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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sobre o conceito da face no filho de Deus por Camilo de Lélis


A metafísica da fecalidade ou Quem não tiver pecado, que atire a primeira granada

Vou começar pelo fim. Este ano, o Porto Alegre em Cena organiza, ao final de algumas peças, um debate psicanalítico. Assim, com a mediação de um psicanalista, uma tradutora e três integrantes da equipe italiana, o público pode manifestar suas dúvidas e ouvir algo sobre o processo de criação da peça. A coisa mais interessante foi saber que o tema da peça, o ícone sobre o qual ela foi criada, foi uma reprodução da face de Jesus pintada por Antonello de Messina (c.1430 - c. 1479), que o diretor Romeu Castellucci encontrou numa revista de arte. Ele ficou tocado pelo olhar de Jesus e se perguntou o que o público sentiria se tivesse esse olhar reproduzido no palco numa dimensão gigante. A partir daí, ele concebeu um roteiro, e os atores criaram as ações que reproduzem a relação entre um pai e um filho.
Depois da ótima análise do psicanalista Jair Rodrigues Escobar, ouviu-se os atores falarem sobre o processo e a dificuldade técnica para dar realismo às cenas fecais que respondem por 80% da representação e são realmente muito fortes. Eu também fiz uma pergunta, algo que para mim era a segunda coisa em importância (sendo a primeira, a escatologia cênica): como o público italiano e a mídia reagiram ao espetáculo que agredia, sujava e rasgava a face do filho de Deus. A resposta foi que na Itália não houve problemas, nem em Roma, nem em outras localidades, até que eles foram à França e, lá sim, uma ala conservadora da Igreja Católica invadiu o palco. A repercussão do fato chamou a atenção da mídia para a peça, gerando alguns manifestos da direita católica. Entretanto, homens da Igreja, mais progressistas, acharam o espetáculo humano e exemplar na exposição de relações amorosas entre pais e filhos.
Agora vou para o meio, pois estou às avessas. Descrição da peça. Num trabalho naturalista e realista, com uma fuga simbolista ao final, o espetáculo conta, durante uma hora, a relação de um filho extremoso com um pai sem condições de cuidar de si. O ancião, com a mobilidade muito restrita, usa fraldas geriátricas e tem a TV por companhia. A ação inicia com o filho dando remédios e se preparando para sair, provavelmente para trabalhar. Então, o velho suja as fraldas, pela primeira vez, com fezes semissólidas. Suja mesmo. O sofá, as pantufas, o chão em volta, tudo, pior do que uma criança recém-nascida. O trabalho do filho se assemelha ao de um cuidador profissional, com baldes, luvas, fraldas, roupas limpas etc.; porém com um desvelo verdadeiramente filial. Em seguida, o velho se suja de novo - fezes mais líquidas - e, por fim, a excreção se torna totalmente líquida, quando ele vai para a cama e derrama sobre si e nas cobertas um líquido da cor das fezes, dando a entender que, cada vez mais, a sua vontade e autossuficiência vão se liquefazendo. Desesperado, depois de esbravejar contra o pai, o filho chora, demonstrando sua impotência e culpa, indo ao encontro da face de Jesus e, com sua cabeça na altura da boca da imagem, faz uma espécie de súplica que, certamente, nunca será ouvida. O velho fica solitário, sentado na cama, no meio da merda. Mudança de luz e de cena com contrarregragem à vista do público. Epílogo: oito crianças entram em cena e atiram granadas na figura de Jesus, numa cena magnifica pelo impacto causado. Depois de apedrejar a figura sacra, meninos e meninas sentam-se no proscênio, de costas para a plateia. O velho levanta da cama e vai cambaleando em direção ao quadro, derramando o que resta de seu galão de merda pelo palco. Por fim, três homens de preto descem do urdimento por cabos de aço e destroem o que sobra da figura de Jesus. Rasgam a tela e, por trás dela, revela-se uma inscrição em inglês: You are (not) my shepherd - Tu (não) és o meu pastor.
Terminando pelo começo. O que originou toda essa conversa foi o efeito da peça sobre minha pessoa. Sou, contraditoriamente, um iconoclasta religioso. Por isso, interessei-me por este espetáculo da Socìetas Raffaello Sanzio, cujo nome já propõe uma questão filosófica: Sobre o conceito da face no filho de Deus. Fiquei tocado, impressionado, pela face do homem, que está retratada no rosto de Deus. É de uma beleza e tristeza imensas. Essa é a tragédia que a peça aponta - a inocuidade da mensagem cristã. Em troca de todo o seu amor, este filho, Jesus, só recebeu de seu pai o desespero e a dor. Ele morreu na cruz e não conseguiu limpar a cagada do pai eterno, que foi ter criado o mal. Logicamente, não vou aderir ao subterfúgio de Santo Agostinho, para explicar a existência do mal como a ausência do bem. O mal é uma presença real. E a peça mostra isso de maneira contundente, pela metafísica da fecalidade. Ver um ente querido demenciado, com mal de Parkinson e outras sequelas da velhice é profundamente doloroso, e o pior, é que não podemos nos entregar à raiva e ao parricídio, pois a mensagem cristã nos bloqueia por todos os lados e nas profundezas de nossa alma. Assim, mesmo fazendo o bem, nos tornamos culpados. Culpados por não sermos deuses, mesmo sendo filhos de Deus. Entendo o final da peça como uma vingança, uma revolta do homem (na figura do encenador, dos personagens e do público, se assim o quisermos), quando as crianças, que não têm pecado, atiram granadas (ou, metaforicamente, pedras) na face do filho de Deus - negando, assim, o bom pastor.
Uma peça curta, com um texto que cabe em meia lauda. Para mim, isso é um bom sinal, num tempo em que o teatro anda muito prolixo e não diz nada.
Não usei a palavra Cristo, de propósito. O rosto pintado por Antonello de Messina não reproduz um rei (Messias/Khristós/Ungido), mas uma face humana, sem nenhuma dignidade especial - simplesmente, Jesus.
 
