Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

As canções que você dançou pra mim (RJ)


Dias 9, 10 e 11, às 22h
Teatro de Câmara Túlio Piva
 
O espetáculo dirigido e coreografado por Alex Neoral, da Focus Cia de Dança, traz à cena todo o romantismo proveniente das canções de Roberto Carlos. No palco, quatro casais cantam, dançam e interpretam um grande pout-pourri que envolve 72 canções do cantor, misturando sentimentos e revisitando sucessos, como Detalhes, Splish Splash, Calhambeque e Fera ferida, entre outros. Os bailarinos colocam música e dança em perfeita sintonia, emocionando e contagiando o público. As canções que você dançou pra mim foi eleito pelo Jornal O Globo como um dos dez melhores espetáculos de 2011 e, em 2012, entrou no guia da Folha de São Paulo como um dos três melhores espetáculos em originalidade e simplicidade.

 
Ficha técnica
Direção e coreografia: Alex Neoral / Elenco: Alex Neoral, Carol Pires, Clarice Silva, Cosme Gregory, Lucas Nunes, Marcio Jahu, Marisa Travassos e Mônica Burity / Direção de palco: Wellison Rodrigues / Pesquisa musical: Alex Neoral / Figurino: André Vital / Iluminação: Binho Schaefer / Operação de luz: Phelipp Raposo / Produção: Tatiana Garcias / Recomendação etária: livre / Duração: 55 minutos

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Zélia Duncan - TôTatiando (RJ)


Dias 16 e 17, às 21h
Teatro do Bourbon Country
 
A ideia do show TôTatiando, de Zélia Duncan é botar uma lente de aumento no aspecto mais teatral da obra de Luiz Tatit - membro fundador do Grupo Rumo, representante da vanguarda musical paulista da década de 1980 - interpretando suas canções através de um viés mais teatral. O show dirigido por Regina Braga conta uma estória, degustando cada canção como se fosse um esquete, com personagens, adereços e recursos específicos. “Eu nunca me senti como uma cantora que ficasse apenas se dedicando ao ofício de cantar, o que já é um serviço para a vida toda, mas experimentando a música que existe nas tantas expressões. Este show não é um ‘musical’ como os que se vê por aí, é um processo inverso. Ao invés de músicas feitas para teatro, é o teatro feito a partir da música. Sim, antes de mais nada, sou uma intérprete musical, com muito orgulho, mas se tornou parte da minha experiência como artista me lançar em outras aventuras que possam representar um desafio, que possam me levar ao inusitado e a algo novo”, define Zélia Duncan.

Ah, a humanidade! E outras boas intenções (RJ)


Dias 14 e 16, às 21h
Dia 15, às 18h
Theatro São Pedro
 
Um dos maiores dramaturgos da nova geração, o nova-iorquino Will Eno apresenta nesta obra um micro universo de personagens comuns em circunstâncias extraordinárias. A parceria de dez anos entre o ator Guilherme Weber e o diretor Murilo Hauser resulta em um inquietante espetáculo que estabelece diferentes possibilidades de diálogo entre atores e espectadores. Num cenário que evoca plasticamente uma catástrofe, os personagens enfrentam situações diversas, como uma coletiva de imprensa, uma gravação de vídeos para uma agência de encontros, o pronunciamento de uma companhia aérea após um trágico acidente e a reconstituição de uma fotografia de guerra. 

Ficha técnica
Direção e tradução: Murilo Hauser / Concepção do projeto: Guilherme Weber e Murilo Hauser / Texto: Will Eno / Elenco: Guilherme Weber, Renata Hardy, Celso Frateschi, Erica Migon e Fabio Mazzoni / Cenografia: Valdir Lopes Jr e Rafael Faustini / Figurino: Cristina Agresta e Paula Strohler / Iluminação: Beto Bruel / Sonoplastia: Murilo Hauser / Revisão de tradução: Erica e Ursula de Almeida Rego Migon / Produção: Verônica Prates - Quintal Produções / Recomendação etária: 14 anos / Duração: 70 minutos

Esta criança (RJ/PR)


Dia 6, às 21h
Dia 7, às 18h e às 21h
Dia 8, às 18h
Theatro São Pedro
 
Fruto de um feliz encontro da Companhia Brasileira de Teatro com a atriz Renata Sorrah - primeira montagem de um texto do dramaturgo francês Joël Pommerat no Brasil - é anunciada como um dos pontos altos do 20º Porto Alegre em Cena. Contemplado em quatro das cinco categorias em que concorreu ao Prêmio Shell 2012 de Teatro do RJ – melhor direção, atriz, cenário e iluminação, o espetáculo ainda recebeu cinco indicações ao Prêmio APTR 2012 RJ – melhor espetáculo, direção, atriz, cenário e iluminação; e ainda 5 Indicações 2º Prêmio Questão de Crítica 2012 RJ – melhor espetáculo, atriz, ator, elenco e cenário. Esta criança estrutura-se em dez cenas curtas e apresenta como tema único, e ao mesmo tempo fragmentado em diversas abordagens, a relação entre pais e filhos. Situações de nascimento, morte, engraçadas, tristes, de abandono e agressão ilustram pontos cruciais e eternos na vida dos personagens sem nome, reconhecidos apenas por relações de parentesco evidenciadas no desenvolvimento dos diálogos. “Uma obra essencial, que revela sem pudor e de forma radical a intimidade e as diversas facetas das relações humanas entre pais e filhos. Uma escrita singular, porosa e permeável que vai ao encontro da pesquisa e criação dramatúrgica que a companhia vem percorrendo e que Renata Sorrah busca”, afirma o diretor Márcio Abreu. O dramaturgo e diretor francês, Joël Pommerat é hoje uma das principais referências do teatro de arte no seu país. Pommerat propõe temáticas ligadas às relações humanas e sociais em seus múltiplos aspectos e aos novos olhares sobre o mundo contemporâneo e suas transformações. Esta criança (título original Cet enfant) é um dos textos mais traduzidos e montados fora da França, conferindo hoje ao autor um lugar de prestígio em importantes teatros da Europa. 

Ficha técnica
Direção: Marcio Abreu / Texto: Joël Pommerat / Tradução: Giovana Soar com a colaboração de Lilian Ruth de Sá / Elenco: Renata Sorrah, Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha / Cenário: Fernando Marés / Iluminação e assistência de direção: Nadja Naira / Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino / Figurino: Valéria Stefani / Direção de movimento: Marcia Rubin / Preparação vocal: Babaya / Direção de produção: Faliny Barros e Cássia Damasceno / Assistente de cenografia: Eloy machado / Assistente de figurino: Nathalia Silvestre / Assistente de iluminação e operação de luz: Leopoldo Victor e Henrique Linhares / Contra-regras: Ronaldo Goiti Garcia e Mateus Fiorentino / Camareira: Conceição Telles / Operação de som: João Paulo / Criação e realização: Renata Sorrah Produções e companhia brasileira de Teatro / Recomendação etária: 16 anos / Duração: 80 minutos

Adriana Calcanhotto- Olhos de onda (RJ)


Dias 12 e 13, às 21h
Teatro do Bourbon Country
 
Já é tradição no Em Cena a presença da cantora e compositora Adriana Calcanhotto palco alguma e seus shows ricos em poesia e musicalidade. Este ano ela está presente no formato voz e violão, levando ao palco algumas canções inéditas e outras inesquecíveis de seu farto repertório, construído ao longo de seus quase 30 anos de carreira. No discreto e emocionante show solo Olhos de onda, a canção homônima norteia o espetáculo intimista. A concepção do espetáculo é resultado de um convite para apresentar-se em Lisboa, na mesma casa onde cantou na cidade pela primeira vez. A partir deste convite, que foi aceito sem titubear, Adriana delineou seu novo show, retomando o violão, instrumento que lhe traz muitas lembranças, desde a infância. No roteiro estão as canções que fazem seu coração vibrar.

Negra Melodia - Zezé Motta (RJ)

Dia 3, às 21h
Auditório Araújo Vianna

Para abrir a 20ª edição do Festival Porto Alegre Em Cena está a presença da consagrada atriz e cantora Zezé Motta, no show musical Negra Melodia - uma celebração aos seus 45 anos de carreira. Considerada a rainha negra do Brasil por sua atuação no filme Xica da Silva, de Cacá Diegues, Zezé diz que ama cantar e que, para ela, estar no palco é como estar em casa. O álbum Negra Melodia, gravado em 2011 em homenagem a Luiz Melodia e a Jards Macalé, é o ponto de partida para esta turnê que já passou por diversas cidades e vem sendo muito bem recebido pelo público. No repertório, grandes sucessos como Magrelinha, Dores de Amores e Estácio Holly Estácio. O show é composto ainda por sucessos que se imortalizaram na voz peculiar de Zezé, como Muito prazer, Zezé, composta em homenagem a ela por Rita Lee e Roberto de Carvalho, e Senhora Liberdade, de Wilson Moreira e Nei Lopes.

