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domingo, 23 de setembro de 2012

Brasil por Plínio Marcos Rodrigues


Brasil parecia uma mistura de teatro com performance de dança e vídeo. Com uma grande atriz argentina que mais uma vez mostrou a força da interpretação de nossos vizinhos. Em um tom coloquial, Maria Ucedo conta passagens “reais” de sua vida em um palco quase nu: quase porque um imenso puff divide o palco com a atriz, objeto aliás pouco utilizado, mas que mesmo assim ajuda na demonstração da solidão em que vivi, pois buscou a personagem. O palco não inicia vazio, quase meia centena de ovos brancos espalhados pelo palco preto nos oferecem uma falsa impressão do que será a peça/performance. A atriz então dança desviando dos ovos, depois se acosta com eles, reúne-os numa bela coreografia no solo e finalmente os choca! A partir dai o ritmo muda vertiginosamente: vídeos com paisagens virtuais, “chapas” da arcada dentária da atriz, música eletrônica alta, mais dança, cansaço e o descanso merecido no citado puff. A peça encerra com a atriz cantando uma versão em espanhol, feita por ela mesma de uma música do Arnaldo Antunes promovendo uma bela troca entre artistas “hermanos". Mais uma bela oportunidade oferecida pelo festival para que conheçamos o bom teatro argentino contemporâneo.
*Plínio Marcos Rodrigues é ator

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Zé & Celso- Canções do Oficina por Plínio Marcos Rodrigues

Teatro como “Arte-Irmã”*

“Separai as canções do resto!
Um emblema da música, uma mudança de luz,
Um título, projeções, mostrarão
Que agora é a arte irmã
Que entra em cena. Os atores
Se transformam em cantores. Com outra atitude
Se dirigem ao público, sempre
Personagens das peças, mas agora abertamente
Partilham o conhecimento do autor”.
Bertolt Brecht

O Dramaturgo alemão cunhou a expressão “Arte-Irmã” ao se referir à música como parceira ideal do Teatro.
Os espetáculos do Teatro Oficina sob a batuta de José Celso Martinêz Correa sempre foram marcados pela musicalidade explícita, com a presença de grandes coros que muitas vezes cantam trechos inteiros das peças montadas pelo grupo. Zé Miguel Wisnik compôs e realizou direção musical em diversos espetáculos do Oficina. Celso Sim cantou em muitas dessas montagens.
Isto posto o que não esperar de um show onde Zé Miguel e Celso Sim homenageiam o Teatro Oficina na passagem pelos seus 50 anos de profissionalismo? (senão seriam 58 de existência plena).
Logo na primeira música, sozinho ao piano, Zé Miguel mostra indícios do que veio fazer no Porto Alegre Em Cena, não é uma peça de teatro, não é um show ególatra onde ele mostrará todo seu talento como músico, nem é só mais uma apresentação dele na nossa cidade, o que vimos em um Theatro São Pedro lotado, e que ovacionava cada silêncio proposto pelo artista, foi pura celebração! Quando Celso Sim entrou em cena, na segunda música, exalando emoção, suingue, paixão mesmo por aquilo que estava fazendo, tive a certeza que seria uma tarde/noite inesquecível, inebriante, celebrada! Celebraram Oswald e Mário de Andrade entre outros modernistas, referenciando e reverenciando a montagem de O rei da vela e Mistérios gozosos, Gregório de Mattos, Vinicius de Moraes, Antônio Cícero, mais Artaud, Eurípides, Rimbaud, Verlaine e tantos poetas, dramáticos ou não foram aparecendo durante a apresentação sempre bem ilustrada pelo “professor” Wisnik; aliás, poucas pessoas sabem tanto sobre um assunto (literatura) e falam com tanta desenvoltura, sem afetação e com tamanha humildade. E não era uma aula, nem um sarau poético, era show puro, eles foram naquela ocasião exatamente o que nos cantaram no inicio da apresentação: Menestréis! Acompanhados por uma banda jovem, talentosa ao extremo e com a formação atípica de duas baterias, mais pandeiro (Sergio Reze e Guilerme Kastrup) e dois responsáveis pelas cordas (Marcio Arantes e Swami Jr.), incluindo ai contrabaixos acústicos e amplificados, guitarra e violão de sete cordas além do delicioso piano do Zé e da voz firme e expressiva do Celso! Ao cantarem as quatro músicas feitas para as quatro estações do ano em que o Teatro Oficina foi reaberto celebraram junto com o Uzyna Uzona a força transformadora do tempo, o poder de permanência de um teatro quando se tem o direito a terra, água, fogo e ar.
Zé & Celso vieram pra desmitificar e derrubar o muro entre a canção feita para teatro e a canção feita pra show e de arrasto levaram nessa avalanche preconceitos, maneirismos e formas ditas corretas, cantaram samba, tango, música erudita e rap tudo harmonizado; agradeceram a anjos e demônios do Em Cena e de quebra fizeram todo um São Pedro, toda uma Porto Alegre entoar em tom de mantra/pedido que nos dessem “...Senhor a Poesia de Cada Dia...”
E assim como chegaram se foram, com aquela permanente efemeridade, que acaba só na esfera palpável real, mas que como toda obra de arte, como todo espetáculo do Oficina, seguirá soando nos privilegiados ouvidos que puderam junto com eles, junto comigo, junto com o festival e junto com uma cidade CELEBRAR!
Evoé Porto Alegre Em Cena!
lÓ Zé & Celso!
Imortalidade ao Teatro Oficina Uzyna Uzona!
O B R I G A D O!
* Plínio Marcos Rodrigues, Ator e Fã.

