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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Rodrigo Monteiro #19: In on it


Foto: Guilherme Santos / PMPA

O não dito

Embora a discussão sobre forma e conteúdo já tenha sido deixada de lado há um bom grupo de décadas, uma vez que já se entendeu que, na forma, também há conteúdo, partir dela é sempre renovador quando pensamos em arte como um processo que começa e termina e que só se estende na sua recepção. O que levou um determinado grupo de pessoas a fazer essa peça desse jeito? E aí a reflexão fica situada o máximo possível (ou seja, num lugar tão pequeno quanto inexistente) naquilo que não é a relação da obra com o público. In on it parece ser mais uma peça em que um grupo de pessoas pensou, primeiro, na forma e esqueceu do conteúdo, como tantas que se vê por aí.

“Eu sou louco para fazer uma peça em que as histórias se misturem... Uma coisa meio Magnólia com aquela chuva de sapos...”

“E duas cadeiras. Só duas cadeiras. Teatro dos bons: ator e texto!”

Cansativo. Histriônico. Frio como uma geladeira vazia. Inútil como um Iphone que não recebe ligações, nem as faz. Com um texto do canadense Daniel MacIvor, Emilio de Mello e Fernando Eiras, em calças, sapatos, camisa e gravata iniciam a peça dizendo, com todas as letras, que querem fazer algo aparentemente inovador, que comece “de repente”, sem que o teatro pareça teatro, sem que haja um ponto inicial bem marcado. Com uma mala cheias de troféus e a fama de ser o espetáculo mais desejado do 17º Porto Alegre em Cena, a trama dirigida por Enrique Diaz parece mais purpurinada do que realmente boa. Os atores, que são excelentes, se sucedem em personagens quase caricatos e a luz é um espetáculo a parte, sendo o cenário, o figurino, a maquiagem e, em alguns momentos, a protagonista desse show.

Então, as histórias vão ganhando corpo e os minutos passando. De um lado, dois atores ensaiam uma peça. De outro, a peça apresentada. No centro, um par de homossexuais discutem a relação. Os homossexuais parecem ser os atores no passado. Um dos atores parece ser um dos personagens da história da peça, o que estava dirigindo um dos carros no dia do acidente fatal que termina a trama dentro da trama. Há ou não há uma ligação entre as três narrativas?

Eis aí que o texto deixa de ser texto e os atores passam a não mais existir. Tem-se um discurso e quem age é personagem do/no contexto. É o Rodrigo que muda de tom quando escreve no blog do festival ou quando está no Ponto de Encontro. É o filho que fala com a mãe de um jeito e com o pai de outro. Mostra carinho quando quer e é frio quando não está nem aí. (Ou o contrário.) In on it fala das roupagens que a comunicação tem e delas se usa para ser comunicação. A peça se constrói em cima de uma forma totalmente cheia de conteúdo, esse a ser usado o mais plenamente possível. E sua história fala de conteúdos sem forma e, por isso, muitas vezes, não ditos. Se um dos atores for mesmo o personagem da história contada e ambos serem os homossexuais que relembram sua própria história, então, estamos falando de algo que não aconteceu. Tudo não passa de uma reflexão sobre o que não ficou dito. Mas poderia...

Não sabemos do quê sofre o homem que está condenado à morte. Ele não sabia que sua mulher estava tendo um caso com outro. O filho não sabe que o padrasto irá embora e sua mãe não tem o que dizer a ninguém que ela não possa simplesmente seduzir. O filho fala do tempo, do emprego, da esposa, mas não fala com o pai sobre si e sobre ele. Ninguém sabe quanto tempo de vida resta ao protagonista. Ninguém diz.

O par de homossexuais relembra como se conheceu e como foi sua relação. Sem saberem muito um sobre o outro, eles se encontraram para organizarem uma coreografia para uma festa. Desentendidos. Desencontros. “Por que você não me disse isso (que não poderia me receber) há vinte minutos (quando você mesmo me convidou para vir aqui na sua casa)?!” As brigas, o casaco, a troca do ingresso, o xampu. “O que era mesmo para comprar?”

