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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ido Tadmor por Guilherme Nervo


Mais jogo, menos técnica
Só o fato de ter visto o trabalho corporal do bailarino Ido Tadmor no Instituto Goethe, já fez valer a pena minha ida ao teatro. Bastaram dez minutos para eu ter a certeza de que era ali que eu deveria estar naquela noite. Mas o meu caso não é o caso de toda a plateia, eu estudo teatro e desenvolvo uma pesquisa com enfoque no corpo do ator-bailarino. Então qualquer trabalho corporal com profundidade de técnica é do meu interesse profissional e pessoal. Uma plateia também é composta por não estudantes de teatro, por pessoas que vão ao teatro para se divertir, para mudar o ponto de vista, para ser provocada ou mesmo para relaxar. 
As quatro coreografias exibidas com intervalos de tempo que fazem parte do espetáculo de dança de Israel, dificilmente causaram uma atmosfera de concentração para o público que não está acostumado a estudar expressão corporal. Acredito que a única coreografia que quebra essa condição seja a The empty room, de 26 minutos. Diferente das outras, existe o jogo entre dois bailarinos, Ido Tadmor e Shany Katzman, um casal que veste roupas similares aos bufões e que está discutindo sobre algo muito específico, sentados e gesticulando os braços sobre uma mesa. De repente eles começam a discutir sobre a relação, o que é uma hipótese minha, porque eles se utilizam de uma língua inventada, uma forma de grammelot extremamente sonoro e convincente, nos causando a sensação de que é uma língua oficial que desconhecemos. O momento de quebra é maravilhoso, entra em cena uma música dos Barbatuques, grupo brasileiro de percussão corporal. A coreografia se utilizou da música Andando pela África, do álbum O corpo do som. A sintonia entre as imagens propostas pelo movimento do corpo e pela música com fortes batidas é de alta qualidade, assim como a iluminação, na qual a cor vermelha é predominante. The empty room ultrapassa a técnica, revela um casal com medo de se relacionar e alcança uma atmosfera de poesia. O casal sai de cena lentamente, tremendo. 
As duas coreografias que reduzem a magia do espetáculo ao nível da pura exibição técnica do bailarino são Moonlight sonata e And Mr. Certamente elas possuem uma carga imagética que faz o expectador entrar numa viagem própria e única, às vezes rica e com propósito, às vezes não. Eu, por exemplo, vi a evolução do homem desde sua constituição mais primitiva. Entretanto não é um trabalho simples, achei mais conveniente e acessível visualizar elementos técnicos, como a abertura de perna que o bailarino apresenta, sua capacidade de tornar o corpo leve ou pesado dependendo do objetivo, sua dilatação ou redução da noção do tempo, seus equilíbrios e desequilíbrios, a qualidade e constante mutação das suas energias, entre outras coisas. A última coreografia chama-se Netta e foi dedicada à mãe do bailarino; a iluminação azul, que sugere um ambiente frio e escuro, contrapõe um corpo saudosista e caloroso, que carrega nas mãos uma xícara. A música tem um papel importante, é capaz de causar comoção e identificação por parte do público. Concluo que se o espetáculo de dança se utilizasse mais do jogo do que da exibição técnica, instigaria e levaria mais brilho à plateia.
*Guilherme Nervo é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

domingo, 16 de setembro de 2012

Deus da carnificina por Guilherme Nervo


Humor sem alma 
         Yasmina Reza é uma argelina radicada na França, dramaturga contemporânea, é a autora de Deus da carnificina, texto da montagem carioca de Emílio de Mello e também da obra cinematográfica de Roman Polanski. O texto dramático, além de fazer rir, quer fazer refletir. Deseja explorar de que forma um encontro entre dois casais adultos - a fim de pacificar a relação dos filhos - acaba se tornando uma exibição de seus próprios demônios, de maneira a construir um ambiente asfixiante e insalubre, no qual o instinto é a única lei. Assim eles ficam numa espécie de masturbação sem fim, onde não há vencedores nem perdedores, todos estão na posição de escravos de suas próprias ambições e de suas trevas pessoais. Eles trocam agressões físicas e verbais, o que vai contra a imagem criada inicialmente dos casais: centrados, esclarecidos e guardiões do controle da situação. 
            Ferdinando bateu com um pedaço de pau a boca de Bruno, danificando seus dentes incisivos. Exatamente por isso os pais marcam um encontro no apartamento dos pais de Bruno, a suposta vítima da agressão. No filme de Polanski fica muito clara a vontade de resolver logo a situação e cada um retomar sua vida, mas há um elemento dominante: os interesses, a gana de proteger os filhos e um prazer insano de chafurdar na lama de suas próprias prisões existenciais. É o que se nota no final da peça, com o apartamento virado do avesso. Na montagem carioca esse impulso de ir embora aparece menos, portanto não nos causa a mesma sensação de angústia causada pelo filme. A peça não causa uma sensação de profunda agonia que, eu acredito, seja própria do texto de Yasmina Reza. O cenário tem um papel importante na peça, vários livros empilhados e uma mesa de encaixe de várias pecinhas de lego. É uma ideia genial, porque ficamos horrorizados com a sensação de que a qualquer momento a mesa vai se partir e os livros irão tombar. Nenhum dos dois acontece, parece que são incrivelmente resistentes.
            Antes das luzes apagarem e a peça iniciar, ouvi um espectador dizer que tinham dito a ele que a peça era mais legal do que o filme, que era mais engraçada. Então pensei se esse era um critério válido para qualificá-la como melhor. Melhor ou pior, seria diferente. Interessante que esse mesmo espectador riu pouquíssimas vezes durante os 90 minutos da peça. Uma boa comédia não se sustenta apenas no timing, também é preciso a construção de uma atmosfera de tensão que será dissolvida pelo humor. O riso libera a tensão, o que o texto dramático certamente proporciona, diferente da montagem, que encontra dificuldades nesse caminho, provavelmente por aproximar-se da linguagem televisiva.
            Partindo desse princípio: de que a montagem carioca opta por uma linguagem de comédia mais televisiva do que teatral, é importante dizer que esse elemento contaminou a atuação do elenco, em especial o ator Orã Figueiredo, que usa praticamente o mesmo tom de voz do início ao fim da peça. Uma voz grave, exageradamente alta e pouco orgânica. Esse personagem, o pai de Bruno, polariza a atenção do público, uma vez que ele é o “personagem-piada”, cada comentário, fala ou movimentação dele causa riso no público - em parte do público. O recurso utilizado foi similar à montagem de Pterodátilos, no qual Marco Nanini polariza a atenção da plateia a partir de um humor, muitas vezes, apelativo e superficial. O que prejudica a integridade do texto, já que novas piadas são incluídas e outras são suprimidas. 
            Quem sustenta Deus da carnificina é Paulo Betti e Julia Lemmertz, casal que interpreta os pais de Ferdinando, o suposto agressor. Apesar de não atingirem a atmosfera de oposição e jogo que Christoph Waltz e Kate Winslet atingem, na obra de Polanski, o casal consegue elevar a montagem à situações de tensão e humor convincentes e muito naturais. Por exemplo, quando Paulo diz que o seu filho é mesmo um selvagem ou quando diz estar começando a gostar da personagem de Deborah Evelyn, que começa a surtar e morde a orelha do marido. Também são memoráveis alguns momentos de Julia, quando ela está bêbada e começa a dar sua opinião sobre tudo o que está acontecendo. Ela poderia repetir “- Eu acho” sentada em cima da mesa umas dez vezes e ainda assim seria engraçado, porque ela encontrou uma forma única de dizer essa fala, numa mistura entre timidez, ousadia e tolice. Quanto à Deborah Evelyn ela tem muita coerência nas intenções que apresenta em cena, mas seus surtos não convencem. Ela grita, esperneia, lança uma cadeira, sobe em cima da mesa e parece que nada disso causa furor ou empatia, provavelmente porque ela não externou algo de dentro, mas se ajustou a uma forma externa do que seria estar furiosa. 
Considerando que os casais criam um campo de batalha em cena e batalham entre si - sem aliados - a situação dos filhos parece diminuir drasticamente de tamanho, fazendo com que uma agressão física dos filhos nem passe perto de todas as agressões trocadas pelos pais. Não por acaso todos eles se ajoelham a um Deus que está mais para um Diabo, o Deus da Carnificina.
*Guilherme Nervo é graduando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Agreste malvarosa por Guilherme Nervo