Ficha técnica
Voz: Zezé Motta / Violões: Zeppa Souza & Pedro Braga / Percussão: João Bani / Direção musical: Zeppa Souza / Produção artística: Staff Company - Produção: Vander Lopes, Glauker Bernardes e Carla Barbosa / Recomendação etária: 12 anos / Duração: 80 minutos

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Estamira- beira do mundo por Mauricio Guzinski


Estamira é mulher-mistério, é “beira-do-mundo”, indecifrável, inexplicável. E é melhor, mesmo, nem tentar decifrar, sequer explicar seus enigmas; basta aceitar sua existência, deixar-nos ser tocados pelo olhar, pela mirada desta pobre, “ignorante e sábia” mulher, para cruzarmos a ponte, experimentada e oferecida por ela a todos nós, entre aquilo que mais tememos – loucura, doença e morte – e o que mais ansiamos – transcendência. 
Mulher sofrida e lúcida, como a Dolor de Jorge Andrade, em Vereda da salvação. Santificada, como essa, pelo martírio da vida dos “sem nada” – nem terra, nem teto – pra chamar de seu. Pura, como a Virgem Santíssima, mas estuprada, como tantas outras Marias. Delirante, como o “filho de Dolor” (filho da dor, das dores do mundo); transtornada, como aquele Joaquim, Cristo das Roças, que via o Demônio, em tudo e todos, naquela vereda, e que enxergava Deus somente dentro de si mesmo (sem outra salvação do que aquela prometida pelo “Santo Livro”). 

Dolor: (Em Vereda da salvação) Botei tanto filho no mundo! (...) Carpi roça com filho pendurado nos peito. Velei filho, com filho pendurado nos peito. Foi o que deixei nas fazenda: um filho em cada uma. Mas, deixei embaixo da terra! Meus olho e meu corpo deitou mais água na terra que as nuvem do céu. Sou! Sou Maria das pureza. (...) Sofri pra meus filho nascer... e agoniei mais ainda pra eles morrer. A Maria do livro perdeu um filho na cruz. Eu perdi oito! Na cruz tenho vivido eu.
A "lucidez” de Dolor vem de seu criador, vem da poesia-dramática de Jorge Andrade, um gênio da dramaturgia brasileira (o maior de todos, em minha opinião, até o momento), inspirado pela tragédia real de Catulé, em que agregados de uma fazenda que jejuavam, durante a semana de penitências de sua religião – o Adventismo da Promessa – passaram a ter visões da “Terra Prometida”; e foram todos (homens, mulheres e crianças) assassinados pelos capangas do dono das terras, no interior de Minas, em 1955.
De onde vem a “lucidez” de Estamira? Sua fala “delirante”? Quem fala, através dela? Demônios, Anjos, extraterrestres que a abduziram para implantar um chip em seu cérebro (um “controle remoto”); após o segundo estupro do qual ela foi vítima, aqui, na Terra? Estupro que trouxe à luz sua filha (invisível) Sirena e, mais tarde, outros tantos filhos (visíveis): Marcos Prado, Dani Barros, Beatriz Sayad e a mim mesmo. Herdeiros ansiosos por propagar o legado de “nossa santa mãezinha”. Onde (e como?) a “santinha do lixão” encontrou meios de desenvolver sua “sabedoria”? Teria ela projetado sua consciência para acessar seus “arquivos akáshicos”, seus registros etéricos?
Estamira teria encontrado, no lixão de Gramacho, em algum cantinho escondido de seu “prejudicado e privilegiado” cérebro, a morada de seu próprio poder, o poder Superior, Deus?! O Todo, o Tudo, o Universo, o Infinito Astral, a Unidade, o Divino em Si Mesma, em Nós? ou...O Nada, o Grande Vazio? Como Buda, Jesus, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Agostinho, Joana D’Arc e tantos outros homens e mulheres iluminados? Através de um jejum prolongado? Do automartírio? Ou da simples loucura? Todas ou nenhuma dessas possibilidades? 

Ela, como Dolor (fictícia) e Artaud (real), parece ter decidido “acabar com o juízo de Deus”, rebelar-se contra o poder dele, para acessar o seu, a sua própria divindade. Não fosse o seu “desequilíbrio”, sua “falta” de conhecimento e estrutura, talvez pudesse ter sido uma líder religiosa, como Antônio Conselheiro ou Jacobina; uma filósofa, como Nietzsche; uma santa, como Teresa de Ávila ou Joana D’Arc. Poderia ser canonizada por sua atitude ecológica, frente ao “descuido” de todos com a vida do planeta. O seu amor pelos “bichinhos” da Terra lembra, de perto, a pureza, a beatitude de Chico de Assis. Que beleza “o sabiá”, segundo o olhar de Estamira! Que poder, o de um simples coqueiro! Pura poesia, como a poesia pura de Manoel de Barros. Mesmo assim, creio que o Vaticano e o Papa jamais irão reconhecer nossa catadora de lixo como a Santa Padroeira do Jardim Gramacho, Santa Protetora dos loucos mansos, das margens do Guaíba às do Sena.

Segundo seu próprio filho, Estamira tinha “um encosto” (o do “coisa ruim”, do “bicho caviloso” visto só pelo Joaquim, na obra de Andrade). Segundo os médicos (aqueles que só sabem dizer: “Fala!”, diante da angústia de seus pacientes), ela teria esquizofrenia paranoide (que se trata com um “dopante”, só pra esconder os indesejáveis sintomas).
De acordo com um artigo psiquiátrico (publicado no webartigos.com), “Estamira é tachada como louca, porém, apresenta muitos momentos de lucidez e crítica social, fazendo com que se torne possível mudar a perspectiva e visão sobre a esquizofrenia. Estamira trabalha, cozinha, pega ônibus, convive com seus filhos, sua esquizofrenia não faz dela um monstro. Falamos (...) de como a psicanálise vê esse distúrbio da ordem do delírio e da cisão entre o ego e o real”. 

Tempos atrás, ela poderia ter sido enquadrada, também, na tese ultrapassada de Michael Persinger, cientista que tentou provar a existência de um compartimento, no cérebro, responsável por nosso misticismo e a consequente criação dos deuses, por nós, humanos e mortais. Células que poderiam ser estimuladas por um impulso elétrico; quiçá também pelo uso do peyote (experimentado por Artaud e Castaneda), a ayahuasca (pelos xamãs, desde os Incas), os cogumelos, o LSD (pesquisado por Timothy Leary) ou outros tantos enteógenos (do grego: en = dentro ou interno + theo = deus ou divindade + genos = gerador; ou seja, gerador do deus interno, da divindade dentro de nós) ou pela loucura, em si. 

