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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Las cuatro esquinas (RS)


Dias 17 e 18, às 19h
Teatro do SESC
 
Em cena três bailarinas e um bailarino formam um corpo de baile, onde se destacam belíssimas performances de grupo que contemplam, além da dança flamenca em si, o uso dos elementos de baile, como os mantóns, as batas de cola, os abanicos e as castanholas, sempre acompanhados do virtuosismo da guitarra flamenca. Além disso, a montagem conta com uma banda flamenca formada por mais sete músicos, que executam ao vivo a trilha composta especialmente para o espetáculo. Com cenário moderno que remete ao movimento e ao desacelerar das ruas de uma cidade, as performances buscam trazer a essência da arte flamenca. O espetáculo é o resultado de mais de dez anos de trabalho da Cia Del Puerto, ecoando em forma de sonho e realidade nas ruas de uma cidade imaginária construída durante esse percurso e conduzindo o público a uma experiência singular: um passeio pelas madrugadas quando a cidade está adormecida, a sensação da tensão dos cruzamentos, o efeito do barulho e do movimento cotidiano.

 
Ficha técnica
Direção geral: Ana Medeiros, Daniele Zill e Juliana Prestes / Direção artística: Juliana Prestes / Coreografia: Ana Medeiros e Juliana Prestes / Elenco: Cia de Flamenco Del Puerto - Giovani Capeletti (músico), Ana Medeiros, Daniele Zill, Juliana Prestes (baile, castanholas e palmas), Juliana Kersting e Tatiana Flores (palmas) / Artistas convidados: Leonardo Dias (flauta), Gustavo Viegas (baixo), João Viegas (percussão), Roberta Campos (musicista), Gabriel Matias (baile e palmas), Diego Zarcón e Fernando de Marília (cante) / Direção musical, arranjos e trilha Sonora Original: Giovani Capeletti /Figurino: Ana Medeiros e Juliana Prestes / Execução de figurino: Riatitá / Iluminação: Leandro Gass / Operador de Som: José Derly / Produção: Daniele Zill / Recomendação etária: livre / Duração: 75 minutos

 

 

Eu estive aqui (RS)


Dias 21 e 22, às 22h
Teatro de Câmara Túlio Piva
 
Inspirada na observação da eterna e infrutífera tentativa humana de aprisionar o tempo, Eu estive aqui é a segunda obra da Trilogia Partituras Brasileiras, da Porto Alegre Cia de Dança. O espetáculo questiona a criação de identidades que delimitam o "sem fronteiras" e mascaram o fato de pertencermos a um organismo vivo, o planeta Terra. Aborda também o aprofundamento da busca humana, independente de local e tempo, e a vontade de perpetuar o momento que, quando representado, já não existe mais. A obra revela um caminho para a transcendência, a entrega com totalidade celebrada pela dança coletiva.
 

Ficha técnica
Direção: Tânia Baumann / Coreografia: Mark Sieczkarek / Direção Técnica e Operação de Som: André Birck / Iluminação: Maurício Moura / Elenco: Carolina Sulczinski, Cátia Ceccarelli, Genises Azevedo, Kyrie Isnardi, Luana Lacerda,  Manoella Brunelli, Marcelo Iunis, Safia, Thiago Rieth  / Trilha sonora: Mark Sieczkarek / Cenário e figurino: Mark Sieczkarek e Tânia Baumann / Confecção de figurino: Neusa e Cleusa Guidotti / Cabelo e maquiagem: Cassiano Pellenz / Produção: Porto Alegre Cia De Dança / Recomendação etária: livre / Duração: 55 minutos



Casa das especiarias (RS)


Dias 13 e 14, às 20h
Teatro do Museu do Trabalho
 
Motivada pelas sensações provocadas pelas especiarias, a companhia Terpsí Teatro de Dança faz da instalação coreográfica Casa das especiarias um convite a novas experimentações. Cenário e figurino contam com produtos reciclados e da biodiversidade, manejados tradicionalmente por artesãs agricultoras e pescadoras do Rio Grande do Sul. O espectador é instigado a envolver-se em experimentações despertadas inicialmente pelo olfato e paladar, num espaço repleto de cheiros, sabores, amores e dores. Um lugar de visitas. Ao se apropriar do espaço, a obra traz, além do seu lado acolhedor e provocador de lembranças, uma mistura de linguagens, onde dança, música e projeções se unem.  


Ficha técnica
Direção e Concepção: Carlota Albuquerque / Elenco: Angela Spiazzi, Raul Voges, Francine Pressi, Gelson Farias, Edson Ferraz e Natália Karam / Trilha sonora original: Vagner Cunha / Trilha sonora pesquisada: Carlota Albuquerque / Edição e mixagem de trilha pesquisada: Murilo Assenato / Iluminação: Guto Grecca / Cenário: Raul Voges e Terpsí Teatro de Dança / Cenotécnico: Paulinho Pereira / Figurino: Anderson de Souza / Interferências visuais: Darjá Cardozo / Equipe de Produção: Cia. Terpsí Teatro de Dança e S.O.S Daughters (Anita & Clara) / Criação de Imagens e Fotos: Claudio Etges / Recomendação etária: 12 anos / Duração: 65 minutos

 

 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Arquivo- Instância 5 (RS)


Dias 5 e 6, às 18h
Sala Álvaro Moreyra
 
O espetáculo é composto por resgates e adaptações do arquivo de pesquisas do grupo. E se toda a obra tem uma mensagem a Cia. Matheus Brusa levanta a questão: quão conscientes estão as influências de cada pesquisa e o que elas podem representar e/ou apresentar. Estudos flutuantes, móveis e abertos a atualizações: assim os integrantes da companhia definem suas pesquisas, que realizam há sete anos na arte contemporânea. “Sempre existe algo a ser explorado. É uma brincadeira sem fim”, reflete o diretor Matheus Brusa.
 

Ficha técnica
Direção e coreografia: Matheus Brusa / Elenco: David Cruz, Diego Santos, Isadora Martins, Caroline Menegon, Emily Leczynski, Natalia Colombo, Matheus Brusa, Mateus Bicca Sabbi, Guilherme Rosset, Lucas Chini e Vinicius Lazzari / Produção e iluminação: Katherine Brusa / Recomendação etária: 12  anos / Duração: 50 minutos

Conjunto Folclórico Internacional Os Gaúchos- 54 anos de arte e cultura pelo mundo (RS)


Dia 22, às 18h
Theatro São Pedro
 
Há 54 anos, o grupo “Os Gaúchos” pesquisa e divulga a arte folclórica dos povos através da música e da dança. O espetáculo é dividido em seis blocos e se inicia com uma performance em homenagem ao Rio Grande do Sul. Nos demais blocos são apresentadas as origens e influências vindas do Paraguai, México e Argentina - representada pela Valsa -, seguidos de um bloco sobre a Revolução Farroupilha do ponto de vista das mulheres e finalizando com um pout-pourri de danças folclóricas, que se destacou no Festival da Turquia em 2012. No intervalo entre os blocos serão executadas músicas ao vivo.
 