 Flor arrancada*

Malva-rosa é uma flor de pigmento violeta ou rosa, exibe um porte charmoso e possui poderes de cura. Para mim, a montagem da Cia. Amok de Teatro também exerceu um papel de cura. Eu saí embevecido da Sala Carlos Carvalho, com uma mistura de euforia e admiração. Senti o pólen extasiante da flor do sertão através de um texto recheado de metáforas, uma delicadeza incomparável, uma sonoplastia certeira, uma direção seca e encadeada, e atuações poderosas.
Parece ser impossível ficar indiferente a Agreste malvarosa. Se alguma vez eu tirava os olhos das atrizes Milene Ramalho e Rosana Barros, fazia para escutar também com os olhos a música do instrumentista Beto Lemos, que permaneceu sentado em uma cadeira pobre, executando o acompanhamento essencial no corpo do espetáculo. Sentei em um assento que fazia margem com o palco, portanto eu era banhado pela luz quente, enquanto recebia os olhares penetrantes das atrizes contando uma história de amor. Entretanto, inicialmente ou durante toda a peça, dependendo do espectador, a linguagem de atuação escolhida tem a capacidade de repelir, pois se trabalha com o exagero dos movimentos e da fala, instaurando um ambiente de força poética. Realmente, quando saí do teatro vi a maior parte dos espectadores deixando escapar elogios, mas também tinha gente de cara feia, que admitiu ter tido a vontade de se retirar do teatro. Pergunto-me como ficar desconfortável perante duas atrizes em ebulição? Justamente pela presença transparente da técnica, que não agride ou se sustenta apenas por si, mas que se envolve com o impulso da emoção como numa grande dança entre atriz e personagem.
Tanto a parte narrada quanto a parte dialogada da montagem estão bem entrelaçadas e fluem naturalmente. A direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt decide intercalar a narração e o diálogo entre as atrizes, elas repartem o texto a fim de materializar as personagens. Enquanto Milene Ramalho segue o caminho da viúva ingênua, Rosana Barros toma conta do lavrador forte e de pele marcada. O texto do pernambucano Newton Moreno explora a inocência e ignorância das mulheres do interior do sertão nordestino, rechaçadas por um meio social que devora a diversidade com a própria boca. O início é uma celebração à descoberta amorosa, passamos a conhecer o crescimento de uma chama entre dois lavradores separados por uma cerca. Como diz a obra: Eram tímidos como caramujo. Tinha alguma coisa no amor deles que não devia acontecer. Mas aconteceu. O buraco na cerca faz com que a mulher tenha coragem de cruzá-lo e caminhe até o homem. Ouvia-se uma pele rachando na outra. E assim o casal viveu longe de tudo, em um casebre durante vinte e dois anos. Até o momento em que ele morre e as vozes dispersas da sociedade adentram enfurecidas o casebre. Descobriu-se que o marido, de nome Etevaldo, é fêmea.
A encenação não trabalha com a estética naturalista, acredita na linguagem da poesia, na universalidade dos sentimentos e das situações. A diretora Ana Teixeira diz que o intuito é recriar o agreste e não mostrar a realidade do agreste. O sertão nordestino é desterritorializado a partir do momento em que exploramos um sentimento incondicional de amor entre duas mulheres. O contexto social nordestino aparece na obra de Newton Moreno, a partir das expressões tipicamente regionais e da reação ultraconservadora do povoado diante da situação. As atrizes constroem personagens com um forte sotaque nordestino, modelando os corpos de acordo com a troca de personagem. Basta enrolar parte do figurino na cabeça e pronto, surge uma velha. É o ator com ele mesmo, teatro pobre que acaba se desdobrando em uma riqueza descomunal. É o que vemos na construção da personagem do padre, por Rosana Barros. Desesperada, a viúva pede que ele benza Etevaldo para que o espírito dele descanse em paz, mas o padre se recusa devido ao escândalo causado. Ele diz: Pelo menos se tivesse me chamado antes, nós teríamos feito de outro jeito. Já enterrei gente que nem você e ela...Etevaldo. Uma fala que serve como termômetro da hipocrisia da instituição religiosa.
O autor confessou que havia escrito o espetáculo pensando na direção de Ana e Sthephane, o que explica a harmonia entre texto dramático e montagem. Newton aceitou o convite de revisitar sua obra original, Agreste (premiada com o Shell e o APCA), transformando o casal masculino em feminino. E diz também que foi um presente voltar ao ninho de fêmeas, pois é aí que reside a origem do texto: através da conversa com uma amiga que contava, transtornada, o desconhecimento corporal/sexual entre as mulheres do sertão. O que acaba se encaixando com o imaginário sertanejo, no qual a mulher se traveste de homem a fim de espantar futuros males como a submissão.
Agreste malvarosa expõe a força brutal do preconceito. Escancara os limites que uma construção cultural pode alcançar. Numa terra onde mulher deita com homem, não há espaço para descobrir-se mulher com outra mulher. A norma da heterossexualidade é clara e irredutível, o que está representado de forma excelente na figura do Delegado, próximo ao término da peça. Delegado - E tu num sabia que coronel num gosta dessa esfregação de fêmea com fêmea. Amanhã, na cadeia, a senhora vai conhecer macho para nunca mais se confundir.
Esse foi o momento que mais capturou a minha atenção, o trabalho vocal acasala muito bem com o texto, evocando figuras espantosas de autoridade. Mais interessante ainda, é ver a transição a partir do choque corporal entre a figura máscula e indignada do Delegado, com a figura acuada, espantada de Maria. Ela se sentia um prato de comida estragada. Uma carniça. Um penico. Um escarro. Uma doença. Um pus. Um cancro. Uma gota. Suja, suja, imunda.
Essa descrição do estado de humilhação da viúva, não mostra apenas a dimensão da perda do marido, que a coloca num estado de vulnerabilidade, mas também a sensação do indivíduo homossexual perante o preconceito que é capaz de arrasar. A eficiência do último quadro da peça é conquistada através dos méritos do cenário e da iluminação. Uma luz vermelha penetra em cada brecha do casebre de palha e madeira, incendiando o casal de amantes. Mas na crença da viúva, aquilo não era tragédia nenhuma, Deus havia escutado seu canto. Uniria ela com Etevaldo.
Cruel, a natureza é
Dá o sol na desmedida
Dá um corpo na desmedida
Dá o amor na desmedida.
* Guilherme Nervo é estudante do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pterodátilos por Guilherme Nervo

