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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Esta criança por Natasha Centenaro


Esta criança: as relações familiares no espaço da casa
 
            É quando se entra em casa, que se descobre como realmente é o cotidiano de uma família, como são as relações das pessoas, entre si, e com os cômodos, com os móveis, os objetos. Nesse momento, é revelado o psicologismo de cada indivíduo dessa família, num microcosmo. Conforme Gaston Bachelard, em A poética do espaço (1960), toda ação está contida no espaço, mas para que essa se torne efetiva, é necessário permitir à imaginação que recorra ao inconsciente e busque evocá-lo, pois não se trata de uma descrição apenas. Para o autor, a casa, à primeira vista, é um objeto que possui uma geometria rígida, cuja linha reta domina. Funcionaria, assim, como um objeto resistente às metáforas de acolhimento do corpo e da alma. Essa ligação com o humano, entretanto, acontece de imediato, desde que se entenda a casa como um espaço de conforto e intimidade. A casa é um corpo de imagens próprias que garantem aos seus moradores razões ou ilusões de estabilidade. Ela tem sua verdadeira alma e psicologia. Esse estado de alma da casa pode refletir diferentes estágios, dentre esses, a casa-sofrimento pode ser percebida como extensão do corpo do próprio indivíduo refletindo tal espírito.
            As dez cenas curtas, esquetes, ou quadros, de Esta criança, originalmente em francês Cet Enfant, de autoria de Joël Pommerat, acontecem num espaço que poderia encaixar-se na definição de casa de Gaston Bachelard, com uma geometria rígida, mas que abriga a intimidade daqueles 22 personagens e possui alma própria. O retângulo vazado que avança às primeiras filas de assentos da plateia está posto de forma lateral, para que se possa enxergar o interior desta sala de apartamento, quarto de casa, sala de um hospital ou necrotério, hall de um edifício. Ao público é proposto que se aviste tudo assim, lateralmente, cujo olhar enviesado fica na dúvida se deve entrar de vez e penetrar à intimidade desses personagens ou ficar na soleira da porta, no limiar da invasão, do externo para o interno. Os próprios personagens movem-se com essa dinâmica, do exterior para o interior, do interior para o exterior, às vezes sem entrar totalmente, às vezes sem poder sair. As paredes pintadas de verde, como as paredes de muitas residências que eu conheço, os móveis, poucos, a poltrona, algumas cadeiras, que são modificadas de lugar conforme a cena (a sala de espera do necrotério, a sala da casa, o corredor do prédio). De maneira curiosa e ainda mais proposital ao efeito da alma desta casa, os vãos por onde a luz entra estão dispostos como se fossem janelas fixadas no teto. A alma desta casa acontece na peça e é ressaltada pelo cenário de Fernando Marés e pela iluminação, num jogo instigante e cativante de luz e sombra, de Nadja Naira (que faz também a assistência de direção). E é por isso, que esse espaço (a casa-retângulo) se transforma no elemento real buscado pelo texto de Pommerat, conquistado pelas atuações do elenco Giovana Soar, Edson Rocha, Ranieri Gonzalez e Renata Sorrah, e pela direção de Márcio Abreu.
            A busca pelo real. Sem reproduzi-lo. É o objetivo do texto do autor francês e de muitos dos trabalhos da Companhia Brasileira de Teatro, sediada em Curitiba. E que os porto-alegrenses puderam assistir em outras duas ocasiões, em 2012 no Festival Palco Giratório, com a peça Oxigênio, e neste ano, na Cena Paranaense do Festival do Teatro Brasileiro, com Vida, além da reapresentação da primeira. Assim como o texto do dramaturgo francês também é conhecido do público da capital, pois foi encenado pela Cia Stravaganza com Estremeço, ambos traduzidos pela atriz Giovana Soar (o de Esta criança com a colaboração de Lilian Ruth de Sá). A confluência desta procura pelo real parece ter encontrado o ápice nesta montagem. Ainda