Mostrando postagens com marcador Os credores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Os credores. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de setembro de 2011

Os credores por Rodrigo Monteiro

Os credores*

Em um determinado momento, na fileira atrás de mim, observei dois espectadores dormindo. Na minha fila, mais dois. Na plateia da frente (a encenação se organiza em galeria, isto é, a audiência se organiza em dois lados com a cena acontecendo no meio. O espectador vê a cena, mas também vê, além dela, a outra plateia), três pessoas de olhos fechados deitadas sobre os próprios ombros ou sobre o corpo da pessoa ao lado. O espetáculo Os credores, cujo texto foi escrito pelo dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) em 1888, participante do 18º Porto Alegre em Cena, deixa a seguinte dúvida: por que as pessoas dormiram ou ficaram sonolentas na apresentação a que eu assisti? A hipótese de que Strindberg não diz nada para o público de hoje é refutável por qualquer um que entenda um pouco de arte. Logo, o tédio do espetáculo só tem um responsável: o Grupo TAPA, dirigido por Eduardo Tolentino. De que forma é possível atribuir-lhe a culpa, promovendo uma análise do objeto estético teatral em questão? Indo às fontes. Aqui algumas hipóteses.
Strindberg é considerado o pai do teatro expressionista, sendo algumas de suas obras lidas a partir do gênero realista naturalista e outras mais tardias via simbolismo. Os credores está bem no meio dessa encruzilhada. Seu cenário é realista, seus personagens são naturalistas, mas a situação, disposta na forma tragicômica, é expressionista. Algumas marcas importantes: três personagens se encontram no hotel: o ex, o atual marido e a esposa. O que pode parecer um simples vaudeville se torna retrato das relações humanas que, talvez, só o bom teatro realista pode fornecer. Na abertura, o atual marido, Adolf, não sabe que Gustav é o ex de Tekla, sua esposa. Na sequência, Tekla não sabe que Gustav está no quarto ao lado ouvindo a conversa entre ela e o marido. No final, Tekla não sabe que Adolf está no quarto ao lado ouvindo a conversa entre ela e o ex-marido. Nos dois últimos pequenos atos, há uma peça dentro da peça e o mais importante desse jogo é que a parte principal, Tekla, desconhece isso. Esse, na verdade, é um recado da obra aos futuros realizadores: no teatro realista, a quarta parede precisa ser mantida. O expressionismo está na situação e não na realização.
Eduardo Tolentino, quando adapta Os credores para uma situação de galeria e organiza os atores para que eles, em vários momentos, busquem no público um certo contato visual, inibe qualquer chance de catarse, diminui as forças do texto, deixa a situação por demais previsível e, assim, muito entediante. O português extremamente correto dos personagens não foi adaptado para a nova situação. O figurino permanece bastante realista também. A situação de prisão vivida pelos personagens é marca naturalista mantida igualmente. O problema está no jogo entre os personagens e na relação com o público, esses sinais de que estamos diante de um novo ponto de vista sobre a obra.
Sergio Mastropasqua interpreta Gustavo, o ex-marido. Dos três atores, é quem sustenta a construção menos interessante justamente porque é quem mais joga (ou tenta jogar) com o público. Suas falas são ditas de forma irônica em várias ocasiões, a retórica se apresenta com pouca variação de tom, os gestos são enrijecidos, marcados, negativamente “teatrais”, nada naturais e, por tudo isso, bastante inverossímeis. O ator se movimenta no palco de forma muito precisa deixando ainda mais falsa sua performance. José Roberto Jardim (Adolf, o atual marido) e Sandra Corveloni (Tekla, a esposa), aparentemente mais concentrados no interior das quatro paredes, têm melhores resultados, embora sustentem marcas rígidas e pausas pouco críveis, sinais de que todos esses elementos concretizam uma concepção da direção. Bastante rica é a participação de Conrado Sardinha. Sem nenhuma fala e com atos a princípio bastante inexpressivos, o ator eleva a qualidade da peça nas poucas oportunidades que tem: seus olhares manifestam um personagem real, seu movimento tende ao natural e o modo como ele olha as cenas não traz nenhum registro de que estamos ali a observar-lhe.
Novos pontos de vista sobre obras são bem vindos sempre que estruturados em todos ou em vários aspectos necessários a sua viabilização. O contrário disso é desequilíbrio e insucesso. Nesse caso, monotonia.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os credores por Renato Mendonça

