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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Marcelo Adams #11: Reglas, usos y costumbres en la sociedad moderna

Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Reglas, usos y costumbres en la sociedad moderna

Jean-Luc Lagarce (1957-1995) é outro daqueles dramaturgos franceses que são destaque na dramaturgia contemporânea. Montado no mundo inteiro, suas peças já chegaram ao Brasil há alguns anos e, entre seus textos mais conhecidos, estão Apenas o fim do mundo, Music hall, História de amor e o texto que serviu de base para este espetáculo espanhol, traduzido em nossa língua como As regras da arte de bem viver na sociedade moderna (título da edição portuguesa do texto, que tenho).

O texto original de Lagarce, escrito em 1993, coloca como única indicação para um hipotético encenador: a definição da personagem que diz essas palavras, "A SENHORA". De resto, ao longo de 37 páginas, sucedem-se orientações a respeito de como os indivíduos devem se comportar em situações sociais ritualizadas, tais como nascimento, batismo, casamento, bodas de prata e funeral. É um texto totalmente narrativo, sem nenhuma indicação de ação dramática. Ainda assim, pelo absurdo das afirmações da personagem, pode-se extrair daí uma bela comédia, mas para isso requere-se um excelente intérprete, para colorir essa narração.

A montagem em questão, a cargo de Ernesto Calvo e interpretada por Gerardo Begérez, cumpre apenas parcialmente essa potencialidade. A bem da verdade, não há praticamente um trabalho de encenação. O ator, que é bom, movimenta-se, durante grande parte do tempo, quase que aleatoriamente. Algumas ações são criadas com a colocação, em diferentes configurações, de alguns caixotes de madeira pintados de branco. Também há sapatos vermelhos femininos e pretos masculinos, um buquê de flores e dois castiçais com cinco velas cada. Basicamente, é isso. E o trabalho do ator, que inicia a peça travestido como mulher, vestido dos pés à cabeça com um esvoaçante vestido branco. Durante a encenação, ele vai despindo a roupa e termina apenas de cuecas. Pergunta número 1: por que isso? Qual código obscuro levou a direção do espetáculo a isso? Fiquei sem saber.

A pergunta número 2 é: por que não investir no aspecto cômico do texto com mais intensidade? Não há quase nada que auxilie o ator a contar a história de forma mais dinâmica, ainda mais pelo tom de voz pausado e de volume médio que emprega durante todo o tempo. Há, claramente, um investimento no risível da situação e das regras enunciadas, mas parece ter faltado criatividade para desenvolver tudo isso. É um espetáculo nota 7, mas poderia ser quase 10, com um pouquinho mais de esforço. Parece preguiça.

Pergunta 3: por que a iluminação é tão ruim, tão imprecisa? Nem é culpa do ator, exclusivamente, mas da criação da luz, que propõe focos impossíveis de serem seguidos. A luz parece fazer parte de outro espetáculo, quase sempre.

Bem, em resumo, o texto é suficientemente aberto para render muito mais do que nos apresentaram os espanhóis. Poderia ser uma comédia hilariante. É só lembrar da personagem Madame Hortense, interpretada há alguns anos pelo falecido Leverdógil de Freitas. Mas não foi dessa vez. Quem sabe eu me arrisco a montar esse texto?

*

De: Jean Luc Lagarce / Tradução: Fernando Gomez Grandes / Adaptação: Ernesto Calvo / Direção: Ernesto Calvo / Elenco: Gerardo Begérez / Figurino: Mario Perez Tapanes / Iluminação: Javier Garcia / Duração: 1h / Classificação: 16 anos


* Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo. Graduado em Teatro- Interpretação Teatral e em Direção Teatral, pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, sediada em Porto Alegre. Participou de dezenas de espetáculos como ator e diretor. Destacam-se Goela abaixo, O homem e a mancha (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2006), Burgueses pequenos, Édipo, O médico à força (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2008), Bodas de sangue e Mães & Sogras. Estreará no próximo dia 15 de outubro, no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo A lição, de Eugène Ionesco, nova produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. Autor do blog http://marceloadams.blogspot.com/

sábado, 18 de setembro de 2010

Pablo Damian: Feito pra acabar (Marcelo Jeneci)



Feito pra começar

Quando recebi o convite para escrever sobre um espetáculo do POA em Cena, fiquei bastante lisonjeado. Mas a surpresa foi maior, após assistir, nessa sexta-feira, ao show de Marcelo Jeneci e sua banda. Senti-me, realmente, presenteado. Neste dia eu, como a maioria dos amantes da música, ainda estavam com o sentimento de incredibilidade após o desastre sofrido pela música brasileira que presenciamos na entrega do VMB (Video Music Brasil. Isso mesmo, um título em inglês para premiar artistas(?) brasileiros) 2010, apresentado pelo canal da desastrosa MTV Brasil(?). Pensamos para que caminho segue a nossa música? O que aguardar dessa nova geração de músicos(?)?

