rica em detalhes e excelência artística.
*Jeferson Cabral é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

domingo, 16 de setembro de 2012

Cão que morre não ladra por Jeferson Cabral



            O jogo com a morte
Ao entrar no teatro do SESC, o público é convidado a vivenciar um dia no cotidiano de uma família aparentemente normal. Em Cão que ladra não morre, somos alocados em uma sala de estar que desvendará uma série de conflitos cíclicos, em que a cada novo instante a lei da ação e reação torna-se presente. O efeito bola de neve é visível na trama, pois as fatalidades permeiam e desestabilizam a lógica dos acontecimentos corriqueiros dentro de um lar.
A companhia de Chapitô (Portugal) tem 12 anos de atuação como coletivo teatral e aposta suas fichas na poética da comédia como fio condutor das perplexidades vividas, por nós, seres humanos em nossa realidade social. O grupo investe desde sua criação, no ano de 1996, no trabalho físico do ator para suscitar e alimentar a imaginação do público.
O cenário constituía-se de uma mesa com grandes gavetas de onde saíam os elementos de cena. Existiam mais três cadeiras e um criado mudo onde se localizava a vitrola que compunha musicalmente a cena. Não foi necessário mais nada, pois todo o poder da peça estava centrado na corporeidade dos atores e na forma lúdica que se deu a narrativa diante de nossos olhos.       
A história que nos foi apresentada retratava a aceitação da perda, porque é através da morte do cão da casa que a trama começa a se desenvolver. Os pais tentam de todas as formas não revelar ao seu filho o fim da vida de seu bicho de estimação. Nessas tentativas eram revelados desenhos de cenas incríveis, que de forma eficaz reproduziam uma brincadeira de esconde-esconde. Nesse jogo foram utilizados os compartimentos da mesa como refúgio para o corpo do cão. A agilidade com que as cenas aconteciam nos trazia um sentimento de plena espera pelo que estaria por vir daqueles corpos dançantes em cena. Em determinado momento o filho descobre o corpo de seu cão e passa a tratá-lo como um ser ainda vivente, situação que permeia com as demais perdas que acontecerão na peça.
A morte ronda outra vez a família. Ao tentar lidar com esse problema novamente, outras situações extremas acabam acontecendo. A mãe da família acaba perdendo a vida após um simples tropeção, cena que causou grande impacto na plateia. Após essa morte vemos o pai tentando não mostrar ao filho a morte da mãe, mas sua tentativa não possuiu êxito e os espectadores são presenteados com cenas que beiram o absurdo, pois a negação da perda da mãe é o mote para cenas hilárias de humor ácido. Assim, somos apresentados a uma situação limite: uma discussão leva o filho a assassinar o pai. E logo vemos um menino vivendo com dois cadáveres, na verdade três, pois o cão ainda está ali.  Nesse momento concretiza-se uma atmosfera de sonho, pois os mortos voltam à vida e brincam afetuosamente com o filho. Esses dois mundos são constituídos através da iluminação, um tom claro para a ambientação da sala de estar e um jogo de luz azul para a atmosfera de sonho, de algo imaterial. 
O treinamento corporal dos atores fica muito visível nas cenas em que a ação de imobilidade foi exercida pelos mortos. Fica evidente o trabalho realizado entre o relaxamento muscular e os jogos de marionetes, pois os corpos dos atores transformavam-se em objetos de interação com a própria ação surreal que era encenada.
Na relação familiar que presenciamos por meio dessa obra teatral, vi a incomunicabilidade de pessoas próximas que apesar de dividirem o mesmo espaço não dividem o mesmo tempo. Penso que é esse o cerne do humor negro desse espetáculo, porque a morte é tratada como um jogo lúdico.
Ao sair de Cão que morre não ladra, encontrei-me com uma sensação de encantamento e questionei perante meu pensamento: como uma história de enredo demasiadamente simples encheu de magia o palco? A percepção que se encontra latente em meu imaginário é de que essa obra viaja entre o real e o fantástico de uma maneira sincera e surpreendente. 
*Jeferson Cabral é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS  

