segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A última gravação de Krapp por Rodrigo Monteiro

A última gravação de Krapp*
O problema maior das produções dirigidas por Bob Wilson, diretor americano cuja fama alcança vários pontos diferentes do planeta ao longo dos últimos quarenta anos, é o fato de que ele aparece demais. Em outras palavras, suas marcas são tão fortes, tão vivas, tão exuberantes que torna possível pensar que todo o resto, e, nesse caso, o resto é Samuel Beckett, é apenas um motivo, uma desculpa, algo dispensável. O resultado é que cristaliza-se a certeza: viu uma peça de Bob Wilson, viu todas.
Krapp’s last tape ou A última gravação de Krapp, escrita em 1957, é considerada a peça mais autobiográfica do dramaturgo irlandês, autor de Happy days, espetáculo participante do 17º Porto Alegre em Cena, também dirigido por Bob Wilson. Nesse texto, como nos outros, o tom trágico também pode ser visto. O diferencial é que não se tratam de personagens presos ao próprio destino (Fim de partida), ao próprio tempo (Esperando Godot) ou presos à própria condição (Dias felizes). Aqui o personagem está preso ao próprio presente e sem a possibilidade de mudar nada no seu passado. A palavra last (última) no título tem dois sentidos: a última gravação pode informar que é a gravação mais recente, mas também pode afirmar que não haverá outras. Krapp, o personagem protagonista e o único que se vê em cena, talvez diante da morte, ou não, tem o costume de, no dia do seu aniversário, fazer uma gravação em que se narra os acontecimentos daquele ano. Na peça, está-se no aniversário de sessenta e nove anos de Krapp. E, mais uma vez, ele vai em busca de si próprio nas antigas recordações gravadas em velhos rolos (spools).
(Para os interessados no texto, é possível fazer relação entre esse personagem e o seu homônimo em Eleutéria, primeiro texto de Beckett, escrito nos anos 40).
Bob Wilson mantém o tom intimista do texto quando cria uma chuva muito forte a cair do lado de fora do escritório. O som é altíssimo e o jogo de luzes está excelentemente posto, de forma, que o clima realista, embora com significantes bastante distantes do real, está plenamente estabelecido. O cenário, no entanto, é bastante impessoal: deixa de ser uma única mesa em que o personagem se encontra com várias versões de si próprio, em especial aquela em que ele completa trinta e nove anos, e passa a ser uma espécie de repartição pública com várias mesas, uma grande prateleira, muitas luminárias. O tragicomicidade clownesca da máscara branca e do nariz roxo, rubrica do texto, dá lugar a um personagem estilizado e que parece ser a própria máscara, ou seja, a sua inexistência. Os movimentos elípticos tomam o lugar de várias passagens do texto que não aparecem na versão de Bob Wilson que, nessa montagem, também é o ator. Para quem não conhece o texto, fica difícil estabelecer relações entre as memórias gravadas na fita ouvida e aquele que a ouve. Considerando que a encenação dura pouco mais de setenta e cinco minutos, boa parte deles, empregados na exploração da iluminação e do recurso do som de chuva, o interessante encontro em Krapp de sessenta e nove anos com os antigos Krapp não acontece. Em substituição, está um homem ouvindo uma gravação de si mesmo há muitos anos e nada muito mais além.
Krapp’s last tape, espetáculo participante do 18º Porto Alegre em Cena, é uma maquiagem que deixa ver muito pouco do rosto ao invés de embelezá-lo, realçá-lo, abrilhantá-lo. Pela sua importância, Bob Wilson é bem vindo à capital gaúcha, mas vale dizer que Beckett também o seria.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