Segundo a diretora do espetáculo, Beatriz Sayad, (em entrevista concedida a Fernanda D’Angelo, para a Revista Personalité): “Ela tinha capacidade de refletir, poeticamente, o que pensava de Deus, da saúde, dos médicos, do lixo e da sociedade burguesa. Usava um vocabulário espetacular e muito claro sobre estas questões que, na nossa cabeça, às vezes se confundem.
Marcos Prado perpetuou “a mensagem” de Estamira em uma verdadeira obra de arte, seu documentário (imperdível) que já recebeu 25 prêmios, entre nacionais e internacionais (e que me faz chorar, quase do princípio até o fim, a cada vez que o assisto; obra que parece contradizer a teoria brechtiana de que o envolvimento do espectador prejudica sua tomada de consciência. Neste caso, ao contrário, potencializa!).
A releitura pós-dramática do documentário, feita por Beatriz Sayad e Dani Barros, ainda vai além ao misturar o resultado do encontro da atriz com “a doença” de Estamira e a de sua própria mãe, na vida real. O resultado de tantos encontros (incluindo o do histórico teatral da atriz com o da diretora) é uma outra obra de arte de extrema potência, poesia, delicadeza, sensibilidade, envolvimento e, até mesmo, do “verdadeiro” distanciamento crítico, postulado por Brecht. Méritos da atriz que, com sua incrível “mímesis corpórea”, traz Estamira, novamente, à vida, diante de nossa mirada estarrecida; ela sabe transitar, com perfeição, entre a incorporação da persona à narrativa dos acontecimentos de três histórias de vida (da visionária do lixão, a sua própria e a de sua mãe esquizofrênica); sabe orquestrar, com absoluto domínio, sua emoção e a nossa; e, acima de tudo, atinge uma “presença cênica” impressionante em momentos muito especiais do roteiro dramático. Entram para o meu rol de “antológicas”: a cena com a vassoura/cajado/cetro que traduz a imensa força da personagem, e a espetacular transformação do pavoroso lixão de Gramacho (um verdadeiro inferno), no próprio paraíso, na ascensão de Estamira aos Céus, em sua viagem através do Cosmo. Méritos da diretora e da atriz que merecem receber todos os prêmios e a consagração do público e da crítica, como já vem acontecendo.
É tudo muito simples (uma atriz, um banco, sacolas plásticas e muita dedicação) parece inacreditável que resulte neste belíssimo espetáculo! BRAVO!
Estamira Gomes de Souza morreu, aos 70 anos, em 26 de setembro de 2011, vítima do “descuido” do SUS, por septicemia, além de tantos outros “descuidos”, durante seu longo calvário. Entretanto, sua “delirante lucidez” terá longa vida na Arte (assim como a obra cinematográfica, de Prado, e a teatral, de Barros e Sayad. Ambas as versões já alcançaram a eternidade). Já canonizada pelo poder do artista, Estamira, assim como a personagem de Apocalipse segundo Santo Ernesto de la Higuera na peça do dramaturgo gaúcho Júlio Zanotta (texto sobre Che Guevara que irá a público, em leitura encenada, por mim, com “a nata” dos atores, bailarinos e músicos de Poa, dia 9 de outubro, às 20h, no Teatro de Câmara, com entrada franca), continua a oferecer rico e complexo material para a criação artística, podendo ser vista por estas e tantas outras diferentes miradas. Posso vê-la, desde já, ressuscitar na pele de muitas outras personagens, na ficção literária, cinematográfica e dramática. Posso ouvi-la dizendo palavras semelhantes às criadas por outro dramaturgo gaúcho, nosso genial Ivo Bender, para uma outra santinha (do fantástico Cabaré do autor): Erica Schmitt, no momento em que esta interrompe, revoltada, seu sono de morte, para interpelar seus fiéis (de forma sensacional e surpreendente):
Erica Schmitt: ...nem o demônio, nem Deus podem me socorrer. Os milagres que concedo a meus fiéis, não posso conceder a mim mesma. Todos pensam que morri virgem. Mentira. (...) morri nas mãos de um pai enfurecido! (...) Se existe inferno, é dentro de mim que ele arde. (...) Escutem: façamos um trato. Voltarei a cobri-los de milagres, atenderei o mais mesquinho desejo de quem me trouxer o meu camponês (o meu negro, de volta!). Quero ele vivo, porém. Jovem, inteiro. Esta gruta tem muitos nichos, desvãos escuros onde os sexos podem se cruzar. Agora, andem, saiam daqui, fora! Rolem pelas campinas, trepem com a simplicidade dos bichos e fiquem sabendo: milagre de hoje em diante, só depois de me trazerem o meu negro! Vamos, fora daqui! Fora daqui!
Onde estará Deus? Fora? Dentro de nós? Em toda a parte ou em lugar algum? Estas são questões que nos assaltam e assombram diante de Estamira, a mulher, o filme, a peça. Depende da mirada, do olhar de cada um. NA ARTE! O Divino em nós está, “pelo menos”, na ARTE. Esse é apenas “um” dos meus pontos de vista!
BRAVO! BRAAVO! BRAVÔÔÔ! Muito mais prêmios e aplausos para Estamira! Gratidão eterna a Prometeu que nos deu a chama e a Dionísio que a transformou em Teatro!
*Mauricio Guzinski é ator, diretor e professor de teatro

Cartas de Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade por Zoravia Bettiol


Um espetáculo sensível e equilibrado
A peça alia o conteúdo intimista e amoroso da correspondência de Drummond e de sua filha Maria Julieta a uma cenografia que tem funcionalidade. A atriz Sura Berditchevsky narra, com muita expressividade, cronologicamente, o desenvolvimento de correspondência de ambos. Sura movimenta-se com naturalidade e desenvoltura no cenário bege com seu traje negro atemporal e os elementos dos cenários vão se transmutando em arquivos, mesas, bancos, cadeiras e berços assim como diversas placas na parede são suporte para projeção de vídeos, imagens fotográficas, documentos, e belos desenhos e pinturas com texturas e padrões de design de superfície criadas e/ou relacionadas à Maria Julieta. Esses elementos contribuem para transmitir o clima afetivo entre ambos, o contexto político e social do Brasil e do mundo e o tempo que se escoa.
O espetáculo torna-se mais dinâmico e rico porque Sura vai nos revelando objetos, livros, brinquedos e lembranças que estavam adormecidos, escondidos, nos elementos cenográficos e que oportunamente têm relação com o texto.
O texto, que inicia com a ingenuidade e a delicadeza das cartas de Maria Julieta menina vão dando lugar a uma relação mais madura e cúmplice com seu pai à medida que ela fica adulta. A trilha sonora muito bem escolhida colabora para nos dar a sensação de passagem do tempo. Um sentimento de melancolia, de saudade e tristeza, se insinua no final da peça pois o amor paterno não resistiu à perda da filha. Mas este sentimento não carrega saudosismo, nem melodrama, pois a Sura diretora e atriz e toda a sua equipe, conseguiram emocionar a plateia e realizar um bem equilibrado espetáculo de forma contemporânea.
*Zoravia Bettiol é artista plástica

domingo, 23 de setembro de 2012

Deus da carnificina por Mauricio Guzinski (3ª parte)