Ficha técnica
Músicos: André Mainieri Flores, Estevão Paz, Felipe Pilla Severo, Gilberto Aguiar, José Francisco Flores, Luiz Antonio de Azambuja e Otávio Senna / Dançarinos: Alexandra Coda, Alexandre Grivicich da Silva, Alice Manieri Flores, Andéia Gottardo, Bruna Martins, Bruno Steffani Caovilla, Cássio Antônio Caldart, Clara Litvin, Diogo Lopes Fogaça, João Roberto Fernandes, Kauê Kaleshi Carvalho, Laura Ruschel Ferreira, Leonardo Carlos, Lucas Souza de Oliveira, Lucélia Adami Nunes, Luiza Castilhos de Oliveira, Maria Eduarda Dreyer de Alencastro, Rosane Farina Pires, Susiane Möller Dias e Thaís Stefanski Chaves / Produção musical: André Mainieri Flores / Direção musical: André Mainieri Flores / Figurino: Amélia Maristany Mayer e Alexandre Grivicich / Recomendação etária: livre / Duração: 60 minutos

Dez mil seres (Portugal)


Dias 17, 18 e 19, às 22h
Teatro de Câmara Túlio Piva
 
Há 12 anos o grupo Dançando com a Diferença trabalha com a Dança Inclusiva e cria belos espetáculos unindo pessoas com e sem deficiência nos seus elencos. Através do trabalho desenvolvido utilizando como base o conceito e as práticas criadas por Henrique Amoedo, eles são hoje referência para muitas companhias ao redor do mundo, que se espelham na sua filosofia e no seu grande potencial artístico. Dez mil seres é o seu mais novo espetáculo. Criado pela renomada coreógrafa portuguesa Clara Andermatt, é um espetáculo onde se busca a percepção dos pormenores, do espaço, e do tempo. O despertar dos sentidos, a descoberta de novos sentidos e o questionamento daquilo que aparente não tem sentido. É o aproximar-se das “Coisas!” numa espécie de viagem labiríntica ao desconhecido.


Ficha técnica
Direção e coreografia: Clara Andermatt / Música original: Jonas Runa / Poema fonético baseado em Ursonate de Kurt Schwitters / Colaboração na dramaturgia e estereogramas: Jonas Runa / Elenco: Aléxis Fernandes, Bárbara Matos, Joana Caetano, Mickaella Dantas, Pedro Alexandre Silva, Sofia Marote e Telmo Ferreira / Figurinos e desenho de luzes: Maurício Freitas / Assistente de ensaios: Ana Raquel Silva / Execução de figurino: Fátima Trindade / Direção artística da AAAIDD e do GDD: Henrique Amoedo / ACCCA - Entidade beneficiária de Apoio à Internacionalização das Artes – DGArtes 2013 / Recomendação etária: livre / Duração: 50 minutos
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

As canções que você dançou pra mim (RJ)


Dias 9, 10 e 11, às 22h
Teatro de Câmara Túlio Piva
 
O espetáculo dirigido e coreografado por Alex Neoral, da Focus Cia de Dança, traz à cena todo o romantismo proveniente das canções de Roberto Carlos. No palco, quatro casais cantam, dançam e interpretam um grande pout-pourri que envolve 72 canções do cantor, misturando sentimentos e revisitando sucessos, como Detalhes, Splish Splash, Calhambeque e Fera ferida, entre outros. Os bailarinos colocam música e dança em perfeita sintonia, emocionando e contagiando o público. As canções que você dançou pra mim foi eleito pelo Jornal O Globo como um dos dez melhores espetáculos de 2011 e, em 2012, entrou no guia da Folha de São Paulo como um dos três melhores espetáculos em originalidade e simplicidade.

 
Ficha técnica
Direção e coreografia: Alex Neoral / Elenco: Alex Neoral, Carol Pires, Clarice Silva, Cosme Gregory, Lucas Nunes, Marcio Jahu, Marisa Travassos e Mônica Burity / Direção de palco: Wellison Rodrigues / Pesquisa musical: Alex Neoral / Figurino: André Vital / Iluminação: Binho Schaefer / Operação de luz: Phelipp Raposo / Produção: Tatiana Garcias / Recomendação etária: livre / Duração: 55 minutos

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

São Paulo Companhia de Dança por Cibele Sastre


Eu ainda não tinha assistido à SPCD. Foi minha primeira vez. A primeira impressão tem que ser boa para haver empatia. Nada melhor do que um Balanchine para quebrar o gelo! Depois dele, um ar nostálgico que irrompe com o trabalho de Nacho Duato, coreógrafo que assisti nos áureos tempos do Carlton Dance Festival. Parece que quanto mais o tempo passa maior é a 'novelinha que passa na cabeça' quando vemos trabalhos que um dia fizeram parte de nossos ideais artísticos. O tempo passa, artistas se consagram, repertórios tornam-se referências. Impressões e apreciações andam juntas não por serem duas simétricas e lineares companheiras, mas por serem convergentes na definição e atualização do olhar. Com menor referência sobre o terceiro trabalho apresentado na noite do dia 22 de setembro, Supernova inaugurou em mim a sensação de doce estranhamento da noite. O programa não podia ser mais expressivo da  variedade a que a Cia se dedica. Reforça o impressionante domínio do movimento de um grupo nem tão homogêneo assim. Nada mais emblemático do que o comentário da querida pessoa que sentou ao meu lado, por acaso, uma adulta que já fez aula de dança moderna comigo nos idos anos 90, dizendo-me responsável por desenvolver seu gosto pela apreciação da dança: “nem precisa entender nada. A gente sente tudo.” Sem saber a ordem do programa, depois de Balanchine não sabíamos o que vinha: “[…] nem precisa dizer qual é o espanhol e qual é o alemão”. Voltei feliz da vida aos anos 90.
A companhia me surpreende por sua performance, entendida aqui como desempenho. Não vamos falar de physique de role quando se fala de Balanchine, claro. A oportunidade que a SPCD nos dá ao incluir em seu repertório Tema e variações é um presente raro e que talvez poucos saibam apreciar. De que ballet se fala quando se tem à frente uma coreografia de Balanchine? O jogo coreográfico das variações de movimentos do ballet me convida a apreciá-lo como raramente consigo fazer. Que sutil operação nos apresenta este coreógrafo, com efeitos esplendorosos. A Companhia, comprometida com a presentificação de repertórios de coreógrafos consagrados nem sempre em circulação pelo Brasil, além de comprometer-se com o rigor de cada obra e coreógrafo, nos mostra a excelência de um grupo afinado e preciso. Feito no Brasil.
Natcho Duato rompe com a suspensão que a sinergia dos corpos havia produzido no público. Ele traz de volta para esta conversa corporal, que é o melhor modo de apreciar dança, um ritmo enraizado na coluna vertebral, e mesmo em nossa kundaline. Como nos diz Laurence Louppe, o tônus postural fala à consciência do espectador. Eu diria também que a soltura articular rearticula e amplia nosso senso de corpo. Nada mais evidente disso do que os espantos de tantos: “nossa, a gente não tem ideia do que um corpo pode”. Cada singularidade é instigante e fecunda. Saímos do teatro com a certeza de que nossos corpos podem muito mais do que o que deles dispomos. Saímos todos mais bailarinos, primitivos e especializados. A excelência de uma performance corporal como esta mora na disponibilidade dos corpos dos bailarinos ao treinamento saboreado, técnico e poético, desdobrado não só na produção coreográfica, mas também em projetos sociais que a cia proporciona, em seu exercício de articulação entre dança e sociedade. Com isso, cumpre um papel vital para a própria existência, afinal, a discussão sobre o investimento público nas artes está sempre na pauta de quem é atuante e nem sempre compactua com o valor dado às grandes companhias de dança.
Supernova parece compor o estranhamento com elementos ora racionais ora sensoriais. Visualizamos a energia que circula no palco através de corpos que se condensam e se expandem. O espaço se torna visível pelo tratamento dado ao movimento: a relação corpo-espaço do mestre Laban é aqui matéria visual e composicional. Condensar, neste caso, não é comprimir o corpo, mas potencializar a energia em circulação no espaço dentro e fora do corpo. Condensar potencializa a rápida explosão esférica, com acentos espaciais lineares pontuando nosso olhar para a tal relação corpo-espaço, desenhando o que Laban chamou de ritmos espaciais. A trilha sonora recheada de múltiplas informações não permite qualquer acomodação catártica. Razão e emoção operam juntas na composição dos diversos elementos desta dança. Fechar o programa com esta obra valoriza-a, valorizando também o aquiagora de cada um.
Conhecer Marko, Duato, Balanchine em corpos brasileiros alimenta nosso desejo estético de dança, nos mostra não só o que as maravilhosas coreografias podem nos mostrar, mas também, o quanto é possível vê-las em corpus brasilis. Eu sempre alimento um desejo de assistir obras com as cias. para as quais elas foram criadas e a SPCD flexibilizou esse desejo. A dança precisa de apreciadores. Ser meio de difusão de trabalhos consagrados é tornar viva a relação entre a dança e seu público. Compreender esta função pode/deve ajudar a fortalecer nosso trabalho como criadores e como educadores em dança em qualquer nível. Saio do espetáculo mobilizando a espinha, condensando gestos, explodindo-os mais tarde em formas que não se aproximam do que foi visto, disparam novam concepções. E há sempre um prazer, lá dentro do abdômen, quando alguém diz: é por tua causa que eu estou aqui no teatro!
 
