sábado, 18 de setembro de 2010

Rodrigo Monteiro #13: O idiota



A diferença significa

A diferença essencial entre um conto e um romance é o tamanho. E o tamanho, que pertence à forma, encontra uma justificativa no conteúdo. É preciso que o leitor se demore com os personagens, com a história. Há romances pesados em que a narrativa é ligeira e Harry Potter (J. K. Rowling) e O código Da Vinci (Dan Brown) são casos que todos conhecem. Não é disso que estamos falando: nesses dois exemplos, há uma quantidade grande de acontecimentos e ações que, encadeadas, levam a um ponto de desfecho. Aqui, o assunto é um outro tipo de romance. Um em que os acontecimentos são alargados, as descrições são detalhadas, o ritmo é pausado. No século XVIII e XIX, quando esse gênero ganhou corpo e importância até então não vista, os romances preenchiam as tardes de uma burguesia crescente que ainda não tinha rádio e televisão com que se ocupar. É o nascente da classe média atual, nem pobres, nem ricos, mas que sabiam ler e tocar piano, e se cansavam com a literatura clássica e neoclássica, bem como com a música medieval e barroca. Nascem o romantismo e, depois, o realismo, gênero último de que Dostoievski é considerado um dos pais.

A diferença essencial entre Dostoievski e Machado de Assis, cujo Dom Casmurro (quase) todos tiveram que ler na véspera do vestibular, é o tamanho. Com poucas décadas de diferença em seus lançamentos, os dois autores constroem o mesmo tipo de texto, mas o brasileiro não tem o fôlego do russo e, por isso, não consegue construir um texto daquele tamanho. O russo, por sua vez, não consegue, num conto, atingir a profundidade de que o brasileiro é mestre. Entretanto, entre os dois, a proposta é a mesma: construir uma narrativa escrita que reaja contrariamente ao idealismo romântico, que traga luz às escuridões humanas, que trate da hipocrisia burguesa e que responda ao ser humano diante da sua condição social e psicológica. O idiota é um dos romances de Dostoievski em que um jovem epilético retorna a São Petesburgo depois de anos longe em função de sua saúde. Ele busca os pedaços de suas relações familiares e sociais, que se desfizeram com a morte de seus pais e a sua própria ausência, trazendo consigo a extrema bondade e a perfeição moral. É quase uma visita de Peri (O guarani, José de Alencar) a Bentinho (Dom Casmurro, Machado de Assis). Míchkin traz luz à escuridão e, por mais forte que seja o breu, ele se torna penumbra e morre diante da lamparina acesa.

Os bons valores do Príncipe são tidos como maus pelos maus valores dos que ele encontra. Em cena, no palco do 17º Porto Alegre em Cena, o Grupo Meno Fortas, dirigido por Eimuntas Nekrosius, apresenta atualizado para o teatro, a discussão acerca dos valores trazida no século XIX russo. E apresenta bem no que diz respeito a sua forma e ao seu conteúdo.

Vamos à forma: os diálogos são cortados até ficarem a sua essência. Dela surgirão as pontecialidades cênicas: ou atos de fala, que gerarão ações internas ou externas a quem fala e a quem ouve; ou a construção de imagens, que vão dizer a respeito de lugar, de tempo ou de forma. Os figurinos são sóbrios e tendem a desaparecer, o que deixa lugar para livre para outros aspectos como a luz, viva, presente, potente. O cenário é pesado e poluente: há um excesso de berços a encher a cena, em oposição à porta, à mesa e ao piano que são essenciais ao que acontece. Os berços preenchem o espaço de outros aspectos que ficam, assim, prejudicados: o movimento dos atores é um deles.

Nekrosius é um homem de teatro e, assim como o homem de literatura usa e abusa das palavras e da gramática, ele constrói o seu texto através dos signos teatrais. E a diferença essencial entre um signo verbal e um signo teatral é a arbitrariedade do primeiro. A palavra bola não se parece com uma bola. A foto de uma bola ou o seu desenho, ou dois atores simulando um jogo de bola sem bola, faz ver uma bola ou algo que se pareça com uma. A distância existente entre o signo verbal e o seu referente (que também é outro signo e nunca o objeto real no mundo) faz com que as possibilidades de interpretação sejam mais reduzidas, o que é um paradoxo. Em outras palavras, justamente porque o som da palavra bola e as quatro letras (b-o-l-a) são distantes da bola é que quando a dizemos ou a escrevemos, a imagem de uma bola venha antes. Depois dela, poderão vir um garoto gordo chamado Bola, o planeta Terra e sentidos outros. Mas o primeiro que surge é bola. O signo teatral, icônico e indicial, por ser próximo do referente, sugere mais facilmente outros sentidos. Vou dar um exemplo: há uma cena em que uma personagem vai até outra e, penteando seu cabelo, com a ajuda de outra, enfaixa a cabeça da primeira e desenrola, junto aos fios, linhas brancas que vão sendo cortadas. Linhas brancas sendo desenroladas na cabeça de uma mulher de cabelos lisos não têm relação direta com linhas brancas sendo desenroladas na cabeça de uma mulher de cabelos lisos, o que seria o sentido primeiro. O espectador vai logo para sentidos outros. E quais são eles? Para mim, vi a moça envelhecer, amadurecer, ficar com os cabelos brancos. Para outra pessoa, as linhas brancas e a faixa eram o véu e a grinalda de um casamento. Para outra pessoa ainda, a loucura, a insanidade da moça estava sendo representada ali. E, se pesquisarmos, vamos descobrir ainda mais leituras diferentes. Nisso consiste um uso contemporâneo dos signos teatrais: a exploração rica das potencialidades semânticas de cada elemento cênico. No exemplo citado, nenhuma das leituras é desqualificada e todas acrescentam. O idiota, na versão teatral a que assistimos, é um prato cheio para dezenas de leituras como a que apresentei a partir de um só detalhe. E as quase seis horas de sua duração têm relação direta com o tempo necessário (e previsto) para a convivência com os personagens e sua percepção.