* Camilo de Lélis é encenador

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ilha dos amores- um diálogo sensual com a cidade por Camilo de Lélis



Ilha dos amores, ou tire a roupa, mas não se molhe
 
Sexta-Feira 13 é um dia diferente, ao menos no fabulário popular. Então resolvi, também, ter uma experiência teatral diferente e fui ver o que se passava no Arroio Dilúvio, na esquina da Borges com a Ipiranga. O evento era a performance do grupo Falos & Stercus, comemorando seus 22 anos de ousadia cênica. Um teatro com tradição de ser provocativo e provocador.
O lado provocador da equipe, eu já conhecia, inclusive já houve problemas com a polícia, com a Brigada Militar etc. O lado provocativo, eu tive, desta feita, a oportunidade de experimentar.
A encenação ao ar livre, com a luz de fim-de-tarde, era uma coreografia em duplas ou solos ou trios, com atores e atrizes seminus ou mesmo totalmente desnudos. Chamava-se ILHA DOS AMORES – UM DIÁLOGO SENSUAL COM A CIDADE. O público - cerca de 800 pessoas - sentava-se, confortavelmente, na borda superior da rampa que levava à plataforma inferior, onde o desempenho artístico evoluía. Um público voyeur.  Às vezes, se manifestava com aplausos e gritos, devido a alguma coisa que eu, ainda, não podia saber o que era.  Pensei - vejamos mais de perto. Ao me aproximar, vi um casal de atores que me convidava a descer até o nível deles.  A plateia se manifestava a me estimular a ousadia - afinal, é fácil se enforcar com o pescoço alheio. Tenho um duplo esquizoide (que me possui, sempre que assisto montagens do Zé Celso Martinez Correa), entreguei minha vida nas mãos dele. Vamos - decidi - seja o que Baco quiser.
Tirar a roupa em público - na rua - não é coisa que se possa dizer que é fácil. É certo que os atores do grupo têm preparo psicológico, talvez até uma psicanálise grupal para superar tais desafios.  Mas um pobre mortal, como eu, só no desvario dionisíaco. E quem estuda os ritos, sabe que esse deus Dionísio enlouquece as pessoas. Como eu disse, o meu núcleo esquizoide se entregou e deixou que quatro mãos o despissem - o núcleo “sadio” observava de longe, a alguns pés acima do corpo.
O que aconteceu foi bastante rápido, mas demoníaco. Deixei-me levar, não exatamente por um idílio bucólico à beira de um riachinho na ilha dos amores, mas por uma experiência regressiva aos tempos da vida cavernícola, num passado longínquo, quando os grandes macacos disputavam fêmeas e territórios, à beira de águas lodacentas, nos pauis primordiais.
Resolvi escrever esta crônica para agradecer a oportunidade de intensa vivência proporcionada pelo grupo Falos & Stercus, sob direção de Marcelo Restori e, principalmente, a dupla Fábio Cunha, muito experiente no controle da situação, que poderia se desencaminhar para a violência, já que o meu tal duplo esquizoide é borderline e extremamente  violento, quando em situações de estresse extremo - e a  atriz Carol Martins que demonstrou verdadeira entrega emocional, numa situação que poderia fugir ao controle.
Tirar a roupa em público, tocar outros corpos nus, tudo pode se tornar uma vivência teatral. Desde que não se perca a referência da realidade. Isto é, tire a roupa, mas não se molhe.
* Camilo de Lélis é encenador

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O beijo no asfalto por Camilo de Lélis