Claro que Carnage se apresenta melhor, muito melhor, nas mãos de Polanski e seu compenetrado elenco, que brilha em cada palavra dita, em cada ação executada, até mesmo ao vomitar e limpar seu vômito. Essa era a opinião generalizada das pessoas do meio teatral com quem tive a oportunidade de conversar, na saída do TSP, aquelas que haviam assistido, antes, ao filme. Como eu, esse público, também especializado e restrito, considerou que, apesar de tantos maus tratos, o texto de Yasmina sobreviveu quase ileso à tamanha violência (e inconsequência). Um tanto disso se deve à qualidade do trabalho do elenco, especialmente, Evelyn e Betti, que seguravam o tempo todo a dignidade da obra, ignorando as “gracinhas” de seu colega Orã.
Na minha opinião, se o diretor excluísse, substituísse ou disciplinasse Orã Figueiredo, e também abrisse mão de alguns elementos desnecessários ao texto em sua montagem (exemplo: com cenário algum, ou mesmo realista, e um elenco heterogêneo, afinado à proposta, o resultado já teria sido muito melhor). Eu até seria capaz de rever, mudar meu juízo e escrever nova opinião a respeito. Nas circunstâncias em que assisti, em Porto Alegre (Flávio deve ter assistido, no Rio, e “eu quero achar” que isso deve ter feito toda a diferença. Pois é muito provável que Orã, ainda não tivesse mostrado suas garras), assim como foi mostrado, aqui, em 12 de setembro, ao contrário de Mainieri, considero ruim o espetáculo e ótimo o texto.
Frente a meus parcos conhecimentos, hesito bastante em classificar Deus da carnificina...seria uma comédia de costumes?!...drama de humor negro?!...tragicomédia contemporânea?!...Não sei! Talvez isso possa ficar a critério de cada leitor, encenador, espectador. É bem possível que essa criação contemporânea nunca venha a ser incluída entre as obras primas da dramaturgia universal de todos os tempos. Nem eu pretendo provar isso, agora. Só o tempo dirá. Isso se sobrevivermos todos a esse conturbado 2012, diante de tantos conflitos internacionais, instaurados e regidos pelo verdadeiro deus da carnificina (e do lucro). Se não sobrevivermos, conforme as previsões mais pessimistas, será uma grande lástima. Yasmina e tantos outros autores ainda não atingiram sua plenitude como dramaturgos. Realmente, ela não está nem aos pés de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Shakespeare, Lorca ou Brecht. Por enquanto, não acrescentou qualquer inovação ao que eles já haviam criado, muito antes. Seu grande mérito, nessa obra específica, é o de tecer uma escrita conectada ao público de seu tempo; e comunicar-se com ele através de suas peças, como os mestres anteriores fizeram, a despeito das críticas desfavoráveis que enfrentaram, cada qual, em sua própria época.
Meu querido Mestre, por favor, não interprete mal o que escrevo, tente entender que, talvez, eu ainda o faça a partir de uma percepção exacerbada, comum a meu ego 4 (tipo caracterológico, também chamado “romântico trágico"), tente compreender e desculpar a forma como minha sensibilidade, minha subjetividade recebeu o conteúdo de seus dois comentários, muito bem escritos e fundamentados que foram tornados públicos no jornal ZH. Como tentei dizer, antes, não é minha intenção polemizar, menos ainda confrontá-lo. Talvez o Sr. não lembre. A Doutora Marta Isaacsson, minha orientadora naquele curso de especialização em Teatro Contemporâneo, deve lembrar, ainda, de minhas angústias, em 2001, diante da muralha que costumamos erigir entre criadores e pensadores. Continuo querendo derrubá-las. Talvez, nesse momento, eu me sinta como a personagem representada por Deborah Evelyn, na montagem carioca, um tipo 1, movido pela ira divina (melhor, pois seguir este caminho, defeituoso, para o irado ego 1, é considerado mais saudável para um melancólico ego 4). Não estou em defesa de Yasmina Reza. Penso em minha obrigação como professor de teatro e servidor público. Quero defender meus filhos, os filhos de Dionísio, os dramaturgos, os criadores. Faço isso há 24 anos, através do Prêmio Carlos Carvalho. Quero incentivar o surgimento de algo novo, fresco, próprio do espírito de nosso tempo e que talvez ainda nem haja “jurisprudência” (nem conceitos) para que possa ser defendido. Difícil, por mais que eu “trabalhe sobre mim mesmo”, estude minha personalidade e me observe...difícil desnudar-me dessa máscara quixotesca, que combate moinhos, ainda. Talvez só quando eu me aposentar (o que já está prestes a acontecer. Sou substituível e necessito transmitir meu legado, depressa. Alguém se habilita?).
Ontem, após me deleitar com o talento de Denise Stoklos como dramaturga, diretora e intérprete de Preferiria não? – transposição do texto literário Bartleby, o escriturário (1853) de Herman Melville para a cena contemporânea, dentro da estética criada e denominada por ela Teatro Essencial – presenciei ao bate-papo da atriz com um psicanalista (infelizmente, não consegui gravar seu nome) e o entusiasmado e emocionado público; dentro da programação Psicanalista em Cena. Com toda propriedade determinada por seu ofício, o psicanalista destacou, a partir da encenação de Stoklos, o funcionamento do ser humano, desde que toma consciência de sua inexorável finitude e nosso consequente desejo de transcendência, perpetuação, eternidade. Uma das formas de perpetuar nossa existência pode ocorrer através do legado de valores internos transmitidos aos filhos (na peça de Yasmina, a herança transmitida aos filhos pelo exemplo dos pais – além das máscaras, da hipocrisia social, do verniz da civilização – também é a violência, ou sua dificuldade em usar a agressividade, construtivamente). Segundo ele, a perpetuação também pode acontecer através de nossas obras, em especial as de arte. Ele ainda referiu-se ao importante filme Melancolia, de Lars von Trier, em que essa angústia própria do ser humano não encontra solução, pois a Terra, único planeta com vida inteligente, será destruída e com ele todos os vestígios de nossa civilização, por isso a melancolia, a depressão inevitável (da personagem central e também do diretor do filme).
Este ano estive muito perto da minha própria finitude e da morte de pessoas muito próximas e estimadas. Acompanhei, de perto, o sofrimento de uma grande amiga, cujo filho, jovem e talentoso poeta, com alguns livros publicados – aparentemente, feliz e realizado – não suportou a melancolia de nosso tempo, preferiu voar dela, prematuramente, pela janela do décimo andar. Comportamento muito comum, sempre evitado em manchetes e noticiários, mas praticado, com frequência, por muitos de nossos ídolos. Flávio, diante de tudo isso, estou muito preocupado com nossa função, como pais e professores, em tempos tão difíceis. Quero acreditar no Deus da criação e não no “da carnificina que reinou sobre todos nós há milhares de anos”, como afirma uma das personagens de Yasmina.
Quero me comprometer, cada vez mais, com a vida, com o poder criativo, construtivo, e não com o poder destruidor da palavra. Por mais pessimista que seja a visão impressa pelo criador em sua obra de arte, ela expressa um desejo de mudança. Ou ele não conseguiria realizá-la, “eu acho”. Penso isso do deprimido e genial Von Trier, de Nicky Silver, de David Foster Wallace (muito bem apresentado ao público, que ainda o desconhecia, na adaptação de Breves entrevistas com homens hediondos feita pelos jovens e atrevidos criadores do Teatro Sarcáustico, selecionado, por todos os seus méritos, para constar na grade do festival, que, aliás, está estupendo. Bravo, Luciano! Parabéns a toda a tua maravilhosa equipe!) e de tantos outros inventores de nosso tempo.
Nem eles, nem Yasmina, muito menos, Bertolt necessitam de minha defesa, “não são sagrados”, mas já estão “consagrados” pelo público ou pela crítica. Estou preocupado é com aqueles que ainda não chegaram lá, e com “os que virão depois de nós”. É com a necessidade desses que me preocupo, eles precisam (e merecem) encontrar um campo fértil para o plantio daquele algo novo (que pode ser ainda melhor do que o já conhecido), não posso aceitar que recebam como legado: terra arrasada, estéril.
