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domingo, 15 de setembro de 2013

Ah, a humanidade! E outras boas intenções por Mirna Spritzer

 
Num pequeno mundo imaginante

O que dizer quando se gosta muito, quando os atores são excelentes e fazem tudo acontecer em cena. Quando um texto te pega pela mão, coração e ideias. Quando eu penso que sim, gostaria de ter feito esta peça, poderia com prazer estar nesta cena, o que mais há para dizer?
Guilherme Weber e Murilo Hauser fizeram o projeto de encenação de Ah, a humanidade! E outras boas intenções. Murilo dirige, Guilherme atua com outros 4 atores. O texto do dramaturgo Will Eno, consegue ser atual e ousado sem abrir mão daquilo que o teatro pede: acontecer. Fazer das palavras e das circunstâncias, motivações para que palco e plateia vivam juntos alguma coisa que só acontece neste espaço, neste fluxo.
O cenário anuncia algo que já houve, uma hecatombe, uma catástrofe, nada está em seu lugar. Das ruínas surgem as cenas, os atos, os personagens. Falam, falam muito, querem ser ouvidos. Suas palavras pretendem dar conta do que não mais é possível. Ser humano e relacionar-se com as coisas e com os outros é tarefa para fortes.
O tom de tudo é isso é aquele delicado equilíbrio entre o trágico e o cômico. Quando rimos de nós e choramos por nós. O que mesmo é ficção? É um carro ou duas cadeiras? Vivemos num pequeno mundo imaginante. Imaginante? Qualidade de estar em imaginação?
Mais uma vez, a iluminação de Beto Bruel (como em Não sobre o amor) entra em cena para mostrar que é possível olhar as coisas por seu lado claro, mas também pela sombra. Há recortes infinitos de luz sobre os fatos e sobre as pessoas.
Cada um terá sua história preferida, entre as cinco que são apresentadas, mas todos seremos contaminados por este espetáculo que não me parece pré ou pós alguma coisa. Apenas é, hoje.
E o final, bom o final...
 
* Mirna Spritzer é atriz e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Zezé Motta por Mirna Spritzer


Zezé Motta, negra e encantadora melodia
 
Iniciar com música as peripécias do Porto Alegre Em Cena é muito bom. A música entra de forma direta pelos nossos poros, pela nossa alma, não dando tempo para que a gente interfira muito nas sensações. Para quem, como eu, encantou-se com a ousadia de Zezé Motta como Xica da Silva, e acompanhou sua trajetória de atriz e artista engajada no melhor sentido que isto tem, vê-la em cena cantando Melodia e Macalé é um presente.
Se no início o ritmo ainda não parecia desenhar-se com clareza, como se palco e plateia estivessem se estudando para ver o que estava por vir, a partir do momento em que a atriz cantante confessa sua relação de amor e ódio com o traje, parece que todos respiram aliviados e se soltam. Zezé espalha-se pelo palco, ri, gargalha e encanta.
Uma voz profunda, visceral e ao mesmo tempo sob o domínio absoluto da intérprete, percorre a malemolência de Luiz Melodia e a crueza de Jards Macalé. Zezé sabe tudo dos dois e de si em suas canções.
Um espetáculo simples, de palco despojado abrigando um trio de músicos que sabe estar presente e deixar brilhar. É em Vapor barato, de Salomão e Macalé que atingimos o ápice do show. Ó sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer... Aí então não tem mais volta. Fomos abduzidos pelo sorriso aberto, pelo canto grave, pela presença sensual e plena de Zezé. Antes que ela própria se confessasse contente com o show, eu já havia pensado que ela estava completamente feliz de estar onde está. Ali é seu lugar no mundo. As músicas assim percorrem um caminho que a deixa cada vez mais enraizada, mais potente. Se alguém quer falar-me de amor que me fale...

Pérola negra no bis, e o encerramento com Senhora liberdade fazem com que a gente saia do show com vontade de sair caminhando pela noite fria do Bom Fim, pensando em Abre as asas sobre nós, senhora Zezé Motta!
 
* Mirna Spritzer é atriz e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mãe Coragem e seus filhos por Mirna Spritzer


Qual Brecht? Qual Mãe Coragem? Qual guerra?
Nos primeiros momentos a emoção. Uma carroça estacionada no canto do palco anuncia o que virá. Na plateia, logo ali na fila da frente, nossa Mãe Coragem/Anahy, Araci Esteves.
 