A última gravação de Krapp por Marcelo Adams

 Bob não é bobo*

Bob Wilson, este brilhante encenador norte-americano que, felizmente, continua em plena atividade, dirigindo espetáculos inesquecíveis e provocadores ao redor do mundo, sabe que nossos tempos encontram perfeita representação na obra teatral de Samuel Beckett. Afora as peças longas (mais conhecidas) de Beckett, como Dias felizes e A última gravação de Krapp, sonho em ver encenados por Wilson textos mais curtos e de ainda maior complexidade, como Words and music, Cascando, Not I, Footfalls (a lista se estenderia por vários outros títulos). Já que, por enquanto, isso é matéria de sonho, nos deleitemos com este A última gravação de Krapp, apresentado no 18º Porto Alegre em Cena.
É possível ser purista ainda em nossos dias, defendendo esta ou aquela maneira de encenar um texto? A resposta é tão óbvia que não merece réplica. O único compromisso que uma encenação deve ter é com sua coerência interna e, naturalmente, com sua efetiva comunicação. Quando escrevo comunicação (obviamente que nos casos em que ela é buscada), quero me referir à possibilidade que a encenação tem de apresentar um discurso relevante, impactante, esteticamente marcante. É o caso de A última gravação de Krapp. Esqueça aquela estética cinzenta, encardida, que se costuma associar a Beckett. Bob Wilson nos apresenta o aço, o plástico. Esqueça o catarro, Bob nos entrega a assepsia. Krapp faz 69 anos e ouve velhas fitas onde, 30 anos antes, gravara suas impressões sobre acontecimentos envolvendo uma mulher. 30 anos se passaram, Krapp não é mais o mesmo, todas as suas células se renovaram, ele é outro ser, inteiramente distinto daquele do passado. A única coisa que identifica esses dois Krapps, distantes tantas décadas no tempo, é um nome: Krapp (e note-se a ironia de Beckett, crap, em inglês, é merda).
Bob Wilson como ator vive uma figura desumanizada, quase um robô-velho que surpreende-se com sua rendição, no passado, ao amor. De antíteses a encenação se serve: o visual clean, contemporâneo, da cenografia, opõe-se à ultrapassada tecnologia do gravador de rolo. Imagens evocativas do afresco A criação de Adão, de Michelangelo, colocam Krapp como o primeiro (e último dos homens), em conflito com o Grande Criador. Deus expressa-se com trovões ensurdecedores, relâmpagos e chuva abundante. Só resta a memória, e é a ela que Krapp recorre para fazer passar o tempo. Em síntese, a dramaturgia de Beckett tem um tema recorrente, que é o da espera e, em sua obra tardia, a memória e a impossibilidade de preservá-la.
Visualmente, o espetáculo é arrebatador, perfeito no uso do manancial técnico. Não se enganem os desavisados: o perfeccionismo estético de Bob Wilson encobre uma profunda e genial reflexão sobre o Homem. Bob Wilson não é bobo.
* Marcelo Adams é ator, diretor teatral e dramaturgo, professor do curso de Teatro: Licenciatura da UERGS