Como disse antes, já caíram muitos muros (até a Muralha da China andou sendo abalada por um tremor, recentemente), não quero construir novas barreiras, apresentar velhas regras e cartilhas a qualquer criador. Não há mais separações possíveis entre Teatro, Literatura, Dança, Cinema ou Artes Plásticas, ficção, realidade...A surpreendente atualização da Senhorita Júlia de Strindberg, por Christiane Jatahy, mostra isso muito bem (só fui assistir a este espetáculo, graças ao sincero e ótimo comentário de Jacqueline Pinzon, no blog do Em Cena. Obrigado, Pinzon! Valeu e muito!). Plagiários também mostra isso, esplendidamente, e comprova o talento dramatúrgico de nosso jovem e brilhante Diones Camargo (que bela homenagem a Nelson Rodrigues, que fantástico investimento da Braskem e do Em Cena, que oportuna reunião de criadores! Que belo resultado!). Tive que exclamar: Bravo! E aplaudi-los, entusiasticamente, de pé, por um longo período; além de expressar, diretamente à equipe, o prazer que senti ao assisti-los, durante sua última sessão no festival. Espero que aquela seja apenas a terceira de muitas outras. É mais um excelente trabalho que merece ter uma longa vida e ser assistido por muito mais gente.
Flávio, eu fiquei em dúvida se deveria enviar esta looonga carta para teu endereço, particular e privado, ou torna-la pública, aqui, neste blog. Optei pela segunda opção porque “achei” que essa divergência de opiniões poderia interessar também a outras pessoas, instigar a reflexão entre teoria e prática, criação e crítica, etc. Não quero gerar polêmica alguma. Gostaria apenas de defender, aqui e agora, a criação de um campo favorável, mais apropriado ao exercício da criatividade de toda essa “gurizada” com sangue dionisíaco nas veias (e mesmo para os apolíneos, também presenteados com a chama de Prometeu). Não temos mais tempo para estarmos agarrados a ideias do passado, mortas ou moribundas, muito menos a pré-conceitos. Precisamos de sangue novo, fresco e bom, para garantir nossa eternidade (como os vampiros que fizeram Sharon e Roman dançar; será que estamos tão distantes, ainda, de nossa “verdadeira natureza”). Precisamos acabar com as diferenças entre os montecchio e os capuleto; assim como, entre criadores e pensadores (estes últimos não sobreviverão, nem terão qualquer razão de existir, sem os primeiros). Não podemos julgar o que vemos hoje com o olhar de ontem. Conceitos só podem ser elaborados após a criação (impossível já catalogar e encaixotar o que está sendo feito, aqui e agora). Poderiam até ter o nome de pós-conceitos (mas nunca: pré). Isso talvez deixasse as teorizações um pouco mais claras, colocasse as coisas no seu devido lugar. Inverter a ordem toda pode tornar a obra de arte, demasiadamente, artificial (no pior sentido da palavra), o artificialismo (no melhor do termo) já está, ali, em sua essência. Equivaleria a inverter o curso da água dos rios, secar a terra e matar a fonte. Transformaria o fruto da criação em alimento congelado, coisa morta e sem nutrientes, que só poderia ser exposta em balcões de buffet a quilo (ou nos museus de história). Precisamos nutrir os vivos e deixar os mortos em paz. “Sagrada” é...(ou deveria ser) “a infância” (valham-nos as ideias de Reichert) e a juventude daqueles que começam a criar, agora. Estou velho, professor! Nos meus arquivos, quase corrompidos: Will e Macbeth, Bertolt e Setsuan, Federico e Yerma, Andrade e Dolor, Nelson e Doroteia, Ivo e Teresa, Carlinhos e Tuda...parecem-me, criadores e criaturas,“ insubstituíveis”! Preciso esvaziar, depressa, a lixeira para abrir espaço ao novo! Insubstituíveis todos somos, é verdade, porque únicos! INSUPERÁVEIS, NÃO! A humanidade continua a quebrar, a cada ano, os recordes anteriores. Podemos avançar muito além de 2012 (se entendermos melhor as profecias de civilizações que já desapareceram na poeira do tempo)! Tenho certeza que é dentre eles, os jovens, que surgirá o Brecht do futuro (quem sabe, ele já esteja por aqui, dentre esses 2.073 [de 22 estados brasileiros] inscritos no Prêmio Carlos Carvalho. Estou muito otimista em relação ao teatro feito em Porto Alegre, no Brasil e no Mundo, hoje.
Agradeço-te muito, Flávio, por teres dedicado teu tempo para escrever sobre Deus da carnificina; agradeço, também por teus comentários terem se tornado públicos, na Zero Hora; pois me fizeram abrir, novamente, os olhos, os ouvidos, a boca e, ainda mais, meu enorme nariz. Que maravilha que nossos jornais estejam reabrindo espaço para a crítica teatral e para os jovens que praticam a escrita para o palco! Adorei ver o mais promissor de todos, Diones Camargo, ocupar capa inteira do Segundo Caderno, com suas criações (mesmo ao ler, também ali, sua crítica sobre as nossas premiações. Afinal, “toda a unanimidade é burra”, mesmo! Precisamos considerar a opinião dele e a dos demais concorrentes para continuarmos evoluindo, como servidores públicos.
Não estou defendo Yasmina Reza e seu texto. Posiciono-me ao lado de Deus da carnificina para defender “a dramaturgia”. Especialmente a nova, que ainda não foi consolidada. Desejo que ela possa se firmar, desenvolver, amadurecer (como está acontecendo com Diones Camargo, aqui e agora). Flávio, se me permitires, um conselho de amigo: tua experiência, assim como a minha, é muito maior e mais fecunda, no terreno da educação, da formação; poderemos evoluir muito, nós dois (e todos lucrariam muito mais com isso), se não separarmos tanto o olhar crítico daquele outro que estimula a crescer, a amadurecer, a construir o novo; o que está sendo gestado, agora, que nem temos condições de apreciar, racionalmente, intectualmente, ainda; esse é o olhar de professor; ou melhor, do Mestre (essa, sim, é a tua verdadeira natureza. Isso, eu “não” acho; eu tenho certeza! Tive a oportunidade de conhecê-la muito bem, 11 ou 12 anos atrás, como teu discípulo. Trabalho sobre mim mesmo, ainda hoje, seguindo teu paradigma, desde que nos introduziste ao universo das letras de Bernard-Marie Koltès [que eu ainda não conhecia e passei a apreciar] e aos conceitos de narrativa lacunar, hipertexto, intertextualidades e alguns outros [que eu intuía, apenas, e que, a partir de então, passei a empregar com maior propriedade]. Mestre, quero chegar também a essa mesma natureza, um dia. Quem sabe, estejas apenas me provocando a ingressar no Mestrado, agora. Cada vez que encontro Marta Isaacsson, sinto-me provocado, ao mesmo, também por ela. Mas não sei se me enquadro!).
Bem, agora chega! Gostaria muito de continuar esse diálogo contigo, mas em outro momento (até porque todos já cansaram de ler minhas rubricas... aliás, parênteses [e parágrafos] intermináveis. Além do que o dia amanheceu, outra vez, e falta tão pouco para o término de nossa maratona anual de Teatro [e eu ainda não consegui enviar ao blog qualquer dos textos que iniciei, logo após a abertura, em 04/09/12])...Quem sabe possamos tomar um chá ou café, Flávio, no TSP, antes...ou, depois, do próximo espetáculo, para rirmos um pouco de tudo isso, talvez, então, degustando um bom carmenère (como, algumas vezes, tive o prazer de fazer com meu outro generosíssimo Mestre, o Bender). Flávio, acaba de me assaltar, agora, outro temor...teria eu te usado, enquanto escrevia estas doze laudas, como bode expiatório das culpas que atribuo ao papel do pai, no meu próprio teatro familiar? Enxerguei em ti o fantasma de meu pai, numa espécie de Hamlet às avessas? Agi “como se fosse eu” o carniceiro Macbeth para usurpar o poder do rei (o pai castrador!)? Será que teus comentários despertaram em mim a sombra, o demônio da inveja? Inveja do poder de tuas palavras concisas, objetivas, melhor fundamentadas do que as minhas (oriundas da “delirante lucidez” de minha mãe, Estamira)? Peço-te milhões de desculpas. Tenho muito carinho por ti, Flávio. Insisto em meu convite. Tudo o mais, pode ser fruto de minhas máscaras, de minha sombra, de meu ego, e eu espero que me perdoes.
Saiam já deste corpo que não lhes pertence, coisas ruins!
Eparrei Iansã! Odoia! Ora Aie Eu! Patacori Ogum Iê! Kaô Kabecilê! Atotô Babá! Selai nossos corpos diante do inimigo! Protegei nosso espírito dos deuses da carnificina e da morte!
Fazei-nos receber as boas coisas da Vida na Terra!Comida, Diversão e Arte para todos!
Evoé, Dionísio!
*Mauricio Guzinski é ator, diretor e professor de teatro