que sejam dispensados certos recursos característicos da CBT, como o teatro narrativo e a ausência irrestrita da quarta parede, ainda é possível perceber os momentos de interferência e de quebra narrativas, quando, por exemplo, os atores Ranieri Gonzalez e Edson Rocha cantam (uma das marcas da companhia: o uso da música ao vivo), antes de começar outro fragmento, ou nas cenas em que o elenco fala o texto voltado diretamente para o público, ou então, quando a luz, como quinto integrante deste elenco, ilumina a plateia e tenta, com isso, invocar o sentido de alteridade/identidade provocado por essas relações familiares e evocar lembranças: enxerguem-se, olhem-se, avistem-se, é você em casa, é a sua casa, você é mãe, pai, filho.
            A mãe que quer a felicidade e o melhor para o seu filho, esta criança tem que ser feliz, descontando de si mesma as próprias frustrações com a vida; a mãe que entrega o seu filho para que pais com melhores condições financeiras e, aparentemente, psicológicas, possa cuidá-lo; a assistente social que tenta resolver os conflitos de um filho que agride o pai, o qual não pode trabalhar; a mãe que se desculpa com a filha pelo tratamento e as cobranças; a mãe que busca no filho a solução para os seus problemas e a filha que não entende o pedido de um pai e a sua situação. Relações cotidianas. Vivenciadas em cena e fora dela. E por mais que a previsibilidade do desfecho do quadro em que as duas mães estão no necrotério para identificar o suposto corpo do filho de uma delas, o texto de Pommerat atinge o grau máximo de perturbação e revelação do que pode a alma de um indivíduo: o alívio por não ser o meu filho e o pavor por ser o filho da outra. É o riso. Para, em seguida, vir o pranto. Quase que simultâneos.
            Atuações que beiram o real, sem ser realistas. Se o exagero do riso dessa mãe ou o excesso dos gritos da mulher ao parir e da violência do filho para o pai contrastam com os gestos contidos, aprisionados, da mãe na poltrona e da classe, elegância, do casal ao receber a doção do filho pela progenitora, indicam o caminho escolhido pela direção de Márcio Abreu, em que nada é supérfluo, nem a entonação trabalhada ou a mão fechada. Os quatro atores se revezam nos papeis, em opções de equilíbrio (deixando vazar ou não permitindo tal acesso) os conflitos internos, as psicologias, as intimidades e as almas desses pais, mães, filhos. Não é possível destacar uma cena ou um intérprete, pois é o conjunto que prevalece. Embora, as duas cenas que, particularmente, a mim, motivaram-me a vasculhar o inconsciente e fixaram-se como novas referências imagéticas, foram a do parto e a da identificação do corpo. Eu sei que, ao me perguntar sobre partos e necrotérios, a minha mente acionará, instantaneamente, essas duas imagens. E ainda escuto: “Doutor, e se essa criança não quiser sair?”. Como eu tive medo de que, talvez, essas observações não quisessem saltar para o papel.
            Se, para Bachelard a casa pode garantir razões ou ilusões de estabilidade, o texto de Pommerat e a montagem da CBT parecem reafirmar esse discurso. As razões para a estabilidade, em certos momentos, não passam de meras ilusões para aqueles personagens. As paredes verdes, o teto e suas janelas, o aparente conforto da residência, a estabilidade física, a arquitetura rígida, as formas retas, negam a instabilidade emocional, as dúvidas, os desconfortos das relações familiares. Por outro lado, a casa também pode ser a evidência desse sofrimento, a verdadeira casa-sofrimento de Bachelard, e uma fenda surge na casa-retângulo, a parede do fundo se abre, o cenário é movido, já não há mais um ângulo reto entre as paredes, há um espaço aberto, uma lacuna, uma brecha, por onde essa relações de pais, mães, filhos e filhas escorre. É quando o filho fugiu da mãe dominadora. E se esvai pelo espaço. 
* Natasha Centenaro é mestranda em Letras – Escrita Criativa (PUCRS), jornalista e escritora

