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sábado, 22 de outubro de 2011

A vida como ela é por Eriam Schoenardie

A vida como ela não é*

Devo admitir que, ao me incorporar à plateia do espetáculo A vida como ela é, já tinha algumas perspectivas quanto ao estilo de representação escolhido pelo diretor Luiz Arthur Nunes para a peça que estava por vir. Para transformar em ação dramática cinco contos escritos por Nelson Rodrigues para uma coluna de jornal homônima na década de 1950, são empregadas técnicas do teatro épico desenvolvido por Brecht que visam o distanciamento do espectador perante as situações narradas. Nesse sentido, a obtenção da não-identificação do público se dá com êxito, exemplificada pelas risadas nervosas dos espectadores até em momentos de carga dramática mais densa. Ao optar por esse estilo de trabalho, o diretor acerta com a sua vontade de usar de diferentes meios cênicos para contar histórias, porém acaba por se perder em meio a excessos e superficialidades.
Basicamente, parecem questionáveis algumas escolhas da montagem. O primeiro conto mostrado, por exemplo, enfraquece o começo do espetáculo ao recorrer a quadros vivos compostos por dois atores, que ilustram fielmente a história relatada pelos demais. A novidade da proposta se esgota rapidamente, dando lugar a uma monotonia intimamente ligada ao caráter estático que circunda não só os referidos quadros, mas também a montagem como um todo. Por isso, vibramos ao ver uma maior movimentação corporal, como é o caso do “coro” de quatro personagens do terceiro conto, brincando com o uso de leques (desgastado, mas que funciona) e com uma dinâmica estrutural acelerada que encaminha o conto para um desenlace belamente contrastante ao da atmosfera instituída. É, sem dúvida, uma encenação que priva por uma marcação exata dos atores, característica que às vezes parece suprimir o trabalho destes e que instaura a questão: “Aquilo não poderia ter sido explorado mais a fundo?”.
O segundo conto se desenrola não menos estático, porém esteticamente mais interessante. A manipulação de atores que tem a sua face substituída por uma máscara de feições neutras é, sem dúvida, a escolha de maior beleza de toda a peça. Os usuários destes adereços se entregam nas mãos de outros colegas de elenco, para serem manobrados como se fossem marionetes de carne e osso, seja na questão dos movimentos ou até mesmo das falas (o quarto conto também se aproveita dessa ferramenta de ventriloquia, diferenciando-se ao excluir as máscaras e agora dar voz aos bonecos vivos).
Os elementos visuais, na sua maioria, são vibrantes e extravagantes. O figurino remete à época dos contos, com característicos vestidos de bolinhas em diferentes cores para cada uma das atrizes e ternos impecáveis para os homens. O cenário se resume a estruturas com design de páginas de jornal, reforçando a origem dos textos, que ao final de cada conto se iluminam e revelam uma imagem que ressalta a construída em palco. Essa última característica é desnecessária e ameaça inclusive ofuscar as imagens criadas ao final de cada quadro, já bastante significativas e por vezes muito bonitas (como é o caso dos contos dois e três).
A luz de palco é uma constante de iluminação geral para meia luz de troca de contos, sendo explorada sem muita elaboração cênica, exceto pela ajuda na criação de efeitos em algumas imagens finais. Em contrapartida, a sonoplastia tem um papel muito mais presente, sendo um recurso por vezes invocado desnecessariamente. O repertório vai de músicas populares de reconstituição histórica brasileira até músicas clássicas que sublinham a suposta tensão do enredo. Esse misto dá um clima brega a toda a trilha que, se assumida como proposta, poderia ser interessante e condizente com a forma de interpretação exagerada. Porém, esse ideal de encenação parece não se impor e o que se sucede é uma série de intervenções musicais que chegam a beirar um melodrama que se envergonha de ser melodramático.
A adaptação do texto, também feita por Luiz Arthur Nunes, acerta ao preservar grande parte da estrutura narrativa original, dando aos atores a figura de narrador em terceira pessoa ao mesmo tempo em que outros se encarregam dos diálogos. Em suas tramas, Nelson Rodrigues retratava as patologias psicológicas do subúrbio carioca usando de um caráter de depravação sexual e morbidez criminal que rodeou toda sua obra, mas que aqui é apresentado de forma muito atenuada. Assim, a encenação acaba por tomar uma válida posição de comicidade sobre tais temáticas, uma vez que o distanciamento proposto pela montagem se associa à uma análise feita por um espectador “distante” daquela época posta em palco. A exposição do texto revela outro aspecto positivo que vem como uma redenção para a falta de ações físicas mais complexas: a oralidade do elenco, que se caracteriza por uma ótima gesticulação e projeção vocal, a última talvez beneficiada pela acústica do espaço teatral.
Ao fechar das cortinas, o resultado de tudo que se vê é claro narrativamente, porém confuso teatralmente. A impressão que paira é de que as diferentes estéticas de representação dramática exploradas se tornam avulsas quanto à encenação vista em sua totalidade, uma vez que não estão amarradas entre si. Fica a dúvida, por fim, se a clássica regra do “menos é mais” não se aplicaria aqui com perfeição, optando somente pelos melhores mecanismos que preservassem a proposta geral, que em minha opinião se apoia na união de elementos de determinada época para discernir psicologismos atemporais. Infelizmente, tais signos históricos se sobressaem perante o argumento que visa a análise do “interior negro” humano, afastando demais o espectador da encenação e dando a irônica impressão de que o que contemplamos é o ser humano como ele não é, a vida como ela não é.
* Eriam Schoenardie é estudante do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sábado, 17 de setembro de 2011