Então, eis que surge no palco do Teatro Renascença, Marcelo Jeneci, na companhia de mais três músicos e uma “companheira” de canto. Jeneci e sua turma mostram uma timidez e um jeitinho de “turma certinha”, o que reflete com certeza no show, que, no final, deixa com muito gostinho de “quero mais”. O paulista de Guaianases mostra uma maturidade artística e poética no seu trabalho. Suas baladas que abrem o show são músicas que misturam diversos ritmos e possuem uma delicadeza de cristal. Lindo de ouvir, lindo de escutar, lindo. Lindo! Acho que sutileza é a palavra que define o trabalho do Marcelo e sua turma. Há uma sutileza em tudo: no show, nas letras, no tratar com o público, no toque dos instrumentos. Mas encaminhando-se para final do show, a “turma certinha” mostra uma agressividade com um som mais pesado, mas, sem perder a identidade do início do show. Ainda é lindo de ouvir, lindo de escutar, lindo. Lindo!

Marcelo revela-se um instrumentista nato. Ele começa no piano, vai para o violão, chega no acordeom (com certeza, um show parte). Um pouco disso resulta no que a gente vê no seu show, misturas como: reggae com bossa e rock com gaita. São definições minhas pra alguns momentos do show. Quem ficou curioso, o CD dele e sua turma chega às lojas no final de outubro. Confiram, por favor! Mas já deixo aqui a minha preferida: Felicidade.

Quem estiver curioso, pode curtir essa e outras faixas do artista no myspace.com/jeneci. A faixa que dá nome ao primeiro disco e ao show Feito pra acabar, uma música com tom de revelação apocalíptica e deve beirar seus 8 minutos de duração, e é a síntese do talento desse artista que com certeza é uma promessa para a música brasileira.

Refletindo sobre o VMB ainda, não só uma promessa, mas uma necessidade. E isso a gente percebe quando está junto com um público, encantado com um artista. Um público que parece não respirar, admirado. E a gente estava assim, respirando pelos ouvidos com Jeneci. Encantados, admirados.

Algumas curiosidades sobre o show: vale ressaltar a autoria de Jeneci da música Amado, conhecida na voz de Vanessa da Mata (“como pode ser/ gostar de alguém/ e esse alguém/ não ser seu”, lembraram?). Mas o momento mais lindo do show foi quando Jeneci revelou que, antes do show do ano passado, também no POA em Cena, lá na Reitoria da UFRGS, ele teve a ideia de um refrão para uma música, e ficou só com esse refrão. Pois, segundo ele, “não veio mais nada”. Então, ele pediu pro público cantar o refrão, pra ele poder ouvir a voz do “lugar onde surgiu o refrão” (ooowwwnnn ^.^).

Diz mais ou menos assim:

A chuva é a vontade do céu
De tocar o mar 
E a gente chove assim também 
Quando perde alguém 
Mas quando começa a chorar 
Começa a desentristecer 
Assim se purifica o ar 
Depois de chover

E o público cantou, emocionado. Então, eu percebi que o presenteado não era somente eu. Era a plateia inteira, o teatro, o festival, o país por ter um artista tão talentoso, digno de orgulho. Jeneci deixou a promessa dessa letra da chuva. Acho que, quando ficar pronta, o festival já tem sua música tema, composta por Jeneci no próprio festival. Por que, afinal, de contas, sempre chove no início do POA em Cena, sempre chove.

*

Voz, piano, guitarra e sanfona: Marcelo Jeneci / Voz: Laura Lavieri / Baixo e violão: Régis Damasceno / Guitarra: Estevan Sinkovitz e Gustavo Ruiz / Iluminação: Alessandra Domingues / Técnico de som: Vitor Paranhos e Fernando Narcizo / Rodie: Guizinho / Direção de produção: Veronica Pessoa / Produção: Pessoa Produtora / Produção executiva: Raquel Dammous / Duração: 1h30min / Classificação: livre

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Pablo Damian é licenciando no curso de Teatro pelo DAD (Departamento de Arte Dramática) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como ator, trabalhou com diretores como Xico de Assis, Tefa Polidoro e Roberto Oliveira. Como diretor, montou o espetáculo Para F.K, em que, também, elabora a dramaturgia a partir de contos do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. Participou da pesquisa acadêmica intitulada As técnicas corporais do gaúcho e a sua relação com a performance do ator bailarino, com supervisão da Profª Drª Inês Alcatraz Marocco no Departamento de Arte Dramática. Também participou da pesquisa Do ritual religioso ao ritual dramático: a construção da atuação teatral a partir da performance ritual com supervisor do Profº. Mrs. Francisco de Almeida Junior no mesmo departamento. Atualmente trabalha no projeto intitulado MAPA, com estreia prevista para o final do ano, com direção de Tatiana Vinhais.