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sábado, 10 de setembro de 2011

Maria João e Mario Laginha por Rodrigo Monteiro

Maria João e Mario Laginha*
Talvez uma das coisas mais interessantes do espetáculo de abertura do 18º Porto Alegre em Cena seja a experiência de ouvir uma renomada cantora, ao lado de um excelente pianista, perseguir a própria voz. Maria João, uma das cantoras portuguesas mais célebres da atualidade, que foi cinturão negro de Aikido antes de se tornar cantora, chama a atenção pela sua experimentação vocal: dos tons mais agudos aos mais graves, ela parece redescobrir sonoridades em sua própria carga sonora, improvisando lindamente, oferecendo ao público um excelente resultado estético. É um prazer ouvi-la cantar, como também é ouvir Mário Laginha tocar ao piano (e não só acompanhar a cantora), do início ao fim do show.
No repertório, clássicos e novidades, sempre com um gosto de brincadeira. Algumas das músicas interpretadas estão no excelente CD Chocolate, 12º álbum da dupla que já comemora mais de vinte e cinco anos de trabalho em conjunto. Entre as canções que mais me chamaram a atenção, estão Beatriz, do Chico Buarque e a excelente versão de I’ve grown accustomed to his face , último número do musical My Fair Lady, de 1956, e que ilustra a raiva do Professor Henry Higgins ao fato da sua pupila Eliza Doolittle ter saido da sua vida, e o apercebimento crescente do quanto irá sentir a sua falta.
Pela 4ª vez em Porto Alegre, Maria João e Mario Laginha são figuras que marcam o festival de forma a fazer crer que as próximas edições não serão as mesmas sem suas presenças. A forma como a cantora dança em sua própria música e canta com o próprio corpo, o jeito como pacientemente ela sai da luz para nos convidar a prestar a atenção no seu pianista, e como ele também sai de cena, em determinado momento, para nos deixar compartilhar um dos momentos criativos e mais íntimos com a cantora portuguesa e, sobretudo, o carinho expresso nos depoimentos prestados ao longo do show sobre a relação da dupla com os artistas brasileiros fazem da fruição uma experiência estética de altíssimo nível. Quando se trata de abrir o maior festival de artes cênicas do planeta, não se pensa em algo menor. Maria João e Mario Laginha são, assim, perfeitos para o papel que executam e, acrescentando a bela iluminação, o figurino rico e a discreta movimentação em cena, não é exagero considerar a escolha como excelente.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Maria João e Mario Laginha por Monica Tomasi

O standard do standard*

Quando fui convidada para escrever algumas linhas do show de Maria João e Mario Laginha aceitei sem pensar. Refletindo melhor depois, constatei que não tinha muita familiaridade com o repertório dela. Corri, então, na internet para ouvir coisas e ver vídeos.
Que beleza, uma cantora de jazz com um ótimo pianista.
E assim fui para o Teatro do Bourbon Country, na abertura do Festival Porto Alegre Em Cena, para assistir um show de standards de jazz.
Começou o show e já na primeira música um atmosfera diferente anunciava que alguma coisa iria acontecer ali. Na segunda música, Maria João pega um bloco e coloca na estante de partitura. Mas o tal bloco era um iPad que ela discretamente manuseava para ler as letras. Adorei!
Laginha e João manipularam as emoções da plateia em quase duas horas de show, com intimismo, lirismo, solos frenéticos de piano acompanhados de maracação percussiva com os pés, ela dançando sedutoramente em cumplicidade com a canção.
Momento arrepiante do show foi ao interpretar Beatriz (Chico Buarque), que depois confessou ser uma das músicas mais lindas do mundo, e ainda brincou que no seu camarim tinha uma foto da Marieta Severo.
O final do espetáculo é mais arrebatador ainda: Laginha sai discretamente do palco e deixa Maria João improvisar. Mas o que mais parecia ali era que seu corpo apenas tinha se tornado veículo de outras vozes que vieram dar o seu recado. Do tribal à ópera, fazia tudo parecer brincadeira. De tirar o fôlego!!!
Uma cantora solta, livre, feliz, suave, imprevisível. Um domínio e técnica absurdos.
Um pianista impecável, virtuoso, suingueiro e econômico.
Saí do show com alma lavada, valeu Luciano por repetir a dose esse ano.
A única ressalva que faço é quanto à iluminação do espetáculo, que interferiu em vários momentos, causando desconforto para quem estava na plateia. Refletores apontavam para o teto do teatro, numa parte metálica que refletia e ofuscava os olhos. E vamos combinar...soltar fumaça nos momentos mais intimistas da música é de última!!!!! Isso não é standard.

