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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Viva Nora Bastos!

A pedido do Coordenador-geral do Porto Alegre em Cena, Luciano Alabarse, revelo um dos "mistérios" mais divertidos do 18º Porto Alegre em Cena: a tufônica Nora Bastos, autora de uma das postagens mais visitadas de toda a história deste blog
(http://poaemcena.blogspot.com/2011/10/pterodatilos-por-nora-bastos.html), é o pseudônimo (ou seria melhor dizer heterônimo?) do dramaturgo gaúcho Diones Camargo (que ilustra a imagem acima; importante dizer: Diones é o moço sem chifres, o de chifres você pode tentar adivinhar também a identidade secreta).
A Nora Bastos fez tanto sucesso com sua língua viperina, que certamente terá espaço garantido neste blog para futuras opiniões. Parabéns Diones, pelo bom humor e pela maneira inusitada de defender a liberdade de criação artística, que é exaltada por muitos apenas da boca para fora.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pterodátilos por Matheus Melchionna Diello

Nicky Silver?*

No dia 18 de setembro, estava marcada a sessão que eu iria assistir de Pterodátilos. A peça, dirigida por Felipe Hirsch, era uma das principais atrações do 18º POA Em Cena, todo mundo estava ansiosíssimo para assistir a montagem do diretor para o texto de Nicky Silver, dramaturgo contemporâneo americano. E pode-se dizer que o que menos se viu na encenação foi o texto original, mesmo que o texto adaptado pelo diretor seja a melhor coisa da peça.
Não que eu esteja desmerecendo o fabulo cenário de Daniela Thomas, muito menos a luz muito bem feita por Beto Bruel – dos quais já falo –, mas enquanto assistia à peça, as palavras que eram ditas me vinham com um peso, uma acidez incomodativa. A peça retrata a história de uma família que entra em crise após o filho voltar para casa depois de anos longe, revelando que está com AIDS. Nessa família, existe uma mãe alcoólatra, um pai distante, uma irmã louca e o seu noivo, que também é a empregada. As relações se mostram distorcidas, os diálogos são ágeis e por muitas vezes cheio de ironia e humor negro, onde mora o erro da montagem. O diretor optou por transformar o texto em uma comédia fácil, abusando das expressões “engraçadas”, e também em uma peça onde um ator teria mais destaque que os outros: Marco Nanini.
Ele fazia dois personagens – o pai e a irmã – e por causa disso, vários momentos de interação desses personagens foram cortados, o que também enfraqueceu o texto. E por fazer um personagem feminino, só de entrar em cena, já garantia a gargalhada do público, que estava extremamente risonho no dia - era até um pouco constrangedor que em momentos mais pesados houvesse risadas em diversos pontos da platéia. Talvez por causa disso, o outro personagem que Nanini fazia sempre que entrava parecia apagado, sem vida. Faltava alguma coisa ali.
Os outros atores estavam bem, principalmente Marina Lima, que cada vez mais se destaca como uma das melhores atrizes de sua geração. A sutileza com que ela constrói a mãe que não se preocupa com seus filhos, alcoólatra e extremamente viciada nas aparências é impressionante. Os que menos se destacavam era o noivo, que não aparecia muito, e ironicamente, o filho, que no texto seria o protagonista. Ele cumpre a sua função muito bem, mas parecia que faltava algum entrosamento das suas ações com o resto, principalmente na hora de tirar o chão do cenário. A metáfora do título do texto – pterodátilo, um dinossauro extinto, e a família – perde-se completamente, pois os ossos que estão escondidos debaixo das folhas secas da plataforma não são mostrados completamente e parecem apenas decoração.
Essa plataforma, junto com os sofás em cima da mesma, eram o cenário. Ela tinha uma função interessante: se inclinar durante toda a peça, desequilibrando os atores. Como efeito estético, é muito bonito ver isso em cena, o problema é que logo na sua primeira inclinação, ela começava paralela ao solo, já tinha alcançado toda a sua possibilidade de inclinação, ou seja, não iria mais trazer surpresa ao público. E mesmo a sua inclinação era pouca, ainda trazendo comodidade ao atores caminhando em cena, que se fosse para realmente mexer com as estruturas dessa família, seria preferível a inclinação ir aumentando aos poucos até um grau onde seria realmente impossível de caminhar.
Tanto a plataforma, quanto os sofás, também o piso e a parede atrás de tudo isso, tem um tom metalizado, industrial. Os figurinos também seguem essa linha sóbria, cheio de preto, branco e cinza – as únicas cores são a saia roxa da filha e o figurino do filho, todo marrom. A luz, que tem uma montagem interessante, de troca de focos, é essencialmente branca, trazendo mais desse clima para o espectador. Tudo converge para um mesmo símbolo, o que pode ser interessante, depende de quem está assistindo. A única exceção é quando a filha, já morta, volta para falar com o público e aí se utiliza o refletor sem o difusor, deixando a sua luz amarelada em cima da mesma, trazendo então mesmo a sensação que estamos a falar com o passado, pois acostumado com a luz branca, essa luz amarela modifica a percepção e tudo parece enevoado.
No fim da peça, há um monólogo do filho, enquanto sua mãe bebe e o noivo é mostrado morto, com uma luz fluorescente piscante e nesse clima sombrio, acaba por ser introduzida a mensagem da peça, um pouco tardiamente. Nesse momento, o teatro é silêncio, nada se escuta a não ser o ator e o barulho do ar-condicionado - parece que finalmente é percebida a natureza ácida do texto.
Infelizmente, Felipe Hirsch parece ter errado a mão ao transformar a peça em nada mais que entretenimento barato, sem mostrar essa família realmente se destruindo, tudo conseqüência dos seus cortes no texto e inserção de outros textos do mesmo dramaturgo, mas mesmo com tudo isso, o que mais chama em sua montagem é o texto e as suas tiradas satíricas de humor negro.
* Matheus Melchionna Diello é estudante do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pterodátilos por Nora Bastos

