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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Histórias de amor líquido por Iuri Wander

Histórias de amor líquido*
"São três histórias de amor líquido. Três histórias que Walter Daguerre criou inspirado pela obra de Zygmunt Bauman, sociólogo polonês com mais de cinquenta livros publicados, a maioria abordando a falta de contornos definidos nas relações humanas, a existência líquida, o trabalho líquido, amizades líquidas, amores líquidos. Nesta aventura, vamos compartilhar a concepção de Bauman sobre o amor que não consegue ter vínculos sem se sentir aprisionado, essa impossibilidade de avaliar com maturidade um relacionamento, imaginando sempre que devemos estar perdendo alguma coisa melhor".
Este fragmento, extraído do programa da peça e escrito por Paulo José, copiei do blog de Lionel Fischer (critico e professor de teatro) pois não tive acesso ao programa. Sim, li algumas críticas sobre este espetáculo antes de escrever meu comentário, pra ver se eu tinha entendido o que vi no Teatro do CIEE dia 15 de setembro de 2011, dentro da programação do 18° Porto Alegre Em Cena. E realmente discordo de tudo que li. Linguagem de novela, tudo bem superficial. Três histórias diferentes com a mesma relação. Na primeira, da Rua sem saída, o guarda noturno e uma mulher com o mesmo problema de insônia se encontram ao lado de uma das cancelas da rua num clima taciturno. Conversam pouco e acabam se identificando pelo mesmo motivo, a perda de um grande amor. Na segunda história, da Corretora, o amor é mais obducto. A consultora de relacionamentos amorosos chamada Maritza, é convidada por um empresário ambicioso a reestruturar a imagem de um jogador de futebol, estereotipado, como sempre, de burro, que está sendo acusado de matar uma jovem num acidente automobilístico. E por fim, A casa da ponte. Ricardo e Sofia estão na casa de campo que Ricardo herdou dos pais. Com a vida útil das baterias dos aparelhos eletrônicos no zero, eles resolvem conversar e refletir sobre o relacionamento aberto do casal.
A projeção usada para fazer o cenário ao fundo foi o que mais me encantou, aliás, acabou tirando o foco das conversas em vários momentos, eu prestava mais atenção na ponte projetada ou nas câmeras filmando ao vivo os atores do que no texto em si.
O espetáculo não atingiu, em mim, o que li em outros comentários. Talvez não tenha entendido esta linguagem mais parecida com uma novela. Conversas no celular a todo o momento, marcações certinhas. A cada troca de cena parecia que viria o intervalo comercial. Se tratando de Paulo José, esperava mais.
* Iuri Wander é produtor cultural

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Devolução industrial por Iuri Wander

Devolução industrial*
Sábado à tarde, 10 de setembro, tive o prazer de assistir um espetáculo lírico. Devolução Industrial conta o surgimento e a evolução das espécies de uma forma muito criativa e encantadora. Desde o “big bang” até a construção da máquina a vapor. E no meio de tudo isso, uma sopa é preparada durante o espetáculo e servida no final. Como? Com as descobertas da evolução!
Com poucas palavras e sem uma história linear, o que o público vê é a utilização de recursos simples de uma forma criativa. Figurinos de muito bom gosto. Os três personagens em perfeita sintonia. Um ser “místico” começa narrando a criação do planeta e durante suas aparições na peça produz alguns “milagres” (engraçadíssimos) como suspender um cálice no ar, fazer cair uma cascata do céu e transformar água em vinho. O “Homem Sapiens” e a “Mulher Sapiens” entram em cena para a grande evolução da espécie, aprendem a plantar, colher, inventam a roda, constroem edifícios, brigam por objetos, trabalham juntos...como uma civilização. Instrumentos de sopro feitos com canos e garrafas plásticas, uma locomotiva construída com cubos de ferro encaixados a um triciclo, um moinho funcional faz um instrumento feito de garrafas pet produzir sons para uma melodia, entre outras coisas criativas do espetáculo. O cenário é bem dinâmico, tudo que esta no palco tem mais de uma função, inclusive o vapor da panela de pressão que faz a sopa durante os 50min de espetáculos, ele serve pra mover um mecanismo feito com um aro de bicicleta e colheres dando movimento à locomotiva cheia de apitos feitos de tubos de PVC.
Teatro, engenharia, circo, música, ilusionismo...tudo dentro de uma panela gigante de poesia. As crianças se deliciam e os adultos mais ainda. Um grande espetáculo!
* Iuri Wander é produtor cultural

