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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Anjos, vinde a mim!: Inscrições abertas para anjos do Em Cena

Estão abertas, até o dia 30 de junho, as inscrições para anjos!
Não, não é nenhum chamamento místico: anjo é a denominação dada àqueles que, durante todo o período do festival (que neste ano será realizado de 6 a 26 de setembro) tem por missão acompanhar os grupos que visitam a nossa cidade, nos traslados necessários. O anjo também tem que ter um bom jogo de cintura e "ligadeira" para conseguir resolver eventuais questões/problemas que se apresentem no trato com os integrantes dos grupos. Enfim, ser um anjo para os que vêm de fora, acolhê-los e fazê-los sentirem-se em casa, na medida do possível.
Se você se considera apto a cumprir essa missão divina, envie seu currículo, até 30 de junho, para marceloemcena@gmail.com

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Anjos do Em Cena: Fernanda Petit


Ser anjo do Em Cena


Ser anjo
Faz 6 anos
6 anos que pus as minhas asas
Conheci outros países, outras cidades
escutei outras línguas
vi outros teatros
troca, troca, muita troca.
Cada ano, recebo de um Querubim a incumbência de "cuidar" de anjos da arte.
Pessoas que brincam com teatro, que enchem a cidade de Porto Alegre com um outro teatro,
Trazem novas possibilidades, adaptações, entregas, gritos, silêncios,
cores, costumes, críticas, inquietações.
A cidade e nós somos arrebatadas por um mês de vida pulsante.
Saímos bagunçados de salas de teatros.
Saímos felizes com uma esperança na nossa profissão.
Saímos críticos, bebendo em bares e discutindo em mesas.
Dançamos juntos com outras pessoas em festas.
Tudo se inicia no inverno e termina no início da primavera
O Em Cena nos deixa menos cinza,
Menos melancólico
Eu espero abrir as asas durante todo ano.
Pareço uma criança esperando o aniversário chegar
Como se fosse reunir vários amiguinhos legais, todo mundo em volta da mesa esperando o melhor pedaço do bolo.
Eu sinto borboletas na barriga...
Sei que, depois do fim de tudo, viro aquário por um dia
as asas ficam um pouco encharcadas de lágrimas
porque sinto o carinho no peito
O carinho e as coisas doces nascem durante alguns dias de contato com as pessoas
A despedida para o anjo é necessária.
Sinto que cada grupo que "protejo”, que cuido, que levo para comer
é como se eu desse um novelo para cada um, que nos liga.
Dentro de um tempo, ele vai ser cortado.
Enquanto não se corta,
fazemos um lindo desenho colorido
com novelos no festival.
O motorista se torna o melhor amigo
Os restaurantes sua mesa de jantar da sala
Todo ano, no festival, a cidade fica cinza
chove muito
e sempre quando acaba
os grupos comentam que vem o sol
Você recebe um envelope
lá está nome de pessoas que você vai cuidar
19 pessoas?Um susto
4? Ah! Mais tranqüilo...
Ao abrir o envelope, se descobre o inesperado.
Um anjo dorme com o celular grudado ao ouvido.
Troca dia pela noite,
Noite pelo dia.
O relógio batendo no pulso
Uma briga com o tempo
Uma briga com os neurônios para organizar tudo
Cada ano, temos uma Logist Team perfeita.
Uma turma enrolada em fios de telefones.
Muitos cigarros para acalmar a loucura do dia
O Casarão cheira novidade.
Tem uma risada que sai pelas janela
O telefone tocando
Papéis de aviso na parede
Uma união inexplicável
Ligações a cobrar
Tickets de refeição que tomam conta da minha bolsa
Crachás que se enrolam
Sacolas de presente
Nomes para serem decorados
Expectativas
Aeroporto
Correndo
Plaquinha (nuvem) nas mãos
O nome do grupo... Todos te olhando no aeroporto (que situação!)
Ai! Cadê meu grupo?
Ai! Chegaram!
Eis que saem do aeroporto inúmeras pessoas com malas
Com vontades.
Te abraçam
Sorrisos
Sono
Troca de energia
Ali está o primeiro contato
E você torce que seja bom e se esforça para que seja bom
Todos anos, tenho grupos de los hermanos
Me gusta uruguaios
Fico em festa
Os dias que se sucedem são de surpresa e alegria
Sinto que é como brincar no céu e poder tocar as nuvens fazendo formas
Não me sinto pesada
As responsabilidades são cumpridas e cada dia é mais um motivo
de pôr os óculos escuros
se arrumar
e organizar tudo.
Cada dia tenho mais certeza de que quero ser atriz
Viver perambulando pelos teatros
Você ser teatro num todo
Poder ajudar
Eu sou muito feliz em poder ajudar
Este ano, em especial, tive a chance de poder estar atuando no festival
e ter esta troca como atriz
Nunca estive tão feliz
pelo festival
pela equipe
pelas pessoas que conheci.
Eu poderia dizer muitas coisas em ser anjo
e tudo poderia ser piegas.
Posso só dizer que sinto felicidade
Que sim o Festival Porto Alegre tem uma organização
um respeito pelo artista
pela cidade
Tem várias coisas borbulhantes e agradecidas dentro de mim neste momento
Vou guardar no meu álbum mais bonito
Vou por ali no cabide
as minhas asas
guardar no armário
Pôr na caixinha de lembranças boas , todos os sorrisos de satisfação dos meus grupos.
Dar um parabéns a todos os anjos
que, como eu ,devem estar felizes e cansados.
Durmam bem em suas nuvens!
Próximo ano, vamos voar!
Vou calçar meus sapatos vermelhos
e dançar um pouco na chuva, pois quero transformar o "vazio" que fica
numa saudade
num extraño
bem doce.
Vou pôr o pijama, pois todo ser do festival merece uma cama
com lençol novo e um solzinho no rosto.
Que seja doce.
Até asas
Este ano foi muito lindo