sábado, 22 de setembro de 2012

Deus da carnificina por Mauricio Guzinski (2ª parte)


O eneagrama, para quem ainda não sabe, é uma ferramenta sufi, criada para o estudo do caráter humano. O termo vem do grego: ennea, nove, e grammos, figura ou desenho. É representado, graficamente, na forma de uma espécie de estrela de nove pontas e tem diversos usos dentro do Sufismo, corrente filosófica, mística e contemplativa do Islã, onde foi originado. Foi revelado ao ocidente por Gurdjieff (1866 – 1949), enigmático greco-armênio que foi em busca do conhecimento de outros “homens notáveis” e teve sua autobiografia transformada no memorável filme de Peter Brook: Meetings with remarkable men (1979). Aplicado, hoje, ao estudo do corpomente humano pelo psiquiatra boliviano Oscar Ichazo (1931) e pelo psiquiatra chileno Claudio Naranjo (1932). Os aprofundados estudos deste último, que conheço melhor (por meio dos programas de autoconhecimento da Escola Aberta Vale do Ser, coordenada pelo terapeuta e professor de Meditação e Artes Contemplativas, Sergio Veleda, e pela psicóloga Evânia Reichert (autora do livro Infância, a idade sagrada, publicada no Brasil, em 2008, e recentemente na Espanha), e através da transmissão direta de Claudio Naranjo, em Brasília, em maio deste ano, dentro da programação da Escola SAT (SeekersAfterTruth, combinação de termos plasmados por Gurdjieff), mostram que há nove tipos principais de egos, cada um com três subtipos. Ou seja, na verdade, “27 tipos” de egos, bem distintos entre si, que constituem ainda uma infinidade de outras formações egóicas, por associação, entre uns e outros. Essa grande diversidade de máscaras sociais esconde a “verdadeira natureza humana”, a essência (ainda em estado puro, antes de proteger-se por qualquer máscara), o núcleo considerado saudável, incorruptível, de todo o ser humano. Claro, tudo isso só serve para quem se dispuser a árdua tarefa de “trabalhar sobre si” (tarefa tão difícil quanto inserir novas criações no mercado excludente da arte), de ir em busca de sua própria verdade, como Gurdjieff e outros tantos notáveis, que já nos antecederam. Quase ao final do filme de Brook, ele encontra o que tanto buscava. O eneagrama pode ser visto, ali, pintado sobre o piso em que os praticantes do Sufismo executam uma bela e enigmática coreografia.
Quando suponho que Shakespeare possa ter conhecido e aplicado esse instrumento, o eneagrama, para construir, em tão curto espaço de tempo, uma obra tão vasta e impressionante como a sua, com personagens tão diversos entre si (e que também me atrevo a dizer) com aquele poder (arquetípico) de nos desnudar e decifrar por inteiro; tento explicar...em verdade, superar minha perplexidade, diante da genialidade do autor (outros estudiosos, e até mesmo Freud caiu nessa, tentaram provar a inexistência do bardo, afirmando que sua obra havia sido escrita por mais de um autor; o que pode ser considerado mais absurdo do que minhas próprias indagações). 
Retornando a Yasmina Reza, volto a afirmar minha total ignorância a respeito da mesma. A primeira vez que ouvi falar de sua obra dramática foi no comentário inicial de Mainieri sobre o filme Deus da carnificina. Talvez o conhecimento da escritora sobre o eneagrama seja tão superficial quanto o meu (ou muito mais!); talvez ela tenha chegado a esse instrumento a partir do oráculo contemporâneo, Mr. Google (PhD em qualquer tema); ou, quem sabe, sequer tenha ouvido falar a respeito. Isso atestaria, no mínimo, seu olhar aguçado sobre o comportamento humano, o que já seria um grande mérito para qualquer autor.
Ela conseguiu construir muito bem as quatro personagens de Carnage. A mãe do agressor é uma mulher insegura (“eu acho”), que se envergonha e sempre pede desculpas pelo comportamento inadequado do marido, inconveniente e “espaçoso” (com seu, ainda mais inconveniente, celular); ele é um advogado sem qualquer escrúpulo, mais preocupado em livrar a barra do cliente mafioso do que em verificar a inocência ou a culpa de seu próprio filho. Essa esposa e mãe, bem representada, na peça, por Júlia Lemmertz, a meu ver, se enquadraria, com perfeição, no eneatipo 4 e seria classificada, ainda, como pertencente ao subtipo social (tipo e subtipo iguaizinhos aos meus!); quanto a ele, pai e marido, otimamente caracterizado por Paulo Betti, eu não teria a menor dúvida em classificar como um tipo 7 de subtipo sexual (aquele “sete de carteirinha”, como costumamos brincar, em outro meio que costumo frequentar, o terapêutico; ali, ele seria um eneatipo 7, ainda mais charlatão do que o Mr. Google!).
Na outra ponta do conflito, os donos da casa onde se passa a ação, os pais do menino agredido, “transfigurado”, fisicamente, pela outra criança. Neste lado, a mãe é uma mulher guiada por rígidos princípios morais, determinada a fazer com que o mundo gire de acordo com o seu compasso. Foi dela a ideia de armar em sua casa aquele “civilizado encontro de conciliação” entre as duas famílias; no fundo, um tribunal, que ela pretende conduzir bem direitinho, não apenas para condenar, mas também para estabelecer a pena de cada um dos responsáveis pelo ato bárbaro que vitimou seu indefeso (e inocente) filho. A personagem apresenta, já no início da peça, um termo de “reparação” a ser assinado pelos convidados, pais do infrator; texto redigido por essa mãe, em seu particular e característico perfeccionismo, bem evidenciado na escolha dos termos, muito bem apropriados aos seus propósitos. Já para o esperto pai-advogado a expressão: “armado com um bastão”, incluído no texto pela mãe da vítima, deverá ser substituída por “munido por um bastão” (o jogo linguístico da autora começa a mostrar o valor de sua obra).
Essa é a faísca que faz atear o conflito e propagar o incêndio, pretendido pela autora; fogo que irá consumir as paredes carcomidas de cupim e revelar a estrutura apodrecida, oculta, naquela situação e no íntimo de seus protagonistas (ou antagonistas, dependendo do lado em que nós como espectadores possamos nos posicionar. A nossa posição não é nada cômoda, a partir daí, nossa balança ora oscila para lá, ora para cá).
A atriz Deborah Evelyn surpreende, muito positivamente, a quem a conhecia só através da telinha da tevê, defende com unhas e dentes sua personagem muito bem construída por ela, e pela autora. Através do prisma do eneagrama, digo sem maiores dúvidas: essa mãe só pode ser do tipo 1, sexual no subtipo; isso parece estampado em seu modo de agir e falar (de ser, enfim). Para completar o quarteto de Carnage, o pai da vítima, marido daquela mulher que parece movida por uma “ira secreta” (e que, mais secretamente ainda, pensa estar inspirada na “ira divina”), ele, ao contrário, parece um borra-botas, um fede nem cheira, não se posiciona, acomodado em sua vidinha medíocre de vendedor de utensílios domésticos inúteis. Um eneatipo 9, do subtipo preservacional (palavra pouco conhecida, mas muito bem empregada por Claudio Naranjo, em sua vasta bibliografia sobre o assunto, dedicada a quem quiser aprofundar-se nesse estudo).
Claro, como em todas as personagens, descritas anteriormente, essa é a primeira impressão, o verniz, a casca, uma das máscaras, aquela que é possível identificar mais facilmente quando conhecemos uma nova pessoa. Há muitas outras camadas, luzes e sombras, virtudes e defeitos até que se possa tomar contato com a “verdadeira natureza” de cada indivíduo. O ator Orã Figueiredo (conhecido no teatro, cinema e televisão), tem evidente talento para a comédia, histrionismo nato, que me fez rir, algumas vezes, dentro do contexto denso apresentado por Yasmina. Se “a difícil arte de fazer rir” é o principal dom desse ator (que eu também não conhecia, no palco), também é seu maior defeito, a sua perdição. Quase também é a perdição do espetáculo dirigido por Emílio de Mello. Infelizmente, o ator usa e abusa disso, se perde e quase faz naufragar a encenação, o trabalho de seus colegas e o texto de Yasmina Reza. Ele repete, insistentemente, ações que se esgotam em si mesmas e que em nada contribuem para o desenvolvimento do conflito, menos ainda para o aprofundamento do tema. Parece que a única meta desse ator, em cena, é atrair a atenção para si, roubar o foco de todos e de tudo, por meio da provocação daquele riso mais fácil, buscado no pior modelo de comédias, quer no palco ou na telinha. Um tipo de humor que, ao invés de me divertir, me tira do sério, me incomoda, me irrita. O pior de tudo é que o excelente trabalho de Júlia (nossa conterrânea, filha de Lilian e Lineu, saudosos, dedicados e consistentes trabalhadores do palco) quase se perde também quando ela embarca, vez ou outra, naquela viagem de Orã (para lugar algum!). Ali, ela até esquece os belos exemplos familiares, deixando-se contaminar por “esse tipo de coisas”, na minha opinião, “abomináveis”. Nesse sentido, seu pior momento, ocorre debaixo da mesa. Enquanto Orã, supera tudo que há de pior no teatro, no interminável e repetitivo uso de um secador de cabelos.
A meu ver, também contribuíram para o quase naufrágio da encenação e até do texto, algumas das soluções encontradas pelo próprio diretor. No que concerne à direção, a pior de todas as opções é a do mecanismo encontrado para trazer ao palco o vômito da personagem de Júlia. Quanto exagero! Quanta bobagem! Pastelão! Besteirol (no pior sentido da expressão)! Ali, também, mais uma vez, a busca do riso fácil, do desejo de “agradar” ao grande público, ao público televisivo (eu acho). Isso, adicionado à dificuldade que o diretor teve (outra vez: “eu acho”!) para segurar as rédeas de Orã Figueiredo, me faz duvidar, muito seriamente de sua “competência” para assumir essa nobre função (ou será que, após dois anos de temporada, a peça já não interessa ao diretor, mais preocupado com sua nova montagem, recém-estreada, e ele deixa esse texto de Yasmina entregue às traças; aos atores para que o pintem, o bordem e remendem, ao seu bel prazer?).
Sim, os figurinos funcionam, a luz também. Por outro lado, não consigo entender o que cenógrafo e diretor pretendiam ao colocar pilhas de livros sobre o palco do Theatro São Pedro. Homenagear o município de Morro Reuter, no Porto Alegre em Cena? Nem como pensam que o público, ainda mais “o grande público”(!), iria decifrar “aquela metáfora” da enorme mesa de jantar feita de “Lego” (é! Isso mesmo, feita de pecinhas multicoloridas daquele jogo infantil! Em seu tamanho real!). Decifrar?! Nem mesmo enxergar! Só me dei conta do que era aquilo, muito depois, ao ver algumas fotos do cenário, nos jornais. Teriam eles a intenção de dar alguns toques de modernidade ao texto de Reza? Dar um visual pós-moderno, pós-dramático, conceitual, à sua encenação? Quiçá, para agradar também a crítica especializada?! Será que o único objetivo desta montagem carioca, feita por diretor e atores globais, era esse? Caçar níqueis? Vil metal? Espero muito que não! Embora algumas dessas suposições incomodem muito ao meu olfato (tenho nariz e narinas muito grandes, às vezes, sinto como se fossem bem maiores que meu cérebro e até que meu conhecimento).
Mestre Flávio, neste ponto, discordo com veemência (típica de um ego 4): Reza não me parece tão “rasa”, assim; já alguns equívocos na abordagem de seu texto, apresentados na encenação de Emilio de Mello, estes sim, me parecem muito superficiais e até inconsequentes.
(continua)
*Mauricio Guzinski é ator, diretor e professor de teatro