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Labirinto por Iuri Wander

Labirinto*
Segundo dia de festival. Fui ao Teatro do CIEE ver Labirinto, um espetáculo que reúne três textos de José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Qorpo-Santo. Sem conhecer nenhum texto, fui motivado pela entrevista que o diretor do espetáculo Moacir Chaves tinha concebido ao Roger Lerina um dia antes no programa Camarote TVCOM. Ele disse que montar Qorpo-Santo era muito difícil e que para eles (o grupo) tinha sido fácil, tranquilo. Não tive essa impressão após o término do espetáculo.
O cenário com cadeiras, bem distribuídas; sem muitas cores na luz. Achei que o texto seria bem dito, com verdade, presença. E não consegui ver isso, eu, público. Como proposta de encenação, acredito que seja boa. Até os primeiros 40 minutos é interessante, depois fica repetitivo. É quase uma leitura dramática. Mesmo com um narrador descrevendo as cenas, não consegui identificar os textos, só as cenas fechadas. Talvez por não conhecer Qorpo-Santo ou pela montagem que não me fez entender. Não sou obrigado a conhecer o autor para entender melhor o espetáculo. Alguns atores não alcançavam a projeção de voz adequada, então gritavam. A interpretação se torna um pouco apelativa em pequenos momentos e nenhum do elenco se destaca positivamente.
* Iuri Wander é produtor cultural

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Iuri Wander #5: Hilda Hilst ou o espírito da coisa













Hilda “Furacão”

Domingo, penúltimo dia de festival, convidei uma amiga pra ir ao show da Ute Lemper e ela disse que já tinha ingresso pra ver Hilda Hilst. Botei na balança os dois espetáculos. Último tango em Berlim no teatro do SESI com ingressos esgotados, uma das poucas oportunidades pra ver um show desse nível com milhões de pessoas por lá ou Hilda Hilst no teatro do SESC com bem menos gente e a companhia da minha amiga? Fui ao teatro do SESC com dúvidas de arrependimento. No fim, me surpreendi! Com o espetáculo, é claro.

Sem conhecer nenhuma das inúmeras obras desta escritora brasileira, me senti um ignorante. Hilda Hilst (1930-2004) tem uma história e tanto. Nascida em Jaú, São Paulo, entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1948, saindo de lá em 1952 formada. Em 1966 mudou-se para a Casa do Sol, uma chácara perto de Campinas, onde hoje funciona o Instituto Hilda Hilst – Centro de Estudos Casa do Sol [http://www.hildahilst.com.br/]. Durante quase cinquenta anos escrevendo, Hilda recebeu os mais importantes prêmios literários do Brasil.

O espetáculo é uma biografia/homenagem que deu o prêmio APCA de melhor atriz, em 2009, para Rosaly Papadopol. Merecido. Preenchendo todo o espaço do palco com uma atuação de luxo, a atriz conversa com a plateia em vários momentos e consegue, com seu carisma, prender a atenção do público, alternando altos e baixos, risos e choros. O cenário é simples: uma árvore sem folhas, duas mesas, uma máquina de escrever (pouco utilizada), alguns livros e uma garrafa de vinho ou whisky. A voz em off de um dos maiores diretores do Brasil, Antonio Abujamra, no papel do pai de Hilda, da um ar sutil de respeito hierárquico.

O resultado é muito positivo. Acredito que mais pessoas, como eu, nunca tinham ouvido falar de Hilda Hilst e puderam saber um pouco da história desta escritora, despertando o interesse de procurar mais sobre essa grande mulher de personalidade forte.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Iuri Wander #4: As sete caras da verdade


Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Afinadíssimo


As sete caras da verdade, ópera cômica de Nico Nicolaiéwsky em sua primeira experiência como diretor cênico, traz ao palco quatro solistas e um coral de trinta vozes do grupo Expresso 25, com uma orquestra de vinte integrantes regida por Fernando Cordella. A ópera, que começou a ser escrita em 1989, foi lançada em cd em 2003 com acompanhamento de um livrinho ilustrando a história e só agora foi encenada.