Ao iniciar o espetáculo, o reconhecimento do texto, das falas. A apresentação da família de Anna Fierling. Cada um toma um sobrenome. Cada um vem de um lugar, de um pai ou padrasto. Somos todos acolhidos pelas asas de Coragem. Carmen-Maja Antoni já desenha ali qual será a sua Mãe Coragem. Leve de aspecto, quase um duende em alguns momentos, uma mulher forte, sarcástica, uma galinha que protege seus filhotes. A guerra lhe serve para ganhar a vida, mas não lhe tirará os filhos.
Qual guerra? Qualquer uma. Esta guerra, instituição abominável em que seres humanos mostram seus piores instintos, suas mais grosseiras inclinações para a barbárie. O texto de Brecht inclui-se entre as obras mais importantes a falar do que nos passa em tempos de batalha. Lembro de É isto um homem? de Primo Levi. Até onde vamos, quanto negociamos, quem vence e quem perde. O que resta de humanidade quando nada mais resta?
Anna Coragem acredita que pode lidar com isto. Um a um, porém, seus filhos vão caindo nas batalhas da vida. Mas, a carroça não lhe fica mais leve. Ao contrário, há que puxá-la sozinha. Esta carroça vida, há que carregá-la só. Não há negociação possível.
Bertolt Brecht tinha a guerra como tema e causa em vários de seus textos. Um homem é um homem, Os fuzis da Senhora Carrar, entre outros. Neles, as relações humanas são pautadas pela emergência. Ainda que mostre em quem acredita, Brecht não nos dá ilusões, somos todos engambelados por nossa barbárie. Sempre se pode regatear um preço ou tomar uma aguardente.
Os herdeiros do Berliner Ensemble trazem um espetáculo vigoroso como a peça escrita por Brecht. Um elenco afinado e de presença marcante, uma protagonista carismática, uma encenação estranhada. Tudo é de verdade e nada é. Tudo teatro. Mãe Coragem e seus filhos diferem dos outros personagens, seus rostos não são máscaras. Todos os outros têm o rosto pintado. Pintado para a guerra. A família Coragem bordeja a guerra, vive dela, mas tenta manter alguma humanidade.
Assim, cena após cena, desenrola-se um espetáculo que segue à risca o legado de Brecht. Qual? O do estranhamento, o do humor mesmo em tempos difíceis, o da relação direta com o público.
É nas canções, porém, que para mim se descortina o mais sublime da imensa e poderosa e avassaladora revolução brechtiana. É impossível distanciar-se do que não nos aproxima. Lições de Brietzke. Ao cantar como um ator, às vezes a voz falta, ou o tom não é bem esse, mas suspende-se a ação e dá lugar ao ato da canção. Enquanto cantam, ator e personagem se dão as mãos no mesmo lugar, porém desdobrados. A canção nos toca e nos faz pensar.
Quando cantam, os atores do Berliner lidam com a dialética forma de ir e voltar da emoção. Quando cantam, remontam, para mim, a uma sensação de ter vivido tudo aquilo mesmo sem o ter feito.
Talvez o espetáculo pudesse ter um ritmo mais ágil, talvez as trocas de cena pudessem ter outra luz que nos deixasse espiar os movimentos, talvez os diálogos pudessem variar mais em seus andamentos, talvez...
Nada disso importa, no entanto, quando Brecht e sua companhia mágica nos dizem que há que puxar esta carroça com nossos amuletos, nossos destroços, nossas pequenas vitórias e nossas canções.
Por fim, a emoção universal dos atores encantados com a comunhão dos aplausos, dos gritos e da pulsação afinada com a plateia. Pura emoção brechtiana.
*Mirna Spritzer é atriz e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O ruído branco da palavra noite por Mirna Spritzer

