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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas por Rodrigo Monteiro

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas*

Talvez uma das contribuições estéticas mais interessantes do chamado circo-teatro seja a aproximação do melodrama (filho) à farsa (pai) em objetos (peças teatrais que atualizam o gênero) que manifestam toda uma gama de ações consideradas parte do que conhecemos como cultura brasileira. Tem teatro? Tem, sim, senhor! Tem palhaços? Tem, sim, senhor! Tem músicas, colorido, ironia, perversão? Tem, sim, senhor! O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas vai começar: uma comédia simples, sem pretensões e que ganha a plateia logo de início.
Produzido pela Trupe Ensaia Aqui e Acolá (Recife/PE), o espetáculo começa com a apresentação dos atores e os personagens que esses interpretarão ao longo da encenação. Há também o oferecimento da apresentação para alguém em especial na plateia: a peça acontecerá numa semi-arena, mas se estenderá além desse círculo, no meio do público (sem que haja a participação desse na narrativa), no espaço ocupado pela plateia. O abrir e fechar de cortinas faz parte do relato da história, uma vez que o pano é integrante do cenário, funcionando, em alguns momentos, como base para o teatro de sombras.
A dramaturgia foi composta a partir do romance A emparedada da Rua Nova, de João Maria Carneiro Vilela (Recife, 1846-1913) e viabilizada cenicamente pelo Prêmio Miriam Muniz de Incentivo às Artes Cênicas. O diretor Jorge de Paula, que interpreta o personagem “Pai”, uma das melhores construções em cena, lidera a equipe nesse projeto que nasceu entre ex-alunos do professor-pesquisador Marco Camarotti (1947-2004), hoje nome de um teatro na capital pernambucana, que tinha como ideal a valorização, através da produção de espetáculos, gêneros teatrais marginalizados, tais como: o teatro para a infância e juventude, o teatro folclórico e, como no caso dessa peça, o circo-teatro. A história de uma menina que é emparedada (“enterrrada” em uma construção de tijolos vertical) ganha cores do universo kitsch (músicas dubladas e coreografadas com inspiração, entre outras fontes, no programa oitentista Qual é a música?, do SBT), maquiagens, figurinos e cenários que lembram o circo e uma encenação irônica que lembra a velha e boa farsa popular. A narrativa, bem definida em todos os seus termos e disposta de forma ascendente até o ápice, é um exemplo de melodrama clássico em que os personagens são bastante bem definidos, os locais e tempos não deixam dúvidas ao espectador e tudo é bastante confortável à fruição. O riso vem fácil na audiência desse espetáculo que participa do 18º Porto Alegre em Cena.
Iara Campos, que interpreta a “Emparedada”, oferece a melhor construção em cena. Seus movimentos parecem ser naturais nesse universo narrativo verossímil, os gestos são limpos, a dicção é bastante clara e as intenções são propostas com manifesta segurança. Momentos tão bons como esses se repetem em Jorge de Paula, mas poderiam acontecer mais em Marcelo Oliveira, que, em quase todas as suas aparições, não consegue estabelecer um foco para o espectador quando dispersa o seu próprio olhar por sobre a plateia. Andréa Rosa, que interpreta a “Escrava”, é a construção com menos possibilidades oferecidas pela dramaturgia. Por algum motivo infeliz, a personagem se dá a ver quase sempre atrás da cortina, na execução do recurso “teatro de sombras”, o que impede a atriz de mostrar mais do seu trabalho. Como um todo, o elenco é afinado, sendo parte responsável pelos melhores momentos da qualificada representação.
O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, do início ao fim, faz e assegura pontes com a plateia, garantindo ao espectador momentos de muito prazer: o texto bem dirigido e conduzido com muitos méritos, a trilha sonora escolhida, distribuída e interpretada ao bom serviço da narrativa, os elementos visuais dispostos em equânime exagero: tudo isso são as garantias oferecidas de um ótimo divertimento, além de ser, claro, valorosa atualização de um gênero, talvez, nem tão esquecido, mas que, com certeza, merece mais boas versões como é o caso aqui.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas por Iuri Wander