*Cibele Sastre é bailarina e professora de dança

sábado, 22 de setembro de 2012

Ballet National de Marseille por Mauricio Guzinski


04h40min. 10 de setembro de 2012­­­­­­. O computador me convoca a saltar do leito insone. Assistira, na véspera, ao Ballet National de Marseille, em sua segunda noite de apresentações no 19º Porto Alegre em Cena. Tenho que escrever sobre isso. Aliás, “tenho”(?!)... não! Sinto um desejo irrefreável de fazê-lo. Que jeito!
Corpo e mãos à obra!
Balê, Arte que eu desconheço, mas que me fascina desde menino. Sempre tive um desejo, também irrefreável, de dançar. Desejo, muito cedo, refreado. Portanto nunca dancei, nem estudei Dança (mas ainda desejo, aos 57! Agora, com a coragem maior de um “homem” sobrevivente à “flor” na próstata [não “na boca”] do título da peça pirandelliana). Arte que desconheço...em termos. Desconheço a nomenclatura, as regras, os conceitos, as técnicas corporais, as diferentes linhas, métodos, tendências. Mesmo assim, meu corpo, via de regra, se nega a admitir sua ignorância: se atira nas pistas de dança (claro, quando encontra um espaço apropriado, seguro, de liberdade ou de experimentação). Ali, me transformo num Travolta... Não, em um Baryshnikov! Um Nureyev! Um Nijinsky!  Até mesmo em uma Isadora Duncan! Aí, adoto piamente a máxima de Nietzsche: “Só acredito em um Deus que saiba dançar”. Creio mesmo é em Shiva Nataraja (nesse meu panteão em que também incluo Dionísio)!
Será que o problema da falta de público para a Dança (por extensão para o Teatro e as outras artes), deriva do fato de trazer maior prazer àqueles que a praticam; àqueles que acreditam, também, nesse deus nietzschiano e que se lançam às salas de ensaio (horas a fio de trabalho diário) para incorporar técnicas extremamente difíceis e que parecem ter a pretensão de que o reles corpo mortal possa se transforma ra tal ponto (às vezes, até se deformar)...para transfigurar-se, enfim, em matéria extracotidiana, extra-humana, divina?! Estariam bailarinos (e demais artistas) fadados a atingir, a tocar, com seu trabalho insano, só aquela parcela reduzida de seres humanos que, como eles, pratica ou estuda essas artes e que só por isso mesmo também consegue distinguir diferentes escolas (clássico, moderno, jazz, contemporâneo, pós-moderno, etecetera e tal)? Será que é isso que afasta, distancia o público da Dança (e das outras artes), cada vez mais, hoje em dia? Essa, aparentemente, intransponível barreira entre mortais e imortais, devotos e ateus? Considero-me entre os primeiros: bem mortal!... mas devoto!
Creio que para ter prazer em dançar basta entregar o corpo, mas para fruir a Dança é preciso entregar a alma (coisa difícil em nossos dias, ainda mais em dias da enorme e diversificada oferta do festival). Assim, lá estava eu na plateia do Teatro do Bourbon Country: ansioso para entregar-me à experiência, buscando abrir-me ao novo, ou mesmo...ao velho.Não havia nada que eu soubesse de antemão sobre o espetáculo, ou sobre a ficha técnica; nem mesmo o nome das coreografias ou o histórico dos coreógrafos: Tempo vicino de Lucinda Childs e Organizing demons de Emanuel Gat.
Parêntese: Esse era apenas um dos 22 espetáculos (o sexto) que eu, com minha costumeira gula, comprara ingressos, no primeiro dia de vendas, por volta do meio-dia, na Usina (outros 18 para minha partner; e tudo isso por pouco mais de setecentos reais, em meu cartão de crédito da Caixa, sem enfrentar qualquer fila. Eficiência e rapidez, surpreendentes). Difícil fazer minhas escolhas entre, mais ou menos, 70 espetáculos, para serem apreciados em 20 dias!!!!
A primeira coreografia começa. Um grupo de bailarinos, quase em círculo, no lado direito do palco, em roupas de trabalho, sobre o tradicional linóleo. O palco nu, sem qualquer outro elemento cenográfico. Acho que nem música havia, a princípio. Apenas uma geral branca que formava uma espécie de corredor iluminado, contornado por duas áreas escuras, paralelas ao proscênio. Iluminação que se manteve inalterada, sem qualquer movimento, durante toda a performance. Os bailarinos se deslocam, optando por permanecer ora na luz, ora na sombra. A música parece não pertencer à coreografia, nem ser “dançada” pelos bailarinos, dando a impressão de ter sido inserida após a criação das partituras corpóreas; surge e desaparece, volta e meia, integrando-se ou não aos passos (ora independentes, ora relacionados). Todas essas associações e dissociações principiam a construir e desconstruir climas, tensões, imagens, novas relações. Os performers mostram total domínio de seu instrumento, o corpo; têm precisão e presença. Apesar da tão falada dramaturgia da dança (e sei que há uma distância incrível entre esta e a teatral, que conheço melhor), não me parece, a princípio, que haja alguma preocupação da coreógrafa em transmitir qualquer conteúdo ao público, quer dizer, nenhuma preocupação que não seja a dramaturgia do corpo de seus “atores”. Formas abstratas, desenhadas no espaço. Ações individuais de cada performer (que parecem ter nascido da improvisação antes de serem fixadas) e a inter-relação dessas com a música, com o espaço, com a luz ou a sombra e (acima de tudo) com a nossa percepção, como público. O que acontecia no palco...ora atraía minha atenção, ora abria espaço para que eu voasse para dentro de mim mesmo (e até para fora do teatro). Independente de minha vontade, e da vontade deles (eu acho). Tudo isso criava climas tensos, até mesmo trágicos. Climas shakespearianos, macbethianos... em meu corpomente. Percebidos por mim como os meus próprios fantasmas (meu Macbeth, de 1989, e meus outros demônios ao longo de meus 57, por exemplo) se manifestando como sombras nas paredes da caverna de Platão. Coisas minhas, não deles. Eu acho...
Intervalo de 20 minutos. No fumódromo, uma pessoa desconhecida está encantada com o Teatro do Bourbon, pela primeira vez, frequentado por ela; entretanto, sem saber, ainda, se gostara, ou não, do que presenciara no palco. Logo, aparecem dois companheiros, do ofício teatral, que não apreciaram a primeira coreografia. A meu ver, porque estariam a procurar por uma história, um conteúdo, que o grupo não oferecera. Disse-lhes: “Penso que a Dança, nem sempre, quer dizer alguma coisa. É como pintura abstrata que não se deve procurar entender, pelo menos, não com a mente”. Conto-lhes minhas impressões. “Que viagem a tua!”, dizem eles. Pode ser. Mas eu queria muito ouvir as impressões de alguém da Dança. Vira tantos por ali, antes (Eduardo Severino, Eva Schul, Cibele Sastre...).
Segunda coreografia. Ao reverso da outra, que ao primeiro olhar dava a impressão de um ensaio geral (ainda na sala de trabalho, no espaço privado do grupo), esta é uma apresentação ao gosto do público, menos experimental, palatável (penso eu). O cenário também é simples: linóleo e rotunda brancos. Figurinos: vermelho e café. O grupo de performers, como o outro, tem absoluto controle de sua técnica (depois descobri por uma amiga bailarina: técnica clássica). São extremamente leves e ágeis, revezando-se, constantemente, num tipo de “entradas e saídas” que me lembram as coreografias de Rodrigo Pederneiras. Aqui e ali também percebo uma possível influência do nosso Grupo Corpo, de quem sou fã de carteirinha, desde a Missa do Orfanato; reconheço nos quadris dos franceses... ma marca de “brasilidade” que costumo chamar “malemolência” dos bailarinos do Corpo, na maior parte de seus trabalhos, desde Nazareth (na minha opinião, esta é uma obra prima da Dança Brasileira). Tempo vicino, bonito e muito bem executado, não mexeu comigo, mas agradou ao público que aplaudiu esta com muita maior entusiasmodo que a primeira. Ao final, a opinião deuma bailarina: Cibele Sastre. Ela, como eu, gostou mais da coreografia inicial. Como expert e conhecedora do trabalho dos coreógrafos, confidenciou-me que ainda tentava digerir o estranhamento que lhe causara a proposta de Lucinda Childs. Segundo Cibele, uma coreografia aos moldes do que esta renomada coreógrafa costumava fazer, décadas atrás, tipicamente, contemporânea, pós-clássica ou pós-moderna (agora, não consigo lembrar bem o termo empregado por ela, na saída do Bourbon) e que parecia não encaixar bem no corpo de baile de Marselha, de formação clássica, segundo ela. Sastre nem chegou a achar tão absurdas minhas colocações sobre as possíveis influências do Grupo Corpo (grande parte de pessoas da Dança não admira tanto o Grupo Corpo, como eu, que até já abri mão de um dos 22 espetáculos que havia comprado o ingresso, antes, para acompanhar a nova passagem deles e Pederneiras, por aqui, justo no meio da grade do Em Cena. Afinal, a vida é feita através de nossas opções, não é? Não poderia perdê-los de jeito algum!).
No dia seguinte, após assistir Caetana, no Teatro de Câmara, encontro Carlota Albuquerque e outros dois integrantes do Terpsí (Angela Spiazzi e Raul Voges). Comento brevemente com eles, na saída do espetáculo, minhas impressões sobre o Balê de Marselha. Carlota, para minha surpresa, concorda com minhas observações sobre as relações que fiz entre o trabalho apresentado nas duas noites anteriores (ela viu na estreia) e ainda completa: “a segunda coreografia lembra os trabalhos iniciais do Corpo, só que”, segundo ela, “estes (os bailarinos brasileiros) eram muito melhores...”. Ela também sentiu um outro estranhamento: “O grupo francês não traz nada de, realmente, seu, nem de sua terra. Nem mesmo o trabalho coreográfico. Lucinda é americana e Emanuel israelense”.
Em minha ignorância e pensando que o programa do festival trazia a ordem correta de apresentação das coreografias, havia escrito eu (até às 7h daquela madrugada, insone): “Apesar do título – Organizing demons – não vi nessa coreografia” (referindo-me, equivocadamente, a de Childs, que foi a segunda) “qualquer dos demônios que me haviam assaltado, antes, durante a primeira parte do espetáculo” (que era, na verdade, a de Gat). Por um lado, foi um equívoco providencial, pois, felizmente, eu vira demônios no palco, sem qualquer influência trazida pelo título da peça coreográfica. Graças aos deuses, Shiva e Dionísio, li a crítica escrita por Airton Tomazzoni (publicada na ZH de ontem), somente hoje, mas ainda a tempo de corrigir este comentário... sem acrescentar ao texto outros tantos sacrilégios próprios de um humilde, mas atrevido, neófito em Dança.
*Mauricio Guzinski é ator, diretor e professor de teatro