*

Fernanda Petit- "sortuda " em ser anja há 6 anos no Porto Alegre em Cena

Anjos do Em Cena: César Figueiredo


Anjos “Em Cena”

Os anjos são figuras importantes em muitas religiões do passado e do presente, e o nome de "anjo" é dado amiúde indistintamente a todas as classes de seres celestes. Todos aceitam como fato sua existência, dando-lhes variados nomes, mas, às vezes, são descritos como tendo características e funções bem diferentes daquelas apontadas pelas tradições religiosas.

2010 – Porto Alegre

Num casarão do século XVIII, no bairro Menino Deus, e o nome do bairro já diz alguma coisa, pessoas foram selecionadas para umas das funções mais orgânicas de um festival de teatro. Nem todos conseguiram passar a etapa celestial do evento, mas os que passaram tiveram em mãos artistas de todos os lugares do mundo, repassando a dimensão de um festival, contribuindo com seus talentos angelicais e agregando seus conhecimentos de cicerones aos artistas que neles depositaram confiança e muito trabalho, fora um exercício de paciência e disponibilidade celestial. Anjos recebem tarefas, não reclamam, sorriem e ajudam, além de mostrar a cidade e encaminhar seus protegidos para que tenham a certeza de que farão o maior espetáculo de suas vidas.

Lidam com todo tipo de artista, desde o mais querido ao mais excêntrico, do mais passivo ao mais polêmico, dos que parecem anjos também, aos que lembram o próprio diabo. Assim, entre noites mal dormidas e bons restaurantes, entre hotéis sem água e teatros lotados, entre o bom humor e os fãs sem sorte, entre atrasos e lembretes da nossa chefe, caminhamos e corremos por corredores escuros. Celulares no silencioso pra não atrapalhar, piadas sem graça ou mesmo sem saber o que falar, estamos ali para servir e encaminhar os artistas até os produtores de palco, que nem sempre são anjos como nós.

Aos que servem de anjo sobram carinho e dedicação ao trabalho, muitos querem seguir na profissão de seus protegidos, outros querem o que escrever de suas vivências como anjo, eu por exemplo. Alguns gostam de estar perto de “stars”, outros estão pela grana para pagar as contas no final do mês, mas todos na sua função angelical.

Quando conhecem suas atribuições e fazem seu trabalho, traduzem a ideia de um festival, não importa se tudo deu certo ou não, ao final, nossa função tem que ser perfeita. Recebemos um fiel escudeiro que chamamos de motorista, sim, não podemos esquecer deste que nos carrega de um lado para outro e nos salva de situações quando mais precisamos. Nele depositamos nossas esperanças em relação ao tempo, ele pode nos prejudicar se não for de seu agrado, se senti enciumado por não receber atenção, parece engraçado, mas os motoristas, em muitas vezes, são a nossa salvação.

Não dormir, não atrapalhar, não se envolver, não criticar, não invadir, não duvidar, nem sequer mentir e, muitas vezes, não acreditar. São muitos "nãos" que temos que aceitar.

Vou citar um dia de anjo: recebo um envelope com informações de chegada no aeroporto, nomes e listas de pessoas que estão no ar, cansadas e de mau humor, não por conta do festival, mas pelos problemas dos seres humanos do cotidiano. Chegam e querem dormir, chegam e querem comer, chegam e querem conhecer, passear, fumar, beber e, na grande maioria, querem se isolar. Sim, faz sentido, o cansaço pede um bom descanso. Aguardamos o grupo no saguão do hotel para o almoço, recebemos a metade e temos que chamar a outra metade, levamos o grupo ao restaurante, ao teatro, saímos pra comprar coisas que faltaram e que geralmente são difíceis de serem encontradas, sorrimos enquanto ouvimos reclamações, ligamos pra base pra pedirmos ajuda e, por alguns segundos, às vezes, descansamos, e seguimos, sempre seguimos.... Passado alguns dias a convivência nos torna mais próximos desse artista e sempre terminamos chorando quando eles partem, seja por alegria de conseguir mais um amigo, seja pela felicidade de se livrar de gente chata, ou seja, por terminar nosso trabalho com dignidade.

Quando o avião sobe leva com ele nosso trabalho, nossa dedicação e a esperança de que, no ano seguinte, possamos conhecer pessoas bacanas que trazem, dos mais distantes cantos do mundo, sua arte para encantar e fazer sonhar nossos convivas.

Para os anjos, ficam a experiência de conviver com pessoas maravilhosas, de conhecerem seus limites, de dormirem pensando em trabalho e acordarem com um sorriso no rosto e quando ao final de um espetáculo somos lembrados e agradecidos em um palco, temos a nítida sensação que sim, temos nosso lugar reservado no céu por exercemos nossa função de forma celestial, afinal de contas somos os eternos “Anjos Em Cena”.


*

César Figueiredo
Anjo pela 1ª vez no 17º Porto Alegre em Cena