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas*
O espetáculo da Trupe Ensaia Aqui e Acolá é inspirado numa lenda do Recife, “A emparedada da Rua Nova”. Um suspense policial. A Trupe transforma isso em um melodrama de alto nível. Mesmo não sendo de meu gosto, comédia com apelo popular, tenho que admitir que é muito bem montada. Como o titulo já diz, a peça conta a história do amor secreto de Clotilde e Leandro Dantas. Ela, a mocinha, filha de um comerciante ciumento, ele, o mulherengo, apaixonado por Clotilde. Vivem um amor secreto até ser descoberto pelo primo da moça, melhor amigo de Leandro Dantas, que diz que vai ajudar e acaba contando tudo para seu tio, pai de Clotilde. O primo conta tudo porque quer se casar com Clotilde e ficar com o dinheiro da família. Com este enredo de novela, que o amor sempre vence, a trupe traz a Porto Alegre um belo espetáculo. Com figurinos e o cenário bem coloridos no estilo circense, se divertem em cena. Os personagens abusam do clichê com gestos prolongados, dublagem de músicas bregas, saem de sincronia nos momentos de dublagem das gravações de falas, acentuam frases, entre outras coisas. Tudo muito bem exagerado como pede um melodrama. A história contagia o público e arranca boas risadas, mesmo com piadas esperadas. O elenco é bem afinado e com boa técnica corporal. Mostrando que se pode apelar para comédia popular, sim. Conheci um conto, uma história, do Recife de um jeito bem descontraído.
* Iuri Wander é produtor cultural

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas por Stella Bento

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas*
O 18º Porto Alegre em Cena nos trouxe o belo espetáculo O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas. Com texto da Trupe Ensaia Aqui e Acolá, inspirado num folhetim de Carneiro Vilela, a peça enfoca a luta de Clotilde e Leandro para viver plenamente o seu amor, ultrapassando a discordância do pai da moça e a ambição do primo, que deseja casar-se com ela, a fim de herdar a fortuna do tio.
No teatro, o melodrama perdeu seu espaço, porém encontrou lugar de honra na televisão. As telenovelas são, na atualidade, o grande veículo divulgador dessa forma de contar uma história, com mocinhas, vilões, heróis, filhos desaparecidos e encontrados, paternidades misteriosas, maternidades desconhecidas, fortunas ganhas e perdidas em instantes, reviravoltas, revelações surpreendentes, casamentos por interesse financeiro, entre outras situações. Com um enredo típico de melodrama, O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas envolve os espectadores não só pela trama, mas também pela maneira como é contada. A peça mantém a estrutura e situações do melodrama, mas veste sua história com roupas de paródia e acessórios da cultura pop.
O excelente desempenho dos atores e a direção inspirada e segura não deixam que a multiplicidade de referências se perca, aparentando um exercício inconcluso ou um amontoado de excentricidades que são engraçadas no exato momento em que acontecem, mas que se distanciam do fio da história, tornando o resultado final cansativo e excessivo.
A cada ação da trama, vamos sendo capturados e nos envolvendo com os personagens; a inserção de dublagens de músicas populares nacionais (como Temporal de amor), internacionais (Endless love) e versões (A total eclipse of the heart) são eficientes porque estão bem encaixadas no contexto, tornando a história mais engraçada e surpreendente a cada momento. Em O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, tudo o que aparece em cena está a serviço da história que está sendo contada, tornando a peça um exemplo de como é possível reunir um texto tradicional às mais diversas referências contemporâneas e resultar num espetáculo ágil, inteligente, engraçado e, acima de tudo, prazeroso, pois desfrutar de uma boa história, muito bem contada ainda é um dos grandes prazeres humanos.
* Stella Bento é atriz, licenciada em Letras pela UFSM e bacharel em Artes Cênicas pela UFRGS