sábado, 14 de setembro de 2013

Esta criança por Nayara Brito

 
 
Por todas as crianças, inclusive as que já não são mais
            Penso.
Penso não do verbo pensar, mas daquilo que está penso, torto, como se diz lá no Nordeste.
Foi como arranjaram a caixa sobre o palco, com seus quatro planos deslocados à direita e projetados um tanto na direção da plateia. Esse é o cenário alto e nítido como são, em geral, os dos espetáculos da Companhia Brasileira de Teatro (o de Esta criança foi concebido por Fernando Marés).
A caixa pende em angulação de uns poucos graus – sutil, mas incômoda. Dela, podem derrapar o mínimo de objetos que contém: duas ou três cadeiras e uma poltrona. Não derrapam. Mas, há outra coisa que está na beira, no ato da queda, a ponto de atirar-se peito afora e ecoar pelas quatro superfícies (pintadas com um verde doentio), e de lá por cada fileira da plateia do Theatro, por cada galeria.
Essa coisa atira-se e ecoa da boca dos atores nos sucessivos quadros em que são filhos, pai e mãe. A grande caixa que, na verdade, representa o espaço tão limitado onde se cozinham as relações entre essas figuras, nos é escancarada, e os atores fogem dela em dados momentos, olham para nós, querendo confirmar certezas, como quem diz “mas, de que outro jeito eu poderia agir?”; vem até nós, misturam-se para lembrar que também exercemos essas funções sociais: pai/mãe/filho(a).
Isso não antes de, numa das primeiras cenas, chamarem a atenção (mais pela negação que por uma falsa tomada de consciência: “Estamos só nós dois aqui, não? Tem mais alguém aqui?”) para o fato de estarmos observando tudo, não pelo buraco mágico da fechadura por onde assistíamos ao teatro naturalista doutros tempos, mas com o consentimento dos atuadores. Com algum esforço para a gravidade não arrastá-los para baixo (para o fundo?), também as personagens agarram-se às paredes que – supõem – as abrigam das desventuras lá de fora. Mas são paredes que, com o tempo, fazem as vezes de panela de pressão e, como dissemos acima, cozinham as relações daqueles que habitam o seu interior. Já diria Tchékhov que é no seio familiar que as irritações do homem manifestam-se. Nem sequer os vizinhos conseguem enxergá-las, a não ser que, num encontro fortuito de elevador, já no ápice do sufocamento (ou na beira do cenário-precipício), explodam em voz e queixa e assumam a sua incapacidade ou a sua inabilidade com o outro. Mas, também de luz e sombras são feitas essas relações, reconhecidas nos discursos contraditórios das personagens e desenhadas pela iluminação sempre personalíssima de Nadja Naira. A mãe que, num dos quadros, desejou que a filha reluzisse para a vida, que fosse brilhante, não reconhece aquela que, resignada para estas questões, apaga-se entre os cuidados da casa e do marido. Elas abrigam duas formas de estar no mundo que não se compreendem, não se aceitam. As mesmas atrizes voltam no quadro final: uma nova mãe desdiz as suaves (maternas) ofensas que deixou escapar e deseja a reconciliação; a filha simplesmente agradece a atitude, o reconhecimento do erro, mas só nós a ouvimos. E esse é dos momentos em que uma luz bruxuleante ilumina as relações.
Enfim, embora a temática não seja lá muito original (mas, afinal, não se diz por aí que todos os temas de que podemos falar são contados nos dedos de uma mão?), uma nova visada é sempre necessária. Nesse caso, para que observemos os calos das nossas próprias mãos, cansadas de agarrar-se às paredes pensas de nossas relações. Uma atitude, alguma atitude precisa ser tomada.
 
* Nayara Brito é jornalista, mestranda em Artes Cênicas na UFRGS
 
           

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Destaques do Porto Alegre em Cena por Luciano Medina Martins