A última gravação de Krapp por Clóvis Massa

A última banda sonora*

Em sua biografia sobre Samuel Beckett, com quem conviveu por mais de vinte anos, o escritor James Knowlson identifica nos acontecimentos pessoais do dramaturgo, ocorridos no início de 1958, a gênese criadora de A última gravação. De todos, o principal teria sido a doença de Ethna MacCarthy, o amor de juventude de Beckett, diagnosticada com câncer de garganta, a quem ele passa a escrever longas cartas, cheias de sentimento, para demonstrar o afeto profundo que nunca deixara de sentir. As lembranças de Ethna, a quem amou jovem e cheia de vida, se justapõem, como afirma Knowlson, à certeza terrível dela estar doente e condenada à morte.
Ainda que não se procure compreender qualquer criação artística pela vida do autor, e, no teatro, que seja necessário partir do texto dramático para examinar o espetáculo, a maneira como se alternam o claro e o escuro, o desejo e a perda, a nostalgia ou as lembranças, a ambição e o fracasso fazem da montagem de Krapp´s last tape, de Robert Wilson, uma espécie de exumação. O velhaco Krapp, aos 69 anos, ouve a gravação que fizera há trinta anos e traz à tona um tempo em que “tudo estava lá”, tal qual o olhar da mulher que o fascinava na época. O estranhamento do vocabulário que havia empregado no passado, o escárnio em relação a quem ele foi, tudo faz com que se desvende um Krapp de 39 anos, que, por sua vez, acabara de ouvir uma gravação de quando tinha 27 anos, criando não a exumação de um cadáver, efetivamente, mas das situações de sua vida sintetizadas em momentos, em instantes durados, vistos através da moldura das bandas sonoras.
A última gravação, em sua origem, era uma peça radiofônica sobre o passado, mas a intensidade da montagem teatral de Bob Wilson capta os sentidos do espectador, direcionando-os para o aqui-e-agora da representação. Houve quem espiasse em direção ao urdimento do teatro, para ver de onde vinha tanta água. Se choveu e alternadamente se fez silêncio no palco do Theatro São Pedro, é porque cada elemento da rigorosa composição cênica do diretor estava fundado na plenitude da retratação daquela situação. O que mais admiro nos seus trabalhos é um tratamento de estilo, a maneira como ele desnaturaliza os gestos mais cotidianos, excluindo a forma mais costumeira da retratação psicológica sem, no entanto, romper com os princípios comportamentais da realidade. É claro que assistimos à exumação do passado de Krapp, mas o mais importante parece ser a forma como ele articula como linguagem o que representa para o velhaco o retorno ao passado: como se fosse sempre a última respiração de um velho pulmão, prestes a não mais funcionar, o som metálico da banda sonora era como o afiar da foice antecipando a chegada da morte. Seria esse o verdadeiro realismo?
* Clóvis Massa é ator e professor do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