Inicia com Rodolfo (Nicolaiéwsky) armado com uma pistola a fim de matar Alencar (Carlos Qareca). Um narrador entra em cena (Ricardo Barpp) disposto a conduzir as ações de acordo com seus interesses. A trama ainda conta com uma mulher tagarela (Adriana Deffenti), esposa de Alencar.

Nos 50 minutos de espetáculo, o coral não desafina um segundo se quer, entre movimentações e saídas da bancada. A maquiagem e o figurino muito bem elaborados dão um tom caricato aos personagens. Particularmente, não é o meu tipo de espetáculo, mas devo admitir que é “bem bolado” e engraçado, pelo menos, para quase todo o público, que gargalhava sem parar.

Um espetáculo bem divertido para todas as idades.

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Iuri Wander é comerciante.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Iuri Wander #2:



Confirmação!

Um dos espetáculos mais esperados deste festival traz o grande diretor Eimuntas Nekrosius e sua companhia Meno Fortas (Fortaleza da Arte), criada em Vilna, capital da Lituânia, em 1998, a Porto Alegre pela quarta vez. Depois de Hamlet (2001) e Othello (2006), de Shakespeare; e Fausto (2008), de Goethe; é a vez de Fiodór Dostoievski (1821-1881) ser trazido ao palco com O idiota, escrito entre 1867 e 1868.

Nekrosius transforma os 50 capítulos e quase 700 páginas de O idiota em 5 horas de espetáculo, com 4 atos e aproximadamente duas mil falas, 3 intervalos de 15 minutos perfeitamente encaixados no arco da narrativa, que passam voando aos olhos do espectador. É a história de um príncipe que, ao voltar de um tratamento de epilepsia, na Suíça, espera receber, em sua terra natal, São Petersburgo, a herança de sua família, já toda falecida. Enfrenta, então, os problemas da sociedade egoísta e torpe. O príncipe Míchkin sofre os mártires de sua personalidade bondosa e incauta. Com quatro personagens centrais, a trama se desenvolve gradualmente entre os atos.

Os atores em perfeita sincronia de atuação. Nenhum destoando. A música ambiente é constante. Ora coral, ora violinos, com algumas intervenções de algum ator no piano colocado num canto do palco. O cenário com poucos objetos conta com algumas camas de grades, cadeiras, um espelho, um piano, obviamente, e uma porta. Tudo muito bem utilizado.

O príncipe Míchkin é o primeiro personagem revelado pela trama. Envolto por um cobertor, ele entra em cena carregado numa maca por dois homens e é jogado ao chão. Uma conversa breve com Rogójin finda o preâmbulo. Logo após, entra em cena Nastácia Filíppovna com sua beleza sedutora e persuasiva para com os homens no palco (e na plateia). Os personagens correm de um lado para o outro em vários momentos, principalmente o príncipe Míchkin. Um estouro de rojão, literalmente, acorda os que estavam dormindo na plateia e acende os que estão em cena. Depois de uma negociação com Rogójin, Nastácia sede aos cem mil roblos e, em seguida, é alvo de uma chuva de moedas atiradas pelos personagens em cena. Depois de uma hora e trinta minutos chega o primeiro intervalo com o fim do primeiro ato. Aplausos da plateia e tempo para esticar as pernas, ir ao banheiro, fazer uma boquinha.

As cortinas se abrem, começa o segundo ato. A intensidade dos diálogos sobe. Começa a disputa por Nastácia. Os homens em cena, todos bem peculiares, competem pela mão da bela Nastácia, que julga as atrocidades contadas por cada um dos personagens tentando conquista-lá. Para cada participante da disputa, Nastácia derrama uma taça de champagne sobre o móvel que serve de mesa para a garrafa. Muita correria pelo palco, movimentação de cadeiras e veracidade marcam esta disputa. Fim do segundo ato com a narrativa no climax.

Inicia o terceiro ato. O clima tranquilo do diálogo do príncipe Míchkin com Aglaya numa praça com pica-paus em torno das árvores é bem romântico. E, com 3 horas de peça, os atores mostram estar em plena forma. A tensão do segundo ato vai baixando. Tem início o último intervalo.