É bom lembrar dos motivos que nos fazem ir ao teatro. Ver uma boa encenação? É bom! Ver um cenário interessante e funcional que reforça a ideia de tridimensionalidade? É parte de um bom espetáculo. Entrar em contato com textos dramatúrgicos bem escritos? É muito importante. Estes elementos mais, boa luz, movimentação dos atores, construção dos personagens bem feita, trabalho gestual impecável, trilhas sonoras pertinentes acrescidas de uma longa lista de detalhes fazem parte da linguagem teatral bem construída. Tudo isso é relevante e estava presente hoje no Theatro São Pedro na montagem de ESTA CRIANÇA, do diretor Marcio Abreu, com o elenco composto por Renata Sorrah, Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha. Estes maravilhosos atores, e seu diretor, mostraram o que faz querer estar em frente ao palco de um espetáculo tecnicamente perfeito. Explorar nossas memórias, especialmente aquelas que escondemos de nós mesmos. Fazer rir e chorar de nossas lembranças, valores e angústias. Não rimos e choramos do texto bem escrito, da luz, do cenário, da boa atuação, mas sim de como estes elementos tocam naquilo que temos dentro de nós: sentimentos, a recordação de nossas histórias de vida. Uma peça que tem por tema as relações entre pais e seus filhos e filhas, no mínimo parte de um contexto vivido por quase todos, em algum momento de suas vidas ou por quase toda ela, o que é um ótimo ponto de partida para um espetáculo teatral de sucesso, como é o caso de ESTA CRIANÇA. Fazer este bom e recorrente tema realmente trazer a tona, dentro de cada espectador, as tais emoções, pensamentos e lembranças consiste na magia encantadora do teatro, no ilusionismo dramático que nos faz ir a peças teatrais e querer voltar de novo e outra vez ainda. Isto aconteceu muito hoje à noite dentro do Theatro São Pedro com a peça ESTA CRIANÇA. #imperdível
 
Emmanuelle Lafon ontem nos mostrou que estudou muito sobre Clarice Lispector para construir seu personagem, foi quase uma sessão de “incorporação” da memorável escritora brasileira. Emmanuelle e seu olhar inquisitivo e magnético cativou a plateia por mais de uma hora e meia usando de uma interpretação forte, marcada pelos trejeitos da autora e pelo texto autobiográfico que emociona com sua abordagem pessoal, verdadeira e com uma sagaz e, muitas vezes ácida, ironia reveladora das dúvidas de todos seres humanos. Imperdível para fãs da Clarice Lispector, e para os que não a conheciam foi uma introdução ao melhor estilo da autora: contundente.
 
O Teatro Renascença recebeu uma montagem moderna para o texto de Nelson Rodrigues que expôs Nelson Rodrigues como ele é. Sarcástico, cruel, contundente, debochado e vil. Com um tom de conto policial com requintes de jornalismo marrom, O BEIJO NO ASFALTO de Claudio de Lira é uma releitura muito feliz para um dos mais famosos textos da dramaturgia brasileira que expõe, como uma ferida aberta, alguns dos temas recorrentes de nossas produção teatral nacional: relações expúrias entre instituições, especulação sobre a vida das pessoas, falta de ética profissional, abuso de poder, homofobia, promiscuidade e incesto. Projeções de cinema, imagens de TV, trilha sonora moderna, sem falar nos cenários, com toques de arquitetura pernambucana de muito bom gosto que, junto com uma atuação energética, compuseram um lindo espetáculo. 

* Luciano Medina Martins é jornalista

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Esta criança por Mauricio Guzinski