Os dois atores têm ideias diferentes quanto ao texto. Um deles é o autor, mas embora a opinião desse seja mais fortemente defendida, nem sempre a do outro é desprestigiada. Nós vemos as duas.

Nós vemos as três. Todas as histórias, em paralelo, são contadas sem a entrada ou a saída de nenhum cenário que não seja a mudança de lugar das cadeiras, a quebra na luz e uma nova corporalidade na dupla de atores: Mello e Eiras. Todas as histórias viram uma só, envolvidas, in on it. E o conteúdo mostra pela forma ser o quão próximos e distantes estamos, tanto que, às vezes, o não-dito se perdoa. Às vezes, não.

De uma forma muito inteligente, o tema banal, mas não vulgar, das relações humanas e do quanto se perde de tempo em não dizer o quanto certas coisas e pessoas são importantes é tratado como conteúdo em In on it. A equipe que criou o projeto trata com a profundidade que o teatro contemporâneo oferece uma questão que só é superficial por ser, muitas vezes, mal discutida. Sempre é tempo de nos unirmos para nos perguntarmos sobre as coisas que não dissemos, sobre o que faltou dizer, sobre o que não adianta mais pensar. MacIvor, ao escrever o texto com a literatura, sugeriu. Mas o mérito é de Diaz e seu grupo pela encenação e do POA EM CENA pelo teatro, pelo encontro do público gaúcho com essa proposta tão rica, emocionante, bem feita e bem vinda.

*

*Rodrigo Monteiro: Licenciado em Letras - Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.Bacharel em Comunicação Social - Habilitação Realização Audiovisual pela mesma universidade. E mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jurado do Troféu Açorianos de Teatro 2010 e, também, do Troféu Braskem 2010, é autor do blog www.teatropoa.blogspot.com de Crítica Teatral de Porto Alegre.

Elisa Lucas: In on it


Foto: Guilherme Santos / PMPA

In on it: completamente envolvida

Assisti ao espetáculo In on it. É sempre um presente ver o trabalho do Enrique Diaz, que conheço do Porto Alegre Em Cena de outros carnavais. Não sei dizer qual foi a primeira vez que sua direção criativa, simples e viva me pegou de jeito. Se foi em A paixão segundo G.H. que me fascinou pela PAIXÃO que tenho por Literatura, se foi em Melodrama ou, talvez, em Ensaio.Hamlet, cuja Ofélia jamais esqueço com suas dezenas de cartas, seu garrafão de vinho azul com o que ela “se afogava” e um Hamlet de All Star vermelho, número 34 (porque pra mim era 34!). Ou, ainda, minha surpresa ao ver o ator Fernando Eiras na plateia do Elis Regina antes de começar a peça comentando assim, que nem um vizinho de porta: "Nossa, que estranho, senti um arrepio... Sabe que eu tenho medo de Fantasma. (Tempo) Pois é, Hamlet é uma peça de fantasma...” Ele falava de um jeito tão cotidiano que eu pensei: “Putz! Ele tem razão! Nunca tinha pensado nisso, não desse jeito!” O fato é que sempre que vejo o nome Henrique Diaz no Festival, garanto o ingresso e, lá no fundo, meu sonho de consumo é ser dirigida por ele quando crescer.

Mas, voltando ao In on it: Duas histórias se constroem no palco, situações propostas, trilha deliciosa de ouvir e com função no espetáculo. E mais a iluminação pontual do Maneco, outra criatura talentosa, cujo trabalho também conheci no Em Cena. Uma feliz combinação de elementos e, ao mesmo tempo, um palco limpo. Theatro São Pedro sem cortinas, outro sonho de consumo.