Deus da carnificina por Mauricio Guzinski (1ª parte)



Tenho o maior respeito pela opinião de Flávio Mainieri, um de meus queridos Mestres. Foi excelente professor da disciplina Dramaturgia Contemporânea, durante o curso de Pós-Graduação Teoria do Teatro Contemporâneo, realizado pelo DAD/UFRGS. Especialização que tive a oportunidade de concluir, em 2001, momento em que tive o privilégio de conhecê-lo mais de perto. Segundo Flávio Mainieri, “Em Deus da Ccrnificina a tensão entre as personagens aumenta e revela a crise conjugal e das relações interpessoais enfrentada pelos dois casais, comprovando que o homem, na sua natureza, carrega a violência. Em sua essência, o homem é um ser violento, um nada é suficiente para que o selvagem que habita em nós se manifeste desmanchando o verniz civilizado – esse é o verdadeiro tema da peça (os grifos são meus).” (...) “Não posso deixar de fazer referência, como contraponto, a um dos ensinamentos do mestre Brecht” (...) “ o teatro deve mostrar o mundo como possível de modificação, e o homem não deve ser mostrado como algo acabado – o homem não é, ele se transforma.”
Concordo com o pensamento de Brecht, lembrado por Mainieri. Apesar de não assinar embaixo de sua cartilha, hoje em dia. Nem eu, nem mesmo o Berliner Ensemble do nosso tempo. Nem do ponto de vista estético, nem do ideológico. Não é mais possível concordar, totalmente, com o Mestre Brecht. Vivemos em uma época diversa, que pode até ser considerada niilista; vivemos o tempo de derrocada das utopias, de queda de muros, de derrubada de torres-gêmeas; de comunismo-capitalista; da morte de nossos ídolos, da agonia do heroísmo, e outras tantas “contemporaneidades”.
Uma das colocações que mais me agradou na entrevista de Jutta Ferbers, dramaturgista do Berliner, concedida ao jornal ZH (04/09/12) foi de que o “ensemble” não considera Brecht "algo sagrado", não o entende como um “professor”, mas sim como “um diretor” que “gostava das pessoas rindo.” (...) “Essa teoria” (a de Brecht) “foi escrita em um tempo específico, para um tipo de teatro específico. A única questão é fazer teatro para as pessoas abrirem os olhos e ouvidos. E bocas (risos)” (os grifos são, novamente, meus).
Data venia, querido Mestre, por meu viés altamente subjetivo e muito menos erudito, me atrevo a discordar de suas colocações.
Belo texto este de Yasmina Reza, dramaturga nascida na Argélia (1959) e radicada na França. Ótimo roteiro, assinado, por ela e Polanski, que resultou em mais uma grande obra desse excelente e polêmico diretor de origem polonesa, nascido em Paris (1933, onde vive “refugiado” a partir de 1977). Quase deixei de assistir ao filme, influenciado negativamente por sua crítica, professor! Seria uma lástima. Adorei! Para mim o filme está ente os melhores deste ano. Polanski (não só em minha opinião) foi criador de obras memoráveis como Repulsa ao sexo (1965), A dança dos vampiros (1967, filme em que ele aparece ao lado de Sharon Tate, antes que eles e seu filho fossem brutalmente atingidos pelo deus da carnificina, em 1969), O bebê de Rosemary (1968), A tragédia de Macbeth (1971), Tess (1979, dedicado à sua esposa, brutalmente, assassinada aos 26 anos, durante o oitavo mês de gravidez, pelos fanáticos da “família” Manson. A enorme repercussão deste crime chegou a provocar mudanças nas leis americanas), A morte e a donzela (1994), O pianista (2002), O escritor fantasma (2010) e Carnage (2012). Ou seja, antes de Reza, ele já havia incursionado, com êxito, pela literatura dramática, pelo menos duas vezes, ao adaptar para a tela William Shakespeare e Ariel Dorfman (que teve a mesma obra encenada, aqui, pela Tribo de Atuadores ÓiNóis Aqui traveiz, em 1997).
Em sua reflexão sobre o filme e a peça (publicada na ZH de 13/06/12), Mainieri afirma que Yasmina “usa temas que (...) não são aprofundados”, que ela é superficial, “uma leitora de manchetes dos jornais” (desta vez, em sua opinião, publicada no ZH de 14/09/12) e que ele, Flávio Mainieri, “Ao sair do teatro, e do cinema também, tinha a certeza de ter assistido a um espetáculo com um texto falsamente moderno, inclusive pela ausência de uma história, que é um dos elementos do teatro pós-dramático, e que postulava o retrógrado preceito de que o homem é intrinsecamente mau, dominado pelo deus da carnificina”(em 13/06/12, com grifos meus).
Não tive a oportunidade de conhecer Reza, em Paris (sequer ler o texto no idioma original), nem assistir suas encenações nos teatros privados, de lá. Segundo o professor Mainieri: “teatros que não perdem de vista o lucro, satisfazendo desta forma o que a indústria cultural identifica como a vontade/gosto do público.” Não conheci Le dieu du carnage (2006) no idioma e versão originais, nem na versão uruguaia, apresentada na 16ª edição de nosso festival. Infelizmente, não assisti. Fui conhecer essa obra na telona, através dos olhos, lentes e filtros de Polanski, e através do corpovoz  de Kate Winslet e Christoph Waltz, estes nos papéis de pais do menino agressor; e Jodie Foster e John C. Reilly, encarnando os pais do menino agredido. Quatro excelentes atores hollywoodianos que tiveram seu talento extraído, ao máximo, pelo experiente diretor franco-polonês, forçado a filmar na França. Só então conheci o texto da dramaturga argelina, já roteirizado por ela e Polanski, no cinema, em inglês com legendas em português. É bem possível que isso – forma de contato com a obra, bagagem pessoal de informações e subjetividade de cada receptor – tenha feito toda a diferença e tornado nossos pontos de vista tão divergentes. Por mais que me constranja contrapor-me a meu professor, me senti no dever de fazê-lo.
Por mais banal que a fábula de Yasmina possa ser considerada – um menino de 11 anos é agredido por um de seus colegas de escola, forçando um encontro dos pais do “suposto agressor” com os progenitores da “vítima”, na tentativa de superação do problema – a história existe (não só nas manchetes de jornal do mundo inteiro, mas no texto, na tela e no palco). Reza toma como ponto de partida o tão debatido bullying para escancarar a origem do crescendo de violência que presenciamos em nosso cotidiano. “O texto de Yasmina é enxuto”, como diz Flávio. No meu entender também. Não há uma palavra (aliás que belo jogo de palavras o que é proposto por essa autora, nesse texto), não há uma única ação que não contribua para o acirramento do conflito, para a melhor compreensão do tema e para o desnudamento, o despencar das máscaras sociais, a exposição do ego de cada uma das quatro personagens, muito bem construídas pela autora, pelo quarteto excepcional de atores, magistralmente conduzidos pela batuta de Roman Polanski. Difícil respirar, durante a exibição, no cinema Guion.
Na minha opinião, Deus da carnificina, não é um texto maniqueísta, moralista, niilista ou determinista; não apresenta o homem irreversivelmente perdido, incapaz de transformar sua consciência, nem de subir mais um degrau na escala de sua evolução. Essa complexa tarefa, sem qualquer ranço de um teatro panfletário ou didático, é lançada para que o espectador a resolva. Em um exercício que pode ser considerado a função mais nobre da arte. Não fosse assim, o texto não teria sido escolhido (“eu acho”) pelas duas equipes, como o mote de suas criações, submetidas ao nosso crivo.
Se, ao invés de montagem cinematográfica, a obra de Polanski fosse encenação teatral, eu diria que o diretor e sua equipe, que incluiu Yasmina Reza, dividindo com ele a adaptação do roteiro de sua criação, tiveram o Mestre Brecht como uma de suas estrelas guia: “A única questão (deles) é fazer Teatro (Cinema ou Arte. As maiúsculas são minhas) para as pessoas abrirem os olhos e ouvidos. E bocas.” (para rir e, eventualmente, para tomar fôlego).
O quarteto de personas é composto com a clareza de quem até parece saber estudar a alma humana através do eneagrama (suspeito que Shakespeare tenha sido outro criador teatral que também soube utilizar essa ferramenta, diante da diversidade de personalidades tão precisas, completas e complexas que sua obra apresenta – obra centrada, também, no poder da palavra; naquilo que a palavra poética pode oferecer aos nossos sentidos; no poder transformador que a reflexão provocada pela escuta das palavras, vindas de um autor/ator, no palco, pode trazer aos mecanismos de funcionamento de quem se entrega à recepção de uma obra teatral).
(continua)
*Mauricio Guzinski é ator, diretor e professor de teatro