 
Ser bom demais é uma pretensão que os deuses castigam? ou a Aretê de Arandir

      A tragédia carioca O beijo no asfalto de Nelson Rodrigues é boa, muito boa, das melhores peças dele. Não vou descrevê-la, o texto está por aí, é só procurar. Vou me deter um bocadinho no protagonista, pois foi ele quem me chamou a atenção nesta montagem sob a direção do conceituado diretor Cláudio Lira, na encenação pernambucana financiada pela FUNARTE “Nelson Brasil Rodrigues: 100 anos do Anjo pornográfico”.
       A peripécia de Arandir se dá no espaço de pouquíssimo tempo. Ele passa de um marido realizado e feliz a uma vítima do destino. Tudo porque, num ímpeto de irracionalidade, ele beija na boca - no meio da rua - um homem moribundo. A mídia se aproveita do caso para vender notícia e o povo novidadeiro se empanturra num gozo sádico, cujo clímax só poderia ser a extinção do foco da peste (no caso, a morte de Arandir, o sobrevivente do beijo homossexual).  Entretanto, quando isso acontece, o sogro de Arandir se debruça sobre seu cadáver e o beija, mostrando claramente que o beijo no asfalto não para por aí, mas continua se disseminando até que, 50 anos depois, milhares de GLS levantam suas bandeiras com as cores do arco-íris, no mundo inteiro. As coisas mudaram bastante. Vendo por esta ótica, defendo que Nelson Rodrigues inventou um mártir do amor homoerótico ao escrever esta tragédia. Mártir na verdadeira acepção do termo, ação de alguém que se entrega a uma epifania. Realizar o último pedido de alguém que morre é, para Arandir, alcançar o supremo bem. 
      Parece-me que as tragédias de Nelson Rodrigues são a catarse de sua culpa. Culpa por não ter tido a possibilidade de evitar as tragédias que acometeram sua vida pessoal.  A morte do irmão, a filha cega, suas infidelidades conjugais. Esses três eventos vão aparecer espelhados inversamente em Arandir. Vou contar mais ou menos, de memória. O jornal da família Rodrigues escancarou um caso de adultério de uma socialite, destruindo a vida da mulher. Ela veio com uma arma em busca de uma desesperada vingança. Não encontrou o pai, então matou o irmão de Nelson. Semelhantemente, temos  o caso da imprensa se apropriando da vida de Arandir, numa infame e caluniosa exposição. Arandir encontra o homem que vai morrer uns segundos antes do acidente, quando ia pedir um empréstimo bancário para que sua mulher fizesse um aborto. Nelson dizia que o aborto era coisa de Jack, o estripador, mas ele deve ter ao menos pensado nessa hipótese antes de a filha cega nascer, ou depois, como numa compensação psíquica retroativa. E por fim, Nelson se envolvia frequentemente com amantes...
       A culpa de Nelson gerou Arandir, personagem que é luminoso em sua fanática adoração ao corpo da esposa.  A escuridão do mau tempo (peripécia) tem início quando ele quer que a sua mulher aborte, para que a gravidez não lhe estrague a barriga lisinha. O tempo ruim de Arandir (do tupi - Ara‘ni, mau tempo/temporal) se estabelece por ele querer ser bom demais, ele é o marido ideal que casou virgem com a namorada de infância e faz amor com a esposa cotidianamente, que se sente culpado por ter visto acidentalmente a cunhada nua. Essas virtudes que o dramaturgo não possuía, mas fantasiava, sempre que iniciava a corte a uma mulher bonita e bem mais jovemessas virtudes se tornam excessivas em Arandir, gerando sua hibris. Arandir - assim como Nelson - é um fanático pela fidelidade, pelo amor eterno. Em resumo: Arandir é o que Nelson, em fantasia, gostaria de ser, um herói da bondade. Um menestrel a serviço de Deus e da donzela amada.
      A solução rodrigueana para gerar a tragédia é o genial gatilho que ele coloca na abertura da peça: o beijo no asfalto. Um moribundo, atropelado por um ônibus, pede a quem se aproxima de seu rosto, que lhe beije a boca. Arandir - alter ego de Nelson - foi o primeiro a correr em auxílio do acidentado.
     No beijo de outro homem, Arandir se purificava. Ao contaminar-se com a morte, ele abandonava a sordidez do mundo. Arandir diz ao final da peça que aquele beijo o salvara, pois ele não era, ainda, totalmente bom. Com o beijo atingiria a bondade absoluta. Acontece que, por ninguém atribuir virtude àquele gesto, nem mesmo a mulher amada, o próprio Arandir começa a duvidar de sua pureza.  Morre o herói trágico, por sua desmedida; só é possível que ele habite entre os deuses, não entre nós, humanos comuns, sedentos de espiar tragédias alheias, para que estas nos distraiam da nossa sordidez.
      Nelson Rodrigues (ou Arandir), gênio autêntico, original e insubstituível, continua nos beijando a boca, em cada fala de seus textos.
    Nessa montagem de Cláudio Lira se destaca Eduardo Japiassu em excelente atuação, rodrigueanamente histriônica. Os demais atores estão equilibrados no desempenho, que conta com a coringagem para representar o coro em trajes cinza e óculos escuros. Bom achado, pelo simbolismo da neutralidade disfarçada, que tudo observa a serviço de uma moral dominante.
     A montagem usa projeções para mostrar populares comentando o episódio da peça, fazer alusão à mídia televisiva, além de projetar mulheres mexeriqueiras que fazem o tradicional coro dos vizinhos, comum nas peças de Rodrigues. O efeito das projeções em vídeo é bom, torna o espetáculo atual, porém às vezes dispersa o foco narrativo, diluindo a tensão dramática. A trilha sonora, a luz e o cenário estão coerentes e são eficazes na agilização das trocas de espaço e tempo. A direção soube dar impacto às cenas mais violentas, que são os interrogatórios. Na atuação do elenco vê-se equilíbrio e competência. Uma boa equipe:
     Arthur Canavarro (Arandir), Andrêzza Alves (Selminha), Ivo Barreto (Amado Ribeiro), Pascoal Filizola (Delegado Cunha), Sandra Rino (Viúva, D. Judith e Aruba), Daniela Travassos (Dália) e Lano de Lins (Barros, Werneck e um personagem surpresa ao final). Ainda há a participação das atrizes Cira Ramos, Clenira Melo, Vanda Phaelante, Renata Phaelante, Márcia Cruz e Sônia Bierbard, que se mostram “virtualmente” na peça, numa homenagem a todas as atrizes pernambucanas, como opção do diretor, com falas da personagem Matilde, vizinha fofoqueira que acompanha o drama de Arandir, além dos comunicadores Gino César e Cardinot, este um símbolo da popularíssima imprensa pernambucana.
 
* Camilo de Lélis é encenador

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sargento Getúlio por Camilo de Lélis