O ruído branco da palavra noite*

O espetáculo baseia-se na correspondência trocada entre as principais figuras do Teatro de Arte de Moscou, tais como Tchekhov, Górki, Stanislavski, Dantchenko e Meyerhold, a partir do livro O cotidiano de uma lenda – cartas do Teatro de Arte de Moscou, de Cristiane Layher Takeda.
Aí está o principal mérito da montagem, buscar dar voz a homens e mulheres que compuseram um dos mais belos e profícuos momentos da história do teatro. Os ensaios, as buscas, as formas de interpretar e escrever, os anseios e inquietações que moveram estes artistas ousados e profundos.
Para tanto, as cartas são ditas pelos atores em cenas de ensaio, leituras e conversas. Entremeadas a elas, fragmentos das obras de Anton Tchekhov, A gaivota, Tio Vania, As três irmãsO jardim das cerejeiras.
A paixão que mobilizou estes homens e mulheres e que, provavelmente, move também a Companhia Auto-Retrato, de SP, na busca do germe da criação e sua relação com as circunstâncias do mundo, está, porém, ausente do espetáculo.
Cartas trocadas refletem as sensações do momento, apresentam outra forma de narrativa, trazem a possibilidade de traduzir-se para o outro através de uma reflexão íntima posta em palavras escritas. Ao revelá-las em cena, os atores o fazem de forma quase sempre igual, propondo uma secura que não convida, não afeta o espectador. Há momentos, no entanto, em que é permitido sair deste aprisionamento e é aí, nestas brechas, que escapa a paixão daquela e desta gente de teatro.
É o caso em que uma atriz vem à plateia e, através da fala de Meyerhold, expõe a necessidade do teatro de rever-se e o faz com energia corporal vibrante. Outro bom momento é aquele em que um ator através de carta de Dantchenko, expõe a profunda relação deste com Stanislavski, ambos parceiros na criação do Teatro de Arte de Moscou. Aqui, percebe-se uma entrega ao instante, ao agora da cena. O ator deixa-se emocionar, traz isto a sua voz e atrai-nos.
Ao entremear cenas das peças com cenas de vivência das cartas, a companhia compõe uma narrativa interessante para a cena. É necessário, entretanto, avivá-la, inserir rupturas, assumir as quebras, dando ao espectador a possibilidade de, através das fissuras, entrever a intensa inquietação daqueles momentos de criação.
O que se desenrola a nossa frente passa a ser um desfile de cenas, quase sempre no mesmo tom. Personagens tchekhovianas e criadores russos se sucedem na mesma energia e pulsação. Desta forma o espetáculo padece de um andamento linear e cansativo.
Os corpos em cena pedem intensidade, necessitam de vozes que flutuem que sejam certeiras como flechas, que tragam nuances para a atuação. Ansiamos por ver em cena a pulsação daqueles tempos, a inquietação vivida no cerne da criação. A iluminação poderia favorecer mais os atores e a cena, tornando-se menos escura, variando mais, inserindo mais focos. Quando isto acontece, atuação e encenação brilham.
Da mesma forma, os figurinos deixariam de lado a isenção, a pretensa neutralidade ou certo tom de cotidiano indefinido, para assumir mais as diferenças propostas. Às vezes, um único elemento pode trazer a ênfase desejada.
Tudo está posto, todos os elementos inseridos, a companhia precisa então, deixar-se apaixonar e viver o aqui-agora do teatro. Como certamente fizeram aqueles bravos homens e mulheres de teatro, na Rússia da virada dos séculos XIX e XX.
* Mirna Spritzer é atriz e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Bob Bahlis #7: A placa a Paulo José



Foto: Creative / PMPA

Cena 5: Teatro é feito com as mãos

Foi um dos momentos mais emocionantes e engraçados do Porto Alegre em Cena: a entrega de uma placa para Paulo José por Luciano Alabarse. Vamos aos fatos reais, ocorridos na noite chuvosa de um domingo.

Depois do espetáculo Um navio no espaço ou Ana Cristina César, o Paulo José chamou o Luciano Alabarse ao palco do Teatro CIEEE. Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César e tantos outros foram mencionados por Luciano, que fez o público chorar. O Luciano também chorou. Eu também! Ele tinha uma placa nas mãos, daquelas com frases para homenagear.

Produzo o que rolou: uma daquelas cenas que a gente nunca esquece.

Luciano: Hoje, às seis da tarde, perguntei: E a placa, a placa para homenagear o Paulo José na estreia do espetáculo? Alguém respondeu que estava na gaveta. Aí eu abri a placa e fiquei pasmo.

Silêncio.

Luciano: Tinha um erro de português! A primeira coisa que vi foi que faltava um “S” numa palavra.

Plateia ri.

Luciano: Na placa, o começo era assim: Paulo, você é um dos orgulho do teatro brasileiro.

