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sábado, 17 de setembro de 2011

Out of context- for Pina por Rodrigo Monteiro

 Out of context- for Pina*
Em temos teóricos, o valor da dança contemporânea, ou a contemporaneidade da dança, está no fato de seus objetos manifestarem em cena que é possível descolar o significante do significado (duas faces de uma só moeda) ou, em mesma e contrária medida, “provar” que, no significante, há significado ou, na forma, há conteúdo, e vice-versa. O problema da proposta é o seu mal uso. Em Porto Alegre, é infelizmente fácil já identificar uma certa codificação na dança contemporânea de algumas montagens daqui (não em todas). Explico: assim como o ballet clássico e a dança folclórica têm seus “passos” bem registrados, em muitas montagens consideradas exemplares da dança contemporânea, passar o braço em frente ao rosto, ter o corpo levado pelo impulso da mão, falsamente jogar as pernas e retraí-las antes de concluir o desenho são alguns dos exemplos que, de tão repetidos, já deixam mofar a beleza teórica exposta acima. Talvez justamente por não enrijecer-se na própria proposição, ou seja, fugir de toda e qualquer cristalização, Out of context- for Pina está sendo considerado, nesse meio de programação, o melhor espetáculo do 18º Porto Alegre em Cena.
Descrever nessa análise o que eu acho que pensei durante a fruição da peça é exercício que eu abandonei nesses últimos anos de crítica. No entanto, vale apontar que, se o significado é deixado de lado e o que vale é o seu desapego do significante, o espetáculo se apresenta repleto de marcas de arbitrariedade, sinais de descontrole, pistas de manifesta criatividade que se renova a cada nova cena ou parte de. A forma preenche o espaço e, por ser substituída em tempo absurdamente rápido, não deixa tempo para se ter certeza do seu conteúdo. A linguagem do movimento, na primeira cena, se consolida com a repetição. Cada um dos nove bailarinos atualiza o movimento do outro, refletindo o gesto, repercutindo não o sentido, mas a marca dele. À plateia é permitido pensar em encontros, em animais, em irracionalidade, em ritualização. A importância dos pés na percepção via tato ganha grande posição. Os pés, afinal, são os maiores responsáveis pelos signos proxêmicos, isto é, aqueles que dizem respeito à relação entre os personagens entre si na consolidação do vértice tempo-espaço: quando o ator/bailarino/dançarino/criador percorre o espaço, o tempo se estabelece.
Acima falei em personagem. Alain Platel não os deixa ver e eles são pura responsabilidade do espectador (no caso, eu), esse teimoso em dar sentido para o que vê (e com o quê se emociona). O diretor permite que vejamos figuras e o resto é consequência. Em cena, como raramente se vê, os nove atores se mostram em sua individualidade aparente, de jeito que, em especial na segunda cena (seria “uma festa”? e me pego a dar sentido para algo cujo sentido não importa...), é possível se divertir ao encontrar “personagens” da noite: os casais, os solitários, os beberrões e outros (conclusões minhas). O lúdico toma lugar nesse jogo de esconde-esconde em você acha o que quiser encontrar. Platel, que foi/é professor de crianças com necessidades especiais, além de criador, em 1984, da Cia. Les Ballets C de la B, na Bélgica, abre espaço para a brincadeira, para o imaginário, para a emoção. E torna seu espetáculo uma homenagem a Pina Bausch, coreógrafa alemã, falecida em 2009, uma das maiores expoentes da dança contemporânea, cujo trabalho desenvolvido ao longo de décadas encontra repercussão nesse projeto.
A trilha sonora composta desde barulhos de animais a hits do pop, executada por gravações, mas também cantada pelos próprios atores/intérpretes, não se esquiva de incluir longos silêncios. O fugidio que marca a ordem dos acontecimentos, a opção dos figurinos com os quais os atores chegam ao palco e dele saem, e os movimentos executados (corridas, caminhadas, paradas...) também está presente na escolha dos sons. Uma vez estabelecido o esquema compreensão-alienação, ele se repete e nos acalma. As cenas finais, de profundo encantamento, acontecem quando já estamos vencidos por Platel e pelo seu grupo. O sentido já se dispersou e, talvez, como os animais vistos por mim na primeira cena, a racionalidade evaporou. Então, quando se pensa não haver mais fugas, não mais mudanças, não mais alienação, cai sobre o palco uma música que trata justamente de irracionalidade. A compreensão também não há de ser cristalizada.
Descrever a música, como descrever os sinais, seria, de alguma forma, descrever o sentido e matar o processo de construção dele, esse tão subjetivo como justamente propõe a dança contemporânea valorar. Não o farei. Mas incluo a letra como um sinal de que Out of context ainda ecoa.
It's been seven hours and fifteen days
Since you took your love away
I go out every night and sleep all day
Since you took your love away
Since you been gone I can do whatever I want
I can see whomever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
But nothing ...
I said nothing can take away these blues,
but noth (i missed a chord there)
nothing compares ...
Nothing compares to you
It's been so lonely without you here
Like a bird without a song
Nothing can stop these lonely tears from falling
Tell me baby where did I go wrong?
I could put my arms around every girl I see
But they'd only remind me of you
went to the doctor guess what he told me
Guess what he told me?
He said, son, you better have fun
No matter what you do
But he's a fool ...
'Cause nothing compares...
Nothing compares to you...
All the flowers that you planted, mama
In the back yard
All died when you went away
I know that living with you baby was sometimes hard
But I'm willing to give it another try
'Cause nothing compares...
No Nothing compares
Nothing Compares to you...
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Out of context- for Pina por Cibele Sastre