 
Se não havia “estremecido”, ainda, diante de um texto do dramaturgo francês Joël Pommerat, que eu só conhecera há muito pouco, através da recente montagem da Cia. Stravaganza, com seu talentoso e expressivo elenco (dos quais sou fã, de carteirinha), além de tudo, muito bem conduzidos pela jovem e muito talentosa Camila Bauer (diretora, totalmente arrebatada pela escrita desse autor que ela havia conhecido, através de estudos recentes, na França), reconheço minha ignorância, preciso admitir que, agora sim: “ESTREMEÇO” (com maiúsculas, como no título dessa encenação gaúcha).
Literalmente: estremeci! Rendo-me! Entrego-me! Curvo-me! Fiquei, absolutamente, perturbado com a contundência e a oportunidade das palavras desse autor, diante das dez cenas, de tirar o fôlego, que ele propõe para abordar as mazelas das relações entre pais e filhos.
O dramaturgo e encenador Joël Pommerat nasceu, há 50 anos, em  Roanne, na França. Aos 12, descobriu sua grande paixão, o Teatro. Começou a escrever, em 1985; fundou a Louis Brouillard, sua própria companhia, em 90; buscou um sistema de trabalho para construir, conjuntamente, texto e encenação, até se tornarem indissociáveis. Criou seus primeiros espetáculos no Théâtre de la Main d'Or, em Paris; não monta senão os seus próprios textos. Suas obras misturam temas sociais contemporâneos a preocupações metafísicas. Ao todo: vinte seis peças dramatúrgicas, iniciadas com “Le Chemin de Dakar” (1990), incluindo “Cet enfant” [“Esta criança”] (2006) e “Je tremble” [“Estremeço”] (2008). Lamentável (e, ao mesmo tempo, orgulhosamente), chegam até nós, apenas duas de suas criações, com cinco ou sete anos de defasagem, através da Cia. Stravaganza, de Porto Alegre, e da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba (ambas, fora do eixo!).
A Companhia Brasileira de Teatro foi criada, por Márcio Abreu, em 1999/2000. Iniciou suas atividades reunindo um núcleo de profissionais dispostos a trabalhar na criação de espetáculos, processos, e a pensar o teatro a cada projeto realizado. Um espaço para a pesquisa, a criação e a produção. Algumas vertentes e linhas de atuação são identificadas na sua trajetória: criação de dramaturgia original, releitura de clássicos, encenação e tradução de dramaturgia contemporânea inédita. Com a encenação de Oxigênio, a Cia. lançou no Brasil e, depois, trouxe  à nossa cidade a obra do dramaturgo siberiano Ivan Viripaev, completamente inédita no país. A obra de Viriapev tem forte identificação com o trabalho da companhia. “A musicalidade da palavra expressa no texto, a forma de se colocar diante do público e a revisão do teatro como forma de contato com a plateia são apenas alguns dos elementos que nos conquistaram.”(...) “O texto trata de assuntos contemporâneos como violência, terrorismo, racionalidade, consumismo. Discute tudo isso investigando sobre o que é essencial na existência”, revela o diretor, Márcio Abreu, no site oficial da Cia.
Esta criança, espetáculo que me fez estremecer, ontem, sete de setembro de 2013, trouxe ao palco do Theatro São Pedro, não apenas as raízes do teatro francês, centradas no prazer do texto, no gosto pela palavra “bem escrita”, para ser “bem dita” através do corpo-voz de um ator virtuoso, no palco, um ator que também aprendeu “a bem pensar”, a filosofar com seus antepassados. O texto de Pommerat é mais, muito mais, é um tratado, altamente engenhoso, finamente construído, cenicamente bem desenvolvido e encadeado, sobre a psicologia das  relações humanas, as mais básicas, as de pais e filhos.
Finalmente eu vou poder me olhar no espelho. Todas as manhãs eu vou encontrar forças para ter finalmente o controle sobre a minha vida. Esta criança vai me dar forças. Eu vou mostrar aos outros quem eu sou. (...) Meu filho vai ter orgulho de ser meu filho.” Primeiras falas de Renata Sorrah, na peça, como uma “futura” mãe, “pretensamente”, grávida. Pois nada é real ou realista, ali, apesar de, extrema e paradoxalmente, verdadeiro. “Não sabemos quem é essa mulher, qual o seu nome, de onde ela vem, de quantos meses ela está grávida... por acaso ela está grávida?”. Nada indica isso, afirma Renata, em matéria publicada, em O Globo/Cultura de 04 de novembro de 2012, para promover a estreia carioca do texto de Pommerat, estreado, bem antes, em Curitiba. “Não podemos determinar se é ou não verdadeira. E é justamente esse o objetivo de quem a escreveu”:
Com meios que são artifícios, procuro o real, não a verdade” (...) “só a realidade me interessa”, diz o autor e diretor francês no documentário Teatro em presença.
Na mesma matéria, confirma Abreu: “Não há a curva dramática do realismo. Não contamos uma história prévia que leva a tal situação. Simplesmente a situação está dada. Mostramos o clímax.” Renata prossegue: “No há uma reflexão sequer sobre o tema. Há, em vez disso, um campo de troca de forças, em que as disputas por espaço, afeto, cumplicidade e reconhecimento não são elaboradas mentalmente ou verbalizadas, mas reveladas através da ação ou da inércia, da palavra ou do silêncio dos atores — a reflexão fica por conta do espectador”.
O texto foi sugerido a Renata por ninguém menos do que Ariane Mnouchkine, em Paris. O destino aproximou Sorrah e Abreu, na capital francesa. Sorte nossa. Os dados foram muito bem lançados, eles planejam encenar juntos, este ano ainda, Krum, do dramaturgo israelense Hanoch Levin. Longa vida a esta importante parceria! Mais sorte, ainda, para todos nós.