RI MELHOR...QUEM RI NA HORA CERTA! – Uma mensagem tardia da Sra. Nora Bastos sobre a polêmica a respeito da peça Pterodátilos*
Não sou crítica teatral. Aliás, não gosto de me envolver com nada relacionado a esse povo do Teatro pois acho-os todos uns arrogantes funcionais. Porém, uma vez mais me vejo forçada a sair do conforto do meu lar...digo, do conforto da minha posição como mulher da sociedade, para levantar a voz contra a maledicência e o escárnio que imperam nesse meio tão depravado.
Pra quem não sabe quem sou, me apresento: Nora Bastos – cidadã, mulher, devota. No fatídico ano de 2005 me envolvi numa polêmica vulgar que, infelizmente, mudou minha vida para sempre: naquela época eu havia ameaçado processar João Ricardo (hoje João De Ricardo) um diretorzinho desconhecido (hoje considerado um mártir do teatro gaúcho – e sabem por quê?! Pelo que pude notar nas redes sociais e blogues por aí, só virou mártir porque a pecinha que ele montou láááááááá na pré-história, Extinção – A Impossibilidade Física de dizer esse título inteiro e ainda assim continuar Vivo, foi apresentada por aqui novamente, na última edição do festival Porto Alegre Em Cena, porém dessa vez com elenco global e um diretor incensado nas páginas de publicações culturais. Pois bem, voltando: na época eu me impus contra o tal embusteiro que nada mais fazia do que aliar-se ao seu grupo (Cia Espaço em BRANCO, se bem me lembro...) para manchar o meu nome e de minha família em troca de alguma atenção (que ironicamente só veio a adquirir agora, e por motivos igualmente duvidosos). Pra quem tem memória de peixe – o que significa, a classe teatral inteira! –, aqui vai o link para tamanha indignidade:
http://www.orkut.com/CommMsgs?tid=11594402&cmm=48273&hl=pt-BR
Um parêntese: tempos depois fiquei sabendo através de fontes confiáveis que ele e sua trupe de mambembes criaram uma verdadeira afronta ao Bom Teatro, baseando-se na vida de uma tal Teresa e jogando-a num grande aquário pra ser devorada por piranhas assassinas, alguma coisa grotesca assim; e depois ainda, apresentaram ao público outra aberração teatral que, de tão ofensiva à moral e aos bons costumes, levou um “famoso” crítico local a afirmar que o espetáculo “não merece a gentileza de um aplauso”. É desse tipo de gente que estou falando...se é que vocês me entendem.
Voltando ao foco desta mensagem: agora, anos após eu ter sido atirada à cova dos leões da intelligensia portoalegrense, minha batalha se torna ainda mais árdua e perigosa: escrevo estas linhas para pedir (pedir não, recrutar!), a(os) católicos e pessoas de bem, tementes ao Nosso Senhor Agonizante na Cruz, para que juntos boicotemos essa peça maligna intitulada Pterodátilos, encabeçada pelo demoníaco Marco Nanini, que nela interpreta dois personagens: um pai pedófilo e sua filha (grávida!) de 15 anos, de forma que mostra assim seu enorme talento em incorporar dois lados da mesma doença, porém sem nunca abandonar a máscara sedutora de ator famoso – Plim! Plim! – ainda que sabidamente um ator corrompido pelo que há de mais pútrido na face desse mundo regido por códigos estéticos incompreensíveis a nós, meros leigos; e a pedir (pedir não, implorar!) para que combatam esse maléfico presente do inferno por onde quer que ele passe, pois ele, digo, ela (a peça), não merece nem deve ser presenciada, visto que é uma obra típica daqueles que têm intimidade com Belzebu.
E um AVISO: saibam que qualquer um que gargalhar com esta peça, está fazendo – sem que o perceba conscientemente – um pacto com o demônio, já que é IMPOSSÍVEL gargalhar com tamanha baixeza (como se estivessem assistindo a um sitcom transmitido do inferno), e PRINCIPALMENTE, se a risada for fora de hora – o que acho inadmissível no teatro, pois sou de opinião de que as pessoas até podem comer balinhas ou atender celulares** (nunca se sabe quando a sorte vai nos ligar, não é mesmo?!), mas ainda assim, tenho claro pra mim que numa sala de espetáculos todas as pessoas devem rir juntas, todas ao mesmo tempo, e nos momentos adequados, mantendo desse modo os códigos de comportamento mesmo quando estão no escuro...(sobre esse tópico ainda teria muito o que comentar, mas é melhor calar).