Todos voltam aos seus lugares para saber o final da história. Começa a parte final. Mesa ao centro. Os quatro personagens centrais sentados sobre ela. Bons diálogos. Um espelho suspenso no centro do palco gira refletindo as luzes na plateia. Nastácia pega o espelho e roda com ele por todo o palco. Final encantador. Confirmando as expectativas sobre os Lituanos.

Foi o que pude entender. Em alguns momentos, a movimentação dos atores em cena prejudicava a leitura das legendas, sem prestar atenção nas duas coisas. De resto, as informações passadas eram factíveis de entender para o público em geral, que é o meu caso.

Sobre Eimuntas Nekrosius, parafraseando Eugênio Barba: “Eis a marca de um artista de teatro que entende claramente a dramaturgia das ações e a dramaturgia das palavras”.

Um espetáculo para a história do Porto Alegre Em Cena.


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Iuri Wander é comerciante.

Iuri Wander #3: EGO-tik



Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Encantador


EGO-tik, sem dúvida nenhuma, é um dos melhores espetáculos que vi neste festival. Isso que já assisti a dezoito. E esse nem estava na minha lista. Fui pelas indicações de quem viu no primeiro dia e se encantou.

Texto, coreografia e interpretação de Asier Zabaleta. O espetáculo é uma autobiografia e já foi apresentado em diversos países com boa aceitação.

Não sou coreógrafo. Não sou bailarino. Não sou ator. Não sou diretor. Não faço teatro! Também não sou crítico. Sou apenas um espectador expondo minha opinião. Por isso, não tenho uma visão técnica. Vejo exatamente o que o artista quer passar para o público em geral (ou não). E, neste espetáculo, Asier consegue atingir seu objetivo tocando o maior numero de pessoas possível. Alguns saem chorando, outros inquietos, uns se identificam com a solidão do personagem em cena. Acredito que algumas pessoas ligadas ao teatro e com visões mais técnicas percam (às vezes) o sentido da beleza passada no palco e prestem mais atenção nos detalhes de movimentação, de luz, som, figurino, etc, não se deixando tocar pela apresentação. É claro que tudo é importante, mas pequenos erros são irrelevantes.

O espetáculo consiste única e exclusivamente da individualidade do homem. A fragilidade, a insegurança, o medo, a solidão de cada um. A originalidade dos movimentos, quebradas de articulações. O processo dos tijolos que, de cama de faquir até virar uma prisão, passa por aste para caminhar no infinito, se torna pedestal para a glória e, por fim, vira a repressão solitária. A utilização dos vídeos: tudo é encantador e marcante. Em vários momentos, me identifiquei com o personagem e acredito que muitas pessoas também. Por isso, saem tão tocadas.

Uma pena que, no bate-papo, na Casa de Teatro de Porto Alegre, com Asier Zabaleta, tinha poucas pessoas. Muitos perderam a chance de conversar e ver de perto este gênio da expressão corporal e seu carisma. Pessoas que perderam a conversa dizem que o bate-papo estava mal divulgado. Está na grade de programação de todas as 15 mil revistas espalhadas pela cidade! Oportunidade única que pessoas que se interessaram pelo trabalho do artista perderam ao se deixar levar pela preguiça de sair de casa, num feriado, um pouco antes do seu chimarrão na Redenção.


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Iuri Wander é comerciante.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Iuri Wander #1: Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Foto: Creative/PMPA

Não digno

Grandes expectativas para a adaptação dos brasileiros radicados na Espanha Roberto Cordovani e Eisenhover Moreno. Clássico da cultura ango-saxônica escrito pelo britânico Robert Louis Stevenson.

O preâmbulo lacônico mantém as expectativas da empolada sinopse com ar sombrio e música clichê de suspense. Assim que os atores entram em cena, o espetáculo declina. A cada troca de cena, a música toma conta do palco tomada por blackouts constantes. Quatorze intervenções de vídeo são usadas para auxiliar na troca dos quarenta e quatro figurinos e dezoito perucas. Trinta e seis inserções musicais ajudam a não enfastiar o público. O escárnio de algumas pessoas faz com que deixem suas poltronas durante o espetáculo.

As trezentas e vinte trocas de luz não correspondem ao esperado, com penumbras em quase todas as cenas e focos circulares dão ares de conclusão de oficina de montagem, não digno de um grande festival como este em que se apresenta.

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Iuri Wander é comerciante.