Dois homens, duas cadeiras e um casaco. A primeira relação: o que não faz um casaco bem usado no teatro? Lembrei imediatamente do espetáculo Le Costume, de Peter Brook, em que uma personagem com o casaco esquecido pelo amante posto em metade do seu corpo interpretava o amante e acariciava a si mesma, de forma poética e quase maliciosa.

Os dois homens contam uma história cujo personagem principal usa o tal casaco, mas os dois homens também têm uma história (isso chama a atenção da plateia, parece inusitado, mas contemporâneo). De repente, os dois brigam porque um está usando o “casaco” do outro. Agora o casaco não é mais personagem, tem dono! Esse é apenas um exemplo da teatralidade do espetáculo que, com poucos recursos bem utilizados na hora e na medida certa, tomam vida e cumprem a função de construir a ficção. Uma chave de carro verdadeira no final e nada mais. Mas antes disso, acontece muita coisa.

O espetáculo me envolveu de tal maneira que, enquanto estava ali me deleitando com o talento, a precisão e a naturalidade dos atores Fernando Eiras (o mesmo ator de Ensaio.Hamlet) e Emílio de Mello foi como se passasse um turbilhão de coisas na minha cabeça, no meu coração e na minha alma. E confesso que me permiti tal turbilhão devido ao próprio título da peça que, segundo nota da tradutora do texto, Daniele Ávila:

“A expressão “in on alguma coisa” quer dizer estar envolvido, estar por dentro, é quase um “ter culpa no cartório”, mas não chega a tanto. Pode ter uma conotação de ilegal ou, pelo menos, suspeito. Indica uma espécie de envolvimento que sugere uma responsabilidade, uma participação. A dramaturgia guarda isso, esse trunfo, até o fim: não se trata apenas de contar uma história que aconteceu com um personagem, mas de perceber o que move o outro personagem a contar essa história: ele está totalmente “in on it”. Assim, “in on it” é quase um estado, um ponto de partida e uma motivação. Difícil achar um título em português que tivesse tanta carga de significado em tão poucas letras”.

Fonte: http://inonit.wordpress.com/2009/04/27/nota-da-tradutora-1/

Sim, eu estou envolvida. Sim, estou motivada e tenho culpa no cartório. Vendo o espetáculo, eu pensava: é esse tipo de teatro que quero fazer, por que não estou fazendo? Ou, ainda, onde foi que eu me perdi, ou por que é tão difícil ser simples? Escutava as palavras do texto, escutava a história, via aquela dramaturgia calcada no jogo dos atores, e queria mais, e tinha mais, uma transcendência, uma coreografia divertida, um telefonema equivocado, um “vamo fudê” e um comentário do tipo: “Será que esse final tá bom?”. Tudo muito preciso, dentro do timing, os atores ali, falando com a plateia, fumando um cigarro que chega nas minhas narinas e ataca minha puta rinite. Vendo o espetáculo, mais relações. Lembrei do Roberto Birindelli me dizendo: “Quando você conta uma história, você se relaciona com ela, ela te provoca alguma coisa. Traga essa história pra perto de você! O que, em você, tem a ver com essa história?” E pensei: “Era isso que ele estava dizendo! Era disso que ele falava”

Lembrei também da Maria Lucia Raymundo que, na aula de interpretação, nos perguntava: ”Qual é o momento em que nos sentimos realmente vivos?” E, de repente, parei tudo e pensei no meu pai que morreu em um acidente de moto e percebi que nunca tinha pensado no que ele sentiu naquele momento. E, naquele momento, tentando imaginar/sentir tal sensação, me senti mais perto dele. O que será que ele sentiu?

Não consigo dizer mais nada, estou completamente envolvida.

