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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A última gravação de Krapp por Clóvis Massa

A última banda sonora*

Em sua biografia sobre Samuel Beckett, com quem conviveu por mais de vinte anos, o escritor James Knowlson identifica nos acontecimentos pessoais do dramaturgo, ocorridos no início de 1958, a gênese criadora de A última gravação. De todos, o principal teria sido a doença de Ethna MacCarthy, o amor de juventude de Beckett, diagnosticada com câncer de garganta, a quem ele passa a escrever longas cartas, cheias de sentimento, para demonstrar o afeto profundo que nunca deixara de sentir. As lembranças de Ethna, a quem amou jovem e cheia de vida, se justapõem, como afirma Knowlson, à certeza terrível dela estar doente e condenada à morte.
Ainda que não se procure compreender qualquer criação artística pela vida do autor, e, no teatro, que seja necessário partir do texto dramático para examinar o espetáculo, a maneira como se alternam o claro e o escuro, o desejo e a perda, a nostalgia ou as lembranças, a ambição e o fracasso fazem da montagem de Krapp´s last tape, de Robert Wilson, uma espécie de exumação. O velhaco Krapp, aos 69 anos, ouve a gravação que fizera há trinta anos e traz à tona um tempo em que “tudo estava lá”, tal qual o olhar da mulher que o fascinava na época. O estranhamento do vocabulário que havia empregado no passado, o escárnio em relação a quem ele foi, tudo faz com que se desvende um Krapp de 39 anos, que, por sua vez, acabara de ouvir uma gravação de quando tinha 27 anos, criando não a exumação de um cadáver, efetivamente, mas das situações de sua vida sintetizadas em momentos, em instantes durados, vistos através da moldura das bandas sonoras.
A última gravação, em sua origem, era uma peça radiofônica sobre o passado, mas a intensidade da montagem teatral de Bob Wilson capta os sentidos do espectador, direcionando-os para o aqui-e-agora da representação. Houve quem espiasse em direção ao urdimento do teatro, para ver de onde vinha tanta água. Se choveu e alternadamente se fez silêncio no palco do Theatro São Pedro, é porque cada elemento da rigorosa composição cênica do diretor estava fundado na plenitude da retratação daquela situação. O que mais admiro nos seus trabalhos é um tratamento de estilo, a maneira como ele desnaturaliza os gestos mais cotidianos, excluindo a forma mais costumeira da retratação psicológica sem, no entanto, romper com os princípios comportamentais da realidade. É claro que assistimos à exumação do passado de Krapp, mas o mais importante parece ser a forma como ele articula como linguagem o que representa para o velhaco o retorno ao passado: como se fosse sempre a última respiração de um velho pulmão, prestes a não mais funcionar, o som metálico da banda sonora era como o afiar da foice antecipando a chegada da morte. Seria esse o verdadeiro realismo?
* Clóvis Massa é ator e professor do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sábado, 6 de agosto de 2011

A última gravação de Krapp

A última gravação de Krapp – Itália/Estados Unidos
Dias 23 e 24 às 21h e 25 às 18h – Theatro São Pedro

Um dos mais conhecidos textos de Samuel Beckett trará à cena de Porto Alegre, em passagem exclusiva pelo Brasil, aquele que é hoje considerado o maior encenador teatral da atualidade, Robert Wilson, se revezando como ator e diretor do excepcional monólogo. O texto de Samuel Beckett é um solo/diálogo onde um ator no palco mantém uma conversação com a sua própria voz gravada há muito anos. Um homem velho, no dia do seu aniversário, se prepara para fazer uma gravação sobre os anos de sua vida, como tem feito em todos os seus aniversários. Ao se preparar para fazer a nova gravação, ouve outra feita por ele há mais ou menos 30 anos, no final do último ano verdadeiramente feliz de sua vida. Azedo, engraçado, irônico, ele acha difícil se reconhecer na voz frágil, romântica, confiante da juventude. Robert Wilson, um dos mais importantes diretores cênicos da atualidade, não só dirige, mas também atua nessa montagem, oportunidade única para conferir seu talento de performer. Wilson tem sido frequentemente comparado a Beckett, ambos mestres da simplicidade absoluta e essencial do que pode ser realizado em um palco de teatro. A peça de um ato teve estreia mundial em outubro de 1958. Sobre o atual trabalho, diz Wilson: “Quando dirijo um trabalho, crio uma estrutura e quando todos os elementos visuais estão no lugar, tenho uma moldura para os “performers” preencherem. Se a estrutura é sólida, então os artistas podem se sentir livres dentro dele. Aqui, na maior parte, a estrutura é dada, e preciso achar a minha liberdade na estrutura de Beckett. Ele te diz como o cenário deve ser, quais os movimentos, etc.” Oportunidade imperdível para conferir, ao vivo, um dos maiores nomes do teatro contemporâneo.

Texto: Samuel Beckett / Criação, direção e atuação: Robert Wilson / Desenho de cenário e concepção de luz: Robert Wilson / Desenho de figurino e colaboração para desenho de cenário: Yashi Tabassomi / Desenho de luz: A.J. Weissbard / Desenho de som: Peter Cerone / Diretor associado e gerente de palco: Sue Jane Stoker / Diretor assistente: Charles Chemin / Diretor técnico: Reinhard Bichsel / Maquiagem: Mariarita Parisi / Gerente da companhia: Gaia Scaglione / Duração: 1h10min / Classificação: 14 anos