Lamentei, profundamente, que minha amiga, terapeuta e psicóloga, Evânia Reichert, autora de Infância, idade sagrada – obra fundamental para quem se debruça, hoje, sobre o tema da criação do ego na criança a partir da experiência desta com seus pais; livro publicado no Brasil, na Espanha e em outros países hispano hablantes – não tenha tido a oportunidade de conhecer esta obra que está entre as principais atrações do 20º Porto Alegre em Cena (infelizmente, despedi-me dela, no aeroporto, anteontem! Quando ela embarcava para realizar mais um trabalho da “Escola Aberta Vale do Ser” (da qual é uma das mentoras), na cidade de Santa Rosa/RS; jornada em que outra amiga comum, Laura Backes, é uma participante. Lamento não estar, lá, com elas; mais ainda por elas não estarem, aqui, comigo, nesse momento tão fecundo, tão fértil para a nossa arte e para a compreensão do humano).
Em pouco mais de uma hora de performance, o texto de Pommerat desnuda todos os possíveis ângulos dessa questão que é a base do modo ocidental de enfrentar a vida. Mostra os desejos de quem vai ser mãe e quer dar ao filho algo diferente, melhor do que a educação perniciosa recebida por ela, antes; a rebeldia do filho diante do modelo apresentado por seu pai; a “indiferença teimosa” de outra filha que não quer atingir “a luz” oferecida pela “bem-intencionada” mãe; a jovem progenitora que não se sente capaz de amar ao próprio bebê e, portanto, prefere entregá-lo a um casal de estranhos (que o fará feliz?!); a incapacidade de perdoar aos erros de nossos pais; a recusa de duas mães em erguer o lençol, no necrotério, para aceitar o reconhecimento e a morte do próprio (?!) rebento; a dificuldade de abandonar o útero e/ou de cortar o cordão umbilical que nos aprisiona, a nós e ao outro.
Não bastasse a excelência do texto, ele vem embalado, primorosamente, por quatro excelentes atores – Renata Sorrah (também criadora e realizadora do espetáculo), Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha – que se revezam, de forma surpreendente e em pé de igualdade com a parceira ilustre e exímia atriz, entre todas as funções propostas pelo dramaturgo. Quatro ótimos atores que defendem, igualmente, com unhas e dentes, cada palavra do autor; todas “as verdades” de suas personagens; e cada proposta do encenador, o jovem Márcio Abreu.
O cenário, criado por Fernando Marés, com assistência de Eloy Machado, além de belo, preciso, pertinente e eficiente (ao deslizar uma parede inteira, acompanhando o movimento de uma das mães, representada por Renata, enquanto esta busca, desesperadamente, o abraço do filho de dez anos, que criou apartado do pai) faz parceria perfeita com a iluminação de Nadja Naira, com o brilhantismo das atuações, com a simplicidade e eficiência dos figurinos de Valéria Stefani (trocados pelos atores, aos olhos do público, que também se transforma em personagem, volta e meia, devido às cenas e à luz na plateia, aumentando, ainda mais, nossa cumplicidade com os atores e suas múltiplas facetas, personas, máscaras), a trilha de Felipe Storino e a preparação vocal de Babaya são soberbas e tornam ainda mais sublimes determinados pontos da encenação, criteriosamente, eleitos pelo diretor. Tudo e todos, como nos melhores “trabalhos de grupo”, contribuem para a grandeza do espetáculo, para evidenciar as perspectivas distorcidas que as personagens de Pommerat oferecem ao espectador, nessa encenação de Abreu.
O riso e as lágrimas de identificação são frequentes. Não posso deixar de destacar o momento em que o filho violento grita, verdadeiramente enfurecido, ao pai acomodado: “EU NÃO TE ESCOLHI!”. Ninguém escolhe (tão óbvio), nem eu (tão perturbador e certeiro)... duas grossas lágrimas brotaram de meus olhos e escorreram, face a baixo, embaçaram as lentes de meus óculos. Tive de conter os soluços e aceitar o lenço de papel, oportuna e prestimosamente, oferecido por minha cúmplice e esposa.
Parabéns a toda a equipe, a Pommerat, a Sorrah (por estar inteira, ali, humildemente, como condiz aos grandes artistas, ao lado de seus parceiros de elenco, nessa belíssima e desafiante empreitada que é trabalhar em grupo para criar algo tão digno, tão inquietante e transformador como esse Espetáculo Teatral, Teatro Maiúsculo), a Abreu por concatenar tudo isso com maestria absoluta.
Todas as indicações e prêmios nacionais arrebatados pela Companhia Brasileira de Teatro, do Paraná e do Rio de Janeiro, em 2012, são absolutamente MERECIDOS! Não há como não aplaudir de pé a Esta criança (que sua infância, daqui para frente, seja mesmo “sagrada”, Evânia! Abreu! Renata! Pommerat!), quero continuar gritando, emocionado, entusiasmado: “BRAVO! BRAVO! BRAVO!”, muitas e muitas vezes, enquanto houver folego! Obrigado, muito obrigado por mostrarem, a mim e a todos, que o Teatro continua vivo! Resiste firme! Dignamente, de pé! A despeito do desinteresse generalizado que demonstram “pais-políticos-bem-intencionados”, de todos os partidos, diante da Cultura e da Arte de nosso triste país do futebol, conchavos e falcatruas (A esses pais, manipuladores de marca maior, “agradecemos”: Obrigado, senhores parlamentares, pela meia-entrada que nós, artistas e produtores, pagamos de nossos próprios bolsos, e não dos cofres públicos, para os menos favorecidos! Mais um excelente exemplo do “paiternalismo” hipócrita vigente nos mecanismos sociais da Cultura Brasileira! Como deixamos passar mais este decreto?!?). Federico Garcia Lorca, meu ídolo, meu ícone, heroicamente, dizia: “Um país que descuida seu Teatro está morto ou moribundo!”. Ele foi fuzilado pelas tropas de Franco, há tanto tempo... tão distante, daqui...
* Mauricio Guzinski é ator, diretor e professor de teatro