IN ON IT

*

Elisa Lucas (www.elisalucas.com.br) é Bacharel em Artes Cênicas (UFRGS). Trabalhou com: Camilo de Lélis, Luciano Alabarse, Nestor Monastério, Roberto Birindelli, Roberto Oliveira e Inês Marocco. Desde 2004, apresenta Confesso que Capitu, dirigido por Roberto Birindelli. Assistido por mais de 9.000 espectadores, o espetáculo fez sua estreia internacional em 2010 em Sevilha (Espanha). Em 2009, a atriz estreou Histórias de uma mala só (Prêmio Tibicuera de Melhor Atriz), com direção de Vinicius Petry. Em sua formação, cursos com Philip Goulier, Thomas Leabhart, Miguel Crespi, Antonio Amâncio, Maria Helena Lopes, Luis Carlos Vasconcellos, Ivaldo Bertazzo, e outros.

Felipe Mônaco: In on it


Foto: Guilherme Santos / PMPA

A boa peça e o espetáculo de horror

Desde o início, fica evidente o desejo do diretor Enrique Diaz de realmente dialogar com o público. Esse desejo é expresso pelos atores através das constantes perguntas e afirmações dirigidas à plateia. Não são perguntas retóricas e nem piadinhas simples para animar o público. São perguntas sinceras e afirmações do tipo: “Isso é uma peça, não é um espetáculo”.

E realmente é uma peça. Viva, aberta e caótica. Não há cenário além de duas cadeiras, não há tempo linear e tão pouco há uma história fechada. E essa é a essência do diálogo, pois nela está a possibilidade de cada uma das pessoas na plateia compor a sua versão da peça. O que se vê são dois atores maduros e excelentes transitando entre três realidades distintas. Que se combinam para falar de amor, relacionamentos, tentativas, (inclusive a tentativa de montar uma peça) do acaso, de mudanças e o inevitável fim de tudo.

O trabalho dos atores é impecável. Sua noção de ritmo, a clareza na dicção, a consciência do que é estar em cena sem exageros, o carisma com o público, a agilidade para explorar cada nuance das emoções oferecidas pelo texto, demonstra realmente dois atores experientes e muito bem escolhidos para a proposta. Percebe-se uma engrenagem bem lubrificada funcionando em harmonia, não há excessos no jogo dos atores.

A direção de Henrique Diaz é ágil, simples e eficiente. As mudanças de cena são claras e muito bem marcadas tanto pela atuação dos atores, quanto pelas precisas mudanças de iluminação no trabalho de Maneco Quinderé. É clara também a paixão de Diaz pelo teatro dentro do teatro, uma constante em sua trajetória. Que a cada trabalho da Cia de Atores se intensifica criando mais níveis, mais universos paralelos intrincados. Até o momento incrível em que a vida dos atores se mistura com a vida das personagens.

Mas, infelizmente, o que mais chamou a atenção, principalmente, no início da peça, foi a falta de educação e a histeria de algumas pessoas na plateia. Eu não entendo como, nos dias de hoje, ainda é possível uma pessoa deixar o celular ligado durante uma peça. Isso está além da falta de educação, é puro desdém pelos atores e pelo público. E essa pessoa atenderia o celular pra dizer o que? “Hã... Desculpe, não posso falar agora... Estou no teatro... Me liga mais tarde”.

Por duas ou três vezes, celulares tocaram em menos de 15 minutos de peça. Um desses “gênios” ainda conseguiu sair do camarote pra atender e bateu a porta bem alto. E teve início a ópera do mau gosto: o eterno abrir e fechar de bolsas, o crepitar insuportável dos saquinhos de bala, o brilho debilóide das telas de celular enquanto algumas pessoas mandavam e recebiam suas mensagens irrelevantes: “O q VC vai Fzr Dpois?”. Ou simplesmente viam as horas. Que diferença faz que horas são? As risadas mais altas que a fala dos atores e totalmente fora de hora. Aquele tipo de risada histérica que não é uma expressão de graça, mas, sim, uma mensagem aos outros: “eu sou culto, eu sou pós-alguma coisa, entendo todas as piadas de peça antes mesmo dos atores terminarem de falar...”