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ido Tadmor por Guilherme Nervo


Mais jogo, menos técnica
Só o fato de ter visto o trabalho corporal do bailarino Ido Tadmor no Instituto Goethe, já fez valer a pena minha ida ao teatro. Bastaram dez minutos para eu ter a certeza de que era ali que eu deveria estar naquela noite. Mas o meu caso não é o caso de toda a plateia, eu estudo teatro e desenvolvo uma pesquisa com enfoque no corpo do ator-bailarino. Então qualquer trabalho corporal com profundidade de técnica é do meu interesse profissional e pessoal. Uma plateia também é composta por não estudantes de teatro, por pessoas que vão ao teatro para se divertir, para mudar o ponto de vista, para ser provocada ou mesmo para relaxar. 
As quatro coreografias exibidas com intervalos de tempo que fazem parte do espetáculo de dança de Israel, dificilmente causaram uma atmosfera de concentração para o público que não está acostumado a estudar expressão corporal. Acredito que a única coreografia que quebra essa condição seja a The empty room, de 26 minutos. Diferente das outras, existe o jogo entre dois bailarinos, Ido Tadmor e Shany Katzman, um casal que veste roupas similares aos bufões e que está discutindo sobre algo muito específico, sentados e gesticulando os braços sobre uma mesa. De repente eles começam a discutir sobre a relação, o que é uma hipótese minha, porque eles se utilizam de uma língua inventada, uma forma de grammelot extremamente sonoro e convincente, nos causando a sensação de que é uma língua oficial que desconhecemos. O momento de quebra é maravilhoso, entra em cena uma música dos Barbatuques, grupo brasileiro de percussão corporal. A coreografia se utilizou da música Andando pela África, do álbum O corpo do som. A sintonia entre as imagens propostas pelo movimento do corpo e pela música com fortes batidas é de alta qualidade, assim como a iluminação, na qual a cor vermelha é predominante. The empty room ultrapassa a técnica, revela um casal com medo de se relacionar e alcança uma atmosfera de poesia. O casal sai de cena lentamente, tremendo. 
As duas coreografias que reduzem a magia do espetáculo ao nível da pura exibição técnica do bailarino são Moonlight sonata e And Mr. Certamente elas possuem uma carga imagética que faz o expectador entrar numa viagem própria e única, às vezes rica e com propósito, às vezes não. Eu, por exemplo, vi a evolução do homem desde sua constituição mais primitiva. Entretanto não é um trabalho simples, achei mais conveniente e acessível visualizar elementos técnicos, como a abertura de perna que o bailarino apresenta, sua capacidade de tornar o corpo leve ou pesado dependendo do objetivo, sua dilatação ou redução da noção do tempo, seus equilíbrios e desequilíbrios, a qualidade e constante mutação das suas energias, entre outras coisas. A última coreografia chama-se Netta e foi dedicada à mãe do bailarino; a iluminação azul, que sugere um ambiente frio e escuro, contrapõe um corpo saudosista e caloroso, que carrega nas mãos uma xícara. A música tem um papel importante, é capaz de causar comoção e identificação por parte do público. Concluo que se o espetáculo de dança se utilizasse mais do jogo do que da exibição técnica, instigaria e levaria mais brilho à plateia.
*Guilherme Nervo é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sábado, 15 de setembro de 2012