domingo, 8 de setembro de 2013

Esta criança por Camila Bauer


O espetáculo Esta criança, da Cia Brasileira de Teatro, traz a Porto Alegre mais um texto do prestigiado dramaturgo francês Jöel Pommerat, recentemente levado ao palco gaúcho com o espetáculo Estremeço, da Cia Stravaganza.
Esta criança se constrói ao longo de dez cenas independentes entre si e que frequentemente não possuem começo nem fim, situando-se no clímax de cada ação, apresentando fragmentos de conflitos que criam um discurso temático unificador – próprio dos procedimentos dramatúrgicos de Pommerat – nesta peça centrado nas relações entre pais e filhos.
A bem-sucedida direção de Marcio Abreu aponta para um espetáculo onde os diferentes elementos da cena são de fundamental importância para a composição da peça como um todo. Pequenas dissonâncias que ampliam o real fugindo de qualquer tentativa realista: atores dizendo o texto de costas para o público, textos ditos no escuro ou “fora da luz”, luz na plateia em diversos momentos, não proporcionalidade dos objetos em relação ao espaço cênico, trocas de figurinos diante do público enquanto outra cena já se esboçava, uso de microfones, etc. Cabe destacar o início do espetáculo, quando uma futura mãe (Renata Sorrah) começa a falar no escuro sua “carta de intenção” como mãe e a luz vai pouco a pouco revelando seu rosto. Na cena seguinte, ela aparece como uma menina de 5 anos sentada em uma cadeira alta afirmando com uma frieza e sinceridade quase cômicas que não se importa de não voltar a ver seu pai (Ranieri Gonzalez), sentado em uma cadeira pequena e baixa, numa bonita inversão de papéis.
O trabalho dos quatro atores que se multiplicam em mais de vinte personagens chama a atenção pela agilidade com que essas mudanças ocorrem, dando a impressão de que estamos diante de um elenco maior, mostrando o quão afinados eles estão. A versatilidade da atuação centra-se muito nos diferentes modos de dizer o texto, que ajudam na composição destes personagens sem nome, caracterizados pelo seu papel social (mãe, pai, filho, policial, etc.). O espetáculo apresenta cenas tocantes em seu absurdo próprio da vida real, como quando uma mãe (Giovana Soar) coloca seu bebê no colo de um vizinho (Edson Rocha) e lhe dá de presente o seu filho para que ele e sua esposa (que não podem ter filhos) possam criá-lo. Igualmente, a cena em que uma mãe precisa fazer o reconhecimento de corpo daquele que pode ser seu filho, ganha força por meio das risadas nervosas das atrizes que contagiam a plateia em um momento de grande tensão.
A primorosa iluminação criada por Nadja Naira, que deixa o palco muitas vezes na penumbra, mostrando apenas as silhuetas dos atores que vão pouco a pouco se revelando, contribui de modo decisivo para a estética do espetáculo. A luz se desenha sobre o cenário criando diferentes nuances de espaço que geram as atmosferas próprias para cada cena. A utilização de recursos sonoros também colabora para a construção do universo ficcional da peça. A cena em que Giovana Soar representa uma mulher dando à luz a um bebê é toda construída com sonoridades gravadas, que se equalizam com os corpos dos atores no palco. Assim, temos um espetáculo integrado no qual os diferentes elementos da cena acabam sendo de vital importância à construção do todo, sustentando com êxito uma dramaturgia fragmentada e complexa.
 