Ninguém falou que seria fácil por Jezebel de Carli

Talvez um dia difícil!*

Quando Marcelo Adams me perguntou se eu gostaria de escrever as minhas impressões sobre algum espetáculo do Em Cena, lembro que respondi sim, mas pedi a ele que fosse “algo” bacana, um trabalho a ver com minhas inquietações, vontades, estéticas e linguagens. Por que? Sempre acho delicado tecer considerações sobre o trabalho dos colegas e como não sou “crítica de teatro”, é sempre mais agradável falar de “algo” que provoca paixão, onde queremos estar ou que gostaríamos de realizar ou ainda, estando como espectadores, sermos provocados seja através do sensível, do humor, do sarcasmo do poético, enfim. Ok, disse Marcelo e me indicou o espetáculo Ninguém falou que seria fácil da companhia carioca Foguetes Maravilha, com direção de Alex Cassal e texto e co-direção de Felipe Rocha. Bárbaro, pensei, será tranquilo. Serei espectadora, as imagens e palavras ocuparão os espaços da memória e, como na edição anterior, ao escrever sobre O idiota, as impressões sairão escorrendo e deliciosamente as palavras preencherão os territórios devidos. Não aconteceu. Tenho dificuldade em escrever, pois tive extrema dificuldade de entrar no espetáculo. Bem, deixaram evidente no título: não será fácil!!!! Mas tinha tudo de que gosto, que droga, o que aconteceu!? Desconstrução, brincadeiras, teatralidade, humor, trocas de personagens, bons atores, certa improvisação, episódios autônomos que se entrelaçam, diálogos curtos, vazios a serem preenchidos pelo público, uma certa “anarquia, sujeira e contaminação”. Me pergunto, por que? Infelizmente não saberei precisamente responder, mas não fui capturada e não fui capturada como espectadora. Algumas questões se organizam. Talvez pelo tempo excessivo, onde já entendemos o jogo e os desdobramentos das figuras apresentadas, mas o demasiado, nesse caso, aborrece e nos leva para outros lugares e espaços e fugimos do instante proposto na cena. Talvez pelo excessivo estar à vontade dos atores e estes a forjarem, de certa maneira, o não estarem em cena, pois sim, é teatro e por mais que queiram me fazer crer no acontecimento como momento presente e improvisacional, é da ordem da ficção, articulado e detalhadamente organizado. Talvez a temática das relações familiares já esteja extremamente desgastada e só tenham sentido pra mim quando vem com a força de provocação, a acidez e o constrangimento de textos como de Nicky Silver (referência à dramaturgia apresentada nessa edição). Ou ainda porque quando se percebe que a trama está se resolvendo, há novos desdobramentos e se retoma a história da menina (Marina), agora adulta, perdida no início da peça e aí já estamos cansados de tantos jogos e inversões, recurso fartamente utilizado ao longo da narrativa. Também porque, o espetáculo, segundo críticas, foi concebido em espaço de arena, no qual, provavelmente, a relação de cumplicidade entre atores e público encharcaria a cena e a experiência de fato se potencializaria.
Passados alguns dias, encontrei um amigo que, ao comentar sobre o espetáculo, me disse que um dos atores havia afirmado que às vezes o espetáculo acontece e às vezes não e que no festival o melhor dia havia sido o segundo e “putz”, pensei eu, vi no terceiro dia. Enfim, sabemos nós, o quanto o teatro é escorregadio, líquido, mutável, frágil e que inúmeros aspectos interferem na performance. Um dia aconteceu, no outro foi péssimo, naquele foi demais, em outro foi técnico e por aí vai. Nota-se ao longo da encenação um esvaziamento de interesse do público, na medida em que os aplausos se fizeram comedidos e pouco entusiasmados, manifestação nada comum nos espetáculo do Em Cena, visto que, na sua grande maioria são ovacionados e aplaudidos entusiasticamente. Em determinado momento um dos atores afirma ao outro, referindo-se a nós, público, algo mais ou menos assim: "essas pessoas estão aqui para verem alguma coisa interessante". Infelizmente, a sensação ao sair do teatro é de que havia “algo” muito mais interessante e potente, mas que não havia acontecido ali, naquela noite com aquelas pessoas e em última instância, a mim não contaminou.
O Em Cena é bacana por isso: diversidade, exposição, subjetividades, divergência de opiniões, apaixonamentos, debates, dissonâncias, mas acima de tudo é maravilhoso, porque vamos ao teatro e vemos público em abundância. A esperança é que um dia, espero que não tão longe, caso contrário, não estarei aqui para presenciar, as temporadas locais também estejam com suas lotações esgotadas.
* Jezebel de Carli é professora, atriz e diretora de teatro

domingo, 25 de setembro de 2011

O padrinho, o coordenador, o blogueiro e a atriz

A brincadeira que o título deste post faz com o nome de um dos mais conhecidos filmes do cineasta inglês Peter Greenaway vem a propósito com esta 18ª edição do Porto Alegre em Cena. A foto acima foi clicada em Montevidéu, em fevereiro de 2011, na casa do padrinho do Em Cena deste ano, o jornalista uruguaio e crítico teatral Jorge Árias. Junto de Jorge (ou Papá, como é conhecido por aqui), estão Luciano Alabarse (como todos sabem, o Coordenador-geral do festival), este que vos escreve (Marcelo Adams, o responsável por este blog) e minha mulher, a atriz Margarida Leoni Peixoto. Todos os quatro envolvidos e engajados com o festival, seja como espectadores, seja como parte da equipe que, a cada ano, põe de pé este que é o maior festival de teatro do Brasil, e um dos maiores da América Latina. Em tempo: quem clicou esta foto foi Irene Bouzada, a esposa de Jorge Árias. Quem frequenta o festival já deve tê-la visto, com seu contagiante entusiasmo pelo teatro, acompanhando Jorge em dezenas (!) de espetáculos a cada edição do Porto Alegre em Cena.
O festival caminha para sua reta final, e a equipe liderada por Luciano já começa a produção do 19º Porto Alegre em Cena desde já. Que seja inesquecível como este que termina na próxima terça-feira, com o show Mônicas e a entrega dos Prêmios Braskem!