Sei que falando assim – quase um mês após o término desse reconhecido festival de teatro (e mais de 6 anos desde que aquela galinha preta pousou em minha cabeça) – pareço anacrônica. Mas garanto-lhes que não sou, não. João de Ricardo, como hoje se auto intitula esse vermezinho, corrompeu os valores da minha família naquela época, levando a minha filha mais velha à prática de contato lésbico e o meu filho mais jovem ao álcool, ao uso de substâncias tóxicas, e às peças homossexuais de Miguel Falabella. Já Felipe Hirsch, hoje FELIPE HIRSCH, faz o mesmo que De Ricardo fez comigo e minha família, porém dessa vez, devido ao prestígio dos envolvidos e ao alcance da mídia (muuuuuuuito diferente da situação anterior) este mal se estende a todas as famílias cristãs do nosso país, valendo-se do talento diabólico da luxuriosa Mariana Lima e de seu comparsa satânico, Marco Nanini, em mais essa empreitada do Tirano. Não vamos, bons irmãos, deixar que isso aconteça com a família de vocês! Abram os olhos!
Vejam, por exemplo, o que vem acontecendo nas últimas semanas, no mundo todo: devido à união desses anarquistas desocupados que se apresentam inocentemente como ANONYMOUS, o mundo está a beira de um colapso financeiro. E isso porque esses baderneiros não aceitam de jeito nenhum a decisão superior promulgada em lei para tornar obrigatório o desconto de 50% para jovens dos 15 aos 29 anos nos eventos que estes arruaceiros promovem (se não me engano, é isso... i algo sobre o assunto na Globo News). Gente, isso é um absurdo!!! Todas as lojas do MUNDO dão desconto!!! E mais: em épocas de mudança de estação esses descontos chegam a 60, 70% do valor total de cada peça! Então por que esses desocupados não aceitam fazer a sua (mínima) parte na construção de uma democracia mundial? Simples: porque eles se consideram melhores que os outros. Pra vocês terem ideia, até em Madri já tem pessoas protestando! Tenho amigos que moraram lá e que afirmam que este é o primeiro sinal do fim dos tempos; é como o poste...desculpe o termo que irei utilizar...urinando no cachorro. Como dizem esses mesmos amigos ex-madrilenhos, entre uma taça e outra, uma gargalhada mordaz aqui e um antidepressivo ali, é “a chinelagem ganhando cada vez mais espaço”.
Por isso, vamos nos unir, irmãos! Escrevam, abaixo, seus depoimentos; Peço encarecidamente àqueles que presenciaram essa...promiscuidade teatral (em qualquer das versões acima apresentadas), que relatem sobre o que se trata essa obra tão impura e revoltante. Façam isso, bom irmãos, eu vos peço! Não apenas para que retornemos logo aos áureos tempos em que as obras de arte refletiam a nobreza dos homens de bem e inflamavam em seus corações sentimentos puros e belos, como também para termos finalmente um Brasil laico absolutamente cristão, sem que essa cambada de mascarados, empoleirados em obeliscos nas praças públicas, venham a denegrir a nossa visão otimista de mundo. E mais do que isso: sem gargalhadas indevidas, seja no teatro ou em qualquer outro ambiente social que nós, cidadãos de bem e bem nascidos (e sem culpa por sermos assim!), frequentamos.
Obrigada pela atenção. E que Cristo esteja com vocês.
PS: Concordo com todos os que escreveram a respeito desse despacho intitulado Pterodátilos: analisando estruturalmente, Todd é o Protagonista, e não as facetas demoníacas de Nanini (apesar do merecido Shell de Melhor Ator).
**Sim, sou complacente com os espectadores que conversam durante uma peça, pois sei que pessoas como nós, meros mortais, precisamos nos comunicar e de alguma forma expressar o mais imediatamente possível a nossa opinião sobre os absurdos que presenciamos sobre o palco. Se você não é, então fique em casa!
* Nora Bastos é presidenta da Associação Porto-Alegrense pela Ordem, Família, Moral e Bons Costumes Para mais informações sobre as polêmicas declarações de Nora Bastos, visite o blog  http://www.norabastos.blogspot.com/

