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domingo, 22 de setembro de 2013

Sobre o conceito da face no filho de Deus por Igor Simões



Sobre representações e a enorme solidão de ser humano

O Ator entra em cena com a ajuda de dois assistentes. Seu corpo vibra uma fragilidade que acompanhará o público até o ultimo segundo do espetáculo. Ao fundo e mirando o público a enorme reprodução da pintura do italiano Antonello de Messina, que durante o século XV ficou conhecido por difundir a técnica da pintura a óleo por toda a Itália. A imagem nos revela um dos mais recorrentes temas da arte até o século XIX: A face do filho de Deus. O Cristo de Messina é representação. Ele se faz verdade enquanto arte. Deus e sua existência plasmada carne no humano corpo do filho também pode ser pensado como uma representação repousada sobre um gigantesco grupo de imagens, textos, escritos, arquiteturas que lhe deram um valor de verdade. Da imagem que arrebatou os olhos do diretor italiano Romeo Castelucci, que a encontrou em um livro de arte, até a experiência que vivenciamos na noite de sexta no Theatro São Pedro, durante a segunda apresentação do espetáculo Sobre o conceito da face no filho de Deus ecoam sentidos múltiplos que seguem vivos e ressoando na mente de todos que ali estiveram. O trabalho parece cochichar constantemente a nós o fato de que por mais que tenhamos inventado um Deus, somos inegavelmente humanos. Há uma solidão inerente a toda desenho de vida do homem e essa solidão é tão aterradora que, por vezes, faz criar amores, paixões, deuses.
Não é fácil assistir ao trabalho porque não é fácil estar diante de representações de etapas da vida que se restringem ao privado, ao que é vivido entre paredes e não ganha visibilidade num mundo repleto de imagens felizes e afirmativas. As representações da velhice e suas dimensões ganharam o status de melhor idade. Atravessam nosso estar no mundo como promessas de otimismo. São representações, assim como o cristo de Messina.
Nosso primeiros Deuses eram mais humanos e nos eram mais próximos em seus desvãos. Foi a igreja romana que criou a cisão entre a alma e o corpo. Transformando a primeira em uma interioridade a ser trabalhada, e relegando ao segundo o lugar de espaço da expiação, a prisão que impedia a semelhança perfeita com o criador. As representações do catolicismo viraram práticas de vida no ocidente e fizeram do primeiro e talvez mais humano dos territórios - o corpo em todos os seus tempos, prazeres, pulsões - a prisão que nos impedia a divindade. Talvez por isso aquele corpo tão humano do velho pai e a dedicação, o cuidado e as contradições do filho são tão grandes em sentidos: diante da face do filho de Deus, o único auxilio que vem em direção ao velho pai é humano.
A plateia durante o espetáculo se comporta como em um ritual. Há uma comunhão entre as pessoas que ligadas assistem a dor da finitude e sua imensa solidão feitas com a delicadeza que o espetáculo por fim emana. Quando o rosto do ator se cobre de excrementos é possível ouvir por entre os homens e mulheres um tenso e discreto riso que soa como um oxigênio, uma saída, um pequeno e breve atenuante para a dureza do que ali se mostra.
Quando o filho se dirige até a face representada de Cristo no fundo do palco, toda o silêncio dos pedidos de auxílio não atendidos em horas de desespero ganha corpo diante do público. No escuro que se segue ainda resplandece muda e cada vez mais imantada de indagações a enorme face do filho abandonado pelo pai, jogado às dores e crucificações e tão humanamente representado. Humano em seus olhos, humano na barba, nos cabelos, humano na incapacidade de roubar aqueles dois indivíduos das dores a que estão submetidos. Humano como o homem artista que o inventou.
Logo após a emblemática cena das crianças jogando granadas na face representada do Cristo, surge diante do público aquele que pra mim é um dos momentos mais eloquentes do trabalho - entre tantos - falo de alguns breves segundo onde diante do público é formado um triângulo entre o menino, a face do filho de Deus e o velho. Três idades do homem. Toda a potência da infância, toda a possibilidade de ser e criar um Deus e toda a fragilidade da vida que inventamos no nosso território primeiro e último, o corpo.
Ao final do espetáculo, quando a imagem/representação/Cristo é destruída diante dos nossos olhos, é como se a afirmação da representação de um Deus, pastor e salvador se apresentasse em toda a sua materialidade. É como se o diretor nos afirmasse que tudo isso a que chamamos Deus é humano, é invenção, é material e por isso só também é finito. Humano, invenção, materialidade: por uma dessas manobras que a escrita permite e com a justaposição destas três palavras poderíamos muito bem estarmos nos referindo a toda a arte produzida. Ou melhor, a toda a arte como essa, que ali naquele encontro com toda a fragilidade do existir mostra que a mesma necessidade humana de suplantar o monstro da sua inerente solidão, talvez seja também o motor que anima criações como esse impactante e inesquecível espetáculo da Socíetas Rafaello Sanzio.

