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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Guilherme Nervo #1: Antígonas


Foto: Guilherme Santos

Através do riso

“Os homens constróem pontes, jurando que está nascendo um rio”, diz Ingrid Pelicori, enquanto massageia o rosto de Claudia Tomás. São as atrizes argentinas de Antígonas, sem dúvida, a mais profunda e, ao mesmo tempo, espontânea conquista cênica a que assisti até agora. E olha que ainda estamos na segunda semana do Festival! O texto de Alberto Muñoz possui quatro momentos/atos/narrativas, cada qual com o seu ambiente: um salão de beleza, uma aula de introdução à técnica vocal, uma viagem de balsa e uma consulta de fisioterapia. Para mesclar as narrativas, a diretora Leonor Manso optou por uma escura luz violeta e uma trilha sonora marcada pela tensão. Já, no campo da direção geral, a principal qualidade que salta aos olhos é a paz desperta. Ela aproveita os sessenta minutos do espetáculo como ninguém, sem deixar espaço para afobação ou estrelismo. São duas mulheres imbuídas pelo próprio trabalho, sem necessidade de disputar a atenção do público. Fazem uso apenas da atuação encarnada: suas reações são plenamente críveis e bem lapidadas. É como desfrutar de uma comida com a medida exata de tempero.

A tranquilidade da direção repercute em todos os outros aspectos da montagem: não há muitas trocas de iluminação; o figurino é sóbrio, composto por vestidos lisos em um tom prateado; o cenário (que muito me agrada) é versátil e econômico, formado por um divã de madeira (utilizado de diferentes formas em cada narrativa) e uma plantinha de vaso; para finalizar, praticamente não há música de fundo. Tudo isso a fim de que o foco, a sustentação de Antigonas, seja a habilidade representativa.

A frase com a qual iniciei minha análise (dita pela personagem de Ingrid Pelicori) representa o desejo masculino de disputar com os deuses o poder da criação. Bip! Encontra-se aí uma possível ligação com a peça do grego Sófocles, na qual Creonte proíbe que enterrem o corpo de Polinices, o irmão de Antígona. Entretanto, ela não hesita ao desobedecê-lo, enterrando o irmão. Seu objetivo era cumprir os rituais fúnebres, para que a alma de Polinices não vagasse eternamente. Esse rito transcende qualquer proibição humana, é a lei divina versus a lei humana. Ao sair do teatro, o título Antígonas estava suspenso (obscuro) no ar, somente agora, digerindo a – reflexiva! – encenação argentina, pude agarrar o título no ar, ou pelo menos algumas letras. Estou certo de que é o mito que está sob a ótica da montagem, não o contrário.

A primeira narrativa aborda a preocupação neurótica feminina em busca da beleza, motivada pela opressão masculina. A ornamentação estética é uma forma de equalizar-se aos homens. É necessário sofrer em prol da beleza, entretanto, uma ajuda a outra, o que visualizamos no antológico enquadramento à La Pietá. E, se a mulher almeja ser homem, este almeja ser deus. Por isso a imagem de Cristo é equiparada à figura feminina, e Deus, à figura masculina. Quem diz isso é a personagem de Ingrid, ao passo que mexe o creme em um pote de metal, causando o mesmo som do badalar dos sinos de uma igreja. Então me veio uma comparação improvável: tanto a igreja quanto o teatro têm o poder de reunião.

A segunda narrativa é muito divertida - de fato todo o espetáculo é permeado pelo riso e pela descontração -, explora a relação entre uma arrogante professora de canto e sua aluna, Julia. Enquanto a professora obcecada (Claudia Tomás) fala de técnica e da primazia da música, Julia (Ingrid Pelicori) quer apenas o mágico. É a razão versus a emoção, a rigidez versus a liberdade. A seguir, nos é apresentada a terceira narrativa: conduzidas por uma balsa (engenhosamente adaptada ao divã), elas trocam palavras de rancor, desnudando sua relação; aqui usam vestes gregas para demonstrar a atemporalidade dos conflitos humanos, que pode muito bem girar em torno da inveja de uma pelas tetas da outra! A quarta e última narrativa expõe a consulta entre uma fisioterapeuta (Ingrid P.) e sua paciente (Claudia T.) imobilizada. Trata-se de um belíssimo exemplo da administração adequada de múltiplas facetas, conseguindo passar de uma personagem para a outra sem deixar resquícios. Enquanto, a fisioterapeuta discursa a respeito do movimento mentalizado das pernas, a paciente regurgita bulas de remédio – los prospectos –, afirmando que o mundo está fora do alcance das crianças. A fisioterapeuta modifica essa frase afirmando que o mundo está fora do alcance de todos! Pronto, agora ela também é paciente.