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Júlia por Jeferson Cabral

 A interatividade artística
            A curiosidade por assistir a uma adaptação de um clássico da dramaturgia mundial foi o que me instigou a presentificar a proposta de encenação da peça Júlia, realizada pela diretora Christiane Jatahy. Nesse espetáculo somos convidados a entrar em uma atmosfera artificial híbrida que reconta a história de Senhorita Júlia escrita por August Strindberg no ano de 1888.  
            No obra de Strindberg, nos é apresentada a discussão entre dois mundos distintos, social e culturalmente. A relação de poder de uma classe perante outra é confrontada através da relação conturbada entre uma menina da aristocracia e um serviçal. O nó da história inicia-se quando essa menina encontra-se em casa somente com a presença de seus criados ao fim de uma festa. A intimidade entre Júlia e um de seus empregados a cada instante se torna mais evidente e impulsiva e uma torpe relação começa a ser desenhada diante nossos olhos até o momento ápice da peça, em que não existe mais saída a não ser a morte da propulsora do problema, Júlia.
            A releitura deste texto encenado por Christiane Jatahy tem como mote a fusão do cinema e teatro e alcança essa proposta utilizando do distanciamento do fazer aqui e agora. A ação dramática e todos os elementos que constituem a cena são produzidos sem o efeito da magia que vemos no cinema e com a eficácia da proximidade que o teatro proporciona como poética artística. 
            Uma estrutura metálica foi montada no palco do teatro Renascença para facilitar a criação de ambientes que remetiam a um set de gravação de um filme. Um painel branco, que ocupara  toda a largura do palco ocultava os cenários utilizados para a encenação, que hora ocorria nesses ambientes que materializavam o interior da casa de Júlia e o quarto de seu empregado. Nas demais cenas, o proscênio do teatro era utilizado como extensão dos cenários e também nesse espaço aconteciam  cenas que quebravam com a identificação do público com a história. Nesses momentos, víamos os atores não mais representando seus papéis e sim se preparando para as próximas passagens da peça.
A união do cinema com o teatro acontecia de forma harmônica e muitas vezes me perguntei se o que assistia era realmente teatro. A edição de cenas pré-gravadas e outras executadas perante nossos olhares trouxeram um ar de presentificação do maquinário cinematográfico que não estamos acostumados a ver em cena. Nos ângulos da câmera qualquer detalhe de gestualidade e intenção interna dos personagens tornavam-se  mais fortes perante o vídeo e, em contra ponto, observei como o vídeo limita o olhar do espectador. Por exemplo, na cena em que Júlia está na cozinha com seu empregado e vacila em aceitar sua proposta de fuga; o corpo da atriz está todo engajado na ação e câmera mantém o foco somente no rosto, cabe daí ao espectador escolher em que vertente empregará sua atenção.
            As questões sociais da peça de Strindberg ganharam uma roupagem que dialogavam com nosso presente político-cultural. Os empregados da obra original foram representados por negros, essa questão traz à tona a discussão do racismo e da classificação trabalhista dos negros, isso a meu ver. Creio que também possa vir a ser uma crítica aos papéis que atores negros ocupam nas novelas, pois quase sempre são oferecidos a esses atores papéis secundários como serviçais de uma classe dominante. A relação dos enamorados também perpassa este jogo de dominação, Júlia mesmo entregue aos braços de seu empregado ainda lhe impõe ordens e ameaças até que o jogo vira e ela se torna vítima da dominação masculina.
            As atuações estavam condizentes com a proposta de encenação. A protagonista é interpretada por Júlia Bernart, que assume o papel de uma menina mimada e alcança as nuances na relação amorosa. Rodrigo dos Santos, o empregado da família, nos mostra um homem firme e de aspirações fortes. Ambos os atores dialogam muito bem com o jogo com as câmeras e com a teatralidade. Todavia, Júlia parece estar mais à vontade e joga com a quebra da quarta parede proposta pelo cinema, dialogando e abrindo a cena para o olhar do público por diversas vezes.
            Por fim, saí do teatro com a certeza de ter presenciado uma tentativa muito feliz de interatividade artística e união de dois universos que ainda podem vir a trazer mais obras com essa poética híbrida de arte. A peça Júlia se traduz em uma audácia teatral que nos leva a compreender a composição de uma obra cinematográfica e nos envolve com a presentificação do teatro. 
*Jeferson Cabral é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS