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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fernando Kike Barbosa: Final de partida


Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Final de partida: um Beckett sem pausas


Fui assistir a Final de partida sem muita expectativa. Embora eu considere esse o melhor texto teatral de Samuel Beckett, pensava comigo: o que se pode fazer com uma peça como essa, que é tão fechada em si mesma? O mesmo que pensava quando fui assistir a Happy days. O que estou querendo dizer é que a estrutura das peças de Beckett é muito fixa, sendo quase impossível se inventar demais sob risco de perder a essência da obra. Ao chegar ao teatro, o cenário já está a mostra e, sim, lá estão os indefectíveis latões de lixo, as duas janelas, o quadro em branco, Hamm tapado pelo lençol... Enfim...todos os elementos indicados pelo autor. Restava esperar uma boa atuação dos atores.

Mas, ao contrário de Happy days, de Bob Wilson, que, na minha opinião não acontece, o espetáculo me prendeu do início ao fim. O que não quer dizer que eu tenha gostado de tudo no espetáculo, mas ele “acontece”. Nos envolve, nos faz rir, ao mesmo tempo em que transpira uma crueldade terrível. Os atores estão muito bem equilibrados em suas atuações, com destaque para o trabalho vocal que é realmente ótimo. O ator que interpreta Hamm atua brilhantemente como um grande canastrão como sugere Beckett. Os atores que interpretam os pais de Hamm, também, são convincentes, embora sejam muito mais jovens do que seus personagens velhíssimos. Mas, para mim, o maior diferencial, além do ritmo acelerado que a direção imprimiu ao espetáculo, é a concepção do personagem Clov. Ao iniciar o espetáculo, esse diferencial já começa aparecer. Esperando um Clov se arrastando, quase parando, como sugere o texto, fui surpreendido pela entrada deste, com um ritmo frenético e com movimentos intensos e cheios de energia. O ator que o interpreta nos impressiona com seus incontáveis tombos e trombadas. Mas o que realmente adorei nesse Clov foi o seu lado cruel que, nessa montagem, é muito bem explorada. Sendo o único que se move e que pode alimentar os outros, ele aproveita dessa posição para pequenas vinganças e atos de agressão. As montagens que tinha visto até então sempre o retratavam como um ser idiotizado e massacrado pelos desmandos do déspota Hamm. Mas aqui o jogo de poder realmente se intercala entre os personagens. O massacre é mútuo e Clov deixa de ser o mais coitadinho dos coitados e é tão terrível quanto Hamm.

Em termos visuais, não gostei nada do cenário. As paredes falsas que limitam o espaço de atuação são de um aspecto amador. E a representação das janelas e das portas não tem criatividade. O figurino também é bem irregular. O de Clov é interessante, embora previsível. O figurino dos pais passa batido, mas o de Hamm achei ruim, pois parece um ceguinho, tocador de sanfona, de alguma feira popular nordestina, o que não tem a ver com o personagem. A iluminação é eficiente, mas não tem nada demais.

Voltando ao ritmo da peça, eu gostei particularmente da opção pela velocidade, embora concorde com meu colega Marcelo Adams, sobre a importância das pausas que, quase nunca, são respeitadas e, nesse sentido, acho que o diretor poderia ter explorado mais, intercalando a velocidade com pausas. E, sim, acho que o maior equívoco da peça são os monólogos finais, nos quais os personagens subitamente, passam a demonstrar um sofrimento atroz pela sua condição e auto piedade. São textos belíssimos, mas que ficam esvaziados pela tentativa explicita da direção de tentar nos emocionar e terminar a peça fazendo a plateia chorar. A intenção fica muito visível e isso gera um efeito inverso, o que me distanciou e me fez lamentar que terminasse assim, pois, até então, estava feliz por assistir a uma montagem de uma peça fechada como essa, já tantas vezes encenada, mas e que ainda pode nos emocionar.

Acho o resultado altamente positivo e o grupo venezuelano está de parabéns pelo sucesso da montagem.

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Ator e diretor, com trabalhos em teatro cinema e televisão. Fez sua formação junto aos grupo Ói Nóis Aqui Traveiz  ao longo de 8 anos. Trabalhou com vários diretores importantes da cena gaúcha e tem seu trabalho reconhecido através de varios prêmios. Atualmente faz parte da Cia Stravaganza de Teatro, é professor do curso de formação do TEPA e dirige o espetáculo de rua A caravana da ilusão com o grupo Povo da Rua.

domingo, 26 de setembro de 2010

Marcelo Adams #15: Final de Partida


Final de Partida

Sou um apaixonado pelos autores que se costuma enquadrar sob a denominação "guardachuvática" (neologismo meu, me perdoem) de Teatro do Absurdo. Este termo foi criado por Martin Esslin em seu livro de 1961, que tem por título a mesma expressão, e passou a ser aplicado a dramaturgos como Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Harold Pinter, Vaclav Havel, Fernando Arrabal, Arthur Adamov e outros. Não é a toa que, no próximo dia 15 de outubro, meu grupo, a Cia. de Teatro ao Quadrado, estreia o espetáculo A lição, de Eugéne Ionesco, no ano em que se comemoram os 60 anos do Teatro do Absurdo (cujo primeiro movimento é considerado a encenação de A cantora careca, de Ionesco, em 1950).