Enquanto os gremistas iam para o estádio Olímpico, eu, o cara das aspirações artísticas, ia ao Teatro Bruno Kiefer. Hoje, ser homem exige menos do que antes, ainda que existam padrões comportamentais muito presentes em nosso sexo: ser macho é ser firme e intolerante, é não titubear. A palavra "homem" carrega em seu lombo as palavras "força" e “auto-afirmação”, sendo talvez mais pesada - culturalmente - do que a palavra “mulher”, que está mais livre de amarras. Às mulheres, cabe a flexibilidade, a tolerância, a vaidade. Ser fêmea é provocar alvoroço, é aproveitar-se da imagem de fragilidade para tornar-se vítima.

Para mim, os sexos esperam demais uns dos outros. Mais do que isso, estão envenenados por imposições construídas de forma cultural. O futebol é tido como um esporte viril por conjugar elementos como firmeza, rapidez, força, suor e objetividade. Já o teatro, é tido como uma manifestação mais subjetiva. São necessárias percepção e sensibilidade para admirá-lo ou mesmo respeitá-lo. Agora vem a pergunta: por que as identidades do masculino e do feminino são tão divididas em nossa sociedade? Cada ser humano é um complexo de elementos femininos e masculinos que, ao invés de entrarem em conflito, deveriam ser integrados e estimulados, não dependendo do sexo para isso, e sim da afinidade individual. É uma busca pela fluidez, tal como o rio, que não divide suas águas ao a correr pela terra. A divisão de papeis sociais, a fim de estruturar famílias e relações saudáveis, proporciona não mais do que efeitos colaterais: desgasta e desestrutura. As mulheres de Antígonas, através do riso e da excelência artística, vieram nos lembrar de que esse sistema falido perdura.

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Guilherme Nervo é crítico de teatro do site www.poashow.com.br

sábado, 18 de setembro de 2010

Artur José Pinto: Antígonas


Foto: Guilherme Santos / PMPA

Antígonas


"Deixa-me sofrer o tremendo castigo de minha temeridade! Por muito que eu sofra, nunca serei privada de uma bela morte." Sófocles - Antígona , I, 20


Advirto que, os pecados cometidos contra o estilo se devem ao fato de que cumpro, no mundo, o papel de "fazedor" e não de "criticador" teatral. Todavia, recebi o convite do Rodrigo Monteiro como um agradável desafio. Então, lá vai.

Ao intitular o espetáculo, o encenador abre a porta para uma inevitável comparação com a Antígona de Sófocles, a terceira parte da trilogia tebana. No original, Antígona, filha de Édipo e de Jocasta, desafia seu tio, Creonte, rei de Tebas, quando esse ordena que o corpo de Polinice jaza insepulto. Polinice é irmão de Antígona, junto com Etéocles e Ismênia. Ao afrontar Creonte, na tentativa de tirar-lhe o trono, Polinice foi condenado a ter seu corpo servido de pasto aos animais e à corrosão do tempo, a fim de que sua alma jamais descesse ao Hades. Desesperada, Antígona ignorou as ameaças do tio e realizou, por duas vezes, a cerimônia fúnebre do irmão. Enfurecido, Creonte condena Antigona a morrer emparedada, ignorando os apelos da mulher, do filho e dos sábios. Arrependido, o rei tarda em tentar livrar Antígona de sua sentença. Encontra-a enforcada. Antes de cometer os atos que levaram a sua condenação, Antígona foi confrontada por Ismênia, que ponderava as consequências do comportamento da irmã.