São essas as pessoas que acordam às cinco horas da manhã para comprar ingressos? Para quê, pra fazer isso? O que está acontecendo? Onde está a educação, a consciência e o respeito pelo próximo? O mais irônico é que, quando os atores falavam com a plateia, ela ficava muda, atônita, sem reação. Vai entender...

*

Felipe Mônaco é ator e recentemente se aventurou como diretor e autor da peça Fora do ar. Formado pelo Tepa em 1999 divide sua carreira igualmente entre o teatro, cinema e tevevisão. Em Porto Alegre, trabalhou ao lado de Jorge Furtado, Mirna Spritzer, Marco Fronchetti, Heinz Limaverde e Patsy Cecato. No Rio de Janeiro participou da Companhia Atores de Laura dirigida por Daniel Herz.

Camilo de Lélis #4: In on it


Foto: Guilherme Santos / PMPA

In on it: Mas… Enfim, é uma boa comédia!

Bem recomendada pela crítica e pelos vários prêmios que recebeu, a peça In on it não decepcionou as expectativas e, com o calor que atores experientes sabem levar ao termômetro de uma casa cheia, tudo funcionou bem. Pode-se, inclusive, fumar no palco e jogar a bituca no tablado do vetusto Theatro São Pedro? Por que não? Enfim... Se faz parte da peça...

Mas vejamos a frio. Dois atores representam dois amantes homossexuais. Um deles é autor de teatro e os dois se revezam para dar vida aos personagens de um melodrama com doenças incuráveis, traições conjugais e meninos que sofrem com a ausência do pai. Nesta peça dentro da peça, o que surge é uma sucessão de estereótipos, não faltando o velho com Parkinson, Alzeimer ou algo assim, com amnésia e língua de fora. O jogo de representar a tal peça é entremeado pelos conflitos amorosos do casal gay que, nesta montagem, são tão superficiais que só servem para criar situações cômicas. E é nisso que In on it funciona bem.

A peça convence pelo terceiro ponto de vista, a comédia interativa, ou seja, a moldura do show. Os atores (os reais), desde o início, deixam clara a convenção de que haverá interação com o público, pois falam diretamente com as pessoas e, na sequência, até descem à plateia. Li comentários elogiosos que falam de uma suposta profundidade de sentimentos no espetáculo quando não há nenhuma, pois sua estrutura fragmentada não permite. A peça é uma comédia que alterna show de auditório com um entrecho de duplo enredo, cheio de gags e de bordões.

Não conheço o texto original do dramaturgo canadense Daniel MacIvor, mas o que aparece na montagem brasileira é um melodrama dentro de um drama que está dentro de uma comédia carioca, o que, para mim, resultou numa gozação em três níveis. A dupla de atores, Emílio de Mello e Fernando Eiras, são intérpretes que dão conta do cômico, equilibrando perfeitamente os dois clowns, o alegre e o depressivo. Eles têm domínio absoluto da brincadeira, e a direção de Enrique Diaz soube valorizá-los, apoiando a encenação em seu carismático desempenho. O público riu bastante e aplaudiu de pé a performance dos atores. Pelo resultado alcançado, a comédia In on it ficará bem dentro da memória do 17º Poa em Cena.

*

Texto: Daniel MacIvor / Tradução: Daniele Ávila / Direção: Enrique Diaz / Assistente de direção: Pedro Freire / Direção de cena: Marcos Lesqueves / Coreografia: Mabel Tude / Consultoria de movimento: Marcia Rubin / Técnica Alexander: Valéria Campos / Elenco: Emilio de Mello e Fernando Eiras / Figurino: Luciana Cardoso / Cenário: Domingos de Alcântara / Iluminação: Maneco Quinderé / Trilha sonora: Lucas Marcier / Produção: Enrique Diaz / Duração: 1h20min / Classificação: 16 anos