Plateia ri muito.

Luciano: Saí correndo a procura de uma loja pra fazer uma nova placa, para homenagear o Paulo José. Nenhuma loja poderia fazer naquele momento. Fiquei desesperado.

Plateia ri muito.

Luciano: Aí, resolvi pegar um estilete e fiz um "S".

Plateia ri demais.

Luciano: Ficou horrível.

Plateia ri mais ainda.

Luciano:
Saí correndo pra comprar uma caneta dourada. Dar uma maquiada, pra combinar com as letras douradas. Ficou terrível.

Plateia ri muito. Paulo José e Ana Cristina se dobram de tanto rir.

Luciano:
Pensei em suspender a entrega da placa pra hoje.

Público inteiro berra: NÃO!!!!

Luciano:
Pois é. Achei melhor entregar assim mesmo. No teatro, a gente vai acertando, errando e, com as próprias mãos, tentamos arrumar os erros. O teatro é artesanato, feito com as mãos. Então, Paulo José, te entrego aqui com as minhas mãos, a placa em tua homenagem.

PÚBLICO APLAUDE DE PÉ.

Paulo José:
Bom eu sempre me orgulho dessa amada terra, de ser gaucho.

*

Foto: Alexandre Bazzo

Cena 6: Mirna Spritzer


A atriz gaúcha Mirna Spritzer é meu sonho de consumo como diretor de teatro. “Todas as coisas que faço giram em torno do fato de ser atriz”, certa vez, disse Mirna. E concordo com ela: “Muitas vezes estamos mais próximos de Montevidéu e de Buenos Aires do que do Rio ou São Paulo.”

Bob: Mirna, qual a melhor peça que já assistiu na vida, que mais lhe marcou?
Mirna Spritzer: Noite de reis, de Shakespeare, pelo Theatre du Soleil, em 1984, Cartucherie, Paris, nevando, Ariane Mnouchkine, ajeitando as pessoas na plateia para que coubessem todos, distribuição de vinho para aquecer, atores se maquiando e se aquecendo... Era tudo que eu sonhava. O espetáculo se desdobrava e eu me sentia testemunha do maior acontecimento da terra. Os atores faziam Shakespeare inspirados pelo teatro Kabuki e eram universais.

Bob:
Constuma ir ao teatro com frequencia? De quanto em quanto tempo?
Mirna Spritzer: Varia. Tem épocas em que me reapaixono e vou bastante. Em outras, me recolho.

Bob: Quais as peças a que assistiu no Em Cena deste ano até agora?
Mirna Spritzer: Happy days, As troianas, Antígonas, Um navio no espaço, A máquina de abraçar. E Alkohol, que não é teatro, mas bem poderia ser.

Bob:
Em poucas palavras, o que achou delas.
Mirna Spritzer: Amei o espetáculo de Goran Bregovic com sua orquestra, Alkohol. Sem sombra de dúvida, a melhor coisa do festival. Me emocionei com Paulo José e seu navio no espaço. Gostei de Adriana Asti e do Bob Wilson fazendo Beckett com liberdade e ousadia. Fiquei perturbada com As troianas. Sensibilizada com Antígonas, sendo fã de Alberto Muñoz, é melhor ainda. Muito bom o texto de A máquina de abraçar. Importante dizer que os video portraits de Bob Wilson são espetaculares. Surpresa, beleza, estranhamento, perturbação, humor, emoção. E a gente vai dosando como desejar na medida em que percorre a exposição(?).

Bob: Quais são as peças que ainda pretende assistir e estão na tua agenda?
Mirna Spritzer: Por tu padre, Reglas, usos e costumbres en la sociedad, In On It, Kabul.

Bob: Um sonho...
Mirna Spritzer: O palco. Ainda.

Bob: Uma personagem...
Mirna Spritzer: Blimunda, de O memorial do convento, de Saramago.

Bob: Uma peça...
Mirna Spritzer: Mãe Coragem e seus filhos, de Brecht.

Gente boa, desculpe qualquer erro, sabe como é a dislexia, né? Um navio no espaço ou Ana Cristina César continua ancorado na minha memória.

A peça já passou... Quem viu sentiu.

Ainda vai render entrevistas com Fabrício Carpinejar, Cinthya Verri e Ivete Brandalise sobre o suicídio da Ana Cristina César.

Beijos, Bob Bahlis