Vidas esburacadas*

Ao final de duas peças do Porto Alegre Em Cena, uma reflexão ficou ressoando dentro do meu corpo, suprimindo toda e qualquer outra sensação. Era mais ou menos assim: “Então é isso o que somos? O ser humano pode chegar a esse ponto? Somos essa podridão?”A imagem de ser humano passada por Histórias de amor líquido, de Paulo José, e Pterodátilos, de Felipe Hirsch, não é nenhum pouco positiva. Estas peças comprovam o peso que a comédia é capaz de carregar, rompendo com a ideia formada de que comédias são feitas para relaxar o público. Leveza é a última coisa que esses espetáculos apresentam. Só fui me dar conta da verdadeira dimensão que elas têm, depois de um ou dois dias. Enquanto ria, no teatro, não me dava conta (ou não queria me dar conta) de que estava rindo de minha própria condição, de minha grosseria, egoísmo, superficialidade e estupidez. Ria, como todos os outros, das minhas falhas e neuroses. Ninguém está imune delas, são companheiras de vida.
Pterodátilos já se apresenta instigante no próprio nome. Um dinossauro voador do período jurássico. Por quê? Mais tarde o cenário e o texto acabam revelando os motivos. O segundo elemento que capta a atenção do espectador é o cenário de Daniela Thomas, um escândalo de funcionalidade e estética. Comunica muito bem o estado de degradação que a família retratada alcança. As relações esburacadas terminam como o cenário: um campo de guerra no qual os personagens ficam literalmente e simbolicamente sem chão. A inclinação da plataforma é outro recurso bem utilizado, como se o núcleo familiar estivesse em constante desequilíbrio. Debaixo da casa existe um cemitério, dentre as folhas secas, fósseis de um dinossauro. Os pterodátilos eram conhecidos por seu tamanho e peso, assim como por seus hábitos canibais. O que deixa clara a relação com essa família: de destruição.
Grace, uma mãe (Mariana Lima) que tem muito tempo livre, preenchido por álcool e tratamentos de beleza, uma eterna bêbada que diz o que pensa, esquece o nome da filha e é tarada pelo filho. Artur (Marco Nanini), um pai ausente e adúltero, que é expulso de casa por ter sido demitido do cargo de presidente no emprego. Ema (Marco Nanini em duplo papel), uma filha que está sempre em estado histérico, engoliu um sapato e está prestes a casar com um homem (Felipe Abib) vestido de empregada. Então, o noivo admite estar apaixonado pelo irmão dela, o filho homossexual (Álamo Facó) que acaba de voltar para a família com o vírus do HIV. Talvez porque esteja apodrecendo com mais rapidez, seja ele o personagem que tira as tábuas do cenário, que prepara as covas dos familiares. É possível acreditar nessa história? Garanto que o texto do norte-americano Nicky Silver é ainda mais sem sentido do que isso, por isso os personagens possuem um tom farsesco. É possível inclusive duvidar da condição de seres humanos, afinal eles não apresentam um passado. O presente é uma desgraça. O que se espera do futuro? Para mim essa é uma família de fantasmas, o que de forma nenhuma a torna distante de nós. As semelhanças não são poucas, inclusive.
O texto está repleto de piadas rápidas, de humor barato e instantâneo. Essa é a pior característica da peça, o que ameaça a qualidade de Pterodátilos, mas a não a popularidade. O que ficou muito explícito pelo ruído incessante das gargalhadas que ecoavam no Salão de Atos da UFRGS, que parecia a ponto de explodir de público. Diante de tanto riso, houve espaço para a perturbação? Não senti a violência ou a contração nervosa na recepção do público de domingo, dia 18 de setembro. Bastava Marco Nanini abrir a boca ou sacolejar o corpo para o público cair da cadeira de tanto rir. Não estou questionando o trabalho do ator, que incomoda somente quando produz uma voz muito forçada, quase trancada e inaudível, mas antes problematizando a calorosa recepção. Marco Nanini constrói a filha com esmero, acreditava em cada palavra que ele dizia, enxergava uma garota desesperada sem que ele precisasse apelar ou afeminar suas características. Quanto a Mariana Lima, posso dizer que ela encarna a personagem com muita vontade, ela se entrega àquela mãe desnaturada, podre, que regurgita as falas como uma legítima bêbada. Nanini e Lima proporcionam uma aula de atuação.
Existe uma cena em que Artur deseja conversar com o filho de forma íntima. Então o filho responde: “Fodi com homens. Por quê? Porque é bom”. Ele detalha suas relações sexuais com um linguajar baixo, admitindo ter ciência de que isso não era seguro, mas alguma coisa o impelia a essa atitude. O pai levanta e diz: “Me sinto muito melhor depois de termos conversado”. Ele adota a mesma postura que a mulher, de negação. Ela diz que a homossexualidade do filho ficou no passado. Isso, quando ele está se envolvendo com o noivo da própria filha! A filha nega o fim do noivado, decide se tornar lésbica e dá um tiro na cabeça. Volta para o palco feliz, dizendo que a morte deu certo para ela. A notícia não abala ninguém, assim como não o faz o suicídio do noivo. A família escuta apenas o que quer escutar, estão todos escravizados na tentativa de saciar os desejos violentos de uma existência medíocre. E enquanto isso, o chão abre suas valas, a iluminação é pálida, o cenário é negro e metálico e a trilha sonora é assombrosa.
* Guilherme Nervo é estudante de Teatro no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