Minha reverência à irreverente reverência!*
A Cia C de la B é bem assim. Provoca, irrita, cutuca, atiça e desarma. Out of context nos faz passear por diferentes sensações e emoções, com e sem contexto. Não importa, os elementos que o coreógrafo Alain Platel governa na composição das narrativas corporais podem ser considerados parte de um repertório tradicional de procedimentos de dança contemporânea, e podem não ter qualquer referência direta à homenageada Pina, mas dialogam diretamente com nosso corpo sociopolítico cultural – tema principal em suas obras – e com nossos sofrimentos, que para ele é onde nos igualamos uns aos outros. Assisti ao espetáculo de terça feira e a parte da conversa de quarta e soube que nos outros dias haveria uma interferência dos alunos da oficina, o que possivelmente acrescentaria novas provocações à minha experiência estética.
Nothing compares to you, diz a canção final numa versão tocante e delicada de Jimmy Scott, enquanto os bailarinos se vestem saindo de cena sem solenidade mas acenando o fim que se aproxima. Não há chance de assistir à Cia C de la B com a intenção de compará-la ao grande amor de artistas de dança e teatro locais. Pina Bausch há muito tempo é a matéria lançada no meio do lago que propaga ondas que se transformam até a margem ou tantas outras transformações rizomáticas. Alain Platel, psicólogo e pedagogo, há muito tempo é o marginal da dança belga que faz da irreverência um lugar comum. Ver Out of context no mesmo ano em que assistimos a companhia de Pina dançar sua obra inacabada abrindo esse festival e Tadashi Endo fazendo a sua homenagem cheia de citações diretas é um privilégio, um modo de degustar os sabores espalhados pelo mito.
Mas que fique claro, Out of context- for Pina não é sobre Pina. Ela simplesmente paira como influência maior numa irreverente reverência. Para além d'Ela, Out of context mostra o frescor com que os jovens, maravilhosos e bizarros bailarinos movem as propostas tradicionais da dança contemporânea, ressignificando todos os procedimentos de forma muito provocativa e bem humorada, provando que dança contemporânea não é apenas um contorcer-se sofrido composto de “movimentos involuntários” desagradáveis ao olhar e sem qualquer narrativa. [a saber, da 'tradição contemporânea': o entrar em cena despir-se e apresentar o sujeito corpo sociopolítico cultural como “o material da dança”, o movimento mínimo, a integração da voz ao movimento de dança, o engate entre corpos orientado por explorações de contato corporal que desenham formas bizarras, chamar os bailarinos pelo nome próprio, o pop/clubber, a exploração “adulta” dos movimentos da criança (para as crianças de ontem hoje e amanhã), além da exploração virtuosa de coordenações bizarras/assimétricas entre partes do corpo].
Pleno de possíveis associações, Out of context põe contexto no que se costuma chamar de dança contemporânea. E Platel, em conversa com seu público, mostra e ilustra claramente temas e motivações para a tessitura coreográfica, que nesse caso, inclui imagens de um filme médico dos anos vinte sobre a histeria. Diferente de outros trabalhos gerados sobre esse tema, a falta de uma motivação musical direta gerou uma trilha entretecida de voz, tecnologia e as sempre presentes referências populares, incluindo uma Ave Maria. Em meio a abstrações de som e movimento, Platel nos arrebata com o lugar comum em canções e orações quase sempre em contraponto com o tema de fundo. Arrepios e curiosidade: de onde vem esse som? É ele mesmo quem canta? Qualquer maneira de enganar vale a pena...
Também podemos ver como referência um trio A no início do espetáculo, sem nudez ou bandeira como propôs Yvonne Reiner, com essa atitude de entrar em cena da plateia, despir-se (aqui não completamente) e enrolar-se num pano, que com Platel ganha ares mais performáticos do que performativos, mas aproxima Estados Unidos e Europa, influências fundamentais em Pina. Platel vai introduzindo pinos/marcos/citações por onde nossas associações passeiam livremente, com e sem contexto, deixando-nos gozar do gozo dos bailarinos com suas maravilhosas singularidades enfatizadas em solos e duos. Humor, tristeza e ironia brincam de mãos dadas quando o espelho faz a autoestima melhorar a cada dia, quando se torna “difícil ser humilde quando se é perfeito em tudo”(texto de um bailarino), quando isolamento e exibicionismo, que geram deliciosas gargalhadas, se tornam a forma de comunicação. “A ironia ajuda a digerir assuntos duros”, nos diz o coreógrafo que considera triste um dos momentos mais cômicos dessa obra. Diferente de outras produções em que Platel faz da mistura de bailarinos, atores, profissionais e amadores a política do espetáculo, esse trabalho justifica o treinamento e um impressionante virtuosismo para se chegar no êxtase, na simplicidade e na partilha do sofrimento. Ave Platel, cheio de des graça, Pina está conosco. Bendito sois vós entre os coreógrafos, bendito é o fruto da vossa demência sã, a dança.
* Cibele Sastre é bailarina e professora de Dança