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Estamira- beira do mundo por Patrícia Fagundes


Estamira é uma criatura de uma potência avassaladora, com sua poesia improvável e sua sabedoria de caminhos tortos e tão reveladores. Sim, ela está em todo lugar. Aparece em um corpo que não é o seu, na atriz que a in-corpora, vibrando na mesma frequência e pulsação. O trabalho de personificação de Dani Barros é impressionante, resgatando a mimeses como um ato de amor. Lecoq afirma que "mimar es formar cuerpo con y así comprender mejor" e que "cuando se ama, instintivamente se mima en uno mismo al outro" (uso a tradução em espanhol porque me parece mais clara que a versão em português). A atriz mima Estamira a partir de um ato de afeto e desejo de compreensão, escutando-a com generosidade. Cada vez mais, sinto que a atuação e o teatro dependem de uma questão de escuta. Um de nossos grandes desafios, talvez o maior: escutar ao outro e ao mundo e à própria pulsação, profunda e generosamente. Escutar Estamira é uma experiência que transforma.
Há também a voz da própria atriz na montagem, que transita entre as palavras de Estamira e o universo da relação com sua mãe. A intensidade emocional no tratamento desse universo de memórias atinge um grau altíssimo, transbordando do palco em uma sessão catártica que chega em ondas até as poltronas da plateia. No entanto, ao transbordar até mim, não deixa muito espaço para que eu transborde. Como diz Estamira, muita informação não deixa espaço para adivinhação. A experiência emocional intensa e particular que acontece no palco de certo modo limita meu espaço de imaginação e emoção. (Na vida mesmo, quando me encontro em situações em que alguém está especialmente abalado ou transtornado, minha reação é assumir o oposto, ficar calma e tentar ajudar). Claro que outros espectadores reagiram de outra forma, sons de choro ecoavam pelo teatro, havia uma atmosfera sensível de emoção. Como o público não é uma massa uniforme, a jornada proposta pela montagem pode acontecer de forma diferente para cada um. Reconhecendo a intenção básica de acontecimento catártico, penso que não cabe analisar aspectos específicos da encenação ou cenoplastia, pois tudo parece convergir em função desse objetivo. Uma viagem a beira do mundo que é desenvolvida com coragem, entrega e honestidade.
*Patrícia Fagundes é encenadora e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Deus da carnificina por Rodrigo Marquez


Entre ser e parecer
Yasmina Reza é uma dramaturga muito em voga na moderna dramaturgia do Século XXI. Argelina radicada na França, explodiu nos anos 90 com a peça Arte, sucesso em diversos países, incluindo o Brasil, cuja montagem em 1998, com direção de Mauro Rasi, fez sucesso no eixo Rio-São Paulo. Já foi levado aos palcos em mais de 30 países. Desde então, ela não parou mais: escreveu uma série de peças, comédias e romances, todos muito bem sucedidos, tornando-se uma celebridade no universo intelectual francês e europeu. 
Em consonância com a versão cinematográfica, estreada ano passado e tendo no seu elenco atores talentosos do cinema europeu e americano como Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilly, somos apresentados em Carnage a um drama burguês, que norteia muito dos textos contemporâneos da dramaturgia universal, onde o espaço utilizado pela autora é uma sala de uma casa de um casal de classe média, que cria seus filhos da forma que a sociedade dita no padrão comum, e parecem o que os pais gostariam que eles parecessem, ou pelo menos eles acham que são. Mas aqui somos brindados com um texto criativo e sagaz, como o são os textos da Sra. Reza, que enfatiza nos diálogos o que está subjacente na cena. E falando em filhos, esses são a mola propulsora do conflito dramatúrgico que rege a história, onde o casal Verônica e Michel (interpretados respectivamente por Deborah Evelyn e Orã Figueiredo) recebem o casal Alan e Anete (Paulo Betti e Júlia Lemmertz) aparentemente empenhados em conversar sobre a briga dos filhos pré-adolescentes no colégio. A reunião, porém, torna-se cada vez menos civilizada à medida que o tempo passa, revelando a frágil tentativa de manter controle das próprias reações e trazendo à tona preconceitos arraigados que demostram a diferença de classes sociais. No decorrer da encenação os personagens se revelam, mostrando traços de si que estavam escondidos, mudando o discurso corrente e desviando do conflito gerador da história.
A tão voluntariosa mãe que teve seu filho agredido, defensora de uma punição e de uma moral para o filho agressor, na real não é o que parece, ou na figura que ela tenta construir, o mesmo cabendo a seu marido a quem em um diálogo revelador dele, diz que se “embonecou e colocou uma roupa melhor para receber as visitas” a pedido da esposa. Anete, a mãe do agressor, que tenta através da conversa pacificar e descobrir a origem do problema tem em sua interprete, Júlia Lemmertz, um achado, pois ela empresta o grau certo de passividade e crescente torpor agressivo às cenas, no decorrer de sua interpretação. Paulo Betti, na pele de Alan, tem seus maiores momentos nos silêncios que o personagem se coloca, em dois pontos chaves da ação dramática, evidenciando sua incapacidade de saber o que fazer mais na situação em que se encontram todos naquela sala. E cada qual a sua maneira, como percebemos pelo texto, vai perdendo sua diplomacia primeira.
E citando o texto, é notável que este seja limitante e previsível, mesmo sendo criativo e inventivo no seu todo, causando pela situação gerada com seus interpretes risos na plateia em inúmeros momentos, resultado obtido pelo conjunto de interpretações e pela direção que coloca a dramaturgia a serviço de um diálogo constante entre personagens e público, e que é um dos fatores determinantes para o engraçamento da história. Realmente o timing de Paulo, Orã e Deborah é acertado e as conjunções a que seus personagens se expõem são de uma comicidade que se quer impor à situação. Júlia, que num primeiro momento me parece deslocada e fora do conjunto, consegue fazer seu personagem girar e devido à boa interprete que é, desfaz certa previsibilidade que paira no ar desde as primeiras cenas, onde o público percebe logo quais serão os desdobramentos da proposta apresentada.
Na direção de atores, Emilio de Mello poderia ter dado uma contenção um pouco maior, pois Deborah e Orã, mais que Paulo e Júlia têm a tendência a sublinhar mais do que preciso, em alguns pontos, as intenções dos personagens. Contenção essa que deve ter vazado para a utilização da cenografia de Flávio Graff, pois apesar de preencher visualmente o espaço e dar um sentido de erudição para os donos da casa (que falsamente querem aparentar ter) com livros e mais livros empilhados formando torres e uma mesa toda feita com peças de montar, remetendo a estruturas estanques que estão arraigadas e podem ser desmontadas, parece estranho não haver uma ruptura e um movimento no cenário também.
Apesar das limitações do texto e de algum exagero nas atuações, Deus da carnificina alcança fluência. O público se envolve com a história de forma crescente e é divertimento dos bons. Há muito tempo eu não me divertia no teatro com uma encenação. Não me chateou, não consultei o relógio para saber quanto tempo faltava e não virei para o lado procurando socorro. Dentre tantas opções que se assiste no Festival isso já é uma grande conquista.
*Rodrigo Marquez é ator e produtor cultural