Cordel do amor sem fim por Guilherme Nervo

Teatro feito à mão*
O que olhar primeiro no exuberante cenário de Cordel do amor sem fim? Qual som escutar com mais atenção? Por qual cor se deixar influenciar? A qual personagem dedicar mais atenção? Essas perguntas começaram a borbulhar em mim quando entrei na Sala Álvaro Moreyra. Logo entendi o porquê da escolha da sala ao invés do Teatro Renascença, a aproximação entre ator e público é fundamental, trata-se de um teatro de vivência. Não por acaso o grupo de Recife chama-se O Poste: Soluções Luminosas, a iluminação conversa com todos os outros elementos, formando e destruindo atmosferas como em um passe de mágica. É como se o grupo houvesse adicionado três personagens ao texto de Claudia Barral: a luz, a sonoplastia e a percussão. Elas estão suficientemente presentes e entrelaçadas com o enredo a ponto de adquirirem um caráter de “personagem”. As luminárias com envolto de palha em formato circular estão penduradas no fundo do palco, cobertas por redes de pesca. Ou são teias de aranha? Talvez apenas fumaça, tecido ou ilusão de ótica. De uma forma ou de outra, o campo de significação é expandido e cada um faz a sua viagem. Isso é riqueza.
Às margens do rio São Francisco, no sertão baiano, moram três irmãs completamente diferentes - a velha grosseira e encurvada Madalena, a instigante e colorida Carminha e a sonhadora aérea Tereza, a mais jovem. José é o noivo de Tereza e traz consigo um amor agressivo por ela, revelando uma personalidade animalesca. A primeira imagem da peça é formada pelos quatro tocando um tipo de instrumento e repetindo um movimento próprio ao personagem. A sensação é que eles estão debaixo do mar: a luz geral é azulada e conchas luminosas formam um caminho no solo. A corneta de som grave e arrepiante, os chocalhos frenéticos, a batida cheia de suspense do tambor e tantos outros instrumentos artesanais capazes de imitar ruídos da natureza e do homem, parecem nunca sair de cena, como se os quatro personagens trouxessem consigo um ritmo. Ritmo que ao decorrer da peça sofre algumas alterações, agita, acalma, explode, emudece. Funciona como um fragmento de alma.
Cada personagem tem um tipo bem definido de falar, andar e se posicionar. O que fica claro quando eles distanciam-se do personagem para narrar algum momento da peça. A linguagem de atuação escolhida é um dos elementos mais gritantes, é como se assistíssemos a um teatro de rua introduzido no palco. As feições são exageradas, a maquiagem transborda no rosto, o texto é dito de forma arrastada e abusando da articulação, tudo é propositalmente grande, colorido e voraz. No princípio essa encenação me incomodou, não consegui olhar com generosidade para a caricatura do ser humano como uma tipificação da commedia dell’arte. Depois, essa sensação foi diminuindo, me permiti um mergulho profundo nesse universo rico e poético, de uma cultura tão singular. Não me questiono quanto à explícita competência do trabalho de atuação, os personagens apresentam pinceladas bem trabalhadas, porém o nu de Tereza parece agir com um único objetivo: alcançar o sucesso da forma. E alcança, pois a cena em que ela se esgueira sobre as velas com os seios nus, dizendo: E o terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão; e a outra, em que ela caminha sobre gelo seco e luz verde, coberta apenas por uma rede de pesca; são cenas estonteantes, repletas de onirismo. Entretanto precisam desse apelo? A beleza física e a sexualidade de Tereza foram bem exploradas com o vestido curto e com seus trejeitos, o nu sublinha isso de maneira excessiva e destoa com agudeza do restante da peça.
Se Deus levantou o céu com uma frase, com uma frase o céu pode desabar.
E foi essa frase, dita por Tereza, que desabou José. Com muita relutância aceitou esperar o homem que havia atravessado o peito da menina de desejo, o tal Antônio. Semanas e meses passaram, até que quatro anos completaram-se sem a aparição do homem. Para José, todas as prostitutas da cidade tinham a feição de Tereza, ele estava enlouquecido por ela. Enfim esbarrou com Antônio pela cidade, fazendo questão de assassiná-lo em um mato. Tereza espera por tanto tempo seu amor que acaba se transformando em pedra às margens do rio São Francisco.
É possível gargalhar, emocionar-se, ficar vidrado e mesmo achar tudo muito exótico em Cordel do amor sem fim. As canções estão presentes em diversos momentos, além de contar a história, reforçam o universo folclórico do nordeste brasileiro. Inclusive, existe um resgate de cultura, um estudo antropológico. O elenco demonstra performances muito boas, somente a voz de Tereza (Eliz Galvão) parece destoar perante as outras. O músico canta apenas um verso: Mas toda a verdade está nos olhos de Antônio, suficiente para que a plateia volte surpreendida em direção a ele, sua voz é marcante, carrega uma tristeza encantadora.
As soluções cênicas da peça revelam uma criatividade pensada em conjunto: desde à porta que é carregada pelos personagens e capaz de se desmanchar em quatro superfícies, até à utilização de objetos que intensifiquem o nível de tensão ou distensão da cena, explorando sons inusitados, surpreendentemente musicais e ritmados. É uma grande conquista alcançar tamanha carga poética e beleza plástica a partir de recursos simples e artesanais, sem a utilização de máquinas. Por isso considero adequada a expressão “teatro feito à mão”, é delicado e poderoso.
* Guilherme Nervo é estudante de Teatro do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Dois perdidos numa noite suja por Manuella P. Goulart e Guilherme Nervo