* Monica Tomasi é cantora.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Chocolate



“A música é muito saborosa, é como se os sons fossem bocadinhos de chocolate!"

Chocolate é o nome do 12º disco da dupla Maria João e Mário Laginha, músicos portugueses que comemoram vinte e cinco anos de trabalhos em conjunto. O delicioso jazz do disco que será apresentado no show do 17º Porto Alegre em Cena traz, entre canções conhecidas, novidades imperdíveis:

1. I Have a Heart Just Like Yours

2. Goodbye Pork Pie Hat
Dedicada à memória de Lester Young, a música foi composta em 1959 por Charles Mingus sobre um poema de Joni Mitchell, poucos meses após o falecimento de Young, um dos mais importantes e influentes saxofonistas e clarinetistas Americanos.

3. I’ve Grown Accustomed to His Face
Última canção do musical ‘My Fair Lady’ de 1956, e que ilustra a raiva do Professor Henry Higgins ao facto da sua pupila Eliza Doolittle ter saido da sua vida, e o apercebimento crescente do quanto irá sentir a sua falta.

4. Sweet Suite

5. This Time

6. Modern Mode / I’m Old Fashioned
“I’m Old Fashioned”, composta em 1942 por Jerome Kern com letra de Johnny Mercer, foi escrita para o filme ‘You Were Never Lovelier’ com Fred Astaire e Rita Hayworth como protagonistas. A primeira gravação desta música pertence a Fred Astaire com John Scott Trotter e a sua orquestra, nesse mesmo ano.

7. If You Could See Me Now
Um dos primeiros sucessos na carreira de Sarah Vaughan, em 1946.

8. Mati Mati

9. When You Wish Upon a Star
Esta canção, introduzida no filme “Pinóquio” da Disney em 1940, e que foi cantada por Cliff Edwards na personagem de Grilo Falante nos créditos iniciais e finais do filme, ganhou esse ano o Óscar da Academia para Melhor Canção Original, sendo ainda hoje considerada pelo Instituto Americano de Cinema como a melhor canção da Disney e uma das 100 melhores músicas de sempre num filme.
Além da dupla, outros três músicos, também compositores, engrandecem, talvez, uma das atrações mais esperadas da edição desse ano do Festival. Informa Mário Laginha:

“O Alexandre Frazão e o Helge Norbakken são respectivamente o nosso baterista e o nosso percussionista preferidos. Estavam escolhidos à partida. Quanto ao Julian Arguelles e ao Bernardo Moreira, são músicos com quem tenho tocado regularmente ao longo dos anos e que achei que eram ideais para este projeto.”

Maria João, que foi cinturão negro de Aikido antes de se tornar cantora, ao longo de sua carreira já trabalhou com músicos reconhecidos internacionalmente. Entre eles, a pianista Aki Takase e a banda Cal Viva, e Ralph Towner, Dino Saluzzi, Bobby McFerrin, Joe Zawinul e Trilok Gurtu, entre outros. Ao lado de Laginha, para nós, o destaque está no disco “Chorinho Feliz”, gravado em comemoração dos 500 anos da presença portuguesa no Brasil. Nele participam Gilberto Gil e Lenine, Helge A. Norbakken, Toninho Ferragutti e Nico Assumpção.

A voz encorpada e o apurado detalhe musical das interpretações conferem elegância à nossa programação. O repertório traz classe. O jazz traz alegria. “Chocolate” trará, certamente, prazer.


*

Ficha Técnica:

Voz: Maria João
Piano: Mario Laginha
Saxofone: Juian Argülles
Contrabaixo: Bernardo Moreira
Percussão: Helge Andreas Norbakken
Bateria: Alexandre Frazão
Duração: 1h30min
Classificação: Livre