Ido Tadmor por Silvia Wolff



Solidão, limite, extremo, envelhecimento, são temas que permeiam o trabalho de Ido Tadmor, premiado bailarino israelense que traz um trabalho consistente, atual e universal ao 19º Porto Alegre em Cena. Tadmor é um artista contemporâneo por natureza. Um bailarino que cria, pesquisa e interpreta suas obras expondo suas questões  através de gestos limpos, inusitados e extremamente plásticos. Seu espetáculo é composto por quatro trabalhos distintos, entretanto conectados. Aos poucos, vamos entrando no seu  universo e, aficcionados, ficando cada vez mais curiosos para entender seus motivos. Mesmo que seu trabalho, carregado de marcas e significados, não necessite explicação. Tratando de temas extremamente comuns a todo ser humano, esta obra aberta como um todo apresenta uma série de imagens criativas e inusitadas que permitem a cada espectador diferentes possibilidades de identificação.
A primeira obra, mostra um homem sozinho em um quarto escuro, lidando com seus limites corporais e questões psíquicas. Um solo que propõe uma série de soluções interessantes em deslocamentos pelo espaço e formas de lidar com o próprio corpo. Como cada um faz para lidar consigo mesmo? Em um segundo momento, temos um casal que fala uma língua estranha e gesticula, ora interpretando, ora lidando com questões da relação. De um com o outro. De ambos com o espaço, com seu próprio corpo. O estranhamento inicial; desta “nova cena” gradativamente dá espaço a um afeto muito grande por este casal de pessoas reais que enfrenta mudanças e o envelhecimento. Este homem é o mesmo do início? A sala é parte da mesma casa daquele quarto inicial? Não temos certeza e, assim mesmo, nos deixamos levar por uma trajetória muito similar a que vivemos em nosso cotidiano. No trabalho seguinte voltamos a nos defrontar com um homem só. Lidando com uma história corporal ampla e diversa, em paz com suas marcas. É possível detectar traços de um formalismo do ballet, ou de coreógrafos como Béjart, Forsythe, entre outros. E torna-se inevitável a busca por relações com aquele primeiro homem só. A habilidade corporal deste bailarino versátil,  agora apresentada em um conjunto de gestos formais do ballet, se funde ao limite corporal explorado inicialmente, um limite que beira a deficiência se confunde a uma habilidade que pode causar uma espécie de estranheza muito parecida àquela de um homem lidando com seu corpo e suas diversas possibilidades.  De forma extremamente contemporânea, Ido está em paz com os traços permanentes de séculos de história da dança em sua própria estória. É uma satisfação imensa ver um bailarino que domina diferentes tensões, linguagens ou dinâmicas. Um bailarino presente em cada instante de seu trabalho. Seja num momento formalmente coreografado ou em outros, de pesquisa e procura por uma dramaturgia que nos permite questionar quem é este ser que se move frente a nós. E que se move de forma cuidadosa e minuciosa. Cada gesto, detalhe, é meticulosamente planejado. Assim como o trabalho de luz, cenografia e figurino. Seus gestos vão se transformando e nossa impressão sobre o trabalho, também. Finalmente, vemos este criador em outro solo onde uma trajetória é completada e percebemos que estamos diante de um artista que, apesar de preso em suas questões, transita livremente dentre seus conflitos. Um artista que fala diretamente ao ser humano. Esteja ele sozinho ou acompanhado, em Israel, Brasil, ou em um quarto escuro.
*Silvia Woolf é bailarina e professora da Licenciatura em Dança da Ufpel

domingo, 9 de setembro de 2012

Ballet National de Marseille por Angela Spiazzi

Ah! Porto Alegre Em Cena, viva! Estabelecido no calendário da cidade, da classe artística e do público que adora arte.
Quem curte, programa-se para entrar nesse clima. Clima de Festival Internacional de Artes Cênicas. Que significa isso? Para muitos é a oportunidade de ver e estar perto do trabalho daqueles aos quais admira ou idealiza. E para outros a chance de assistir o que comove ou estarrece o público e a crítica, local, nacional e internacional. Nestes dias a cidade movimenta-se de um jeito muito especial. Até nós parecemos turistas dentro da nossa própria casa. Há euforia, um cheiro diferente no ar. E a certeza de momentos inesquecíveis. Tal como ter o privilégio de assistir ao Ballet National de Marseille.
A companhia fundada em 1972 por Roland Petit vem a Porto Alegre com um programa duplo, proporcionando ao público uma aula de técnica e versatilidade.
Primeiro, o jovem coreógrafo Emanuel Gat com sua montagem: Organizing Demons que coloca cinco bailarinos em cena, sem cenário, em um único e imóvel corredor de luz.
Os corpos o perpassam, entram e saem deste trilho de luz, velando momentaneamente a movimentação, que é intensa e precisa. Passam pelo ar e pelo chão como se não houvesse a menor distinção entre os níveis. Corpos dispostos e atentos.
Diagonais traçadas com precisão geométrica e sem o menor esforço, transformando o vasto palco em uma caixinha, assim... pequenina. E como se já não bastassem os desafios...a música. Densa, ora com acordes dissonantes, ora soando como o tic-tac de um relógio. Tornava-se quase tangível.
Incansáveis!
Estamos em um tempo onde já se dialogou, desconstruiu e se reinventou praticamente tudo. Difícil criar sem esbarrar nos velhos clichês. Para uma coreografia concebida em 2012, Gat não consegue escapar. Mas este jovem sabe o que faz, tem maestria em sua métrica. Sabe como articular os corpos e conduz a cena sem desleixo. Não corre riscos, o que me surpreende, pois se espera, do novo, ao menos uma pitada de ousadia. Mas podem estar certos, ainda ouviremos muitos elogios e reverências a este emergente e talentoso coreógrafo.
Para encerrar o programa, a experiente Lucinda Childs, com seu Tempo Vicino. Nesta, a estrutura da música de John Adams é o que rege a movimentação de quatro casais. A precisão dos movimentos de linhas clássica e o Neoclássico desenham a relação entre tempo e espaço. O figurino em vermelho contrasta com a caixa toda branca. Métrica apurada e sincronismo impecável, os bailarinos entram e saem de cena, como em um jogo: ora este, ora aquele e agora estes aqui. A atmosfera é leve e serena. Suave como um flutuar.
Belos!
A Companhia, hoje com 40 anos, tem uma história a contar, busca jovens talentos e não deixa aqueles que a tornaram um dos expoentes da dança contemporânea europeia para trás. Lucinda Childs é uma delas. Coreógrafa e performer desde 1963, traz em seu currículo nomes como Bob Wilson e Phillip Glass. Tem prêmios e distinções de notável relevância em sua bela trajetória. Infelizmente nã oencontrei a data de criação da coreografia. Mas observa-se nela a dança ainda codificada e construída conforme o dito por seus grandes mestres clássicos. Tudo certo, limpo e claro. Com um cândido sorriso no rosto.
É de se louvar uma Companhia que resista tão bem ao tempo, que tenha em seu cast dentro e fora da cena jovens ávidos de dança. Carregados de vida e com sede de experiência. Isso é que faz o grupo mover. Comover. Vida longa aos que lutam e não envelhecem. 
Mais um espetáculo.
Mais uma noite de dança no Porto Alegre Em Cena.
E que venham outras e outras e mais outras.
Muito obrigada!

