quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bob Bahlis #6: Eduardo Bueno, o Peninha


Cena 4: Eduardo Bueno (Peninha) é o entrevistado da vez

O Porto Alegre em Cena está “bombando”.

Bob- Qual a melhor peça a que já assistiu na vida, que mais lhe marcou?
Peninha- TIVE A BENÇÃO DE VIAJAR PELO MUNDO CIVILIZADO E VER VÁRIAS PEÇAS EM NOVA YORK, LONDRES, PARIS E MADRID. MAS, POR UMA SÉRIE DE CIRCUNSTÃNCIAS PESSOAIS, A PEÇA QUE MAIS ME MARCOU ACABOU SENDO FOOL FOR LOVE, DE SAM SHEPARD, A QUE ASSISTI, COM A PRESENÇA DO PROPRIO, NO TEATRO LA MAMA, EM NOVA YORK, POIS, AFINAL, ALÉM DE TER CONHECIDO SHEPARD PESSOALMENTE NAQUELA NOITE E IDO NO LENDÁRIO LA MAMA, SOU TAMBÉM, JUNTO COM A BETTINA BECKER, O TRADUTOR DESSE TEXTO, PARA O PORTUGUÊS, PUBLICADO NO BRASIL PELA L&PM. NO ENTANTO, PARA MIM, EMBORA APARENTEMENTE MENOS ÉPICA, TAMBÉM FOI INESQUECÍVEL A OCASIÃO EM QUE VI MOCKINPOTT, NA MONTAGEM CLÁSSICA DO PESSOAL DO TEATRO DE ARENA, DIRIGIDA PELO ESPANHOL JOSÉ LUIZ GÓMES, NO TEATRINHO ALI DO VIADUTO DA BORGES. FOI EM 1975, EU TINHA 17 ANOS INCOMPLETOS E FOI, SIMPLESMENTE, A PRIMEIRA VEZ QUE FUI AO TEATRO QUE NÃO FOSSE PARA VER UMA PEÇA IN FANTIL... JAMAIS ESQUECEREI.

Bob- Costuma ir ao teatro com frequencia? De quanto em quanto tempo?
Peninha- CARA, INFELIZMENTE, SEM SER NO PORTO ALEGRE EM CENA, RARAMENTE VOU AO TEATRO. PRIMEIRO, PORQUE TRABALHO DEMAIS E NEM PARA O CINEMA TENHO MUITO TEMPO. SEGUNDO, PORQUE, PRECONCEITO OU NÃO, NÃO TENHO O MENOR SACO PARA PEÇAS DE ATORES DA GLOBO, TIPO TEATRÃO E COM CHEIRO DE CAÇA-NÍQUEL E COM A PLATEIA USANDO PERFUME E LAQUÊ. TERCEIRO, PORQUE ANDO UM TANTO DESLIGADO E NÃO TENHO SABIDO DE NADA QUE ME PAREÇA REALMENTE BOM. QUARTO, PORQUE TENHO VIAJADO POUCO PARA O EXTERIOR E DEPOIS DE TER VISTO VÁRIAS PEÇAS EM LONDRES, PODE QUERER ME BATER E ME ACHAR UM ESNOBE NOJENTO, MAS A VERDADE É QUE FICA DIFICIL Vê-LAS FALADAS EM TUPI. QUER DIZER, EM TUPI EU ATÉ VERIA - MAS EM "BRASILEIRO", PARA MIM, É MEIO COMPLICADO...

Bob- Quais as peças a que assistiu no Em Cena deste ano até agora? Em poucas palavras, o que achou delas?
Peninha- AH, NÃO. SE FOR EM POUCAS PALAVRAS, NÃO VOU DIZER NADA. NA VERDADE, ATÉ PARA NÃO DIZER NADA PRECISO DE MUITAS PALAVRAS. ENTÃO, COMO TEM QUE SER COM POUCAS PALAVRAS, NÃO VOU FICAR GASTANDO PALAVRAS PARA NÃO DIZER NADA... TÁ BOM, TÁ BOM. SÓ VI DUAS ATÉ AGORA. HAPPY DAYS, NA MONTAGEM DO BOB WILSON, QUE ADOREI, E TOBARI, DO GRUPO JAPONÊS DE BUTÔ SANKAI JUKU, QUE TAMBÉM ME LEVOU ÀS ALTURAS ESTRELARES. DIZEM QUE TEM GENTE QUE ACHOU A MONTAGEM DO BOB WILSON, BASEADA NUM TEXTO DE BECKETT, "CHATA". MAS PARECE QUE OS DOIS - TANTO O BOB QUANTO O SAMUEL - AO OUVIREM O COMENTÁRIO, DISSERAM: "NÃO ADIANTA FICAR PUXANDO NOSSO SACO... NÃO ESTAMOS NEM AÍ PARA OS ELOGIOS..."