Desejo de mudança*
Dois perdidos numa noite suja, construído a partir da obra de Plínio Marcos (1966), mostra a situação de dois sujeitos que trabalham como carregadores de caminhão numa feira popular. Paco (Renaldo Taunay) vive tocando gaita de boca, já que a sua flauta foi roubada, e também passa o seu tempo a implicar com Tonho (Igor Kovalewski), que não vê a hora de se tornar alguém na vida, pois ele estudou, é alfabetizado. Ao entrarem em cena, é possível que o espectador tenha a sensação de que, ao longo de 85 minutos, assistirá a uma montagem congelada e lacunar, como geralmente são as montagens baseadas em textos de Beckett. A expressão misteriosa dos atores, o não-diálogo inicial e os seus aspectos físicos bem distintos, assemelham-se à trama de Estragon e Vladimir, em Esperando Godot. Porém, essa imagem vai se diluindo.
Se aqui eles também esperam, não se trata de uma espera estática, e sim dinâmica. A velocidade com que a dupla troca palavras traduz a ânsia de largar uma vida medíocre. Existe um objetivo concreto que não se resume ao ato de esperar. Essa aceleração da fala, utilizada em alguns momentos, é brilhante, parece que estamos assistindo a uma partida decisiva de ping-pong. O texto de Plínio Marcos cresce em nuance e potência ao ser dito pelos atores com muita verdade, o que nos leva a pensar que o texto foi esmiuçado com atenção e criatividade, em conjunto com uma direção (André Garolli) que só contribuiu.
Rapidamente deverá nos evocar uma pergunta: se as condições de trabalho são tão humilhantes e Tonho até mesmo está sendo ameaçado de ser espancado pelo “negrão” do vilarejo, por que não vão embora? Por que Tonho aguenta ser chamado de “boneca do negrão” e ser diariamente envenenado por Paco? Talvez, porque ambos possuam uma relação de dependência. Talvez, porque estejam escravizados. Tonho quer ir embora, mas precisa conseguir um sapato novo para ter um emprego melhor. E a solução está com Paco, que possui o objeto de desejo, mas não o cede por considerá-lo símbolo de poder. A ligação não aparece apenas entre eles, mas também com o ambiente. Como se existisse um determinado gozo em prolongar a situação, um desejo perverso de sofrimento que colide com o desejo de mudança. Mas nada se concretiza, pois os personagens não conseguem agir para que isso ocorra.
Quando parecia que estaríamos voltando a “esperar Godot”, Tonho faz uma proposta a Paco que dará uma grande reviravolta na vida de ambos. Ele pretende assaltar um casal de namorados assustando-os com sua arma de fogo sem balas. Tonho expõe o tamanho de seu coração diversas vezes, é um homem generoso, sincero, não quer machucar ninguém. Paco é o perfeito contraponto: já se imagina dando um pau no homem e abusando a namorada. É nesse momento que o público pode concretizar o que na realidade viu desde o princípio: atores em sintonia e interpretações que prendem o espectador. Afinal, é esse o foco da peça, pois o cenário é simples: dois caixotes, uma bacia com água e uma caneca. Sabemos que existe ação fora desse cenário pelos relatos dos personagens, mas o lugar que acompanhamos é o quarto de pensão dividido pelos sujeitos. Os objetos cênicos demonstram bem a situação de pobreza em que os eles vivem e o palco vazio contraria a cenografia proposta por Plínio Marcos. O diretor e a companhia carioca Triptal de Teatro foram muito felizes ao desnudarem esse texto, que já foi tão trabalhado.
Difícil destacar apenas uma cena do esqueleto bem estruturado da peça. Mas existe uma cena arrebatadora em sua poesia: quando Tonho oferece gentilmente um cigarro à Paco e eles quase se beijam para acender os cigarros. Permanecem um tempo precioso em suspensão, com contato visual intenso, esperando o momento em que os cigarros acendam. O elo é estabelecido, entretanto, por mais que o cigarro seja prazeroso, queima o próprio corpo até reduzir-se às cinzas. Há outros momentos, como esse, em que um dos homens congela em uma foto enquanto o outro continua a dizer o texto. O que termina por nos mostrar uma interessante linguagem, que não é a do naturalismo.
Os diálogos são compostos de palavras que caracterizam esses personagens. Paco é extremamente vulgar em seus gestos, tem uma postura de malandro, usa palavras baixas, mas que possuem beleza em razão do trabalho textual eficiente, que só peca ao antecipar reações. Isso ficou claro na atuação de Renaldo Taunay, quebrando a atmosfera de veracidade. Tonho é mais discreto no que diz, ele ainda tem família, é sensível e solidário. Sua expressão revela toda a dor que sente por estar ali, com os sapatos rotos, o corpo sujo e a alma machucada.
Dois perdidos numa noite suja consegue cumprir o que todo espetáculo deveria ter como meta: atingir o público violentamente a partir de saborosos momentos de reflexão e risadas derivadas da notável presença cênica e conexão entre o elenco.
* Manuella P. Goulart e Guilherme Nervo são estudantes de Teatro do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

