Hay que endurecer-se pero sin perder lá ternura jamás
É lúdico, é crítico, é poético, é técnico, é
genial. Antes de sair, tentei ver quanto tempo tinha para pensar na logística da
volta. Não encontrei Fuerza Bruta entre os espetáculos. E não é à toa. Ele está
na lista de shows e foi programado para ser apresentado no Pepsi on stage, onde
eu nunca tinha ido antes. Não podia ter feito uma estreia mais perfeita.
Voltarei a esse local, mas, dificilmente, verei algo melhor. Se bem que quando
se trata do Porto Alegre em Cena, e do que Luciano Alabarse é capaz de trazer à
cidade, é melhor não dizer isso.
Fui sozinha e não lembro quando foi a última vez
que fui aos espetáculos sem ver na plateia as caras de teatro. Mas é isso que o
festival faz além de incluir diversas faixas etárias e muitas tribos. Do salto
alto a cabelos roxos e tatuagens. Sem lugares marcados, em um espaço enorme, as
pessoas iam chegando sem saber muito onde ficar e havia uma inquietação, um
burburinho e uma tentativa de disputar o melhor lugar mesmo sem saber onde
seria. Entretanto, assim que somos induzidos a entrar isso já não faz o menor
sentido. Durante todo o tempo o foco é mudado de lugar. Somos levados de um lado
para outro, obrigados a fazer um movimento conjunto e não individual e, muito
menos, individualista. E a tensão que paira no ar nos faz cúmplices e não tenho
dúvidas de que provoca em cada um impressões diferentes. Para mim, a fumaça que
começava a preencher o ambiente, enquanto todos olhavam para o alto sem espaço
para se mover, lembrou uma cena do filme A lista de Schindler, quando os judeus
entravam para as câmeras de gás ainda sem saber o que aconteceria.
Dramático, eu sei. Tem pessoas que acham que comentar ou criticar um espetáculo
não tem a ver com dizer o que se sente e o que se pensa sob um ponto de vista
pessoal. Eu, porém, em geral, não leio o que os outros escrevem, pois tudo que
encontro é uma descrição das cenas, o resumo das histórias, meio que se
encaminhando para aquele chiste de quem avisa que o protagonista morre no final.
Eu, por outro lado, não sei escrever sobre nada se tiver que deixar de lado
minhas impressões. Só fiz isso quando escrevia sobre notícias e não assinava os
textos. Hoje, quem me lê já sabe que vai encontrar a minha opinião associada com
as minhas experiências. E é isso que o espetáculo significou para mim. Mas, não
se engane que tudo possa ser assim previsível. Se você pensa que já viu de tudo,
devo dizer que esse show prova que não.
Felizmente, a expectativa nesse caso era mais
branda, embora as cenas que seriam propostas nos colocariam em cheque com algo
pesado, a imagem da violência e a inutilidade do esforço constante em direção a
algo que não se alcança nunca. Mas essa
é apenas uma das propostas. Existem outras mais leves, divertidas e que também
nos envolvem. E quando você está simplesmente maravilhado com os integrantes do
grupo, desejando ser um deles, fazer o que eles estão fazendo, eles se misturam
com o público e vão além do anúncio feito no início de que você faria parte do
espetáculo. Agora, são eles que fazem parte do público. E eles se arriscam
fisicamente embora pareçam estar brincando. E eles mostram a beleza estética do
corpo humano em movimento. Isso tudo de forma vertiginosa e com um rigor, uma
precisão impressionantes. Ao sair, concluo que, se um dia eu pensei que as
palavras nos salvariam da nossa desumanidade, hoje, acredito que é a arte. Creio
que serão necessárias outras Fuerzas Brutas.
*Helena Mello é jornalista