sábado, 24 de setembro de 2011

Bethânia e as palavras por Vera Mello

Infinito delírio chamado desejo (de educar)*

Justo na semana em que um menino de 10 anos leva uma arma de fogo para escola e atira em sua professora e na sequência se mata com um tiro na cabeça, chega a Porto Alegre Maria Bethânia com sua linda voz e nos acalanta com uma homenagem. Lembrando aos professores de todo o planeta: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente aprende”.
Eu, de uma geração em que esta mulher era hyppie e com talento virou ídolo. Gostando ou não do estilo, letra e música, reconheço que ela passou a ser uma referência, um clássico. Numa época em que o sertanejo universitário é destaque nas paradas embora tenha ouvido alguém lançar uma piadinha que eu particularmente acho engraçada: “Espero o dia que o sertanejo universitário se forme e se mande!” Me perguntei, saindo de casa ontem, para assistir o espetáculo: o que terá de inovador e o que me leva a essa cantora célebre, que já fez sua história? Eu não digo que me surpreendi com a plateia lotada, mesmo que não tenha encontrado ninguém das minhas relações. Fiquei com a impressão que aquele momento não tinha sido por acaso. Maria Bethânia se rebatizou Maricotinha e com longos cabelos brancos citou o irmão Caetano Veloso, seu contemporâneo de escola e compartilhou conosco época em que estudante de escola pública recebia com entusiasmo suas primeiras lições e aprendia pra sempre o prazer de brincar com as palavras. Voltando à tragédia que tanto nos entristeceu essa semana e contrapõe-se ao sucesso da noite de ontem. Estivemos ali com uma mensageira, resgatando valores essenciais do homem, através de cânticos imortais. Um momento de enorme cumplicidade entre artista e plateia. Tantos aplausos que em alguns momentos perdemos o começo de poesias. Não me pareceu tietagem mas, um encontro de almas que se reconhecem, uma declamação sem limite de idade, apenas um discurso bem dito. Digna de ser reverenciada e assim o foi. Humilde e elegante, recebendo as honras, ela confessou: o que quero da vida é a realizar meus sonhos. Teatro lindo, recepção articulada. Parabéns aos organizadores do Porto Alegre em Cena. Obrigada por nos proporcionar esse espetáculo que nos devolve o eixo. Ficou claro o papel de um artista na sociedade. Maria Bethânia é um clássico, aquele que perdura o tempo de toda a história da humanidade e não envelhece nunca.
* Vera Mello é professora de francês e arte-educadora