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pterodátilos por Guilherme Nervo

Vidas esburacadas*

Ao final de duas peças do Porto Alegre Em Cena, uma reflexão ficou ressoando dentro do meu corpo, suprimindo toda e qualquer outra sensação. Era mais ou menos assim: “Então é isso o que somos? O ser humano pode chegar a esse ponto? Somos essa podridão?”A imagem de ser humano passada por Histórias de amor líquido, de Paulo José, e Pterodátilos, de Felipe Hirsch, não é nenhum pouco positiva. Estas peças comprovam o peso que a comédia é capaz de carregar, rompendo com a ideia formada de que comédias são feitas para relaxar o público. Leveza é a última coisa que esses espetáculos apresentam. Só fui me dar conta da verdadeira dimensão que elas têm, depois de um ou dois dias. Enquanto ria, no teatro, não me dava conta (ou não queria me dar conta) de que estava rindo de minha própria condição, de minha grosseria, egoísmo, superficialidade e estupidez. Ria, como todos os outros, das minhas falhas e neuroses. Ninguém está imune delas, são companheiras de vida.
Pterodátilos já se apresenta instigante no próprio nome. Um dinossauro voador do período jurássico. Por quê? Mais tarde o cenário e o texto acabam revelando os motivos. O segundo elemento que capta a atenção do espectador é o cenário de Daniela Thomas, um escândalo de funcionalidade e estética. Comunica muito bem o estado de degradação que a família retratada alcança. As relações esburacadas terminam como o cenário: um campo de guerra no qual os personagens ficam literalmente e simbolicamente sem chão. A inclinação da plataforma é outro recurso bem utilizado, como se o núcleo familiar estivesse em constante desequilíbrio. Debaixo da casa existe um cemitério, dentre as folhas secas, fósseis de um dinossauro. Os pterodátilos eram conhecidos por seu tamanho e peso, assim como por seus hábitos canibais. O que deixa clara a relação com essa família: de destruição.
Grace, uma mãe (Mariana Lima) que tem muito tempo livre, preenchido por álcool e tratamentos de beleza, uma eterna bêbada que diz o que pensa, esquece o nome da filha e é tarada pelo filho. Artur (Marco Nanini), um pai ausente e adúltero, que é expulso de casa por ter sido demitido do cargo de presidente no emprego. Ema (Marco Nanini em duplo papel), uma filha que está sempre em estado histérico, engoliu um sapato e está prestes a casar com um homem (Felipe Abib) vestido de empregada. Então, o noivo admite estar apaixonado pelo irmão dela, o filho homossexual (Álamo Facó) que acaba de voltar para a família com o vírus do HIV. Talvez porque esteja apodrecendo com mais rapidez, seja ele o personagem que tira as tábuas do cenário, que prepara as covas dos familiares. É possível acreditar nessa história? Garanto que o texto do norte-americano Nicky Silver é ainda mais sem sentido do que isso, por isso os personagens possuem um tom farsesco. É possível inclusive duvidar da condição de seres humanos, afinal eles não apresentam um passado. O presente é uma desgraça. O que se espera do futuro? Para mim essa é uma família de fantasmas, o que de forma nenhuma a torna distante de nós. As semelhanças não são poucas, inclusive.
O texto está repleto de piadas rápidas, de humor barato e instantâneo. Essa é a pior característica da peça, o que ameaça a qualidade de Pterodátilos, mas a não a popularidade. O que ficou muito explícito pelo ruído incessante das gargalhadas que ecoavam no Salão de Atos da UFRGS, que parecia a ponto de explodir de público. Diante de tanto riso, houve espaço para a perturbação? Não senti a violência ou a contração nervosa na recepção do público de domingo, dia 18 de setembro. Bastava Marco Nanini abrir a boca ou sacolejar o corpo para o público cair da cadeira de tanto rir. Não estou questionando o trabalho do ator, que incomoda somente quando produz uma voz muito forçada, quase trancada e inaudível, mas antes problematizando a calorosa recepção. Marco Nanini constrói a filha com esmero, acreditava em cada palavra que ele dizia, enxergava uma garota desesperada sem que ele precisasse apelar ou afeminar suas características. Quanto a Mariana Lima, posso dizer que ela encarna a personagem com muita vontade, ela se entrega àquela mãe desnaturada, podre, que regurgita as falas como uma legítima bêbada. Nanini e Lima proporcionam uma aula de atuação.
Existe uma cena em que Artur deseja conversar com o filho de forma íntima. Então o filho responde: “Fodi com homens. Por quê? Porque é bom”. Ele detalha suas relações sexuais com um linguajar baixo, admitindo ter ciência de que isso não era seguro, mas alguma coisa o impelia a essa atitude. O pai levanta e diz: “Me sinto muito melhor depois de termos conversado”. Ele adota a mesma postura que a mulher, de negação. Ela diz que a homossexualidade do filho ficou no passado. Isso, quando ele está se envolvendo com o noivo da própria filha! A filha nega o fim do noivado, decide se tornar lésbica e dá um tiro na cabeça. Volta para o palco feliz, dizendo que a morte deu certo para ela. A notícia não abala ninguém, assim como não o faz o suicídio do noivo. A família escuta apenas o que quer escutar, estão todos escravizados na tentativa de saciar os desejos violentos de uma existência medíocre. E enquanto isso, o chão abre suas valas, a iluminação é pálida, o cenário é negro e metálico e a trilha sonora é assombrosa.
* Guilherme Nervo é estudante de Teatro no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pterodátilos por Daniel Colin