* Igor Simões é ator e professor de História, Teoria e Crítica da Arte na graduação em Artes Visuais- Licenciatura da Uergs

domingo, 15 de setembro de 2013

Monoblock- poemas e textos sem eloquência de Juan José Gurrola por Igor Simões


Presença, encontro. Estas palavras sempre são associadas ao artesanato teatral. Também passaram a ser utilizadas de maneira específica a toda uma parcela da produção em artes visuais que elegeu a presença e seu caráter de efemeridade desde as propostas dadaístas e, com entonação próxima mas diferente, a partir da arte da década de 60. Começo por esse ponto pois presença e encontro foram duas das palavras que me afetaram durante todo o tempo que estive diante do Monoblock do mexicano Juan José Gurrola na noite chuvosa deste domingo na Sala Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana. Estar presente diante de um trabalho apresentado unicamente em 1971, em um dos importantes capítulos da trajetória fértil do ator, cineasta, encenador, coreografo, poeta, músico e artista plástico coloca o público em um dos mais interessantes lugares do pensamento artístico contemporâneo:  o que não se aloja, o que não se enquadra, o que não se aprisiona em disciplinas. A fronteira, o entre, dentro-fora, o inter, o multi.
Gurrola, faz parte de uma geração que arrebentou as fronteiras (foi do grupo de Arrabal e outros artistas), que arregaçou os limites, os objetos, as possibilidade do campo da criação. Seu Monoblock é parente de uma longa lista de procedimentos artísticos que ao invés de se perguntar quais os materiais específicos de seu fazer, souberam lançar mão dos mais diferentes recursos, desde a imagem, o som, o texto, o corpo, a presença. Seu trabalho é multilinguístico desde os idiomas adotados que passaram aqui pelo inglês, espanhol e português, até as diferentes linguagens que se mesclam para dar a ver um comentário sobre o mundo, o tempo, o estado das coisas. Claro que ainda há naqueles pontos que o texto propõe um resíduo da utopia moderna. Mas muito do que aprendemos como pauta necessária para o encontro e o pensamento com e sobre a vida e a arte contemporânea se deixam ver na costura que se expõe no trabalho que ganhou luz na casa do poeta.
Durante os 45 minutos de duração fiquei me perguntando qual o lugar adotado pelo público para sossegar dentro de si o visto. Seria desde o teatro?  Desde as artes visuais? Em pouco tempo percebi que seria no deslimite que se daria o ponto de onde deveriam partir os olhares. Percebi que o visto não sossegaria. No palco, um painel de fundo criado pela artista americana que durante mais de 20 anos atuou no México, Barbara Wasserman. No centro, um freezer que, coberto nos primeiros momentos, revela a presença do Monobloco. Dada a iluminação, pode ser pensado como algo que expõe, dá a ver. O freezer pode ser vitrine, expositor, lugar de conservação e por si só, já desloca o sentido da peça mecânica entre a arte e o mero objeto, entre o que é passível de ser conservado e o que é efêmero, entre a invenção humana que é mero produto e aquela que cria a arte. O olho encontra e investiga o Monobloco, peça automotiva de um caminhão encontrada por Gurrola e mote, ponto de partida e disparador das questões que vão desde o lugar do amor, da beleza, da arte, de Duchamp, de Warhol, de Picabia, da economia, dos comércios, das trocas, dos símbolos, dos deslocamentos, do estar vivo. O monoblock é objeto, poesia, interrogação, arte.
Há de se citar alguns ruídos enfrentados pelo público na noite deste domingo. Antes da apresentação e infelizmente durante, alguns sons de uma atividade que acontecia na CCMQ acabaram por interferir chegando mesmo a criar uma certa dúvida se faziam parte do trabalho e exigindo um exercício de concentração ainda maior por parte do público. Nada grave. Afinal a presença, o aqui, o agora também é feito de adversidades.
 
A nova parceria entre a Fundação Bienal e o Porto Alegre Em Cena não poderia ter sido mais feliz. Por si só, já é um ato que aponta a convergência e oferece ao público a possibilidade de pensar sobre os inúmeros deslocamentos que se abrem na arte quando ela abandona as suas fronteiras e se apresenta no seu estado mais puro enquanto vontade de criação e intervenção no mundo. Já havia acontecido este movimento com a exposição Video Portraits (2011) de Bob Wilson, também fruto do alinhamento entre dois dos mais importantes eventos artísticos do país que se conta desde o sul. Que dure, que seja presente, que se firme. Ganhamos todos. Ganha aquilo que talvez seja o mais importante em uma Bienal ou em um festival: criar brechas que possam ser encharcadas de novas interrogações e novos encontros entre a arte e a vida que entram (e saem) pelo corpo-mente do público.
 
* Igor Simões é ator e professor de História, Teoria e Crítica da Arte na graduação em Artes Visuais- Licenciatura da Uergs