O Carisma do Mal em Sargento Getúlio

      Este texto não é uma crítica teatral. Trata-se da intercessão de um tema (o personagem Getúlio) como ativador de diálogo e reflexão sobre a Arte e o Mal. O pequeno ensaio tem duas plataformas que, se o leitor tiver paciência, tentarei examinar:
      A primeira diz respeito à arte do teatro. O que se vê se presencia; o que se ouve se traduz. Viagem múltipla numa rede com vértices de retransmissão para dentro do oco das cabeças dos espectadores. Cabeças ocas? Se não forem ocas, serão maciças como a cabeça do personagem Getúlio - um obcecado. Cabeça oca não é referência pejorativa, pois sendo vazia de ideias fixas e preconceituosas, é aberta à crítica, numa constante renovação de conteúdos. Se o espectador tiver cabeça assim, percebe que se trata de um disparate ter empatia por um assassino (que mata covardemente uma mulher em adiantada gravidez, por uma suposta traição). Ou, da mesma forma, vê que é uma contradição sentir empatia pelo homem que revive, prazerosamente, o ato de esmagar, com uma pedra, a cabeça de um oponente (que cumpria ordens, como ele) e, depois, decapitá-lo, pelo fato principal desse sujeito tê-lo chamado de corno. Entretanto, esse disparate acontece. Sente-se compaixão pelo personagem. Admiramos sua coragem (macheza). Torcemos para que saia vencedor nas emboscadas que a tropa do governo lhe faz, e para que tenha muitos filhos todos machos, como seria de seu agrado, para povoar o nordeste de ferrabrases. A estética vai torcendo a ética, pois, afinal, tudo não passa de ficção e de uma aula de antropologia ao vivo. No Nordeste mítico – um autêntico cabra da peste. E nós, gaúchos, não ficamos para trás em valentia, não é mesmo? Estamos em plena semana farroupilha, em que se vê o culto de uma história inventada para nos dar identidade.  “Se me pisar no pala, meu revólver fala...”, alardeia a nossa tradição. Assim, nos apaixonamos pelo bandido, mas ressalvando nosso senso crítico de que é um bandido criado pela arte de Carlos Betão, um ator magistral, merecidamente vencedor do prêmio Braskem 2011. Entregamo-nos ao prazer de ver um esqueleto de Rural Willis, numa paisagem de fog, servindo de cenário, e acreditamos estar numa estrada de pó na caatinga. Esse ator, esse cenário e essa luz denotam uma excelente direção - Gil Vicente Tavares - e uma equipe baiana de heróis do teatro, vencendo mais uma batalha na guerra contra a insensibilidade e a barbárie. O nome da equipe - Teatro Nu - está muito coerente nesta encenação, pois expõe a alma humana em sua busca pela entidade - o personagem Getúlio se define numa frase: “Querem que eu desapareça? Mas, quem desaparece são os outros, eu estou sempre aqui”.  Sargento Getúlio - Prêmio Braskem de melhor espetáculo 2011. Parabéns ao estado da Bahia, terra de poetas, músicos e, como vimos com Sargento Getúlio, de bom teatro.
      A segunda plataforma diz respeito mais à sociologia. Quem é Getúlio? Um sociopata com a característica onipotência deste quadro? Um maníaco? Um esquizofrênico - com seu típico mundo interior polifônico? Pelo entrecho, o personagem é capanga de um político numa disputa partidária, e seu destino é ser assassinado, assim que se tornar inconveniente para seus mandantes. O enredo do romance de Ubaldo Ribeiro, e da fiel versão teatral, é um monólogo relatando vivamente a resistência que esse personagem impõe a seu destino. Não quer ser descartado. Não quer ser um nada, um ninguém. É a luta do ego para se impor contra a paisagem hostil. Há um momento, antes de seu fim, que Getúlio recita em alta voz, como numa oração apotropaica, todas as artes de matança em que ele se afirma o melhor, numa clara tentativa de camuflar seu medo. Pistoleiros, como sargento Getúlio, foram usados por partidos políticos de norte a sul do Brasil. Aqui, na serra gaúcha tivemos o caso do bandido Paco Sanchez, que servia aos republicanos, obrigando cidadãos a votarem nos asseclas de Borges de Medeiros, até que foi tocaiado e metralhado por gente deste mesmo poderoso chefão. Apesar do vocabulário emprestado pela poesia de seu criador - João Ubaldo -, percebe-se que Getúlio é sujeito tosco, obnubilado, insensível aos querer que não seja o seu. Assim acontece com os cangaceiros e outros bandidos que, no imaginário de gênios como Graciliano, Guimarães, Érico Veríssimo e outros, tornam-se bons falantes de um vernáculo melodioso e até filosófico. É a arte colorindo a crueza da realidade. Os Getúlios e outros malvados têm também sua dose de bondade, e talvez nem tenham culpa de seus crimes, já que, devido às injustiças sociais, não se adaptaram ao sistema vigente. Porém o problema do Mal não é tão simples, assim, que possa ser explicado apenas pelo social. Há que se ouvir as vítimas, ou, ao menos, imaginar seus olhos arregalados na hora em que a peixeira do machão assovia.

*Camilo de Lélis é encenador

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Variaciones Meyerhold por Camilo de Lélis