*Angela Spiazzi é assistente de direção e bailarina da Cia Terpsí-Teatro de Dança

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vestido como parece (RS)

Dia 08 às 23h – Sala Álvaro Moreyra
A Ânima Companhia de dança, no centenário de Nelson Rodrigues, apresenta o espetáculo Vestido como parece– a brasilidade em Nelson Rodrigues. A companhia traz para si a tarefa de traduzir em movimentos aquele que conseguiu traduzir em palavras os amores e desamores da sociedade brasileira. Em cena estão referências a obras como O beijo no asfaltoVestido de noiva, Gêmeas, A serpente, Anjo negro, Álbum de família e Toda nudez será castigada. 
Ficha técnica:
Direção e coreografia: Eva Schul / Elenco: Eduardo Severino, Luciano Tavares, Luciana Paludo, Fernanda Santos, Viviane Lencina, Everton Nunes, Rubiane Zancan e Junior Grandi / Iluminação: Guto Greca / Figurinos: Letícia Paranhos / Trilha sonora original: Celau Moreira / Cenografia: Zoé Degani / Produção: Lucida Cultura/ Luka Ibarra / Design gráfico: Marina Fujiname / Financiamento: Fumproarte / Duração: 70 min / Recomendação etária: 14 anos

Desvio (RS)

Dia 06 às 21h30 – Estacionamento Centro Municipal de Cultura
INGRESSOS GRATUITOS
**Em caso de chuva o espetáculo será transferido para o dia 11

Desvio é um projeto da Muovere Cia de dança e foi concebido em três bairros da cidade de Porto Alegre como o espaço-sede da criação. É resultado de três etapas: da cidade para o corpo – para a internet – e para o espetáculo. Primeiro os procedimentos coreográficos foram improvisados em espaços de retenção de semáforos (episódios); depois foram publicados na internet para que o público votasse, e, por fim, levados à etapa de montagem. O espetáculo é fruto de vários processos encadeados entre si com foco na valorização da criatividade compartilhada, operados através de dois modos: físico e virtual.  
Ficha técnica:
Direção geral e coreográfica: Jussara Miranda / Direção artística: Diego Mac / Direção de cena: Jezebel de Carli / Bailarinos: William Freitas, Denis Gosch, Letícia Paranhos, Rossendo Rodrigues e Didi Pedone / Produção: Marcinhò Zola / Luminotécnica: Mauricio Moura / Figurinos: Daniel Lion / Identidade visual: Sandro Ka / Site: Diego Leismann / Fotos: Luciane Ferreira e Cristina Lima. Duração: 30min / Recomendação etária: livre

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

São Paulo Companhia de Dança (SP)

Dias 22 e 23, às 21h – Salão de Atos da UFRGS
A São Paulo Companhia de Dança, mantida pelo Governo do Estado de São Paulo e dirigida por Inês Bogéa, apresenta um repertório variado que vai do clássico ao contemporâneo. A SPCD busca uma conexão com a plateia pela paixão, curiosidade e percepção do mundo da dança em movimento. Nas apresentações do Em Cena, o grupo selecionou três coreografias especiais: Theme and variations (1947), de George Balanchine, onde o célebre coreógrafo evoca o florescimento da dança clássica; Gnawa (2005), criação de Nacho Duato, inspirada na natureza valenciana, cercada de mar e sol, e em aromas, cores e sabores mediterrâneos, e Supernova (2009), com coreografia e figurinos de Marco Goecke, inspirado pela música de Antony & The Johnsons e pelo fenômeno astronômico das supernovas. Um programa para contemplar todos os amantes da dança clássica e contemporânea, apresentado por uma das mais prestigiadas companhias brasileiras, cujo trabalho é cada vez mais reconhecido e apreciado.

Ficha técnica:
“Theme and Variations” (1947) – Coreografia: George Balanchine (1904-1983) / Música: Movimento final da Suíte nº3 para Orquestra em G Maior, Op. 55, de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893) / Remontagem: Bem Huys / Duração: 25min / 26 bailarinos / “Gnawa” (2005) – Coreografia: Nacho Duato / Música: Hassan Hakmoun, Adam Rudolph, Juan Alberto Arteche, Javier Paxariño, Rabih Abou-Khalil, Velez, Kusur and Sarkissian / Figurinos: Luis Devota e Modesto Lomba / Iluminação: Nicolas Fischtel / Remontagem: Hilde Koch e Tony Fabre / Organização e Produção cultural: Carlos Iturrioz Mediart / Producciones SL (Spain) / Duração: 21min / 14 bailarinos / “Supernova” (2009) -  Coreografia e figurinos: Marco Goecke / Música: Pierre Louis Garcia-Leccia, álbum “Ohimé” faixa “Aka”, Antony & The Johnsons, álbum “Another Word” faixa “Shake That Devil” / Remontagem: Giovanni di Palma / Iluminação original: Udo Haberland / Dramaturgia: Nadja Kadel / Duração: 22min / 7 bailarinos / Recomendação etária: Livre

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ilhados- encontrando as pontes (PE)

Dias 15, 16 e 17, às 23h – Sala Álvaro Moreyra

Dois corpos, dois momentos e muitas pontes. O lugar desenhado nos corpos, a dança carregando o lugar para todo e qualquer lugar. Dança que espelha vida que espelha dança. Como chegar ao passado com as pontes do presente? Como é que se faz para se chegar à ilha? Ou para sair dela? Essas e outras perguntas afetivas e biográficas estão presentes no delicado trabalho coreográfico do “Ilhado Grupo Experimental”, de Pernambuco. A coreógrafa Mônica Lira, um dos principais nomes da dança contemporânea de Recife, recria nesse trabalho suas memórias infantis da ilha de Fernando de Noronha, onde nasceu e viveu parte de sua vida, num trabalho cativante, dividido com sua filha Rafaella Trindade, com a impactante trilha sonora executada ao vivo pelo excepcional percussionista Tarcísio Resende. Uma oportunidade única para o público do Rio Grande do Sul encontrar a dança produzida no Nordeste brasileiro, de inegável traço contemporâneo e original, com uma das mais importantes e criativas coreógrafas do nosso país.
Ficha técnica:
Concepção e direção geral: Mônica Lira / Direção artística: Helijane Rocha / Intérpretes criadoras: Mônica Lira e Rafaella Trindade / Direção musical e Trilha original gravada: Adriana Milet / Trilha original ao vivo: Tarcísio Resende / Projeto de iluminação: Alberto Trindade / Figurino: Eric Valença / Colaboração cenográfica: Henrique Celibi / Duração: 50min / Recomendação etária: Livre