"Etiquette" sem "vitriol"*

Assistir a Pterodátilos, com direção do “top” Felipe Hirsch, foi uma experiência muito interessante, a qual me obrigou a concatenar diversas reflexões sobre o fazer teatral e a relação do público com a obra artística.
De cara, posso definir o espetáculo - apesar de detestar qualquer tipo de definição! - como “morno”. E por que “morno”? Nicky Silver é um dos meus dramaturgos favoritos, cuja obra já foi trabalhada e revisitada por mim inúmeras vezes, em espetáculos e oficinas. Por isso posso dizer que conheço bem alguns de seus mais importantes textos, sobretudo Pterodactyls e Fat men in skirts. O livro de Silver que eu tenho contém 4 de seus textos mais famosos e tem o sugestivo título Etiquette & Vitriol; a meu ver, este título já define a estética do dramaturgo e apresenta a grande dificuldade de encenar seus textos: como conseguir caminhar na tênue linha existente entre a comédia rasgada e a tragédia familiar, o humor negro em sua mais pura concepção. A carga explosiva da dramaturgia de Nicky Silver surge do atrito destas duas dimensões a princípio paradoxais. Etiquette & Vitriol.
Ao optar por explorar mais a comicidade do texto e das personagens, Felipe Hirsch não aprofunda a degradação trágica da família de Todd, fadada à extinção tal e qual aconteceu com os dinossauros há milhões de anos (aliás, me pergunto se a relação com os dinossauros fica clara na montagem, já que o diretor optou por extrair diálogos fundamentais de sua encenação...). A encenação chega a utilizar passagens cômicas de outros textos do autor, como Free will & Wanton lust e Fat men in skirts, por exemplo, o que torna a peça ainda mais engraçada. Do elenco, apenas Mariana Lima consegue realmente extrair momentos densos e amargos de Grace, apesar de mais uma vez lançar mão de uma interpretação pautada por afetações...Mesmo Nanini, que pra mim é um dos maiores atores brasileiros e que já vi sensacional em peças como O mistério de Irma Vap, não envereda pelo viés mais aprofundado de suas personagens, sobretudo com Arthur, que a meu ver se apresenta opaco durante toda a peça; sua Emma ainda consegue ser encantadora e empática para o público. Em geral, os quatro atores estão muito bem na proposta de caricaturizar a família, mas pra mim, isso só não basta.
O show à parte da encenação de Hirsch é, mais uma vez e sem sombra de dúvidas, o cenário de Daniela Thomas, aqui confirmando o porquê é considerada uma das melhores cenógrafas do país. Thomas leva a fundo a metáfora da família revirada, cavocada, escavada, destruída, esfacelada, através do palco móvel que vai sendo desmontado por Todd, o filho pródigo que volta ao lar carregado pela “peste”. A iluminação de Beto Bruel é extremamente eficiente e dá ainda mais destaque ao incrível cenário de Thomas.
Ao final do espetáculo, duas reflexões martelavam minha cabeça, ambas vinculadas à questão da fama e do prestígio dos artistas: a primeira centrava-se na figura de Felipe Hirsch, atualmente um dos diretores-fetiche do Brasil. Acho Hirsch um grande diretor, mas infelizmente, estou começando a ficar cansado de suas produções: depois de grandes e surpreendentes montagens (A vida é cheia de som e fúria, Thom Pain/Lady Grey e Avenida Dropsie), tive dois encontros bem “borocoxôs” com seu trabalho neste ano: este morno Pterodátilos e o supervalorizado Trilhas sonoras de amor perdidas, uma cópia cansada e sem o mesmo viço de Som e fúria. Estou sinceramente torcendo para que ele volte a fazer grandes trabalhos, criativos e ousados, e saia desse lugar-comum de suas últimas encenações (ou será que sou eu que estou tendo o azar de ver as peças mais fracas? Me disseram que Não sobre o amor era lindíssima!...)
A outra reflexão surgiu da postura do público portoalegrense diante desta montagem. O espetáculo foi regado de risadas escancaradas, mesmo nos raros momentos mais pesados, como por exemplo, quando Todd conta a seu pai que fudeu com diversas pessoas, em diversos locais e que, por isso, se contaminou com o vírus HIV e nem sabe necessariamente de quem o contraiu. A plateia ria enlouquecidamente. Assisti à montagem do João de Ricardo para o mesmo texto e eu mesmo dirigi e atuei na peça GORDOS ou somewhere beyond the sea, baseada em Fat men in skirts, e vi, de perto, que o público daqui tem dificuldade em assimilar o humor negro. Por que riam tanto da montagem do Felipe Hirsch então? Teria o diretor feito uma peça de humor fácil, como vários colegas da classe comentaram no Facebook, ou será que o público “se abriu” aos atores globais Marco Nanini e Mariana Lima? Lembro-me dos espectadores saírem chocados da montagem do João e da minha; apesar de Pterodátilos tocar em temas polêmicos como incesto, pedofilia e AIDS, não ouvi ninguém comentar ou discutir qualquer destes temas (e olha que conversei com várias pessoas sobre a peça...). Não sei se foi o Felipe Hirsch, o Nanini ou o público de Porto Alegre...O que eu sei é que o amargor dos diálogos de Nicky Silver nem sequer ameaçaram aparecer no palco do Salão de Atos da UFRGS. Nada de “vitriol” prá nós!
* Daniel Colin é ator e encenador