Histórias de amor líquido por Guilherme Nervo

Relações escorregadias*

A mesma equipe de Um navio no espaço ou Ana Cristina César nos apresenta a peça Histórias de amor líquido, cuidadosamente dirigida por Paulo José e inspirada na obra Amor Líquido - sobre a fragilidade dos laços humanos, do sociólogo alemão Zygmund Baumann. É justamente sobre isso que o texto de Walter Daguerre fala,o caráter líquido das relações humanas. A era da tecnologia faz com que cada vez mais nos relacionemos de forma escorregadia, superficial. Não é um líquido que flui tranquilo e profundamente, mas que margeia a situação e apresenta um curso atravancado. A peça explora nossa conduta ao construir relações instáveis, capazes de se desmanchar a qualquer momento. A derramar como água que goteja ou jorra.
Ao mesmo tempo em que a peça questiona essa avalanche de mídias, a dependência e o abuso tecnológico, utiliza-se delas. Não há uma cena sem projeção, os cenários hiperrealistas são criados a partir de projetores de alta qualidade que compõem as imagens. Paulo José recorreu às espetaculares projeções de Bob Wilson para tanto. A ideia original era montar uma peça seca, centrada no trabalho do ator, utilizando os meios mais elementares, entretanto como a peça falava dessas tecnologias, pareceu coerente explorá-las. A iluminação da peça não trabalhou a favor da projeção dos cenários, fez com que eles perdessem em nitidez.
Cinco atores interpretam três narrativas contadas simultaneamente. O que significa que o elenco deverá interpretar mais que um personagem e passar de um para o outro constantemente. Somando a essa situação o tema da peça – laços humanos –, o espectador pode ter uma ideia do desafio que deve ter sido trabalhar em família. Falo do parentesco entre o diretor e as atrizes Ana Kutner e Bel Kutner, pai e filhas. Somos um complexo integrado, não é fácil separar sentimentos afetivos da vida profissional. Mas essa família e o restante do elenco conseguem vencer essa barreira e apresentar uma comédia inteligente e divertida.
Rua sem saída é o nome da primeira história, composta por um guarda noturno e uma mulher perturbada. Ela persiste em devolver um lenço limpo para o guarda, mas possui uma doença que faz com que sangue - e aqui a figura líquida - derrame de seu nariz. A segunda história chama-se A corretora, composta por uma mulher decidida a passar sua vida contabilizando o mundo e ajudando os clientes a saírem sempre lucrando. A terceira e última história chama-se A casa da ponte, composta por um casal de namorados que entra em conflito ao passar uma noite sem aparelhos eletrônicos. Como se vê, o texto é simples, são situações cotidianas. A única história que parece estar desconectada das outras é a primeira, na qual se explora o silêncio da noite sem bons resultados, a peça perde muito em dinâmica. Por mais que a direção seja excelente.
Histórias de amor líquido apresenta uma estrutura irregular, tem momentos bons e ruins. Às vezes parece que estamos assistindo a uma telenovela, tamanha a semelhança com a linguagem televisiva. Recurso proposital ou não, machuca o corpo do espetáculo. O ponto mais brilhante é a atuação de Bel Kutner, ela apropria-se da personagem da corretora com entusiasmo e exatidão. Caminha como quem está sempre em cima de uma passarela, fala articulado e com glamour, vestindo roupas lustrosas. A atriz é muito natural ao apresentar a lógica de uma mulher capaz de vender a alma ao diabo para conseguir o que quer, ela representa o poder de enganar que a mídia sustenta e a crise do capitalismo. Uma mulher com uma filosofia insana, de que deslocamento é perda, hoje em dia podemos estar em qualquer lugar do mundo virtualmente. Não podia ser diferente, ela termina sozinha e cantando uma canção ridícula no karaokê.
Na terceira história vemos um casal em decomposição. O acordo de manterem uma relação aberta parecia ser muito eficaz. Até o momento em que eles começam a detalhar suas experiências fora do namoro, a causar ciúme e desconforto, até que ela revela a gravidez e ele se posiciona da forma mais egoísta possível. Começa a ouvir música nos fones de ouvido. Não quer conversar, esclarecer sentimentos e atitudes. Quer as coisas anestesiadas, quer o conforto do controle absoluto.
Considerando essas três histórias como um todo, podemos identificar que estamos em ruas sem saídas. A casa possui uma ponte que não dá em lugar nenhum.Existem montanhas separando os indivíduos. As relações afetivas são disformes, nebulosas e incertas. A velocidade da informação do mundo globalizado e a mudança de comportamento são fatos. Tudo se contabiliza pela situação monetária. E o capital nos destrói.
* Guilherme Nervo é estudante de Teatro no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Guilherme Nervo: o encerramento


Foto: Guilherme Santos

O vigésimo e último dia de encanto


Até mesmo o prefeito, José Fortunati, compareceu à entrega do 5° Prêmio Braskem Em Cena. A participação já havia sido pré-estabelecida, porém não surpreenderia se não houvesse sido, pois a quantidade de pessoas que entraram no Theatro São Pedro era inacreditável. Quando, enfim, todos estavam acomodados, visualizamos em uma tela de fundo a projeção de um vídeo que apresentava as peças locais concorrentes às cinco premiações. Contamos com a ambientação de uma música animadíssima, que remetia ao circo e à Fellini. Os concorrentes foram:


- Dentrofora (teatro)
- Dar carne à memória (dança)
- Elefantilt (teatro)
- Milkshakespeare (teatro)
- My house (dança)
- O avarento (teatro)
- Homem que não vive da glória do passado (teatro)
- O Gordo e o Magro vão para o céu (teatro)
- Play-Beckett (dança e teatro)
- Solos trágicos (teatro)

Após cada mini demonstração das peças, a diretora ou o diretor comentava a respeito do Troféu Braskem e do financiamento dado à realização do Porto Alegre Em Cena pela empresa. O que se viu foi uma idolatria efusiva. Imagem esta confirmada com as diversas referências à empresa e com os holofotes que infestaram o teto do teatro: Braskem, Braskem, Braskem. O fato de uma empresa petroquímica de capital privado investir largamente em cultura é simplesmente bárbaro, entretanto, a postura de subordinado/dependente não deve cair no exagero.

Para quebrar com o clima solene da cerimônia, Luciano Alabarse conduziu a entrega de prêmios com seu típico humor elegante: admitiu não saber como funciona uma média harmônica (por mais que seu amigo Roger Lerina tente explicar), comentou sobre a gafe que lhe foi enviada de São Paulo (o “Porto Alegre em Ação”) e nem quis saber como é dada a formação do polietileno, ao trocar palavras com João Rui Dorneles Freire (diretor de marketing da Braskem), que entregou a primeira premiação da noite. Marco Rodrigues ganhou o prêmio de Melhor Espetáculo pelo Júri Popular por seu espetáculo de dança My house. Segundo o Júri Oficial, estes foram os vencedores:

Melhor Atriz / Bailarina – Fernanda Petit, por Solos trágicos
Melhor Ator / Bailarino – Eduardo Severino, de Dar carne à memória
Melhor Diretor / Coreógrafo – Carlos Ramiro, de Dentrofora
Melhor Espetáculo – Dentrofora

O Melhor Espetáculo ganha, além do troféu, 20 mil reais. O restante, ganha três mil reais. Vale salientar que um festival com 70 atrações apresentadas em 20 dias parece ser coisa de louco, mas a eficiente classe artística deu conta da façanha! O 17º Porto Alegre em Cena foi realizado pela Prefeitura, com a parceria das empresas Petrobrás, Braskem e NET, mais a Caixa, a Multiplan – Barra Shopping Sul e a Cia Zaffari.