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ido Tadmor (Israel)

Dias 13 e 14, às 19h – Instituto Goethe
Premiado nos quatro cantos do planeta, o bailarino Ido Tadmor vem pela primeira vez a Porto Alegre, trazendo o espetáculo The empty room, Moonlight sonata, And Mr e Netta. São quatro coreografias com músicas de Puccini, Mozart, Beethoven e Alberto Schwartz. The empty room conta histórias da vida cômico-dramática de um casal que lida com suas dificuldades: o amor e o medo que envolvem as relações afetivas. Moonlight sonata é um canto feito para música e dança que levou o bailarino a um mundo onde a criação deixa o espectador interpretar suas próprias imagens. And Mr é um solo intenso que trata de solidão e controle. Em cena está  um homem solitário que vive num quarto escuro e tem que lidar com aspectos de sua identidade e com o fato de que está envelhecendo. Essa criação mostra ao público as memórias de uma busca por amor e amizade a partir da condição essencial do homem: a solidão.  Netta é uma criação abstrata que lida com extremos,  na tentativa de chegar aos limites físicos e expandir as limitações do corpo. A coreografia é dedicada à mãe de Ido, Netta Tadmor.
Ficha técnica:
THE EMPTY ROOM – Coreografia: Ido Tadmor / Elenco: Ido Tadmor e Shany Katzman / Música: Mozart e Puccini/ Duração: 26min // MOONLIGHT SONATA – Coreografia e Elenco: Ido Tadmor / Música: Beethoven / Duração: 6min // AND MR - Coreografia: Rachel Erdos / Elenco: Ido Tadmor / Música: Alberto Shwartz / Duração: 26min // NETTA - Coreografia: Ido Tadmor / Elenco: Ido Tadmor / Duração: 11min / Recomendação etária: Livre

Ballet National de Marseille (França)

Dias 08 e 09, às 21h, Teatro do Bourbon Country
Pela primeira vez entre nós, o Ballet National de Marseille, um dos grupos mais importantes da dança contemporânea europeia, preparou uma apresentação com duas coreografias muito especiais: a primeira, Tempo Vicino, é inspirada na obra de John Adams e assinada pela coreógrafa Lucinda Childs. O papel de cada dançarino é determinado pela estrutura da música, onde a precisão dos movimentos cria uma relação singular entre os dançarinos e o espaço. No primeiro movimento, oito bailarinos exploram todas as possibilidades ao contracenarem. No segundo movimento, a atmosfera é contida e os dançarinos se movem pelo espaço sem um senso comum. No terceiro e último movimento, há um novo ponto de partida, um novo jogo coreográfico. Uma grande oportunidade para os amantes da dança contemporânea conhecerem o trabalho de Lucinda Childs, cujas parcerias com Bob Wilson e Philip Glass lhe alçaram a categoria de celebridade mundial. Uma coreógrafa respeitada pela ousadia de sua linguagem e suas propostas coreográficas. Imperdível. O segundo espetáculo, Organizing Demons é assinado pelo coreógrafo Emanuel Gat, renovador, calmo e estimulante, num estilo conhecido tanto sensual quanto ousado. O trabalho busca demonstrar, através da dança, a tentativa incansável de organizar o movimento através do tempo e espaço, somente para concluir que a arte é incapaz de realizar essa proposta.
Ficha técnica:
Direção artística: Frédéric Flamand / Bailarinas: Catarina Christl, Malgorzata Czajowska, Noémie Ettlin, Nonoka Kato, Kety Louis-Elizabeth, Mylène Martel, Béatrice Mille e Valeria Vellei / Bailarinos: David Cahier, Vito Giotta, Angel Martinez Hernandez e Nahiamana Vandenbussche / Maitre de Ballet: Thierry Hauswald / Direção técnica: Rémi D’Apolito / Direção de palco: Frédéric Duru e Philippe Grosperrin / Figurino: Aurélie Lyon / Direção de comunicação e Gerência: Pierre Thys / Responsável pela turnê: Sophie Bequart-Guis / Duração: 70min / Intervalo: 20min / Recomendação etária: Livre

sábado, 17 de setembro de 2011

Out of context- for Pina por Rodrigo Monteiro

 Out of context- for Pina*
Em temos teóricos, o valor da dança contemporânea, ou a contemporaneidade da dança, está no fato de seus objetos manifestarem em cena que é possível descolar o significante do significado (duas faces de uma só moeda) ou, em mesma e contrária medida, “provar” que, no significante, há significado ou, na forma, há conteúdo, e vice-versa. O problema da proposta é o seu mal uso. Em Porto Alegre, é infelizmente fácil já identificar uma certa codificação na dança contemporânea de algumas montagens daqui (não em todas). Explico: assim como o ballet clássico e a dança folclórica têm seus “passos” bem registrados, em muitas montagens consideradas exemplares da dança contemporânea, passar o braço em frente ao rosto, ter o corpo levado pelo impulso da mão, falsamente jogar as pernas e retraí-las antes de concluir o desenho são alguns dos exemplos que, de tão repetidos, já deixam mofar a beleza teórica exposta acima. Talvez justamente por não enrijecer-se na própria proposição, ou seja, fugir de toda e qualquer cristalização, Out of context- for Pina está sendo considerado, nesse meio de programação, o melhor espetáculo do 18º Porto Alegre em Cena.
Descrever nessa análise o que eu acho que pensei durante a fruição da peça é exercício que eu abandonei nesses últimos anos de crítica. No entanto, vale apontar que, se o significado é deixado de lado e o que vale é o seu desapego do significante, o espetáculo se apresenta repleto de marcas de arbitrariedade, sinais de descontrole, pistas de manifesta criatividade que se renova a cada nova cena ou parte de. A forma preenche o espaço e, por ser substituída em tempo absurdamente rápido, não deixa tempo para se ter certeza do seu conteúdo. A linguagem do movimento, na primeira cena, se consolida com a repetição. Cada um dos nove bailarinos atualiza o movimento do outro, refletindo o gesto, repercutindo não o sentido, mas a marca dele. À plateia é permitido pensar em encontros, em animais, em irracionalidade, em ritualização. A importância dos pés na percepção via tato ganha grande posição. Os pés, afinal, são os maiores responsáveis pelos signos proxêmicos, isto é, aqueles que dizem respeito à relação entre os personagens entre si na consolidação do vértice tempo-espaço: quando o ator/bailarino/dançarino/criador percorre o espaço, o tempo se estabelece.
Acima falei em personagem. Alain Platel não os deixa ver e eles são pura responsabilidade do espectador (no caso, eu), esse teimoso em dar sentido para o que vê (e com o quê se emociona). O diretor permite que vejamos figuras e o resto é consequência. Em cena, como raramente se vê, os nove atores se mostram em sua individualidade aparente, de jeito que, em especial na segunda cena (seria “uma festa”? e me pego a dar sentido para algo cujo sentido não importa...), é possível se divertir ao encontrar “personagens” da noite: os casais, os solitários, os beberrões e outros (conclusões minhas). O lúdico toma lugar nesse jogo de esconde-esconde em você acha o que quiser encontrar. Platel, que foi/é professor de crianças com necessidades especiais, além de criador, em 1984, da Cia. Les Ballets C de la B, na Bélgica, abre espaço para a brincadeira, para o imaginário, para a emoção. E torna seu espetáculo uma homenagem a Pina Bausch, coreógrafa alemã, falecida em 2009, uma das maiores expoentes da dança contemporânea, cujo trabalho desenvolvido ao longo de décadas encontra repercussão nesse projeto.
A trilha sonora composta desde barulhos de animais a hits do pop, executada por gravações, mas também cantada pelos próprios atores/intérpretes, não se esquiva de incluir longos silêncios. O fugidio que marca a ordem dos acontecimentos, a opção dos figurinos com os quais os atores chegam ao palco e dele saem, e os movimentos executados (corridas, caminhadas, paradas...) também está presente na escolha dos sons. Uma vez estabelecido o esquema compreensão-alienação, ele se repete e nos acalma. As cenas finais, de profundo encantamento, acontecem quando já estamos vencidos por Platel e pelo seu grupo. O sentido já se dispersou e, talvez, como os animais vistos por mim na primeira cena, a racionalidade evaporou. Então, quando se pensa não haver mais fugas, não mais mudanças, não mais alienação, cai sobre o palco uma música que trata justamente de irracionalidade. A compreensão também não há de ser cristalizada.
Descrever a música, como descrever os sinais, seria, de alguma forma, descrever o sentido e matar o processo de construção dele, esse tão subjetivo como justamente propõe a dança contemporânea valorar. Não o farei. Mas incluo a letra como um sinal de que Out of context ainda ecoa.
It's been seven hours and fifteen days
Since you took your love away
I go out every night and sleep all day
Since you took your love away
Since you been gone I can do whatever I want
I can see whomever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
But nothing ...
I said nothing can take away these blues,
but noth (i missed a chord there)
nothing compares ...
Nothing compares to you
It's been so lonely without you here
Like a bird without a song
Nothing can stop these lonely tears from falling
Tell me baby where did I go wrong?
I could put my arms around every girl I see
But they'd only remind me of you
went to the doctor guess what he told me
Guess what he told me?
He said, son, you better have fun
No matter what you do
But he's a fool ...
'Cause nothing compares...
Nothing compares to you...
All the flowers that you planted, mama
In the back yard
All died when you went away
I know that living with you baby was sometimes hard
But I'm willing to give it another try
'Cause nothing compares...
No Nothing compares
Nothing Compares to you...
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Out of context- for Pina por Cibele Sastre