A vida como ela é por Rodrigo Monteiro

A vida como ela é*

Luis Artur Nunes (coautor e o primeiro diretor de A maldição do Vale Negro) é um dos maiores especialistas em Nelson Rodrigues no país não só pela sua preciosa contribuição teórica, mas, sobretudo, pela participação em importantes produções de um dos maiores escritores brasileiros. No espetáculo A vida como ela é, sua experiência com o universo rodrigueano se mostra na habilidade em trabalhar cenicamente com o escritor, sem descaracterizar com o teatro o que é próprio da literatura. As crônicas publicadas no jornal A Última Hora, durante os anos 50, tantas vezes adaptadas tanto para os palcos como para as telas, ganham mais uma vez o teatro na montagem do grupo catarinense Teatro Sim...Por Que Não?!!! Luis Artur Nunes, ou Luisar, como lhe chamava Caio Fernando Abreu, mantém a narrativa melodramática de Nelson Rodrigues, retira o contexto realista-naturalista dos personagens e investe em vários recursos cênicos que, além de explorar o potencial dos atores, oferece à obra (ou às obras) novas possibilidades de fruição.
Cinco crônicas foram utilizadas: Uma senhora honesta, Noiva para sempre, Noiva da morte, Doente e O grande dia de Otacílio e Odete. O espetáculo utiliza, para cada texto, uma forma diferente de contar, mantendo como unidade o clima de “teatro contado”, o ator como um contador de histórias, esse tema de uma de suas pesquisas acadêmicas mais respeitadas no campo dos estudos em artes cênicas. Assim, a fotonovela, o teatro de fantoches, a dublagem e o jogral são alguns dos recursos cênicos explorados pelo diretor e sua equipe na viabilização teatral das histórias escolhidas. O resultado é rico porque explora os sentidos através de formas marginalizadas e não menos interessantes.
Ana Paula Possapp é quem apresenta o melhor resultado em cena. Sendo A vida como ela é um espetáculo mais do diretor que dos atores, ou seja, um tipo de produção em que as escolhas estéticas dizem mais respeito à estrutura narrativa do que ao apagamento da história em si, identificar trabalhos que se destacam só é possível quando o destaque é realmente visível. É simplesmente excelente a forma como Possapp manifesta várias intenções via tonalidades diferentes da voz em paralelo a uma expressão facial duramente neutra na primeira cena, para citar apenas, talvez, o seu melhor momento. Não é possível dizer, importante frisar, que há construções negativas na produção, o que torna o trabalho de direção ainda mais valoroso.
No que se refere aos outros elementos do espetáculo, o cenário é limpo e potente, fornecendo meios para a exploração do teatro de sombras, outro recurso interessante e bem utilizado sobretudo nos intervalos entre cenas, que, em alguns momentos, poderiam ser menores. A escolha da trilha sonora, com forte apelo popular, marcando o tempo época da narrativa como em décadas da metade do século XX e o espaço como o Brasil, garante a intenção estética de estabelecer a crônica jornalística como referência não só textual, mas também contextual. As histórias lidas nos tabloides passavam de boca em boca, embaladas por várias canções conhecidas, na periferia e nas zonas nobres, de ouvido em ouvido, de família em família, sentidos esses que, assim, tem seu lugar garantido na produção de que se trata aqui. O figurino ratifica os demais signos e torna a encenação coerente e coesa. O tom pujante da última cena, cujo contexto é a copa do mundo de 58, deixa pensar que há um ápice dramático e, assim, permite identificar uma unidade nas cinco histórias que, unidas, chegam ao fim. A vida como ela é deixa a sua marca no 18º Porto Alegre em Cena por trazer o diretor gaúcho Luis Artur Nunes em um de seus melhores trabalhos.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A vida como ela é por Paulo Adriane

