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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O fantástico reparador de feridas por Rodrigo Monteiro

O fantástico reparador de feridas*
Fleumático. Dirigido por Domingos Nunez, o espetáculo O fantástico reparador de feridas apresentou-se no 18º Porto Alegre em Cena como uma peça de teatro bastante cansativa. Talvez, uma metáfora adequada para iniciar sua análise seja a imagem de uma fotografia em 16MB, aquelas que, quando chegam na caixa de correio eletrônico, trancam o computador. Quando você abre o anexo, descobre a mesma imagem poderia ter 200Kb, o que lhe permitiria, inclusive, repassá-la para outras pessoas. O que faz uma imagem ser tão pesada? A quantidade de pixels. A nova produção da Companhia Ludens, no que diz respeito à interpretação dos atores, é assim: cheia de detalhes.
O texto foi escrito por Brian Friel (Irlanda, 1929). São três monólogos justapostos. Três personagens compartilharam juntos décadas de um trabalho e de uma vida em comum. Nas cenas, os personagens dão a sua versão dos fatos ocorrido ao longo desses anos. Os três atores, Walter Breda (Francis Hardy), Mariana Muniz (Grace Hardy) e Fernando Paz (Teddy), deixam evidente o seu domínio de cena, manifesto pela forma como preenchem o palco, modulam as pausas, dizem o texto. A excelência da técnica empregada é inegavelmente grande. A falha, porém, é da direção, essa responsável pela visão geral da encenação: união das partes num objeto único. Não há uma só fala que não seja acompanhada de um movimento de sobrancelhas, meneio de cabeça, giro com as mãos. Os pés estão sempre bem apoiados no chão, os braços presos em algo ou exibindo uma tensão nos ombros. As expressões são duras, friamente calculadas e não corporalizadas. A interpretação carece de naturalidade, tom que convém mais ao drama do que o exagero das máscaras, mais próprio do melodrama. O português é correto demais, as pausas são falsas, os movimentos parecem buscar um sentido ao invés de expressá-lo. O excesso de afirmações torna o espetáculo de cem minutos pesado, o que é uma pena.
Felizmente, o peso dos elementos que, lado a lado, estruturam as interpretações dos personagens em particular, não se repete nas outras esferas da produção. O fantástico reparador de feridas é um espetáculo de produção modesta: uma faixa ao fundo, uma mesa e três cadeiras: cenário esse responsável pela bela e significativa cena final. A iluminação é adequada, a trilha sonora é potente, o figurino (com exceção do visível velcro na calça de Francis Hardy) é bem posto.
O texto de Friel traz propostas interessantes. Três lados de uma mesma história pode ser considerado, hoje, nada radical, mas sua importância não deixa de ser evidenciável. O único senão é o personagem Teddy. Uma vez que Francis e Grace sustentaram ao longo de décadas um romance, o que há de se dizer sobre Teddy? Seria o personagem assexuado? Qual é o seu conflito? Considerando que ele tem o mesmo tempo de exposição da sua visão acerca dos fatos, falta ao espectador mais motivos para ouvi-lo com atenção. Apesar disso, a companhia, que investe há algum tempo na produção de textos que estabeleçam a troca cultural entre Brasil e Irlanda, tem seu mérito garantido pela seriedade com que realiza o projeto. Embora não seja um grande espetáculo, sua presença não deixa de ser bem-vinda ao festival.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O fantástico reparador de feridas por Alexandre Vargas