Para finalizar, é imprescindível dizer que a premiação foi toda fragmentada, visando encantar o público ansioso com o glamour decadente de Cabarecht, o espetáculo musical de Humberto Vieira. Cida Moreira penetrou o breu em um palco composto por duas mesinhas e um piano de cauda negro, cintilante. Neste sentou e de lá não saiu mais. Trajava um vestido enorme, com uma parte interna em formas geométricas esverdeadas que era um charme. Não só grande mulher, como também grande diretora musical, Cida toca com estilo. Em seguida, entrou Antônio Carlos Brunet, figura que se destacava pela blusa vermelha e pela lindíssima voz, provavelmente de tenor. Inclusive, as vozes masculinas me chamaram mais atenção do que as femininas nesta montagem soturna que revisita os antigos cabarés alemães.

Aqui, explora-se a obra do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. É uma reunião de intelectuais a fim de mostrar o seu talento através das audaciosas músicas do compositor Kurt Weill, criadas com o apoio de Brecht. Zé Adão Barbosa entrou com o corpo engajado e refinados trejeitos, compartilhando conosco e com seus parceiros a potencialidade de sua voz de declamador de poesias, contador de histórias. A junção de timbres se deu por completa quando a esvoaçante Sandra Dani chegou ao microfone com pérolas e a energia de uma jovem mulher. Jovem mulher sensual! É a liberdade existente apenas no teatro. Logo mais ela cantou Surabaya Johnny mergulhada em desilusão amorosa, priorizando a interpretação ao invés da melodia, algo que se repetiu até o fim de Cabarecht.

Os homens nos presentearam com uma empolgante versão de A balada da dependência sexual, ao passo que Cida Moreira deu o melhor de si em uma versão extremamente espirituosa de Teresinha. A temática da peça me fez imediatamente reviver os momentos de Quanto vale ou é por quilo?, musical do qual fiz parte no início desse ano. Ernani Poeta conduziu uma linha narrativa voltada ao tráfico de pessoas, com as personagens de Brecht e as músicas de Weill. Esse foi apenas mais um atrativo para assistir à peça em questão.

A maquiagem utilizada no rosto dos atores e atrizes é carregada: uma base de pancake branco com traços negros ressalta os traços e dá a eles um aspecto vampiresco. Também presenciamos Mack The Knife, com a famosa balada revisitada por Chico Buarque em O Malandro. A despedida, não só de Cabarecht como do 17° Porto Alegre Em Cena, foi consumada com o embriagante país dos nossos desejos: Youkali. Pena que a versão francesa cantada pelo quarteto, ainda que bela, nos prive da tradução.

Pois aqui coloco alguns trechos dela:

[...]
Youkali, é o país dos nossos desejos
Youkali é a felicidade, é o prazer...
Youkali é a terra onde esquecemos os nossos cuidados...
é, na nossa noite, como o alvorecer,
a estrela que seguimos é Youkali!

*

Guilherme Nervo é crítico de teatro do site www.poashow.com.br

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Guilherme Nervo #2: Sissy!

Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Da banalização

A arte performática pode conjugar teatro, música, vídeo e poesia. No caso de Sissy! temos uma performance não-verbal conduzida pelo trabalho essencialmente corporal. Já que a voz é mascarada e o corpo desnudado, a sustentação é dada através da forma, da escrita cênico-corporal. Ao ler a sinopse da performance francesa, é difícil não querer assistir-lhe, não ficar empolgado com o tema proposto por Nando Messias, o protagonista, em seu doutorado prático na Central School of Speech and Drama: o conceito de “sissiografia” do corpo. O título é um pejorativo inglês para o homossexual afeminado, equivalendo a “bicha”, “veado”, “marica” ou mesmo “queer”. Todos conhecem a figura masculina detentora de formas femininas ao manifestar-se: do modo de caminhar ao modo de pensar. Inclusive, os meios de comunicação massivos, como a televisão, não hesitam em explorar a já muito desgastada e banalizada imagem do homossexual afetado, mesquinho e arrogante.

Sissy! consegue romper tal barreira? Alcançar o que vai além da superfície? Não, Sissy! não alça vôo em momento algum. Se existe sucesso no processo de escrita do conceito “sissy” no corpo do performer/dançarino Nando Messias, este sucesso é feio, é grotesco e causa repulsa. Nando representa o lado ultra-feminino, o transexual fraco e marginalizado: pernas lisas e longas, salto alto, batom, comprido cabelo negro e corpo magérrimo. Relaciona-se com Biño Sauitzvy, também diretor, que representa o lado masculino, o boxeador forte e opressor: porte musculoso, regata e tênis barulhento.

Concluo, então, que o conflito entre os sexos existe. E aí? Parece-me impossível evocar reflexão ou admiração por um trabalho que se agarra em estereótipos e falha na tentativa de causar riso ou emoção. Não interroga nem desconstrói a naturalização dos corpos em papeis e práticas sociais cristalizadas, separando os sexos em blocos distintos.

Poucos foram os momentos em que senti algum lirismo, como a longa coreografia inicial, permeada por uma junção de lábios eterna. Diante da nuvem de apelação, meus olhos embaçados não foram capazes de visualizar a arte sensorial, o indivíduo fragmentado, híbrido. É possível enxergar técnica e dedicação, por exemplo, nas passagens em que havia sobreposição de peso entre os corpos, as quais clamavam por entrega e confiança recíproca. Ainda assim, faltou a Sissy! vida e profundidade.