Quanto ao conteúdo, quero relatar uma situação. No palco, acontecia a discussão sobre valores. Na plateia, também. Atrás de mim, o celular de uma senhora tocou tirando completamente a minha atenção e a de todos. Antes do constrangimento ser superado, novamente, o celular da mesma senhora tocou momentos depois. Perguntei-lhe se ela não sabia desligar o seu aparelho telefônico (porque acredito na bondade humana e sei que nem todos estão familiarizados com seus próprios celulares). Em seguida, um saco de plástico foi aberto para servir a sua dona, a mesma senhora, algumas balas. No intervalo, irritado, disse a quem estava ao meu lado que as pessoas só iam aprender a desligar o celular quando a lei fosse cumprida e as multas previstas para isso fossem aplicadas. Resultado: entre a senhora e suas, também barulhentas, amigas, virei piada pelo resto da noite. Noite essa que, para vergonha dos gaúchos, foi recheada de telefones tocando, portas batendo, tosses e pacotes de bala sendo abertos. A hipocrisia burguesa do século XIX ainda existe e o conteúdo de Dostoievski, tratado no século XXI por Nekrosius ainda é atual e necessário.

E a produção, como um todo, foi muito bem-vinda!


*Rodrigo Monteiro: Licenciado em Letras - Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.Bacharel em Comunicação Social - Habilitação Realização Audiovisual pela mesma universidade. E mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jurado do Troféu Açorianos de Teatro 2010 e, também, do Troféu Braskem 2010, é autor do blog www.teatropoa.blogspot.com de Crítica Teatral de Porto Alegre

3 comentários:

Anônimo disse...

Rodrigo, aqui é a Beth Néspoli (não consegui colocar identificação direito)olha só que curioso!! Eu vi naqueles fios sendo colocados, esticados e cortados - separados da cabeça de Nastássia - por aquelas três outras mulheres como os fios do destino. Para mim elas eram parcas que queriam abreviar o destino de Nastássia, pela qual sentiam um misto de desprezo e inveja. Veja só como você tem razão, são muitas as possibilidades de leitura. Quanto ao celular daquela senhora (eu estava ao seu lado), ela realmente agiu de uma forma nada bacana. De jeito que reagiu, parecia achar que você estava errado em pedir para ela silenciar o celular, ou seja, "o idiota" era você por querer o mínimo de respeito mútuo, regras mínimas de convivência num espaço público. Não estou aqui me contradizendo. Elogiei o público daquela noite porque ele mereceu e essa senhora me pareceu exceção. Infelizmente estava próxima o suficiente para incomodar.
Beth Néspoli

Juçara Gaspar disse...

Concordo Beth. Também me remeteu às três Parcas, cortando o fio da vida daquela mortal. Senti uma aflição naquela hora. Essa coisa à qual o Dostoiévski nos atira, uma densidade ansiosa.
Um belo momento de sinergia de um autor e um diretor, sem dúvida alguma. Vi a literatura do Dostoiévski o tempo inteiro, na luz sem cor alguma, nas penumbras, no figurino sempre cinza - A Rússia! E as mulheres do Dosta? Me lembrei logo da Grushenka dos Karamazov, naquele misto de petulância, vaidade. Tudo aquilo tá na minha memória como se eu pudesse tocar..,e assim ficará por muito tempo.

Anônimo disse...

Oi, aqui Juliana Costa. Também ví as três parcas e os fios do destino e também fiquei indignada com as manifestção da platéia neste ano. Não apenas neste dia referido mas em todos os espetáculos que fui eram tosses nervosas, pacotes abrindo, gente levantando para ir embora. Morro de vergonha como se estivesse tratando mal a um convidado dentro de minha casa!

Abraços a todos,
Ju