*

Camilo de Lélis, diretor de teatro, entre seus trabalhos destacam-se: O ferreiro e a morte, Macário, o afortunado, O estranho Senhor Paulo, A bota e sua meia e Mehrda, presidentas que foram agraciados com o Troféu Açorianos da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre em várias categorias. Seus trabalhos foram vistos em circulação por quase todo Brasil. No exterior, destacam-se as apresentações de Jacobina e de Mehrda, presidentas em Montevidéu (em 1996 e em 2001, respectivamente) e de O estranho Senhor Paulo em Buenos Aires (1997). A bota e sua meia apresentou-se na Alemanha, em 1998, e em Portugal, em 2003, dentro do Projeto Cena Lusófona. Em 2006, as encenações de Camilo de Lélis foram objeto da monografia Carnaval, encenação e teatro gaúcho, premiada no Concurso Nacional de Monografias Gerd Bornheim. A obra foi publicada em 2007, registrando em livro a contribuição desse encenador para o teatro.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Jorge Arias #5

 Martes, 28 de septiembre, 2010 - AÑO 11 - Nro.3760
http://www.larepublica.com.uy/cultura/425563-finalizo-una-nueva-edicion-del-festival-teatral-de-porto-alegre


Los caballos, Electra, Kabul, In on it, Ultimo tango en Berlín



Dos piezas uruguayas, Los caballos de Rosencof y Electra de Sófocles fueron estrenadas en el 17º Festival Internacional de Teatro de Porto Alegre, una distinción que nuestro arte dramático debe a quien más y mejor lo ha difundido en los últimos tiempos: Luciano Alabarse.


La obra de Mauricio Rosencof Los caballos, por Teatro de La Gaviota, es teatro político. Es denuncia de las condiciones de trabajo y vida en los arrozales de Treinta y Tres y llamado a la insurrección. La puesta en escena de Ernesto Clavijo atendió linealmente a la trama, sin el relieve combativo que elevare la anécdota al nivel del manifiesto. En particular, la conducta del personaje clave de Ulpiano pareció más delirio senil que rebeldía cívica.

Electra, de Sófocles, puesta en escena de Marisa Bentancur, causó sensación en el público "gaúcho" por la actuación de Gabriela Iribarren como la luchadora y dolida protagonista. Luego de un comienzo incierto, apareció la actriz, se adueñó del escenario del Renascença y, con el apreciable concurso del libreto, subyugó a su auditorio. Algunos detalles podrán mejorar, como la inserción en la tragedia de un coro plural que no hace inteligibles sus apasionadas invocaciones. Muy bien Rosa Simonelli como Clitemnestra y Virginia Rodríguez como Crisotemis.

Kabul, de las autoras y directoras Ana Texeira y Stephane Brodt (Rio de Janeiro) narra, en un estilo sobrio y ceñido que recuerda creaciones de Peter Brook, como El traje, una historia que une el desdichado episodio de una mujer lapidada en el estadio de Kabul en 1999 con el libro Las golondrinas de Kabul de la argelina Yasmina Kadra. Son magistrales la escenografía, mínima y artística, y la interpretación: los actores, además de dar el alma de sus personajes, sugieren puertas, cárceles y habitaciones. De lo mejor del festival.

De In on it del autor canadiense contemporáneo Daniel MacIvor (1962), suspendemos el juicio porque a duras penas pudimos entender una mínima parte de la trama, alevosamente complicada con desconcertantes y desconcertadas idas y venidas en el tiempo. Se nos dice que dos actores interpretaron diez personajes; lo más que vimos fue cuatro, con casi la misma voz y los mismos gestos: uno de ellos canchero y sabido, el otro absorto y descolocado. Con toda clase de premios.