O teatro ressuscita um morto
                                                                                          
Variaciones Meyerhold do dramaturgo argentino Pavlovsky, de quem tive a feliz oportunidade - e/ou a oportuna felicidade - de assistir algumas montagens, vem me dar, mais uma vez, uma muito bem-vinda porrada teatral no baixo ventre. Coincidentemente, há alguns dias, eu estava a ler Do teatro, de Meyerhold. Acabei por deixar a obra inacabada, esquecida dentro de uma pasta, no balcão do hall de entrada de um teatro, numa cidade vizinha. Porém, assistir a este espetáculo no teatro Renascença, dentro do programa do PoA em Cena, fez-me ver que as coincidências são, muitas vezes, significativas. 
     No livro de Meyerhold, único publicado em vida, lê-se o homem falando - ou ouve-se a voz do homem, através das letras impressas. Ele é humano, extremamente humano, em todas as suas críticas às formas enrijecidas de sua época, tanto ao velho teatrão, duro e declamado, quanto ao naturalismo do Teatro de Arte de Moscou. O que o estimulava e o fazia buscar uma técnica nova de atuar eram os balagans (tendas de atrações das feiras populares com seus palhaços e funâmbulos). Ele antevia (e queria) um ator vivo, que se movesse inteiramente, e não apenas cabeças falantes sobre corpos rígidos, como acontecia nos teatros russos da época. 
     Bueno, não vou ficar a teorizar a biomecânica - do que, aliás, nada sei -, nem vou catar na onisciência do Google referências sobre a dita cuja. Até porque, o que vi das tentativas de pô-la em prática, parecia-se mais com “marionetismo” e "papagaísmo", do que a utilização de uma arte vital e vitalizadora. Entonces, vou falar do que vi do grupo uruguaio que aqui se apresentou: a peça da Comédia Nacional daquele país.
    Achei-a genial na proposta. Poucos elementos cênicos, só os necessários para algumas metáforas. Um ator (Jorge Bolani) vivendo intensamente um personagem, numa mistura bem dosada de Stanislavski e Meyerhold - mostrando que as duas técnicas não são excludentes (como alguns pensam), mas se potencializam. Bolani costura a narração com o auxílio de Luis Martinez, que interpreta dois papéis e toca acordeão ao vivo, e da atriz Gimena Perez, que cria com corajosa delicadeza a companheira do protagonista.
      A peça narra a vida de Meyerhold a partir de sua prisão - de dentro dela -, rememorando sua trajetória  estética, que o levou a renovar o teatro russo. Desesperadamente, o homem de teatro, diante das torturas a ele impostas na prisão, tenta recorrer a amigos (antigos camaradas de revolução), para que o salvem de um fim absurdo (o fim de quem se negava a se ajustar a um sistema absurdo - o stalinismo) - e, ainda da prisão, troca cartas com Anton Tchekhov, considerando as cartas do grande escritor um bálsamo contra o insuportável sofrimento. 
     Morreu sua amada, esfaqueada no apartamento do casal, e morreu ele, fuzilado, em 1940. Seu nome foi apagado da história russa por quinze anos. Apagar nomes.  Apagar fotos. Assassinar. Nisso aquele regime foi exemplar. Nossas ditaduras, também. 
    Somente em 1955 - Stalin, já morto -, foram achados e sepultados os resto mortais de Meyerhold. Daí par diante, sua obra foi, cada vez mais, valorizada e reverenciada como um marco de transição para uma nova estética teatral. Ao se recusar a reproduzir o real-socialismo (que, segundo o personagem diz na peça, não era nem real, nem socialista), Meyerhold foi torturado e assassinado por uma questão estética - um martírio ímpar no mundo. O dramaturgo Pavlovsky e a Comédia Nacional do Uruguai, sob a direção de Lucio Hernández, ressuscitaram-no. Meyerhold se levantou sobre o tablado do teatro Renascença e sofreu de novo, cantou canções no idioma russo, sorriu e amou. Enfim - vivendo de novo - me fez crer que o teatro ainda tem o poder demiúrgico de ressuscitar os mortos.
 
* Camilo de Lélis é encenador

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O fantástico reparador de feridas por Camilo de Lélis

O curandeiro*

Não dá pra segurar, rasga coração! Queria ficar só com o sentimento, não escrever nada. Afinal, é uma peça que o público, na noite em que assisti, estava meio indiferente. Algumas pessoas saíram no meio do espetáculo...Sério, é verdade. Influenciado pela peça, vou escrever, assim, sob efeito da memória emocional.
A começar pelos intérpretes. Walter Breda é um ator que participa de muitas novelas de sucesso na televisão. Trabalha também como dublador. O seu estilo de usar a voz é muito peculiar e dá um sabor especial ao seu personagem, que é um misto de charlatão e milagreiro. Essa mistura é, precisamente, o drama do personagem, pois não podendo usar seu dom paranormal, segundo a sua vontade, fica à mercê do acaso, e do uísque, para realizar suas apresentações. Ele é o protagonista. Mariana Muniz, atriz, coreógrafa e bailarina, com muitos prêmios em sua carreira, representa a esposa do curandeiro. Alguém que abandona a família rica para segui-lo. Mariana é tão dedicada em sua entrega ao papel, que quase não percebemos que estamos diante de uma maravilha. Ela é uma diva. Fernando Paz, ator que trabalhou na Companhia do Latão e Grupo Tapa. É, também, clown na equipe dos Doutores da Alegria. Nesta peça, ele faz o papel do empresário do show de curas místicas.
A autoria da peça é do irlandês Brian Friel, considerado um expoente da dramaturgia irlandesa atual. Uma mesma história (equipe mambembe viaja por cidadezinhas da Escócia, País de Gales e Irlanda, realizando sessões de cura), é contada sob o ponto de vista de cada um dos integrantes do trio: Frank - o bruxo; Grace - sua esposa; Teddy – empresário de artistas decadentes. Eles nunca se encontram em cena. São monólogos.
Não há cenário, só uma faixa com o nome do show, que é o mesmo nome da peça: O Fantástico Reparador de Feridas. Há três cadeiras e uma mesa com uma vitrola e outros pequenos elementos. Que eu me lembre, mais nada. A luz é branca. Um foco pontua um episódio, que se repete, exatamente igual, nas três narrativas: o episódio trágico, que dará fim às peripécias da trupe. Três histórias diferentes e, entretanto, uma mesma história. Não se trata de que cada um dos personagens recria, inventa o passado. O que acontece é uma coisa mais interessante, pois ninguém mente, e as narrativas se complementam entre si, na verificação de uma única verdade inexorável: o dom especial - que um homem traz de berço (a cura), mas que depende de algo fora de seu controle (a fé) - imantará o destino de três criaturas, numa mesma direção.
Eu teria muitas outras coisas para escrever, eu que não queria escrever nada. A peça me tocou, porque o dramaturgo criou uma história muito boa (nem pós-dramática, nem transumana, apenas uma história), e ela foi interpretada por três ótimos atores, sob regência de uma direção sutil, precisa e erudita de Domingos Nunez.
No entanto, teve gente saindo no meio do espetáculo...Talvez, por estar com o cérebro superexcitado por montagens com muito “glamour” e muita “purpurina”, não tiveram paciência para um trabalho que exige algum esforço de quem assiste: escutar uma história, juntar seus pedaços, acompanhar...Não é garantido, mas a cura de nossas feridas pode se realizar, também, através do teatro.
* Camilo de Lélis é encenador