Well-wishing Binari por Álvaro RosaCosta

Dulsori...Sons da Natureza...e muito mais*
Realmente é difícil achar um título que traduza o que vivenciamos na noite de 22 de Setembro no teatro do SESI. Luz de serviço e sons vêm do fundo da plateia...2 homens e 3 mulheres!!!??? Pensei: Puxa!! Só isso!! Esperava uma orquestra!!
Primeiro engano.
Os cinco encaminham-se para o palco e continuam com variações rítmicas e coreográficas! Esqueça inicio meio e fim! A ansiedade pelas palmas é domada, embora seja notório a necessidade, quase doentia, de se achar um buraco para enfiá-las!! Impossível! Certamente não conduziremos o espetáculo...Basta ficar atento aos novos sons, que irão nos embalar por muito tempo.
De repente surgem os tambores, tocado às vezes por duplas! Num primeiro momento prejudicado pelo "sistema de som", logo, porém, sentimos no peito os golpes tão esperados! Tons diferentes, afinações e maravilhosas melodias! Para mim o momento mais impactante, foi o tema executado por duas musicistas sob uma luz violeta!! Uma fazendo a harmonia em um instrumento que Mateus Mapa descreve como sendo uma "harpa" (me pareceu um piano com menos cordas, sendo pinçadas pelos dedos) e a outra menina num instrumento, segundo Rene Goya, chamado "cheng" que assemelha-se a uma gaita de fole pequena e de um som encantador! Só por esta música já valeria a pena ter saído da cama (gripado) para me deslocar até o SESI! Em muitos momentos notamos uma certa preocupação com a participação do público, o que acho desnecessário, mas que se configura e resulta numa energia inacreditável no foyer do teatro ao final do espetáculo! Aliás, o que ocorreu na despedida do público mostra a força de uma cultura que realmente vem do modo de pensar e agir de um povo. Os músicos, incansáveis, ficaram por cerca de 20min tocando, dançando, comungando e se despedindo de cada um dos que ficaram com eles. Para nós ao final do espetáculo o sentimento era de aflição por não encontrarmos pessoas que deveriam, por vários motivos, estar na plateia deste show mágico e inesquecível!! Aos cinco intrumentistas ainda juntaram-se uma cantora e um artista que parecia ser o mais velho de todos e nos trouxe dois momentos de muita delicadeza, com gestuais e movimentos corporeos precisos.
Parabéns ao Poa em Cena por ter nos proporcionado este encontro e um agradecimento especial ao Marcelo Adams por ter me convidado para assistir este belíssimo espetáculo.
(As imagens abaixo foram captadas por Álvaro RosaCosta na apresentação do dia 22 de setembro, no Teatro do SESI em Porto Alegre)

* Álvaro RosaCosta é músico e ator

Pequeno inventário de impropriedades por Rodrigo Monteiro

Pequeno inventário de impropriedades*

A literatura contemporânea tem duas marcas que podem ser consideradas definitivas: a hipertextualidade e a polissemia. Pequeno inventário de impropriedades, texto escrito por Max Reinart, sob orientação de Roberto Alvim, durante a Oficina do Núcleo Regular de Dramaturgia do Paraná, em 2009, parece redescobrir a poesia modernista, com versos livres e estrutura solta, e, ao investir no traço polissêmico, acaba fornecendo um material bastante nobre para o teatro pós-dramático ou contemporâneo. Dirigido por Denise da Luz, o espetáculo resulta numa grata surpresa desse final de programação do 18º Porto Alegre em Cena. Reinart, em 45 minutos, leva a cabo o espetáculo de uma forma bastante rica em possibilidades, essa uma característica fundamental para o gênero na qual a produção se insere.
Chão vermelho. Uma cama ao fundo, uma cadeira à frente. O ator inicia o espetáculo a partir do texto. Há um personagem e o público é convidado a conhecê-lo de um jeito pouco esclarecedor: algumas pistas são dadas, mas não o suficiente para nos sentirmos confortáveis como estaríamos num bom e velho drama. Vale aqui a indecisão, a busca, a incerteza, o pântano. Reinart investe, como autor e como ator, em múltiplas possibilidades, fornecendo significantes com várias possibilidades de significados. Um pai de família afinal, um trabalhador, alguém comum que teve a sua vida modificada por um acontecimento fatal. Ou não? No fim do texto, o espectador segue livre para interpretar as coisas de outro jeito, embora todos nós tenhamos partido do mesmo ponto. Se as informações a respeito de suas relações familiares e profissionais fazem a percepção tomar uma direção, o tom de voz e o ritmo de pronúncia do discurso – irregular e, por vezes, gritado – permitem outras conclusões. Nesse caso, é difícil avaliar se o ator interpreta bem ou mal o personagem uma vez que a análise não consegue se decidir sobre qual personagem é esse. No entanto, no que diz respeito à interpretação, avalia-se a produção como cheia de bons valores.
Os elementos que fazem par com o ator na cena também são sinais que acrescentam positivamente ao resultado final de Pequeno inventário de impropriedades. No espetáculo, a luz, o cenário e a trilha sonora, no que diz respeito a sua significação, mas também ao modo como a peça se viabiliza, são aspectos em grande sintonia. Em outras palavras, o extremo cuidado com que cada detalhe se integra à narrativa salta aos olhos do público que se sente valorizado. As projeções, vício desse tipo de produção, aqui foi utilizada de forma rica, principalmente por haver, cenicamente, um objeto/parte do figurino (uma cabeça de cavalo) e uma ação (deitar na cama aos pés dos cavalos) que relacionam a imagem da tela com a imagem teatral. A possibilidade de comunicação entre todos esses elementos garante ao todo a qualidade que um festival como o Porto Alegre em Cena merece e, nesse convidado catarinense, tem.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