Ultimo tango en Berlín, de la cantante alemana Ute Lemper, cerró el festival y deslumbró al público. Como en la apertura por Goran Bregovic, todo en Lemper es aproximadamente igual, de Brecht a Piazzolla. La diva, de expresión facial congelada, intenta parecerse a Marlene Dietrich.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Beth Néspoli #4: Rubros, In on it, Por tu padre e A inquietude



Beth Néspoli: um festival para muitos espetáculos

Alguns dos espetáculos desta 17ª edição do Porto Alegre em Cena eu já vi, mas gostaria de rever. A montagem mineira Rubros: vestido-bandeira-batom é uma delas. Vi há muito tempo e guardo apenas algumas imagens na memória. Lembro que gostei muito, escrevi sobre ela no jornal elogiando autora, cujo nome, Adélia Nicolete, na época não me dizia nada em especial, eu não tinha a menor ideia de quem ela era. Mais tarde a conheci, só então me dei conta de que ela é mulher do Luiz Alberto de Abreu, mas alguém com brilho próprio, muita sensibilidade, um grande ser humano. A peça tem como mote a relação entre duas amigas e aborda aquilo que se costuma rotular questões femininas – separação, filhos, envelhecimento. Adélia mostra não ter medo desse território “clichê”, porque sabe atravessá-lo para buscar além dele os fios que ligam essas duas mulheres ao seu tempo histórico. Assim, costura sua trama, no emaranhado entre bandeiras (de lutas políticas) e batom, emaranhado mesmo, pois a peça nada tem do tom doutrinador de quem aponta um caminho reto e seguro. Por meio de uma conversa aparentemente cotidiana – que provoca identificação imediata, risos e lágrimas – traça um retrato tragicômico de uma geração de mulheres que vivenciou profundas transformações comportamentais e ainda está aí, nos dias de hoje, maduras, tão cheias de dúvidas quanto de desejo de seguir em frente. Eu vi, num outro festival, essa montagem dirigida pela mineira Rita Clemente, cujo trabalho eu já conhecia e foi o que me atraiu ao teatro. E sua direção realmente contribui para ampliar as qualidades dessa dramaturgia, assim como as interpretações.

Sobre In on it, muito já foi dito. O espetáculo já tem longa estrada, sempre com recepção entusiasmada e é daquelas que conseguem agradar a diversos públicos teatrais – sim, também há espetáculos assim. Vale ser visto por muitos aspectos, da direção passando pelo texto ao jogo da dupla de atores, Emilio de Mello e Fernando Eiras.

Por tu padre, a montagem argentina do texto de Dib Carneiro Neto, atual editor do Caderno 2, que, no Brasil, foi encenado com o título Adivinhe Quem Vem para Rezar e tinha Paulo Autran como protagonista. Trata-se de um drama que enfoca relação pai e filho e tudo se passa numa Igreja, na missa de sétimo dia da morte do pai. É uma peça de quatro personagens para dois atores e Autran fazia três desses personagens com transformações externas mínimas. Trocava uma bengala por um lenço. Era uma atuação minimalista, interiorizada, inesquecível. A montagem argentina promete trazer como protagonista um ator dessa mesma linha realista de interpretação, Federico Luppi, acostumado às nuances expressivas da arte cinematográfica, igualmente talentoso e experiente, e estou bem curiosa de ver como ele expressará esse drama, que tem seus momentos de humor, bom que se diga. Apreciar a arte desses grandes atores de outra geração e seu talento para “dar vida” a palavras em cena é um dos prazeres que o teatro pode nos dar.

Também vou aproveitar para ver A inquietude, solo Ana Kfouri, de autoria do francês Valère Novarina, um dos que sinto ter perdido na temporada. É um desses textos contemporâneos, em que não se conta uma história, porém as palavras se encadeiam num jogo ou até num choque de sentidos e sonoridades de forma a deixar ao espectador possibilidades abertas de construção de sentido. Até onde sei, o autor aborda a própria linguagem como se examinasse essa ferramenta em sua potência e sua fragilidade. Se a proposta tem certamente a sua dificuldade (o que não é demérito), o interesse pode se ampliar pela presença da Ana Kfouri, uma atriz que conhece a fundo a dramaturgia desse autor e sabe o que quer ao trazê-la para a cena brasileira. Pelo menos, essa é minha expectativa.