São quatro, as Antígonas de Alberto Muñoz. E, também, quatro Ismênias. Em quatro textos independentes, vemos as duas personagens residirem, juntas, na mesma alma. As inquietações, as necessidades, os sonhos, as buscas de um espírito múltiplo, complexo e sensível. Que trava batalhas internas, que pondera, que conspira e que, em alguns caso, se resigna. Resigna-se, inclusive, a perecer, como o caso de personagem de Sófocles, por seus sentimentos de compaixão, por sua defesa da família.

A direção de Leonor Manso é cuidadosa com a narrativa, precisa, essencial. Sua concepção do espetáculo reforça a mão do autor para a poesia. Sem descuidar do tema, vale-se do humor, bem-vindo, na dose certa.

O figurino de Elsa Berta Keller, de cor neutra, vale-se de acessórios para imprimir a alternância das personagens.

A luz do espetáculo, de Pedro Zambrelli, é competente. Colabora com a narrativa, ao estabelecer os pontos essenciais da cena. Utiliza, por vezes, matizes violáceas, azuis, para esfriar as cenas, alternando com gerais e pontos de luz clara para imprimir energia. No início da cena da aula de canto, ilumina somente rosto da personagem que entra, com absoluta precisão de marca.

O trabalho das atrizes - Ingrid Pelicori e Claudia Tomas é precioso. Ambas tem domínio da técnica. A projeção das vozes é perfeita. O ritmo, a simetria, a clareza das atuações convidam o público a acompanhá-las, com prazer. Alternam emoções com precisão e delicadeza. Isso faz com que se estabeleça a unidade do espetáculo, embora se trate de quatro episódios distintos.

O som é, igualmente, competente. A trilha e as músicas especialmente compostas dão o clima apropriado à narrativa. a trilha incidental estabelece, principalmente nas trocas de cena, uma "cama" de sons graves e envolventes. A canção executada à capela tem a propriedade de criar todo o cenário invisível, onde aquelas personagens vivem.

A solução do cenário é simples e criativa. Uma "gangorra" reforça a idéia de altos e baixos. Serve de maca, de banco, de barco. Embora bem executadas, as trocas de posição da "gangorra" poderiam ter outra marcação. Por questão particular de estilo, entendo como excessivos os back-outs, em cada troca.

Quando terminou a sessão, tive a impressão de estar saindo de um espetáculo de antigamente. Dos anos 1970. Em termos estéticos, utiliza fórmulas conhecidas. Todavia, isso não invalida a sua qualidade. Novidade é quando vemos o velho ser bem feito.

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Texto: Alberto Muñoz / Direção: Leonor Manso / Elenco: Ingrid Pelicori e Claudia Tomás / Figurino: Elsa Keller Amanda Carvalho / Cenário: Leonor Manso / Iluminação e Trilha sonora: Pedro Zambrelli / Música: Alberto Muñoz e Diego Vila / Canção original: “Bye Bye Maciel”/ Piano: Diego Vila / Produção: Carolina Cacciabue / Realização: A & B Realizaciones Escenográficas / Duração: 1h / Classificação: livre

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Artur José Pinto é ator, dramaturgo, roteirista e diretor teatral.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Antígonas - Buenos Aires


Universo feminino: estamos numa nave espacial a conhecer os planetas, os astros, os asteróides que o compõe. Qualquer coisa que se apresente dizendo se tratar de um universo (entre tantos) informa aquele que o visita sobre a importância de descobrir. Olhos atentos, pois estaremos investigando. Mas já não conhecemos (as) mulheres? Elas podem ser nossas mães, nossas colegas, nossas namoradas, professoras, amigas, vizinhas de porta. Podemos encontrar com elas em qualquer lugar, até mesmo no espelho, mas em “Antígonas” olharemos para elas como se nunca as tivéssemos visto. Porque essa experiência de olhar para o outro é, na verdade, um meio de produzir um jeito de olhar para nós mesmos sob um ponto de vista nunca dantes usado. “Antígonas” não fala de mulheres. Mas nos ajuda a ter um olhar feminino para olhar para nós mesmo, mulheres ou não.