Pterodátilos por Rodrigo Monteiro

Pterodátilos*

Pterodátilos, escrito em 1993, por Nicky Silver, é um texto teatral sem protagonistas. Ou melhor, o imenso esqueleto de dinossauro, que é, ao longo do texto, construído aos poucos por um dos personagens na sala de sua casa, é que é o protagonista. No entanto, há um personagem vertical, isto é, há, entre as figuras, uma que é vértice da história contada pelo texto. Esse personagem não é nem o Pai (Arthur), nem a Filha (Emma). Tampouco é a Mãe (Grace) ou o Noivo (Tommy). Trata-se do Filho (Todd), pois é, a partir de sua chegada, que o recorte inicial da narrativa acontece. Será ele, também, aquele que terminará a história, isto é, fechará o recorte aberto.
(Se você não assistiu ao espetáculo e não quer saber como ele termina, por favor, pare esta leitura por aqui. Eu vou contar, aviso, como é o fim da história contada na peça.)
Dito isso é preciso que fique claro qual é o ponto de leitura mais seguro (seguro porque é através desse ponto que os demais elementos que estruturam a narrativa se organizam quando produzidos de forma regular e positivamente equilibrada). Todd tem AIDS. Depois de cinco anos longe, ele retorna para o seio de sua família milionária (o pai é presidente de um banco). Por ter AIDS, é convencionalmente certo que ele vai morrer em breve, embora não apresente sintomas aparentes. Todd é, assim, o moribundo da família quando a história começa a ser contada. É ele quem que está mais próximo da morte em uma família “sã”: o pai é um homem de negócios bem sucedido, a mãe é uma socialite invejada, a irmã está prestes a se casar com o namorado. Nicky Silver, habilmente, não para por aí, avançando através das aparências e exterminando com elas a seguir.
Logo nas primeiras cenas, o personagem Todd se apresenta como um membro da dinossauromania (alguém lembra da série A família dinossauro, tão famosa no início dos anos 90?), entrando e saindo com livros sobre as criaturas extintas há milhões de anos. A metáfora, então, se estabelece. Como aquelas criaturas que dominaram o mundo por centenas de séculos foram extintas? A milionária família Duncan e os dinossauros estão, no nível da linguagem, em similitude, o que se confirma ao longo da peça quando um a um os personagens todos caem. Todd será a única exceção, ele que é o filho “aidético”, o moribundo, o aparentemente mais fraco e aquele mais próximo da morte. Como um esqueleto de dinossauro, ele permanecerá vivo e em pé depois do fim da história, à guisa do que aconteceu com sua família que dominava o mundo.
Esse, no entanto, não foi o ponto de leitura de Felipe Hirsch, diretor de Pterodátilos, peça participante do 18º Porto Alegre em Cena. Ao permitir que Marco Nanini, a estrela do elenco, o ator com (merecidamente) o maior nome e pelo qual a maioria das pessoas acorrem à audiência, interpretasse os personagens Emma e Arthur (a Filha e o Pai), Hirsch apaga (ou diminui consideravelmente) a importância do personagem Todd, o Filho. Uma vez que não há jeito certo ou errado de atualizar uma obra (Nicky Silver faz literatura. Hirsch faz teatro) construindo outra, resta à análise evidenciar os resultados, sem que seja impróprio perder de vista a obra primeira.
O cenário criado por Daniela Thomas, uma das cineastas mais importantes do Brasil, assume importância fundamental nessa montagem produzida por Carolina Tavares e Fernando Libonati. Em um primeiro momento, o balanço do palco acrescenta a sensação de perturbação em que se encontra a família Duncan: uma filha que não tem memórias, uma mãe alcoólatra, um noivo virgem, um pai ausente, um filho doente. Aos poucos, o chão começa a falhar e o porão, onde estão os ossos de dinossauro, começa a emergir. A estrutura familiar, como o solo onde a família pisa, começa a degringolar. Excelentemente viabilizada, a proposta faz a produção atingir níveis altíssimos de qualidade estética, sendo esse um de seus maiores méritos. Não menos importantes, a trilha sonora e a iluminação, de Nervoso e de Antônio Guedes respectivamente, são pontuais, certeiras, adequadas e auxiliam positivamente na construção dos melhores momentos da representação. Quem assiste tem a certeza de que está vendo uma rara obra de arte e, por isso, de grande valor.