Os credores por Rodrigo Monteiro

Os credores*

Em um determinado momento, na fileira atrás de mim, observei dois espectadores dormindo. Na minha fila, mais dois. Na plateia da frente (a encenação se organiza em galeria, isto é, a audiência se organiza em dois lados com a cena acontecendo no meio. O espectador vê a cena, mas também vê, além dela, a outra plateia), três pessoas de olhos fechados deitadas sobre os próprios ombros ou sobre o corpo da pessoa ao lado. O espetáculo Os credores, cujo texto foi escrito pelo dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) em 1888, participante do 18º Porto Alegre em Cena, deixa a seguinte dúvida: por que as pessoas dormiram ou ficaram sonolentas na apresentação a que eu assisti? A hipótese de que Strindberg não diz nada para o público de hoje é refutável por qualquer um que entenda um pouco de arte. Logo, o tédio do espetáculo só tem um responsável: o Grupo TAPA, dirigido por Eduardo Tolentino. De que forma é possível atribuir-lhe a culpa, promovendo uma análise do objeto estético teatral em questão? Indo às fontes. Aqui algumas hipóteses.
Strindberg é considerado o pai do teatro expressionista, sendo algumas de suas obras lidas a partir do gênero realista naturalista e outras mais tardias via simbolismo. Os credores está bem no meio dessa encruzilhada. Seu cenário é realista, seus personagens são naturalistas, mas a situação, disposta na forma tragicômica, é expressionista. Algumas marcas importantes: três personagens se encontram no hotel: o ex, o atual marido e a esposa. O que pode parecer um simples vaudeville se torna retrato das relações humanas que, talvez, só o bom teatro realista pode fornecer. Na abertura, o atual marido, Adolf, não sabe que Gustav é o ex de Tekla, sua esposa. Na sequência, Tekla não sabe que Gustav está no quarto ao lado ouvindo a conversa entre ela e o marido. No final, Tekla não sabe que Adolf está no quarto ao lado ouvindo a conversa entre ela e o ex-marido. Nos dois últimos pequenos atos, há uma peça dentro da peça e o mais importante desse jogo é que a parte principal, Tekla, desconhece isso. Esse, na verdade, é um recado da obra aos futuros realizadores: no teatro realista, a quarta parede precisa ser mantida. O expressionismo está na situação e não na realização.
Eduardo Tolentino, quando adapta Os credores para uma situação de galeria e organiza os atores para que eles, em vários momentos, busquem no público um certo contato visual, inibe qualquer chance de catarse, diminui as forças do texto, deixa a situação por demais previsível e, assim, muito entediante. O português extremamente correto dos personagens não foi adaptado para a nova situação. O figurino permanece bastante realista também. A situação de prisão vivida pelos personagens é marca naturalista mantida igualmente. O problema está no jogo entre os personagens e na relação com o público, esses sinais de que estamos diante de um novo ponto de vista sobre a obra.
Sergio Mastropasqua interpreta Gustavo, o ex-marido. Dos três atores, é quem sustenta a construção menos interessante justamente porque é quem mais joga (ou tenta jogar) com o público. Suas falas são ditas de forma irônica em várias ocasiões, a retórica se apresenta com pouca variação de tom, os gestos são enrijecidos, marcados, negativamente “teatrais”, nada naturais e, por tudo isso, bastante inverossímeis. O ator se movimenta no palco de forma muito precisa deixando ainda mais falsa sua performance. José Roberto Jardim (Adolf, o atual marido) e Sandra Corveloni (Tekla, a esposa), aparentemente mais concentrados no interior das quatro paredes, têm melhores resultados, embora sustentem marcas rígidas e pausas pouco críveis, sinais de que todos esses elementos concretizam uma concepção da direção. Bastante rica é a participação de Conrado Sardinha. Sem nenhuma fala e com atos a princípio bastante inexpressivos, o ator eleva a qualidade da peça nas poucas oportunidades que tem: seus olhares manifestam um personagem real, seu movimento tende ao natural e o modo como ele olha as cenas não traz nenhum registro de que estamos ali a observar-lhe.
Novos pontos de vista sobre obras são bem vindos sempre que estruturados em todos ou em vários aspectos necessários a sua viabilização. O contrário disso é desequilíbrio e insucesso. Nesse caso, monotonia.
* Rodrigo Monteiro é crítico teatral