Fica agora a expectativa de que comece o Festival. Os próximos posts já serão sobre os espetáculos a que assistirei. Ingresso na mão, Word aberto. O 17º já começou!

*Beth Néspoli é jornalista e crítica teatral. Atuou durante 15 anos, entre 1995 e 2010, como repórter especializada em teatro e crítica no Caderno 2, o suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo. Desligou-se da imprensa diária no início do ano para uma temporada de estudos. Atualmente é mestranda no curso de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

terça-feira, 1 de junho de 2010

In on it


In on it” (2000) trata da desconstrução a partir de um olhar construtor. Depois de limpo, o terreno abre-se para a possibilidade de outra construção. Construído o prédio, é permitido pensar na sua reforma. O processo é inquietante porque é humano. O todo construído, nunca pronto e sempre próximo do acabado, mas nunca nele, é também, na dramaturgia de Daniel MacIvor (Canadá, 1962) premiado pelo Obie Award na sua temporada em Nova Iorque, o humano. Os homens constroem homens, discursos, relações. E as desconstroem. Limpam o terreno. Reformam.

No Brasil, o texto ganha a direção de Enrique Diaz, premiado diretor (Mambembe, 1984; Molière, 1991; Shell e Sharp, 1995 e 1996) e fundador da Companhia dos Atores (1990) com interpretação de Emílio de Mello e Fernando Eiras. O espetáculo que estreou em 2009 já colecionou muitas indicações e importantes troféus: Melhor Direção e Melhor Ator (Eiras), no XXII Prêmio Shell de Teatro; e Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator (Mello e Eiras) no Prêmio APTR (Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro). “In on it”, por isso, é o espetáculo mais premiado da temporada nacional.

Depois de ter dirigido “Ensaio.Hamlet” e “Gaivota – tema para um conto curto”, e ter se apresentado em vários países, a mão de Diaz recai sobre esse texto fragmentado com habilidade e experiência. A narrativa de "In on it" se constrói em espiral abre-se para o público em três níveis bem claros do ponto de vista estética, mas conseqüentes do ponto de vista narrativo. Dois homens escrevem uma peça. Dois homens encenam uma peça. Dois homens vivem uma relação. A peça escrita e a peça encenada falam da relação antes vivida. A relação é ponto de partida para a escrita de um texto teatral e também sua encenação. A apresentação acontece porque antes o texto foi escrito. Só há dois homens em cena e é sobre eles que o espetáculo se constrói. Antigos amantes, atores que amam o teatro e também seu texto. Os diálogos fluem do sutil ao cáustico, do lirismo à simplicidade, da metalinguagem à linguagem. Uma situação vista e revista sob vários pontos de vista. Muda-se o contexto, não o texto: tem-se uma nova perspectiva.

Os laços são o tema desse espetáculo que inaugura a encenação de MacIvor, quase um desconhecido para nós, no Brasil. Seu humor elegante convida para a reflexão, em novos contextos, sobre textos outrora escritos por nós mesmos.


*

Ficha Técnica:

Texto: Daniel MacIvor
Tradução: Daniele Ávila
Direção: Enrique Diaz

Elenco:
Emílio de Mello
Fernando Eiras

Iluminação: Maneco Quinderé
Cenografia: Domingos de Alcântara
Figurino: Luciana Cardoso
Trilha sonora: Lucas Marcier
Coreografia: Mabel Tude
Consuloria de movimento: Marcia Rubin
Programação visual: Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia
Fotografia: Dalton Valério
Assessoria de Imprensa: Morente Forte Comunicações
Assistente de Direção: Pedro Freire
Direção de Cena: Marcos Lesqueves
Produção: Enrique Diaz