* Camila Bauer é encenadora e professora do Departamento de Arte Dramática da UFRGS 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Esta criança (RJ/PR)


Dia 6, às 21h
Dia 7, às 18h e às 21h
Dia 8, às 18h
Theatro São Pedro
 
Fruto de um feliz encontro da Companhia Brasileira de Teatro com a atriz Renata Sorrah - primeira montagem de um texto do dramaturgo francês Joël Pommerat no Brasil - é anunciada como um dos pontos altos do 20º Porto Alegre em Cena. Contemplado em quatro das cinco categorias em que concorreu ao Prêmio Shell 2012 de Teatro do RJ – melhor direção, atriz, cenário e iluminação, o espetáculo ainda recebeu cinco indicações ao Prêmio APTR 2012 RJ – melhor espetáculo, direção, atriz, cenário e iluminação; e ainda 5 Indicações 2º Prêmio Questão de Crítica 2012 RJ – melhor espetáculo, atriz, ator, elenco e cenário. Esta criança estrutura-se em dez cenas curtas e apresenta como tema único, e ao mesmo tempo fragmentado em diversas abordagens, a relação entre pais e filhos. Situações de nascimento, morte, engraçadas, tristes, de abandono e agressão ilustram pontos cruciais e eternos na vida dos personagens sem nome, reconhecidos apenas por relações de parentesco evidenciadas no desenvolvimento dos diálogos. “Uma obra essencial, que revela sem pudor e de forma radical a intimidade e as diversas facetas das relações humanas entre pais e filhos. Uma escrita singular, porosa e permeável que vai ao encontro da pesquisa e criação dramatúrgica que a companhia vem percorrendo e que Renata Sorrah busca”, afirma o diretor Márcio Abreu. O dramaturgo e diretor francês, Joël Pommerat é hoje uma das principais referências do teatro de arte no seu país. Pommerat propõe temáticas ligadas às relações humanas e sociais em seus múltiplos aspectos e aos novos olhares sobre o mundo contemporâneo e suas transformações. Esta criança (título original Cet enfant) é um dos textos mais traduzidos e montados fora da França, conferindo hoje ao autor um lugar de prestígio em importantes teatros da Europa. 

Ficha técnica
Direção: Marcio Abreu / Texto: Joël Pommerat / Tradução: Giovana Soar com a colaboração de Lilian Ruth de Sá / Elenco: Renata Sorrah, Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha / Cenário: Fernando Marés / Iluminação e assistência de direção: Nadja Naira / Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino / Figurino: Valéria Stefani / Direção de movimento: Marcia Rubin / Preparação vocal: Babaya / Direção de produção: Faliny Barros e Cássia Damasceno / Assistente de cenografia: Eloy machado / Assistente de figurino: Nathalia Silvestre / Assistente de iluminação e operação de luz: Leopoldo Victor e Henrique Linhares / Contra-regras: Ronaldo Goiti Garcia e Mateus Fiorentino / Camareira: Conceição Telles / Operação de som: João Paulo / Criação e realização: Renata Sorrah Produções e companhia brasileira de Teatro / Recomendação etária: 16 anos / Duração: 80 minutos