Minha reverência à irreverente reverência!*
A Cia C de la B é bem assim. Provoca, irrita, cutuca, atiça e desarma. Out of context nos faz passear por diferentes sensações e emoções, com e sem contexto. Não importa, os elementos que o coreógrafo Alain Platel governa na composição das narrativas corporais podem ser considerados parte de um repertório tradicional de procedimentos de dança contemporânea, e podem não ter qualquer referência direta à homenageada Pina, mas dialogam diretamente com nosso corpo sociopolítico cultural – tema principal em suas obras – e com nossos sofrimentos, que para ele é onde nos igualamos uns aos outros. Assisti ao espetáculo de terça feira e a parte da conversa de quarta e soube que nos outros dias haveria uma interferência dos alunos da oficina, o que possivelmente acrescentaria novas provocações à minha experiência estética.
Nothing compares to you, diz a canção final numa versão tocante e delicada de Jimmy Scott, enquanto os bailarinos se vestem saindo de cena sem solenidade mas acenando o fim que se aproxima. Não há chance de assistir à Cia C de la B com a intenção de compará-la ao grande amor de artistas de dança e teatro locais. Pina Bausch há muito tempo é a matéria lançada no meio do lago que propaga ondas que se transformam até a margem ou tantas outras transformações rizomáticas. Alain Platel, psicólogo e pedagogo, há muito tempo é o marginal da dança belga que faz da irreverência um lugar comum. Ver Out of context no mesmo ano em que assistimos a companhia de Pina dançar sua obra inacabada abrindo esse festival e Tadashi Endo fazendo a sua homenagem cheia de citações diretas é um privilégio, um modo de degustar os sabores espalhados pelo mito.
Mas que fique claro, Out of context- for Pina não é sobre Pina. Ela simplesmente paira como influência maior numa irreverente reverência. Para além d'Ela, Out of context mostra o frescor com que os jovens, maravilhosos e bizarros bailarinos movem as propostas tradicionais da dança contemporânea, ressignificando todos os procedimentos de forma muito provocativa e bem humorada, provando que dança contemporânea não é apenas um contorcer-se sofrido composto de “movimentos involuntários” desagradáveis ao olhar e sem qualquer narrativa. [a saber, da 'tradição contemporânea': o entrar em cena despir-se e apresentar o sujeito corpo sociopolítico cultural como “o material da dança”, o movimento mínimo, a integração da voz ao movimento de dança, o engate entre corpos orientado por explorações de contato corporal que desenham formas bizarras, chamar os bailarinos pelo nome próprio, o pop/clubber, a exploração “adulta” dos movimentos da criança (para as crianças de ontem hoje e amanhã), além da exploração virtuosa de coordenações bizarras/assimétricas entre partes do corpo].
Pleno de possíveis associações, Out of context põe contexto no que se costuma chamar de dança contemporânea. E Platel, em conversa com seu público, mostra e ilustra claramente temas e motivações para a tessitura coreográfica, que nesse caso, inclui imagens de um filme médico dos anos vinte sobre a histeria. Diferente de outros trabalhos gerados sobre esse tema, a falta de uma motivação musical direta gerou uma trilha entretecida de voz, tecnologia e as sempre presentes referências populares, incluindo uma Ave Maria. Em meio a abstrações de som e movimento, Platel nos arrebata com o lugar comum em canções e orações quase sempre em contraponto com o tema de fundo. Arrepios e curiosidade: de onde vem esse som? É ele mesmo quem canta? Qualquer maneira de enganar vale a pena...
Também podemos ver como referência um trio A no início do espetáculo, sem nudez ou bandeira como propôs Yvonne Reiner, com essa atitude de entrar em cena da plateia, despir-se (aqui não completamente) e enrolar-se num pano, que com Platel ganha ares mais performáticos do que performativos, mas aproxima Estados Unidos e Europa, influências fundamentais em Pina. Platel vai introduzindo pinos/marcos/citações por onde nossas associações passeiam livremente, com e sem contexto, deixando-nos gozar do gozo dos bailarinos com suas maravilhosas singularidades enfatizadas em solos e duos. Humor, tristeza e ironia brincam de mãos dadas quando o espelho faz a autoestima melhorar a cada dia, quando se torna “difícil ser humilde quando se é perfeito em tudo”(texto de um bailarino), quando isolamento e exibicionismo, que geram deliciosas gargalhadas, se tornam a forma de comunicação. “A ironia ajuda a digerir assuntos duros”, nos diz o coreógrafo que considera triste um dos momentos mais cômicos dessa obra. Diferente de outras produções em que Platel faz da mistura de bailarinos, atores, profissionais e amadores a política do espetáculo, esse trabalho justifica o treinamento e um impressionante virtuosismo para se chegar no êxtase, na simplicidade e na partilha do sofrimento. Ave Platel, cheio de des graça, Pina está conosco. Bendito sois vós entre os coreógrafos, bendito é o fruto da vossa demência sã, a dança.
* Cibele Sastre é bailarina e professora de Dança