sábado, 17 de setembro de 2011

A lua vem da Ásia por Camilo de Lélis

Mensagem dentro de uma garrafa*
“...Deus é o rei dos ausentes, e nem por isso você é capaz de dizer que ele não exista...O que não quer dizer absolutamente nada.” – última frase de O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho.
Saí do Theatro São Pedro e fiz a pé as poucas quadras até minha casa. Pensei no caminho. Pensei sobre a peça A lua vem da Ásia, adaptada do texto homônimo de Walter Campos de Carvalho. Ao chegar, corri à biblioteca e catei, sofregamente, o volume com sua obra reunida. O livro estava lá, empoeirado, com marca-páginas denunciando minhas interrupções. Porque eu não conseguira ler até o fim aquele autor, tão famoso a ponto de ser comparado a Henry Miller?
Agora, através do Teatro, que é minha atividade eletiva, pude reconhecer meu trauma: tudo que está ali, naquele livro, revela-me, a ponto de assustar-me. Só vendo/ouvindo, em cena, através de um ator, pude suportar a grandeza daquele escritor.
Que interessante, as duas peças, que Moacir Chaves traz, sob sua direção, ao Poa em Cena, têm algo em comum: o assassinato da lógica convencional. Em Labirinto, a loucura escreve a realidade, em A lua vem da Ásia, a realidade escreve a loucura. O diretor soube tratar estes sujeitos e seus objetos (quando a loucura escreve, ou quando a escrita enlouquece), mostrando duas encenações completamente distintas.
Sobre Labirinto, já escrevi minhas impressões num comentário ao texto que Rodrigo Monteiro instalou no blog do Poa em Cena, é só conferir. Sobre esta peça, A lua vem da Ásia, tenho, também, poucas coisas a referir.
A direção foi exemplar na utilização de um palco descarnado para dar espaço à exuberância imaginativa do texto. Digo descarnado, pois usou, como adjuvantes do ator, alguns poucos “utensílios”, além de textos gravados e imagens projetadas. Os utensílios (claro, por serem, realmente, úteis) estavam somando. Já as projeções, às vezes, subtraiam, por grafismos descritivos, redundantes. Outras vezes, ajudavam o exercício pictórico do surrealismo, que, enfim, sempre associamos à loucura. Associação não direta, mas transversal, metafórica, como na belíssima cena final, em que vemos a lua cheia. Lua dos poetas e/ou dos suicidas. Quanto às narrações...Bem, creio que o diretor, por experiente, sabe que voz gravada é um perigo. Distancia. Falseia. Desmerece a inteligência do criador, por ser solução óbvia e facilmente executável. Narrativa em “off” e projeção de filmes, não acrescentam carne à linguagem quadridimensional do tablado. Quase sempre a vida, presente na cena, é suspensa, para dar espaço a esses zumbis (filmes, gravações, etc). Porém, isso é coisa minha. Há públicos sem melindres, que nem se dão conta da mistura de linguagens, nem fazem balanço da economia conceitual empregada numa encenação.
Falando em economia, que maravilha ver um ator que, sozinho, incendeia a cena: Chico Diaz. O resto é o silêncio em minha caminhada de volta para casa, depois da peça. Disso não posso falar, logicamente.
* Camilo de Lélis é encenador

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Cordel do amor sem fim por Camilo de Lélis

Cordel do amor sem fim*
No dia 8 de setembro, às 23h, na sala Álvaro Moreyra, assisti a um espetáculo de Pernambuco, dentro da programação do Poa em Cena. O texto de Claudia Barral narra uma lenda do sudoeste baiano, que se passa na cidade de Carinhanha às margens do rio São Francisco.
A peça conta com a direção de Samuel Santos, que soube traduzir em imagens o romance de um amor impossível, no estilo das tragédias de cordel, que sempre têm algo de surreal ou feérico em seu entrecho.
A trilha sonora com instrumentos convencionais, como violão e flauta doce, e apetrechos de atividade doméstica do meio rural, tais como pilão, raladores, tamancos, enxada etc, é executada ao vivo por um músico no palco, e por todos os quatro atores que, em alguns momentos, também cantam.
A preparação corporal dos interpretes – Agrinez Melo, Eliz Galvão, Naná Sodré e Thomas Aquino – permite-lhes suspender a ação em posições inusitadas e em posturas corporais que trazem referências do candomblé, ou de outras religiosidades de transe, muito comuns no Brasil, de norte a sul, principalmente pela contribuição das etnias indígenas e africanas na formação de nosso povo.
A plástica de iluminação, que utiliza lâmpadas dentro de objetos em cena, e os elementos cênicos, que são movidos e metamorfoseados pelos atores, criam ricas possibilidades visuais para tecer a urdidura cênica do Cordel do amor sem fim, sempre magnetizando, galvanizando, sugestionando, com os encantamentos da voz ou dos guizos de sementes.
Chama a atenção o fato de que o texto é muito bem falado, pronunciado de forma tão clara, que a prosódia regional do nordeste torna-se um adorno, e não um obstáculo para a nossa compreensão da história. Outra coisa a ressaltar, é que o português correto, nas concordâncias, nos plurais e singulares, não interfere na credibilidade das personagens, que seriam pessoas simples, talvez semi-analfabetas. O que demonstra que a convenção teatral não deve nada ao realismo; personagens podem falar com correção, seja qual for sua classe social. O melhor, contudo, é que o público sulista não foi privado das saborosas expressões e interjeições típicas do Nordeste.
Os atores contam a história de três irmãs e um pretendente, ora vivendo-os, ora se utilizando do distanciamento narrativo dos rapsodos. É uma história de amor, onde o destino e o acaso dão-se as mãos, para transformar a vida miúda de três irmãs, em uma grande tragédia.
Um espetáculo encantatório, em que a plateia deve deixar a razão à parte e desfrutar de uma viagem onírica. Constata-se, com Cordel do amor sem fim, que os mitos são um patrimônio comum da humanidade, e são atemporais, pois ainda há mulheres virando pedra, por não terem podido realizar o grande desejo de seus corações. Um belo espetáculo mostrando que o Brasil é grande. E o teatro brasileiro, também.
* Camilo de Lélis é encenador.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Camilo de Lélis: o encerramento


