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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pablo Held Trio por Marcelo Birck


A música do Pablo Held Trio se encaixa em um estilo normalmente definido como jazz, mas que, sem deixar de sê-lo, situa-se no rastro daquele momento em que o jazz se volta definitivamente para fora do seu contexto de origem, e desta forma tanto se expande quanto se dilui. No Brasil (e mesmo em outros países), tal tendência foi bastante associada ao catálogo da gravadora ECM, que teve inúmeros títulos lançados por aqui a partir dos anos 70. A apresentação começa com um solo do contrabaixista Robert Landfermann, disparado o melhor jogador em campo. Com uma sonoridade precisa e fazendo um uso refinado das dinâmicas, o solo caracterizou-se por poucas polarizações de notas, que quando ocorriam eram rapidamente abandonadas ou disfarçadas. No instante em que uma nota de referência por fim se estabelece, os demais músicos vão se juntando ao contrabaixista. Com o foco ainda voltado para o contrabaixo em função do tempo que durou o solo, aos poucos a atenção começa a passear entre as propostas dos três instrumentistas, em um exercício de escuta seletiva que pode fixar-se tanto nos instrumentos individuais quanto nas configurações das execuções simultâneas. É como se os espaços de atuação de cada um dos músicos fossem órbitas magnetizadas, cujas forças de atração e repulsão os mantêm em equilíbrio. Largamente fundamentado no improviso, este acordo musical vai se confirmando durante o concerto. Cada músico tem o seu espaço, e a partir destes são sugeridos hiatos, intersecções, atritos, encontros, paralelismos. A influência do free-jazz é evidente (inclusive com citação de Lonely woman, de Ornette Coleman). Os improvisos por vezes apresentam ideias consideravelmente simplificadas (Held em especial). É uma estratégia arriscada, mas que não deixa de ser interessante para inserção de contrastes. Ainda que alguns improvisos aparentem ser banais, tal percepção é na verdade induzida pelo confronto com as texturas mais complexas. A proposta pode não estar plenamente amadurecida, mas com certeza está bem encaminhada. No final das contas, o saldo é positivo, seja pelos méritos do trio ou pela oportunidade para refletir sobre os formatos que o jazz pode adquirir quando definitivamente seu contexto original está tão expandido quanto os limites do planeta.
 
*Marcelo Birck é músico

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Andromeda Mega Express Orchestra por Marcelo Birck

Andromeda Mega Express Orchestra*
Nas prateleiras de ofertas dos sebos de vinil, é fácil encontrar discos de orquestras dos anos 40 e 50, prática que foi caindo em desuso à medida que as possibilidades de amplificação foram se popularizando. Nestes LPs de grupos hoje totalmente esquecidos, não é raro encontrar arranjos muito bem elaborados e que merecem ainda hoje ser ouvidos. Pois bem, no atual contexto, a existência de um grupo como a Andromeda Mega Express Orchestra por si só já agrega interesse. Mas a experiência de ouvi-los ao vivo foi mais do que isso. Fui para o show deliberadamente sem informação nenhuma a respeito da proposta, e várias coisas chamaram positivamente a atenção. Leveza, carisma, concentração, bom humor sem apelar para gracinhas. A coesão do grupo impressiona. Cada músico sabe exatamente o seu papel, e se sente muito à vontade em desempenhá-lo. O equilíbrio instrumental é muito bem resolvido. A equalização dos instrumentos foi de uma elegância impecável. Texturas que conseguem ser leves e densas ao mesmo tempo, onde bastava focar a atenção em um determinado instrumento para distingui-lo do meio da massa sonora. Era clara a impressão de que os músicos se divertiam imensamente com o que estavam tocando. Estranho e familiar, o som da orquestra lançava uma referência para quase em seguida se transformar em outra, e não só musicalmente. O trio guitarra-baixo-bateria às vezes parecia um grupo de rock de vanguarda nova-iorquino dos anos 80, em seguida lembrava uma banda grunge de Seattle, ou mesmo um trio de jazz europeu. Rock progressivo, Charles Mingus, Phillip Glass, free-jazz, temas de seriados, big-band, e até mesmo Spike Jones, surgem e desaparecem no meio de composições capazes de transitar pelos estilos e climas mais contrastantes, sem nunca cair no vale-tudo. E tudo parece divertir os integrantes do grupo, que tocam coisas bem complexas, e o fazem com a maior naturalidade. Impossível depois de um show desses dizer que estilos mais radicais não têm público. A Andromeda Mega Express Orchestra deixou os presentes extasiados, com a sensação de que o show tinha durado 15 minutos, ao invés de um hora e meia, e com a impressão de que poderiam conquistar qualquer plateia. Uma experiência musical de exceção, e que merece uma segunda vinda a Porto Alegre.
* Marcelo Birck é músico