Entre a complexidade e a imensidão do que há de feminino no nosso próprio universo, a produção argentina dirigida por Leonor Manso nos mostra a relação entre a constituição do ser mulher e o enigma. O misterioso, o proibido, aquilo que está além das fronteiras, da compreensão, da sorte, da razão e do sentimento. Não há como desvendar um enigma sem acabar com ele, sem destruí-lo. As quatro histórias que nos são contadas, ao longo dos 60 minutos de espetáculo, esgueiram-se pelo enigma, mas não se aproximam dele, não o destroem. Se a melhor forma de valorizar a fala é silenciar, beirar o mistério é valorizá-lo. O espectador, diante dessas narrativas, provoca, atende, busca o desconhecido e dele se serve. Mas não o resolve. Não o destrói. O mistério é sempre renovado e presente.

Ingrid Pelicori e Claudia Tomás, cada uma com um currículo que deixa ver mais de trinta anos dedicado ao teatro, ao cinema e à televisão de seu país, são o universo que essa história não mais que coteja. Duas atrizes, duas mulheres. Nada mais visto como tudo isso. Suas presenças em pontos específicos do palco apontam para suas ausências em outros pontos do mesmo lugar cênico. Os personagens que elas interpretam nos questionam sobre os personagens que não surgem nas histórias. As cores que vemos nos perguntam a respeito das cores que não vemos. A luz convive com a sombra. A instransponível regra creôntica de não poder enterrar o irmão Polinices, também filho de Édipo, na tragédia Sófocles, olha para a jovem Antígona e lhe provoca. Ao atravessá-la, dando descanso ao corpo morto, Antígona viva se sacrifica. Apenas pode estar num lugar, quem não está em nenhum outro. Não há meia vida, tampouco meia morte. No entanto, a mulher como universo consegue ser onipresente porque também pode ser oniausente. Alberto Muñoz ( 3º Poa em Cena: "Los Ultimos Días de Johnny Weissmuller"/7º Poa em Cena: "Abel Cazador de Cain"), homem, não menos renomado que as atrizes e diretora, ao recuperar o clássico construindo dramas contemporâneos, nos mostra a intersecção que foge ao maniqueísmo, à dualidade do bem e do mal, do aqui e do acolá, e nos fala da complexidade de cada dia de hoje e de amanhã. Algo que não entendemos, mas que vivenciamos.

A sensibilidade não está no texto, como também não está na escolha do elenco. O feminino não está no universo, ou então pensaríamos não haver também universo masculino. O sutil, e belo, está na direção de Leonor Manso, que foi para voltar e contar o que viu. Agora, e desde a estréia que aconteceu no último outubro em Buenos Aires, nos leva a conhecer esse lugar feminino, com já dissemos, tão cheio de planetas, astros, asteróides. Quando uma personagem sai de um lugar e vai para outro, sua falta lá é vista por quem investiga. Sua presença aqui é sentida por quem ouve. Assim, a poética de “Antígonas”, espetáculo cuja assistência é um convite do 17º Porto Alegre em Cena, está no trato da matéria humana como universo sem planícies nem caminhos, sem montes nem lagos. A existência como lugar não-lugar que se concretiza no movimento da voz, no deslize pelas situações, na interpretação de quatro histórias que se substituem e se trocam sendo diferentes, na desritualização do cotidiano pela ritualização do comum,na marca que morre hoje mas seguirá viva amanhã.

Percorre o espetáculo um som que nos lembra o ruído advindo de um caracol. Um caracol que sente saudades do mar e que não tem medo de impô-lo a quem o escuta em terra. O mar está em todo lugar, mesmo que à espreita do mistério que está por trás dessa presença sua que não vemos. Mas sentimos.

Ficha Técnica:
Texto: Alberto Muñoz
Elenco: Ingrid Pelicori e Claudia Tomás
Cenário: Leonor Mans
Realização Cenográfica: A & B Realizaciones Escenográficas
Desenho de Luz e Som: Pedro Zambrelli
“Cuencos”: Maia Mónaco
Canção Original “Bye Bye Maciel”
Letra: Alberto Muñoz
Música: Alberto Muñoz e Diego Vila
Piano: Diego Vila
Figurino: Elsa Keller
Fotografia: Magdalena Viggiani
Assistente de direção e produção executiva: Carolina Cacciabue
Direção Geral: Leonor Manso

Duração: 60 minutos.
Estreou 05 de outubro de 2010.