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Guilherme Nervo é crítico de teatro do site www.poashow.com.br

Guilherme Nervo #1: Antígonas


Foto: Guilherme Santos

Através do riso

“Os homens constróem pontes, jurando que está nascendo um rio”, diz Ingrid Pelicori, enquanto massageia o rosto de Claudia Tomás. São as atrizes argentinas de Antígonas, sem dúvida, a mais profunda e, ao mesmo tempo, espontânea conquista cênica a que assisti até agora. E olha que ainda estamos na segunda semana do Festival! O texto de Alberto Muñoz possui quatro momentos/atos/narrativas, cada qual com o seu ambiente: um salão de beleza, uma aula de introdução à técnica vocal, uma viagem de balsa e uma consulta de fisioterapia. Para mesclar as narrativas, a diretora Leonor Manso optou por uma escura luz violeta e uma trilha sonora marcada pela tensão. Já, no campo da direção geral, a principal qualidade que salta aos olhos é a paz desperta. Ela aproveita os sessenta minutos do espetáculo como ninguém, sem deixar espaço para afobação ou estrelismo. São duas mulheres imbuídas pelo próprio trabalho, sem necessidade de disputar a atenção do público. Fazem uso apenas da atuação encarnada: suas reações são plenamente críveis e bem lapidadas. É como desfrutar de uma comida com a medida exata de tempero.

A tranquilidade da direção repercute em todos os outros aspectos da montagem: não há muitas trocas de iluminação; o figurino é sóbrio, composto por vestidos lisos em um tom prateado; o cenário (que muito me agrada) é versátil e econômico, formado por um divã de madeira (utilizado de diferentes formas em cada narrativa) e uma plantinha de vaso; para finalizar, praticamente não há música de fundo. Tudo isso a fim de que o foco, a sustentação de Antigonas, seja a habilidade representativa.

A frase com a qual iniciei minha análise (dita pela personagem de Ingrid Pelicori) representa o desejo masculino de disputar com os deuses o poder da criação. Bip! Encontra-se aí uma possível ligação com a peça do grego Sófocles, na qual Creonte proíbe que enterrem o corpo de Polinices, o irmão de Antígona. Entretanto, ela não hesita ao desobedecê-lo, enterrando o irmão. Seu objetivo era cumprir os rituais fúnebres, para que a alma de Polinices não vagasse eternamente. Esse rito transcende qualquer proibição humana, é a lei divina versus a lei humana. Ao sair do teatro, o título Antígonas estava suspenso (obscuro) no ar, somente agora, digerindo a – reflexiva! – encenação argentina, pude agarrar o título no ar, ou pelo menos algumas letras. Estou certo de que é o mito que está sob a ótica da montagem, não o contrário.

A primeira narrativa aborda a preocupação neurótica feminina em busca da beleza, motivada pela opressão masculina. A ornamentação estética é uma forma de equalizar-se aos homens. É necessário sofrer em prol da beleza, entretanto, uma ajuda a outra, o que visualizamos no antológico enquadramento à La Pietá. E, se a mulher almeja ser homem, este almeja ser deus. Por isso a imagem de Cristo é equiparada à figura feminina, e Deus, à figura masculina. Quem diz isso é a personagem de Ingrid, ao passo que mexe o creme em um pote de metal, causando o mesmo som do badalar dos sinos de uma igreja. Então me veio uma comparação improvável: tanto a igreja quanto o teatro têm o poder de reunião.

A segunda narrativa é muito divertida - de fato todo o espetáculo é permeado pelo riso e pela descontração -, explora a relação entre uma arrogante professora de canto e sua aluna, Julia. Enquanto a professora obcecada (Claudia Tomás) fala de técnica e da primazia da música, Julia (Ingrid Pelicori) quer apenas o mágico. É a razão versus a emoção, a rigidez versus a liberdade. A seguir, nos é apresentada a terceira narrativa: conduzidas por uma balsa (engenhosamente adaptada ao divã), elas trocam palavras de rancor, desnudando sua relação; aqui usam vestes gregas para demonstrar a atemporalidade dos conflitos humanos, que pode muito bem girar em torno da inveja de uma pelas tetas da outra! A quarta e última narrativa expõe a consulta entre uma fisioterapeuta (Ingrid P.) e sua paciente (Claudia T.) imobilizada. Trata-se de um belíssimo exemplo da administração adequada de múltiplas facetas, conseguindo passar de uma personagem para a outra sem deixar resquícios. Enquanto, a fisioterapeuta discursa a respeito do movimento mentalizado das pernas, a paciente regurgita bulas de remédio – los prospectos –, afirmando que o mundo está fora do alcance das crianças. A fisioterapeuta modifica essa frase afirmando que o mundo está fora do alcance de todos! Pronto, agora ela também é paciente.

Enquanto os gremistas iam para o estádio Olímpico, eu, o cara das aspirações artísticas, ia ao Teatro Bruno Kiefer. Hoje, ser homem exige menos do que antes, ainda que existam padrões comportamentais muito presentes em nosso sexo: ser macho é ser firme e intolerante, é não titubear. A palavra "homem" carrega em seu lombo as palavras "força" e “auto-afirmação”, sendo talvez mais pesada - culturalmente - do que a palavra “mulher”, que está mais livre de amarras. Às mulheres, cabe a flexibilidade, a tolerância, a vaidade. Ser fêmea é provocar alvoroço, é aproveitar-se da imagem de fragilidade para tornar-se vítima.

Para mim, os sexos esperam demais uns dos outros. Mais do que isso, estão envenenados por imposições construídas de forma cultural. O futebol é tido como um esporte viril por conjugar elementos como firmeza, rapidez, força, suor e objetividade. Já o teatro, é tido como uma manifestação mais subjetiva. São necessárias percepção e sensibilidade para admirá-lo ou mesmo respeitá-lo. Agora vem a pergunta: por que as identidades do masculino e do feminino são tão divididas em nossa sociedade? Cada ser humano é um complexo de elementos femininos e masculinos que, ao invés de entrarem em conflito, deveriam ser integrados e estimulados, não dependendo do sexo para isso, e sim da afinidade individual. É uma busca pela fluidez, tal como o rio, que não divide suas águas ao a correr pela terra. A divisão de papeis sociais, a fim de estruturar famílias e relações saudáveis, proporciona não mais do que efeitos colaterais: desgasta e desestrutura. As mulheres de Antígonas, através do riso e da excelência artística, vieram nos lembrar de que esse sistema falido perdura.

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Guilherme Nervo é crítico de teatro do site www.poashow.com.br