Não muito diferente pode ser a avaliação das interpretações. Relegado a um (estranho) segundo plano, Todd ganha pouco espaço para se expressar, o mesmo espaço que, desde o texto, tem Tommy. Álamo Facó (o Filho) e Felipe Abib (o Noivo), dentro do que lhes foi dado de chances de mostrar o seu trabalho, aproveitam o disponível e garantem uma discreta, mas importante participação. Mariana Lima, sem dúvida, é uma das melhores e maiores participações de Pterodátilos. Beneficiada por Silver, mas também por Hirsch, a atriz aproveita-se da situação cambaleante de sua personagem alcoolizada (Grace, a mãe) e providencia à cena e aos seus pares os momentos mais fortes de toda a narrativa. Com Nanini, Lima brilha radiante, sobretudo, nos momentos iniciais da peça em que a comicidade tem mais espaço para acontecer.
Alvo de muitas críticas, a reação da plateia, que chega a gargalhar em alguns momentos, pode ser negativamente criticada por quem esteve sedento por mais tempo livre para a abstração do texto. Trata-se de um engano, já que é absolutamente necessário que a primeira parte do espetáculo seja contada em meio a muitos risos. Usando uma metáfora, chamo a atenção para o fato de que Silver e Hirsch necessitam que uma “casa” seja construída no início para, a seguir, ser destruída. Em outras palavras, quem ri no início do espetáculo, sofrerá mais facilmente os beliscões no fim dele. Quem gargalha dos personagens antes perceberá depois que, na verdade, gargalhava de si mesmo.
O ponto fundamental e decepcionante desta montagem é a responsabilidade dada a Marco Nanini na produção. Já com cabelos brancos, um senhor usando um vestido de noiva chama a atenção e se destaca até mesmo num incrível cenário de Daniela Thomas, numa adequada luz de Antônio Guedes e com quem quer que esteja ao seu lado bem trabalhando. É impossível dizer que Marco Nanini não é um excelente ator e seria mentiroso apontar algum aspecto negativo de seu trabalho em Pterodátilos. O problema é da produção que, ao permitir que ele interpretasse esses dois personagens, modificasse o ponto de vista tradicional do texto, desequilibrando, assim, a obra, e fazendo com que tudo e todos parecessem servir negativamente para a indução do foco para Nanini. Uma vez que Emma e Arthur são tão bons personagens como a Mãe e o Noivo na dramaturgia, a concepção viabilizada leva a peça a descarrilhar, embora não chegue a despencar porque, mais uma vez, Marco Nanini é, de fato, um grande ator e está ao lado de excelentes profissionais tanto no palco, como na ficha técnica. É preciso que se diga, porém, que a produção perdeu a oportunidade preciosa de figurar entre os melhores espetáculos do 18º Porto Alegre em Cena quando optou por carregar “as tintas” das cenas de Emma e de Arthur e o desenvolvimento de seus conflitos menores, esses quase totalmente cômicos, isto é, próprios apenas da primeira parte de Pterodátilos.
Quando se fala em signos teatrais, na verdade, se fala em signos tornados teatrais. O teatro utiliza, para a sua viabilização, elementos advindos de diversos sistemas culturais que, a priori, não são seus. A importância da escolha dos atores e de sua distribuição nos papeis, considerando o fato de que os atores também são signos tornados teatrais postos a serviço da produção, fica evidente na análise desse espetáculo de Felipe Hirsch. Faz, por isso, pensar e, não tanto quanto se esperava, aplaudir.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