A comédia privada da vida como ela é...
(os textos de Nelson Rodrigues
e a teatralidade de Luis Artur Nunes)*
Quem me conhece sabe que não sou crítico teatral, portanto, a análise que faço é como artista creditado para observar esta obra. A encenação em questão, dirigida por Luis Artur Nunes, é do grupo “Teatro sim... por que não?!!!” para os contos de Nelson Rodrigues, publicados no jornal A última hora no final dos anos 50 no Rio de Janeiro. Em torno de dois anos atrás alguém pretensiosamente me ironizou dizendo que quem escreveu as Comédias da vida privada foi Luís Fernando Veríssimo e não Nelson Rodrigues. Hoje, depois de ter assistido essa montagem do excelente grupo do nosso estado vizinho, saí convicto de que os contos da obra A vida como ela é, como eu já havia percebido, são também uma comédia da vida privada (claro que nada a ver com a do Veríssimo). “Comédia grostesca, amarga mas inegavelmente comédia” como declara Luís Artur no programa da peça. É medíocre demais pensar que para teatralizar Nelson precisamos mergulhar somente nas mesmas fontes, em pesquisas fundamentadas em filmes eróticos das décadas de 60 e 70 baseadas nas obras de Nelson ou ainda em qualquer referência óbvia sobre tudo que artisticamente já foi realizado sobre suas obras. Nunes, preservando categoricamente o texto, com sensível percepção, nos apresenta a comicidade intrínseca sim nesta dramaturgia. É a visão da liberdade do artista, assim, sem pudor, sem medo, sem rótulos, sem pré-conceitos e o melhor, sem a preocupação de querer agradar. O que vimos é uma encenação de grande teatralidade legitimando um dos maiores encenadores deste pais. Os contos seguem todos a mesma linha de recursos cênicos fazendo das cinco histórias uma peça. Os figurinos remetem aos anos 50 mas com graça e colorido vigorosos. Os biombos do cenário trazem impressões dos jornais da época e ainda nos surpreendem, ao final de quatro dos contos, com gravuras iluminadas alusivas ao conto em questão. A ousadia de Nunes e do talentoso elenco é sim cheia de exageros, caras, bocas, sobrancelhas, e marcas rígidas. Tudo perfeitamente natural. E aí tudo se mistura, os atores ora narram, ora encarnam os personagens, uns manipulam outros como se fossem bonecos (como um autor direcionando seus personagens) e ainda dublam-se entre si. As máscaras usadas em três dos contos nos passam a sensação de que somos todos iguais. A trilha sonora e a iluminação são impecáveis seguindo a proposta de teatralidade da encenação. No final da apresentação o público aplaude de pé com entusiasmo. No 18° Porto Alegre Em Cena, Luis Artur e o grupo de Florianópolis agradam a quem merece ser agradado, o público! Meus agradecimentos ao festival e ao Marcelo Adams pelo convite e confiança!
* Paulo Adriane é ator