Bob- Já pensou em escrever para o teatro?
Peninha- SIM, SIM, SIM. MUITO. E SEMPRE QUE VOU AO TEATRO, CHEGO A TER DIFICULDADE EM ME CONCENTRAR NA PEÇA DE TANTO QUE FICO PENSANDO NAQUELA QUE, ALGUM DIA, AINDA VOU ESCREVER. NÃO SEI BEM O QUÊ, NEM QUANDO, MAS GARANTO QUE VOU. É UMA AMEAÇA! PODE LEVAR A SÉRIO.

Bob- Já pensou em fazer teatro?
Peninha- NÃO.

Bob- É verdade que você foi amigo do pessoal do "Asdrúbal trouxe o trombobe" e que eles criaram um personagem em sua homenagem? Como foi isso?
Peninha- SIM. FIQUEI MUITISSIMO AMIGO DELES DEPOIS DE TER ASSISTIDO À ESTREIA DE TRATE-ME LEÃO NO (TERRIVELMENTE FINADO) TEATRO PRESIDENTE, UM LUGAR MARAVILHOSO, NO DIA 7 DE SETEMBRO DE 1977 - PODE CONFERIR A DATA, QUE FOI ESSA MESMA. PIREI NA PEÇA, DA QUAL JÁ TINHA OUVIDO FALAR QUANDO ESTAVA EM CARTAZ, MESES ANTES, NO RIO, MAS QUE EU NÃO TINHA PODIA IR. QUANDO A APRESENTAÇÃO TERMINOU, PENSEI: "ESSES CARAS PRECISAM DE UM CICERONE EM PORTO ALEGRE. VOU SER EU MESMO". ENTÃO, FIQUEI NA PORTA DO TEATRO ESPERANDO ELES SAIREM. O PEDRINHO SANTOS PENSOU A MESMA COISA E TAMBÉM FICOU. DAÍ NOS GRUDAMOS NELES E SAIMOS PELO INTERIOR DO RIO GRANDE DO SUL E DEPOIS PRA SANTA CATARINA, ONDE ELES FORAM PRESOS - MAS EU ESCAPEI... FICAMOS MESMO MUITOS AMIGOS E MANTENHO A AMIZADE ATÉ HOJE, MENOS COM A REGINA CASÉ, QUE, DE UMA HORA PARA OUTRA, TIROU A MÁSCARA.... MAS ME DOU BEM COM O EVANDRO E COM O HAMILTON E SOU BEM AMIGO DA PATRICIA TRAVASSOS. DEPOIS DAQUELAS AVENTURAS, O PEDRINHO VIROU MEMBRO DO GRUPO E, NA PEÇA SEGUINTE, CUJO NOME AGORA ESQUECI, ELES CRIARAM UM PERSONAGEM, UM TAL "NENECA" - QUE, ALIÁS, ERA COMO ELES ME CHAMAVAM - BASEADO - E BOTA BASEADO NISSO, BASEADÍSSIMO EU DIRIA – EM MIM. NÃO ME FALARAM NADA, MAS ME CONVIDARAM PARA A ES´TREIA DA PEÇA NO RIO. FUI. E ME VI NO PALCO. MAS ERA UM CARA HISTRIÔNICO, MALUCO, VERBORRÁGICO, QUE FALAVA SEM PARAR, TODO ATRAPALHADO, EXAGERADO E DOIDÃO. PORTANTO, NÃO TINHA NADA A VER COMIGO...

Bob- Por que as pessoas falam "merda" para desejar sorte antes da peça começar?
Peninha- IH, HISTÓRIA LONGA. SÓ CONTO SE FOR PAGO PARA ISSO. ALIÁS, SÓ ESCREVO SE ME PAGAM. TEATRO, INCLUSIVE. MAS ACEITO VALE-TRANSPORTE E TICKET-REFEIÇÃO...

Bob- Uma palavra pra definir o POA EM CENA.
Peninha- ESTÁTUA. PARA QUE NÃO FIQUE MUITO CRÍPTICO, EXPLICO: ESTÁTUA DE BRONZE EM PRAÇA PÚBLICA PARA O LUCIANO ALARBASE QUE, MESMO VIVENDO NESSE FIM DE MUNDO, É CAPAZ DE, HÁ ANOS, ORGANIZAR UM FESTIVAL TÃO MARAVILHOSO COMO ESSE E AINDA ANDAR PELA RUA COMO SE FOSSE UM CARA NORMAL. SE EU TIVESSE FEITO A METADE DO QUE ELE FEZ, EU MESMO ERGUERIA UMA ESTÁTUA PARA MIM PRÓPRIO...

Sobre o papo da “merda”, que ficou sem resposta, também estou nessa. Adoro ticket-refeição. Hehehehhe...

Desculpe aí a minha dislexia. Beijos, Bob Bahlis


*Bob Balis (40 anos) é diretor de teatro e dramaturgo. Dirigiu os espetáculos "Stand Up Drama", "Dez(quase)Amores" , "Filhote de cruz credo", "Tem Quintana na Casa", "Homens", entre outros. Em novembro, estreia a comédia adulta Morgue (texto e direção). Em 2011, pretende montar a peça "O dia mais quente do ano" (texto e direção). É professor de teatro da escola Cômica Cultural.

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