No limite entre fé e fraude*

A peça O fantástico reparador de feridas, inspirado no texto Faith healer, do irlandês Brian Friel, é dirigida por Domingos Nunez, estrelada por Walter Breda, Mariana Muniz e Fernando Paz. A produção é da Cia. Ludens, fundada em 2002, que surgiu com a proposta de pesquisar e montar textos teatrais irlandeses no Brasil e estabelecer um diálogo entre as duas culturas. O espetáculo obteve duas indicações ao Prêmio Shell de Teatro 2009, pelas atuações de Walter Breda e de Mariana Muniz.
Três personagens e quatro monólogos contam a história de uma trupe que viaja por cidadezinhas da Escócia e do País de Gales, apresentando um número que se situa entre uma representação teatral e um culto religioso de cunho sobrenatural. Juntos, tentam sobreviver cobrando ingressos de inválidos em apresentações das quais podem sair curados. Esse é o ponto de partida para as situações narradas na peça. Os três personagens são Frank, Grace e Teddy. Frank (Walter Breda) é um homem que vive atormentado por possuir um dom sobre o qual não tem nenhum controle e tenta aplacar seus questionamentos com doses colossais de uísque. Sua mulher, Grace (Mariana Muniz), advogada e filha de um juiz aristocrata, acusa, defende, busca evidências e comprovações para justificar seu estado mental. Teddy (Fernando Paz), empresário de artistas exóticos e decadentes, transita entre a frieza profissional, a admiração por Frank e uma possível paixão por Grace. A peça está estruturada em depoimentos dos três personagens sobre o mesmo acontecimento. Cada uma das personagens narra diretamente para a plateia, de acordo com suas próprias conveniências, alguns fatos que vivenciaram juntas. Ao contar suas experiências, as personagens têm o intuito de convencer os espectadores e a si próprias de que aquele ponto de vista é o que mais se aproxima do que realmente aconteceu. Aos poucos, tece-se uma cadeia de informações que se complementam e se opõem e que levarão os espectadores a tirar suas próprias conclusões. Em última análise, tudo depende do ponto de vista do observador que, de um modo ou de outro, relativiza os discursos a que está exposto e os reorganiza de acordo com suas próprias necessidades, sentimentos e limitações. No entanto isso se dá por uma “literatura dramática” e não pela encenação do espetáculo apresentado no festival.
O texto é considerado como o mais radical de Brian Friel, mas a encenação não alcança a potencialidade do texto. Pois os espectadores, os que estão acordados, tentam encontrar na chave da oralidade, da narrativa, as inquietações que a encenação não nos possibilita. Friel em seus textos está interessado em investigar a percepção da realidade a partir da manipulação da linguagem, dos discursos e do desejo pessoal que forja uma realidade. Então ele coloca a questão da manipulação da linguagem como um dos pilares para uma possível representação do mundo contemporâneo. Ora, se o que está em jogo é o poder de persuasão, então é possível fazermos uma relação com a própria arte teatral que a Cia. Ludens nos apresenta. Para a construção de uma encenação não basta o conceito, a sinopse e o discurso de estar encenando um dos maiores nomes da dramaturgia da Irlanda.
* Alexandre Vargas é ator, diretor e coordenador do C.P.T.A. - Centro de Pesquisa Teatral do Ator

O fantástico reparador de feridas por Camilo de Lélis

O curandeiro*

Não dá pra segurar, rasga coração! Queria ficar só com o sentimento, não escrever nada. Afinal, é uma peça que o público, na noite em que assisti, estava meio indiferente. Algumas pessoas saíram no meio do espetáculo...Sério, é verdade. Influenciado pela peça, vou escrever, assim, sob efeito da memória emocional.
A começar pelos intérpretes. Walter Breda é um ator que participa de muitas novelas de sucesso na televisão. Trabalha também como dublador. O seu estilo de usar a voz é muito peculiar e dá um sabor especial ao seu personagem, que é um misto de charlatão e milagreiro. Essa mistura é, precisamente, o drama do personagem, pois não podendo usar seu dom paranormal, segundo a sua vontade, fica à mercê do acaso, e do uísque, para realizar suas apresentações. Ele é o protagonista. Mariana Muniz, atriz, coreógrafa e bailarina, com muitos prêmios em sua carreira, representa a esposa do curandeiro. Alguém que abandona a família rica para segui-lo. Mariana é tão dedicada em sua entrega ao papel, que quase não percebemos que estamos diante de uma maravilha. Ela é uma diva. Fernando Paz, ator que trabalhou na Companhia do Latão e Grupo Tapa. É, também, clown na equipe dos Doutores da Alegria. Nesta peça, ele faz o papel do empresário do show de curas místicas.
A autoria da peça é do irlandês Brian Friel, considerado um expoente da dramaturgia irlandesa atual. Uma mesma história (equipe mambembe viaja por cidadezinhas da Escócia, País de Gales e Irlanda, realizando sessões de cura), é contada sob o ponto de vista de cada um dos integrantes do trio: Frank - o bruxo; Grace - sua esposa; Teddy – empresário de artistas decadentes. Eles nunca se encontram em cena. São monólogos.
Não há cenário, só uma faixa com o nome do show, que é o mesmo nome da peça: O Fantástico Reparador de Feridas. Há três cadeiras e uma mesa com uma vitrola e outros pequenos elementos. Que eu me lembre, mais nada. A luz é branca. Um foco pontua um episódio, que se repete, exatamente igual, nas três narrativas: o episódio trágico, que dará fim às peripécias da trupe. Três histórias diferentes e, entretanto, uma mesma história. Não se trata de que cada um dos personagens recria, inventa o passado. O que acontece é uma coisa mais interessante, pois ninguém mente, e as narrativas se complementam entre si, na verificação de uma única verdade inexorável: o dom especial - que um homem traz de berço (a cura), mas que depende de algo fora de seu controle (a fé) - imantará o destino de três criaturas, numa mesma direção.
Eu teria muitas outras coisas para escrever, eu que não queria escrever nada. A peça me tocou, porque o dramaturgo criou uma história muito boa (nem pós-dramática, nem transumana, apenas uma história), e ela foi interpretada por três ótimos atores, sob regência de uma direção sutil, precisa e erudita de Domingos Nunez.
No entanto, teve gente saindo no meio do espetáculo...Talvez, por estar com o cérebro superexcitado por montagens com muito “glamour” e muita “purpurina”, não tiveram paciência para um trabalho que exige algum esforço de quem assiste: escutar uma história, juntar seus pedaços, acompanhar...Não é garantido, mas a cura de nossas feridas pode se realizar, também, através do teatro.
* Camilo de Lélis é encenador