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ella por Aline Castaman

Linear intensidade*

Ao toque da campainha, o apagar das luzes, o silêncio. Expectativas que desejam não mais serem expectativas. Portanto, realizações, êxito. A arte do efêmero dedica-se ao entusiasmo, ao brilho no olho, ao jogo, a um acontecimento. O espetáculo uruguayo Ella traz a história de dois homens que não coincidentemente encontram-se numa sauna e travam diálogos e discussões sobre a mulher com a qual possuem um relacionamento. Ao longo da peça vamos descobrindo um pouco mais sobre essa personagem cuja presença é reconhecida e manifestada pelas descrições traçadas pelos amantes. A intensidade supostamente esperada para que o acontecimento teatral se realize não é bem sucedida. Não pude ignorar o fato dos experientes atores por vezes me encantarem com diálogos vivos e enérgicos os quais realmente me seduziram a ponto de me envolver completamente no universo das personagens. Mas estes instantes, eram instantes. Pela falta de resoluções mais criativas ou interessantes, as ações previsíveis se repetiam despropositadamente entediando por diversas vezes. Gesticulações vazias que se prendiam no exagero. Uma trilha sonora que não contribui para as cenas. Ao contrário, perturba. Um texto transposto que me faz perguntar o porquê de escolhas literais e pouco surpreendentes. E o teatral? A zona de risco? Por mais interessante que fosse ouvi-los, suas vozes agradáveis e a língua marcante por sua beleza em si, era desanimador dar-se conta de assistir algo que parecia estar sendo feito sem ardor. Remetia ao confortável e ao esperado. Quando afirmo “ao confortável e ao esperado” me dirijo ao fato dos atores anteciparem os momentos, momentos que acabam passando sem serem propriamente desenvolvidos. Ações que eram apenas esboçadas e que por fim não se concretizavam. Ações que apenas se ensaiavam e não se transformavam de uma coisa a outra criando ou gerando finalizações no mínimo admiráveis. Repetições insatisfatórias. Ações que claramente não possuíam intenções. Linear. Uma ode à não surpresa. No entanto, seria um tanto descortês e insensível não pontuar os momentos felizes que o ator Sergio Pereira sustenta, ilumina e proporciona ao espetáculo. Sua performance é encantadora quando realmente absorto pelo aqui e agora do teatro. Foi o brilho no olho dele que me fez acreditar estar assistindo Teatro. Um ator generoso que se esforça para driblar o óbvio, porém, solitário. A ausência de cumplicidade é desconcertadamente revertida em risadas nervosas que se repetem incansavelmente pelo ator Álvaro Pozzolo. Percebo o desamparo de Sergio Pereira. Enfim, uma dramaturgia descomplicada e desajustada pelos pontos finais de uma direção deveras frágil. Talvez tenha havido um encontro ou encontros, instantes, momentos, mas o acontecimento teatral, aquele, não se sucedeu por lá...
* Aline Castaman é diretora teatral