domingo, 18 de setembro de 2011

Pterodátilos por Patrícia Fagundes

Pterodátilos*
A experiência de assistir um espetáculo não começa quando apagam as luzes da plateia, mas muito antes: em nossas referências e expectativas, no caminho e na chegada no teatro. Assistir um espetáculo no Porto Alegre em Cena é um acontecimento em si mesmo, especialmente para quem é do meio, em estreias concorridas em locais imensos como a Reitoria da UFRGS. Há uma dimensão social significativa em estar no teatro, encontros, abraços, saudações, breves diálogos e trocas que conferem uma importância e um prazer singulares no estar-junto que o fenômeno cênico propicia.
Assim, minha experiência ao assistir Pterodátilos não se resume ao espetáculo em si. É antecedida por referências muito positivas sobre a montagem, pelo reconhecimento de um texto excelente, de uma equipe qualificada e aclamada, pelo tom celebratório em sua presença no festival. Infelizmente (porque vou ao teatro para desfrutar), a montagem não correspondeu a minhas expectativas.
Sem dúvida, a produção é profissional e dispendiosa, Nanini é um ator brilhante, Daniela Thomas é uma grande cenógrafa, o texto é ótimo, a equipe é competente. O ritmo acelerado dos diálogos e o desequilíbrio do cenário tentam oferecer a experiência de vertigem e queda que o texto sugere, o visual em tons de chumbo é sofisticado. No entanto, esses recursos parecem servir a efeitos espetaculares que se reduzem à essa dimensão: ser espetacular, brilhar por si mesmo, como anúncios de neon. A iluminação cheia de estilo e recursos sublinha momentos de intensidade dramática, que não chegam a acontecer pelo próprio jogo cênico. A potência que percebo no texto se dispersa em um tom de comédia ligeira, cujo objetivo central parece ser a comemoração das décadas de teatro de Nanini. É nessa comemoração, a propósito, onde encontro o sentido para que o ator represente uma adolescente de 15 anos, em um elenco onde todos os outros personagens são feitos por atores que correspondem ao tipo físico sugerido. Ou seja, a proposta de encenação poderia jogar com corpos estranhos ao papel, desestabilizando as dinâmicas de representação - um homem gordo fazendo a mãe, uma anã de Todd, etc. - empregando um procedimento recorrente na cena contemporânea, que frequentemente revira as estruturas do teatro, questionando a si mesma. Mas não é essa a proposta, já que Nanini é o único corpo estranho ao seu papel, todos os outros estão dentro do horizonte do esperado. É bonito celebrar a trajetória de artistas, mas penso que seria mais fecundo criar um texto próprio para tal celebração. Posso estar enganada, mas penso que a temática de Pterodátilos não trata disso.
Confesso que o caráter de super produção da montagem tampouco me seduz, como no geral super produções teatrais não me seduzem, e claro que essa é uma postura parcial e prévia - não há opinião inocente. O cinema de Hollywood, a Broadway e as cantoras pop já se dedicam a super produções surpreendentes e anestesiantes. Penso que o teatro pode ocupar outro lugar no mundo hoje, fomentando espaços singulares de encontro ou de convívio (como propõe Jorge Dubatti, o pensador argentino que recentemente esteve em Porto Alegre na Reunião Científica da Abrace). Mais do que em objetos e efeitos, me seduz perceber investimentos em condições de trabalho continuado e tempo para o desenvolvimento de processos criativos desafiadores, lembrando que, mais que nunca, tempo é dinheiro em nossa época veloz.
É necessário evidenciar outro antecedente importante em minha recepção do espetáculo: a memória da montagem de Pterodátilos dirigida por João de Ricardo há alguns anos atrás, com seus colegas de DAD. Se chamava Extinção, possivelmente porque o grupo não tinha verba para pagar os direitos de Nicky Silver. Um produção modesta que assisti na Álvaro Moreyra, e que encontrei densa, provocadora, inteligente, atravessada de um humor negro muitas vezes incômodo. Lembro da força de Marcos Contreras no papel de Todd.
Ao escrever esse comentário, penso que provavelmente será uma opinião dissonante em meio à chuva de elogios à montagem. Preferiria escrever sobre algo que me tocou e vibrou como Out of context, para festejar junto com outras vozes a experiência da cena. Mas combinei de escrever sobre Pterodátilos, e aqui estou. Por outro lado, Nelson já nos alertou sobre o perigo da unanimidade, antecipando-se a uma potente linha do pensamento contemporâneo que celebra a diferença, o heterogêneo e o polissêmico. Nesse sentido, a dissonância é necessária. Dissono (? )
* Patrícia Fagundes é encenadora