Foto: Vilmar Carvalho

Blog do Poa em Cena - O sentido do discurso


A minha colega de trabalho – que é espectadora de teatro - me disse: “achei muito legal o blog do Poa em Cena pela possibilidade do diálogo entre os leigos e os profissionais da área”. Assim também me parece. O blog foi uma tribuna em que muitos puderam ocupar o púlpito que, normalmente, é destinado a apenas uma pessoa ou poucas. Isso possibilitou a melhor das descobertas: temos inteligência viva e diversificada nas artes cênicas da grande Porto Alegre.

Saber expressar o pensamento em palavras escritas é um exercício excelente para se organizar as próprias ideias e assumir a responsabilidade pela opinião manifestada, pois que, estando grafada, ela não se perde como palavras ditas ao vento, quando sempre se pode negar o que se disse. Penso que faz falta no nosso ambiente teatral – falta a ser suprida durante o ano todo e não apenas esporadicamente como é o caso do Festival Poa em Cena – uma conversação entre os profissionais das artes cênicas. Isso traria à baila o pensamento crítico necessário para democratizar muitas coisas que nos parecem impositivas ou que discordamos por um ou outro motivo.

Precisamos arejar a discussão, não basta culpar uma pessoa, ou grupo, por discordar do pensamento dominante em termos de organização e controle na vida cultural de nossa cidade. É muito simplificadora a visão de que uns fazem, outros reclamam. Há circunstâncias sócio-políticas na produção da cultura. Há também vicissitudes, concretas ou subjetivas, experimentadas pelos sujeitos que produziram e produzem arte; há histórias pessoais envolvidas, e isso deve ser levado em conta pela comunidade.

A razão sensível, que acolhe a necessidade de reconhecimento como o móvel principal do discurso artístico, deverá se impor à razão instrumental, que preconiza apoio apenas ao mais forte, articulado e esperto, sempre a levar vantagem em tudo. Sei que este pequeno discurso passará batido para a maioria que o ler, por não fazer sentido... E o sentido é tudo na vida. O sentido, porém não está posto, se constrói. O sentido do discurso, para que seja unidirecional e caudaloso, tem de agregar em sua correnteza os diversos afluentes, de outros cursos e outros sentidos.

Enfim, achei muito promissor o blog do 17° Poa em Cena. E, para você, colega, fez sentido?

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Camilo de Lélis, diretor de teatro, entre seus trabalhos destacam-se: O ferreiro e a morte, Macário, o afortunado, O estranho Senhor Paulo, A bota e sua meia e Mehrda, presidentas que foram agraciados com o Troféu Açorianos da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre em várias categorias. Seus trabalhos foram vistos em circulação por quase todo Brasil. No exterior, destacam-se as apresentações de Jacobina e de Mehrda, presidentas em Montevidéu (em 1996 e em 2001, respectivamente) e de O estranho Senhor Paulo em Buenos Aires (1997). A bota e sua meia apresentou-se na Alemanha, em 1998, e em Portugal, em 2003, dentro do Projeto Cena Lusófona. Em 2006, as encenações de Camilo de Lélis foram objeto da monografia Carnaval, encenação e teatro gaúcho, premiada no Concurso Nacional de Monografias Gerd Bornheim. A obra foi publicada em 2007, registrando em livro a contribuição desse encenador para o teatro. Dirige Milkshakespeare, espetáculo participante do 17º Porto Alegre em Cena.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Camilo de Lélis #4: In on it


Foto: Guilherme Santos / PMPA

In on it: Mas… Enfim, é uma boa comédia!

Bem recomendada pela crítica e pelos vários prêmios que recebeu, a peça In on it não decepcionou as expectativas e, com o calor que atores experientes sabem levar ao termômetro de uma casa cheia, tudo funcionou bem. Pode-se, inclusive, fumar no palco e jogar a bituca no tablado do vetusto Theatro São Pedro? Por que não? Enfim... Se faz parte da peça...

Mas vejamos a frio. Dois atores representam dois amantes homossexuais. Um deles é autor de teatro e os dois se revezam para dar vida aos personagens de um melodrama com doenças incuráveis, traições conjugais e meninos que sofrem com a ausência do pai. Nesta peça dentro da peça, o que surge é uma sucessão de estereótipos, não faltando o velho com Parkinson, Alzeimer ou algo assim, com amnésia e língua de fora. O jogo de representar a tal peça é entremeado pelos conflitos amorosos do casal gay que, nesta montagem, são tão superficiais que só servem para criar situações cômicas. E é nisso que In on it funciona bem.

A peça convence pelo terceiro ponto de vista, a comédia interativa, ou seja, a moldura do show. Os atores (os reais), desde o início, deixam clara a convenção de que haverá interação com o público, pois falam diretamente com as pessoas e, na sequência, até descem à plateia. Li comentários elogiosos que falam de uma suposta profundidade de sentimentos no espetáculo quando não há nenhuma, pois sua estrutura fragmentada não permite. A peça é uma comédia que alterna show de auditório com um entrecho de duplo enredo, cheio de gags e de bordões.