sábado, 10 de setembro de 2011

Dois perdidos numa noite suja por Plínio Marcos Rodrigues

Ainda há esperança para o teatro! Mas e para a humanidade?*
Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos! É um texto conhecido, pesado, cru, violento como a maioria dos textos do dramaturgo santista. Trata da história de dois párias de uma sociedade desde aquela época (1966) excludente, que continua criando monstros como os dois personagens da peça. Monstros humanos, que já tiveram sonhos e desejos, esperanças e vontade de lutar, mas foram vencidos; ou desistiram. Sem protagonistas e/ou antagonistas o texto promove uma troca de status constante, contínua, sem deixar que escolhamos um agente pra torcer: se às vezes Paco nos cativa com a tentativa de ser artista, o apego desesperado de Tonho à esperança de sair “dali”, de sair “daquilo” também nos toca. A miséria deles não é como a nossa, mas é miséria igual. Infelizmente a escolha do como sair daquela situação também não é novidade e num ato de desespero um crime é cometido. Seguido de outro e...Sem nos mostrar uma saída ou dar-nos falsas esperanças acerca do futuro da humanidade o autor termina a peça.
A montagem deste texto que o Porto Alegre Em Cena trouxe este ano é um primor, dirigida por André Garolli é de uma simplicidade espetacular, aqui cabe o paradoxo, pois Teatro, simples, com bons atores e um bom texto é um espetáculo! No palco nada além do essencial, tudo que aparece é usado em cena, tudo tem significado, tudo é teatral, funcional, espetacular. Adereços quase realistas e que não se transformam em nada, são o que são: sapatos, uma mala, uma gaita de boca, uma bacia, canecas, água, uma arma. A crueza do texto é alimentada pela direção: palco quase nu, figurinos simples, luz funcional, mas não realista quase escura, os atores “procuram” o foco, se colocam na luz, física e metaforicamente; o gesto utilizado para o apagar das luzes é outro exemplo de simplicidade teatral espetacular. Tudo isso totalmente a serviço dos verdadeiros protagonistas das nossas Artes-Cênicas: o Ator! E aqui entramos também no cerne do que este texto se refere, os atores Igor Kovalewiski e Renaldo Taunay estão entregues, dispostos, disponíveis, são viscerais e humanos, extremamente humanos. Atores que emocionam não só pelo que dizem, mas pelo que sentem e nos fazem sentir. Tecnicamente também, têm voz límpida, boa dicção mesmo utilizando as gírias e maneirismos que o texto sugere e que acertadamente se mantêm na adaptação de Igor; os atores mostram também um ótimo trabalho corporal, sem exibição de virtuosismo e sim esbanjando expressividade, mostram corpos cansados, miséria encarnada, corpo desesperado. Brigam sem deixar o público apreensivo com sua integridade física, porém com vigor necessário à violenta experiência que nos apresentam. Enfim é uma montagem forte, crua, com a mão de um jovem diretor que deixa brilhar quem deve: aqueles que emprestam corpo, voz e alma aos personagens os ATORES!
O Abraço emocionado no colega de cena e as palavras com que o ator agradeceu ao festival no fim da peça chamam para uma reflexão: se temos a oportunidade de assistir grandes produções internacionais, de termos contato com o que há de mais moderno em realização teatral mundial, temos também o bom e simples teatro que continua sendo esse do “DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA”!
Obrigado ao Porto Alegre Em Cena por proporcionar mais uma vez experiências teatrais inesquecíveis.
* Plínio Marcos Rodrigues é ator