Os credores ficou devendo*
Impossível não sentar na plateia da Álvaro Moreyra sem levar em conta o que eu já sabia sobre Eduardo Tolentino e o TAPA: um grupo coeso e coerente, cujos trabalhos se caracterizam pela excelente direção de atores e pelo cuidado ao remontagem de autores clássicos, como Vianninha, Tchekov, Plinio Marcos, Oscar Wilde, Nelson Rodrigues e Molière. O gênio da vez era Auguste Strindberg (1849-1912), e o texto, Os credores. As perspectivas eram as melhores, mas Os credores ficou devendo.
A trama escrita em 1888 segue o figurino impiedoso de Strindberg, especialista em expor as mazelas de instituições como a Família e o Casamento. Uma amostra da, digamos, reserva que o dramaturgo sueco dedicava às instituições pode ser medida por uma de suas frases mais famosas: “Família, tu és a morada de todos os vícios da sociedade; tu és a casa de repouso das mulheres que amam as suas asas, a prisão do pai de família e o inferno das crianças”.
Em Os credores, a “família” é composta pela exuberante Tekla (Sandra Corveloni), seu marido, o pintor e escultor Adolf (José Roberto Jardim), e seu ex-marido, Gustav (Sergio Mastropasqua). O descornado Gustav encontra Adolf por acaso em um hotel de praia, e envenena seu sucessor contra a independência de Tekla. O manipulador Gustav é tão inteligente como despeitado: garante a Adolf que vai seduzir Tekla, e o convida a que observe a conquista. Dito e feito. O resultado destroi por igual os três: Adolf perde de uma tacada só sua mulher, sua inspiração e seu orgulho de macho. A autoconfiante Tekla precisará conviver com a humilhação de ser prisoneira de seus instintos. O vencedor Gustav sai do jogo sem o “prêmio” maior: sua ex-mulher.
Esse triângulo desamoroso é contado com falas diretas e com humor ácido, animado por um elenco afiado, ambientado em cenário adequadamente despojado e sob luz rigorosa. Além disso, assistir a um texto de Strindberg é compromisso de qualquer um que queira conhecer os gigantes da dramaturgia ocidental. O que deu errado, então, em Os credores? Em minha opinião, a montagem se submete quase que absolutamente ao texto de Strindberg, abrindo mão de recursos de teatralidade que poderiam potencializar a guerra dos sexos travada em cena.
O palco pode ser descrito basicamente como um grande corredor dividido em três partes. Em uma das pontas, fica a sauna onde Gustav catequiza Adolf. No terço central, o espaço onde se dão os encontros e a sedução. A outra ponta é dominada por uma escultura em gelo, que derrete ao longo dos 80 minutos de peça. A escultura em gelo, por exemplo: chama a atenção, mas remete a quê? Ao relacionamento que se desgasta progressivamente? Ao objeto de desejo que se molda às necessidades de cada um? Nada que se imponha. O personagem de Adolf, como se para enfatizar a sua incapacidade de andar pelas próprias pernas e amar pelos próprios sentimentos, usa muletas e as abandona por alguns momentos ao final, quando vai (tentar) intimar Tekla. Previsível.
Fiquei com a incômoda sensação que não perceberia uma diferença considerável entre assistir à peça ou ler o texto em um livro, e isso é fatal quando se quer garantir o comprometimento e a parceria criativa do espectador. Os credores fica, assim, recomendado para quem é fã de carteirinha de teatro de texto, e se disponha a superar momentos de monotonia pela inquebrantável fé na literatura dramática. Quem busca uma linguagem contemporânea ou uma atualização formal da obra de Strindberg vai ficar no prejuízo.
Os credores está em cartaz ainda quinta e sexta-feira, às 23h, na Sala Álvaro Moreyra.
* Renato Mendonça é jornalista (relatomendonca.tumblr.com)