Beckett escreveu Fim de partida em 1957, este que é um dos textos mais celebrados desse genial autor irlandês, e em que repete temas encontráveis em Esperando Godot, sua obra mais conhecida. A desesperança do beco sem saída em que habitam as personagem Hamm, Clov, Nagg e Nell, aliada ao humor amargo e nigérrimo, fazem esta peça um exemplo da filosofia beckettiana: o niilismo convive com o burlesco.

O que me agradou na montagem venezuelana foi a disponibilidade física dos atores, especialmente o domínio corporal do intérprete de Clov. Não me lembro de ter visto uma montagem dessa obra tão exigente em termos físicos. Por outro lado, é justamente isso que também me desagrada nessa versão: tudo é acelerado, gritado mesmo, sem tempo para as famosas e bem-vindas pausas do texto, que estão lá não por um capricho do autor, mas porque contribuem com a atmosfera buscada. Como em Esperando Godot, em que Gogo e Didi esperam Godot, que nunca vem, e, enquanto isso, criam jogos e brincadeiras para passar o tempo, em Fim de partida, Hamm e Clov também esperam por algo, que nem eles próprios sabem o que é. Pode-se dizer que eles esperam o tempo passar, como quem carrega sobre os ombros o peso de estar vivo sem objetivos muito definidos. Nesse sentido, Endgame é ainda mais cruel que Waiting for Godot, já que nesta havia a esperança e o sonho de que Godot pudesse resolver seus problemas e acolhê-los em um lugar quentinho. Na peça de 1957, não há esperança, o mundo está desolado, tudo é cinza, cinza, cinza, e parece não haver ninguém mais no mundo para dividir as desgraças.

Ao optar pelo ritmo acelerado, a montagem dirigida por Héctor Manrique investe mais no estranhamento cômico proporcionado pelas ações das personagens do que na reflexão, que deveria se instalar, venenosa, de que viver é esperar pela morte. Não concordo com essa tentativa de tornar mais palatáveis as coisas. Ao final da peça, inclusive, há um lampejo melodramático nos discursos finais das personagens, que também considero equivocada. Não se chora por essas figuras, elas mesmas não têm pena de si. Pode haver esboços de desespero, mas que são logo encobertos. Não adiantam de nada. Em uma das falas mais brilhantes da peça, Hamm diz "Acho que estamos começando a significar alguma coisa", sem ter muita certeza do que seria esse significado. Para mim, isso é Beckett.



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Texto: Samuel Beckett / Direção: Héctor Manrique / Elenco: Juvel Vielma, Daniel Rodríguez, Juan Vicente Pérez, Melissa Wolf / Iluminação: José Jiménez / Duração: 1h45min / Classificação: 14 anos

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Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo. Graduado em Teatro- Interpretação Teatral e em Direção Teatral, pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Fundador da Cia. de Teatro ao Quadrado, sediada em Porto Alegre. Participou de dezenas de espetáculos como ator e diretor. Destacam-se Goela abaixo, O homem e a mancha (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2006), Burgueses pequenos, Édipo, O médico à força (Prêmio Açorianos de Melhor Ator em 2008), Bodas de sangue e Mães & Sogras. Estreará no próximo dia 15 de outubro, no Teatro de Arena de Porto Alegre, o espetáculo A lição, de Eugène Ionesco, nova produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. Autor do blog http://marceloadams.blogspot.com/

terça-feira, 8 de junho de 2010

Final de Partida

Escrito em 1957, “Fim de Partida” sucedeu “Esperando Godot” na dramaturgia do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), talvez, o escritor que melhor conseguiu estabelecer o universo trágico na possibilidade contemporânea de vida e morte. Quatro personagens estão reunidos dentro de um espaço. O texto abre condições para pensar numa relação familar entre eles, mas não deixa isso claro. Tampouco como foram parar nesse ambiente. Ou porque não saem. Não sabemos o que acontece lá fora, o que é lá fora, assim como podemos duvidar que estamos realmente dentro de algo. Esse universo de dúvida que prende e que nos obriga a nos conformarmos é o que relaciona a história aos trágicos enredos que envolviam destinos traçados e deuses do Olimpo. Porém, lá a prisão é externa e os grandes heróis se rebelam pagando, depois, o preço. Aqui, em Beckett, há o compromisso em não se individualizar, em não protagonizar, em não haver conflito.

O conflito do fim dessa partida é a interrogação do início dela. Quando começou e de quem é a culpa? O que acontece hoje é a conseqüência de uma causa anterior? Então, diante da tristeza que cresce, o público é levado a refletir sobre seu permanecer. Fica-se no emprego, em relações. Mantém-se os sonhos, as memórias, os planos. Fica-se. Permanece-se. Mas o jogo só termina quando outro começa. Beckett não deixa oportunidade para outro começar e esse universo sempre anterior a algo é seu discurso instigante. Nobel de Literatura em 1969, sem dúvida, é um dos dramaturgos mais ricos do último século.

A montagem que participará do 17º Porto Alegre em Cena é uma das produções mais aplaudidas de Héctor Manrique, um dos mais importantes diretores teatrais da Venezuela. É o diretor do Grupo Actoral 80 e do Centro Latinoamericano de Criação Teatral.

"Uno llora, llora, por nada, por no reír -exclama Hamm - y poco a poco, una verdadera tristeza nos invade."

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Ficha Técnica:
Autor: Samuel Beckett
Diretor: Héctor Manrique

Elenco:Juvel Vielma, Daniel Rodríguez, Juan Vicente Pérez, Melissa Wolf

Assistente de Direção: Jesús Cova
Iluminador: José Jiménez
Duração do espetáculo: 1h45min