Não conheço o texto original do dramaturgo canadense Daniel MacIvor, mas o que aparece na montagem brasileira é um melodrama dentro de um drama que está dentro de uma comédia carioca, o que, para mim, resultou numa gozação em três níveis. A dupla de atores, Emílio de Mello e Fernando Eiras, são intérpretes que dão conta do cômico, equilibrando perfeitamente os dois clowns, o alegre e o depressivo. Eles têm domínio absoluto da brincadeira, e a direção de Enrique Diaz soube valorizá-los, apoiando a encenação em seu carismático desempenho. O público riu bastante e aplaudiu de pé a performance dos atores. Pelo resultado alcançado, a comédia In on it ficará bem dentro da memória do 17º Poa em Cena.

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Texto: Daniel MacIvor / Tradução: Daniele Ávila / Direção: Enrique Diaz / Assistente de direção: Pedro Freire / Direção de cena: Marcos Lesqueves / Coreografia: Mabel Tude / Consultoria de movimento: Marcia Rubin / Técnica Alexander: Valéria Campos / Elenco: Emilio de Mello e Fernando Eiras / Figurino: Luciana Cardoso / Cenário: Domingos de Alcântara / Iluminação: Maneco Quinderé / Trilha sonora: Lucas Marcier / Produção: Enrique Diaz / Duração: 1h20min / Classificação: 16 anos


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Camilo de Lélis, diretor de teatro, entre seus trabalhos destacam-se: O ferreiro e a morte, Macário, o afortunado, O estranho Senhor Paulo, A bota e sua meia e Mehrda, presidentas que foram agraciados com o Troféu Açorianos da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre em várias categorias. Seus trabalhos foram vistos em circulação por quase todo Brasil. No exterior, destacam-se as apresentações de Jacobina e de Mehrda, presidentas em Montevidéu (em 1996 e em 2001, respectivamente) e de O estranho Senhor Paulo em Buenos Aires (1997). A bota e sua meia apresentou-se na Alemanha, em 1998, e em Portugal, em 2003, dentro do Projeto Cena Lusófona. Em 2006, as encenações de Camilo de Lélis foram objeto da monografia Carnaval, encenação e teatro gaúcho, premiada no Concurso Nacional de Monografias Gerd Bornheim. A obra foi publicada em 2007, registrando em livro a contribuição desse encenador para o teatro.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Camilo de Lélis #3: As troianas - vozes da guerra

Foto: Ricardo Giusti

As troianas, uma tragédia para alemão ver

Toda vez que o artista se torna onipotente sofrerá a punição de – pela sua desmedida - tornar-se incompreendido. A onipotência da montagem de As troianas – vozes da guerra do núcleo experimental de São Paulo é apresentar um texto grego falado em alemão para um público brasileiro.

Está claro no nome do grupo que se trata de experimento, porém nos resta o benefício de algumas dúvidas a respeito desse teste: porque depois de um achado genial, que é mostrar o tempo circular da filosofia grega retornando na repetição Troia /Auschwitz, o diretor Zé Henrique de Paula levanta este tapume linguístico entre a encenação e o espectador? Se Eurípides escreveu em grego para ser compreendido pelos gregos, por que esta encenação aposta no estranhamento idiomático?

Se as ações bastassem para transmitir o sofrimento das mulheres troianas/judias, não seria o caso do experimento ser totalmente sem palavras, transmitindo as emoções apenas pelas canções em alemão, inglês e iídiche como, aliás, está escrito no programa da peça na revista do Poa em Cena?

Perguntas... Apenas indagações de um espectador que reconhece que a prosódia alemã está convincente, mas que exige uma legenda para ser decifrada.

A substituição do poderio helênico pelo nazismo já é uma metáfora suficientemente eficaz. A tragédia poderia, portanto, e, de preferência, ser falada em nosso idioma. Fora este deslize (o de não querer ser entendido), todo o resto da peça está muito bem. A iluminação e o cenário – um típico Waggon da ferrovia alemã à época da 2ª guerra – se completam num realismo adequado à situação proposta na releitura da tragédia.

A marcação cênica mostra precisão nos movimentos agônicos entre figura e fundo, o que dá um jogo de equilíbrio/desequilíbrio condizente com a credibilidade da ação. Os soldados alemães são gregos e as mulheres judias são troianas, a metáfora é clara, e é um grande acerto da direção. O judeu colaboracionista é uma figura impressionante pela sua postura de coreuta “em cima do muro”. Menelau, Hécuba, Cassandra e Helena estão muito bem representados por intérpretes seguros e bem afinados.

Aliás, afinação é outro ponto forte na encenação musical de As troianas, e, me parece, que é o carro chefe na conquista da adesão do público que, mesmo não tendo empatia com as paixões representadas em cena, se enternece com as canções, pois a música, sim, é linguagem universal. Já, a língua é a Pátria, e a “harmatia” desta encenação de As troianas é não levar em conta este fator tão caro aos gregos antigos: a língua, como maior bem comum entre os iguais.

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Camilo de Lélis, diretor de teatro, entre seus trabalhos destacam-se: O ferreiro e a morte, Macário, o afortunado, O estranho Senhor Paulo, A bota e sua meia e Mehrda, presidentas que foram agraciados com o Troféu Açorianos da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre em várias categorias. Seus trabalhos foram vistos em circulação por quase todo Brasil. No exterior, destacam-se as apresentações de Jacobina e de Mehrda, presidentas em Montevidéu (em 1996 e em 2001, respectivamente) e de O estranho Senhor Paulo em Buenos Aires (1997). A bota e sua meia apresentou-se na Alemanha, em 1998, e em Portugal, em 2003, dentro do Projeto Cena Lusófona. Em 2006, as encenações de Camilo de Lélis foram objeto da monografia Carnaval, encenação e teatro gaúcho, premiada no Concurso Nacional de Monografias Gerd Bornheim. A obra foi publicada em 2007, registrando em livro a contribuição desse encenador para o teatro.