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Plínio Marcos Rodrigues: Navalha na carne


Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

NAVALHA afiada NA CARNE crua!

Por que uma peça com texto pontiagudo, seco, poucos objetos cênicos, luz simples e três atores em cena é tão boa? Acho que afinação é a resposta mais simples para essa pergunta e a simplicidade, talvez, resuma a grande virtude do espetáculo Navalha na carne. Atores afinados entre si, afinados com o cenário, afinadíssimos com a direção e com o público. A crueza do texto, das interpretações e dos figurinos só contribui para o êxito da montagem que é uma grande celebração: à vida, ao teatro e ao grande dramaturgo Plínio Marcos.

Os atores recebem os espectadores na entrada, os aguardam, espreitam, abrem as portas do quarto e de suas almas, para que, voyeurs, possamos, quase sadicamente participar das desgraças que fundamentam a vida dos três personagens. E esperam-nos com graça, cantando, tocando, bebendo catuaba: o teatro já esta acontecendo, no palco e fora dele. Os atores encarnam mais do que interpretam, são corajosos, viscerais veículos de contação de uma história triste, mais do que trágica, cotidianos sem esperança, vidas sem sentido, pessoas pouco humanas.

A Neusa Suely de Paula Cohen é uma puta pobre, com senso de humor ácido, personagem cansada de uma atriz incansável, voz rouca de cigarro, fome de sanduíche enrolado em papel alumínio, libido de mulher mal amada.

Vado, encarnado por Gustavo Machado (que está a cara do autor quando jovem), é forte, viril, testosterona pura, puxa ferro e fumo, é nojento, asqueroso, mas bonito, e, não pior que os outros dois, causa tanta raiva quanto pena.

E Veludo, ai, Veludo... Assumido por Gero Camilo, aparece como uma bichinha, desliza sobre patins como quem tenta escorregar da vida que leva, jura que está estudando línguas, tenta ser simpático e cativa o público logo na chegada, para, em seguida, mostrar a outra face: suja, ladra, sedutora, forte, maquiavélica, manipuladora. São tantas as facetas de personalidade que Gero empresta e/ou toma emprestado à Veludo, que seriam inumeráveis.

Então, acontece: os três se mostram, se apresentam, se encantam, se roubam, se agarram, se lambem, se amam, se batem, se devoram, se estraçalham, se embriagam, se acabam, no final se abraçam, se agradecem: e nós, ali, alheios?

*

Plínio Marcos Rodrigues
Ator, integrante do elenco de O Avarento, apresentado nesta edição do Em Cena. Recebeu como herança de seu pai o nome de Plínio Marcos e como presente do Festival o convite para escrever sobre a montagem de um dos textos mais conhecidos do autor em cuja homenagem recebeu seu nome.